Notas iniciais
espero que gostem desse capítulo ♥

As provas estavam deixando Samuel de cabelo em pé.

Ele se encontrava em seu terceiro semestre do curso de Administração e faltava mais cinco semestres para se formar. Se com dois anos já ficava fora da caixinha em tempos de provas, no último ano, o rapaz acreditava que perderia a sanidade.

Estava sentado à mesa de estudos do seu quarto, notebook aberto em um artigo no formato de PDF que precisava ler, caderno aberto para fazer anotações. Mas claramente seu olhar denunciava que seus pensamentos estavam longe do conteúdo do curso.

Samuel soltou um suspiro cansado e se levantou da cadeira de sua escrivaninha, caminhando até a sua estante e pegando o único livro que poderia acalmar sua mente naquele instante. O livro de poemas “Meu Sol do Oriente”.

Deitou-se em sua cama, apoiando suas costas em seu travesseiro, e começou a ler. Aquelas palavras, aquelas rimas, traziam paz a Samuel de uma forma mágica. O livro foi dedicado ao grande amor da vida do autor, uma imigrante japonesa que trabalhou na fazenda da família do rapaz.

Aqueles poemas tinham a energia do amor que o autor sentia pela sua amada perdida. As palavras ali deixadas imaculadas pelo tempo batiam tão fundo no coração do rapaz, que, todas as vezes em que o mesmo lia, acabava chorando em algum momento, mas não por razões ruins. Aquele choro parecia fazer a mente do jovem ser limpa e organizada.

Podia sentir o vento fresco da fazenda onde alguns poemas se passavam, a sombra da árvore em que o autor passava as tardes com sua amada, os beijos dele em sua boca… Os abraços. Uma experiência grande, que ele não entendia.

Sua mente ficou tão dispersa, que o jovem adormeceu em sua cama, o livro de poemas repousado sobre seu peitoral.

A mente de Samuel viajou para longe, talvez para um momento do seu passado do qual ele não lembrava. Via-se correndo em um campo aberto, rindo e se enchendo de uma imensa felicidade e liberdade. Em um dado momento, sentiu alguém lhe segurar. Pelo cheiro familiar, sabia que se tratava de um homem, mas não lembrava quem era. Os dois caíram no chão, rolaram pela grama e continuaram rindo. Essa alegria toda foi embora no momento em que Samuel olhou para sua frente. No horizonte, via um homem se aproximando. Ele tinha um rosto oriental e utilizava vestimentas antigas, trazendo uma expressão séria, dura. A imagem desse sujeito fez seu corpo estremecer, seu coração bater mais rápido de desespero e até sentir a sua marca de nascença doer novamente.

Então o jovem universitário acordou em sua cama, derrubando o livro de poesias no chão por causa do movimento brusco que realizou ao despertar repentinamente. Sua testa suada grudava seus fios de cabelos na pele, respirava com dificuldade e recuperava o ritmo normal aos poucos.

— Esse sonho é novo — sussurrou para si mesmo.

Foi para cozinha, sem ligar as luzes da casa para não chamar a atenção dos seus familiares. Lá, bebeu um copo d’água enquanto raciocinava sobre o novo sonho. Lembrava-se de pouca coisa do que foi visto, mas ainda tinha na memória a expressão do japonês que lhe causou medo até na espinha. Por alguns momentos, pensou que sua avó poderia estar certa, seus sonhos podiam ter um significado maior, lembranças de uma outra vida, mas essa ideia durou até o momento em que seu ceticismo voltou a dominar seu cérebro.

Jogou o que sobrou da água que bebia na pia, passou uma água no copo e o guardou no armário novamente. Voltou então para seu quarto, onde vestiu uma roupa mais confortável para dormir. Quando pegou seu celular de cima da mesa de estudos, percebeu que eram quatro horas da manhã. Tinha mais algumas horas de sono antes de acordar novamente e se arrumar para a universidade. Esperava que não tivesse outro sonho esquisito daqueles.

Chegou, naquela manhã, antes dos seus amigos no campus da Universidade Barreto, pois Samuel pegou carona com Akira.

Seu pai lhe deixou na entrada da parte principal da instituição e depois, como sempre fazia quando trazia o filho consigo, fez a volta para usar a entrada de funcionários. Samuel se encontrava sentado a uma das mesas de metal da praça do lugar, lendo um livro do seu curso, a matéria que não havia conseguido estudar direito na noite anterior.

Deixou de prestar atenção no conteúdo apenas quando viu Fernando se sentando à sua frente. O rapaz negro deixou sua mochila em cima da mesa, ao lado da mochila do sino-brasileiro.

— Bom dia, cara — disse Fernando. — Estudando? — Apontou para o livro.

— Revisando mesmo… — respondeu Samuel. Em, seguida fechou o que lia e perguntou: — E a Eduarda?

— Ah, eu acho que ela não vem, não, cara — respondeu Fernando, abrindo sua mochila e em seguida retirando dela uma garrafa de água.

— Por que não? — Samuel arqueou uma de suas sobrancelhas ao fazer o questionamento, ficando curioso e preocupado. — Aconteceu alguma coisa?

Antes de responder, o estudante de cabelo afro bebeu um gole de água.

— Parece que ela e o Renato brigaram, tá ligado? — respondeu Fernando enquanto guardava a garrafa em sua mochila.

— Mas já? — questionou Samuel, agora surpreso. O rapaz colocou uma parte dos seus cabelos escuros atrás da orelha, pensativo sobre o assunto, e sua expressão facial desenhava sua preocupação com a amiga. — Ela tá bem? Ela te disse isso? Se ela te disse isso, sabe o motivo de eles terem brigado, né?

— Quantas perguntas. Nossa… Mas não sei dizer, ela me disse meio por cima o motivo de eles terem discutido — respondeu Fernando. — Sabe como é a Eduarda, ela sempre briga com o Renato quando acha que as coisas entre eles tá ficando séria demais. A garota não aguenta uma relação séria, essa é a nossa amiga.

Samuel não disse nada, mas escutou o que o amigo disse. Continuou preocupado com Eduarda, queria saber como ela estava naquele momento, e por isso enviou uma mensagem privada a ela no WhatsApp, mas apareceu apenas um risquinho, o que queria dizer que ela estava sem internet ou que desligara o celular.

— Eu não entendo o porquê de ela fazer isso, sabe — disse Samuel, deixando seu smartphone sobre a mesa de metal.

— É como eu disse, a Eduarda faz isso quando a coisa com o Renato tá ficando séria. Não é a primeira vez que ela briga com ele assim, mas a terceira? — Fernando perguntou retoricamente, por isso não esperava uma resposta do outro.

— Por isso mesmo que eu me preocupo com ela, ela precisa de um profissional, Fernando… — comentou Samuel em um tom de preocupação. — Nem sempre a gente pode ajudar a Eduarda. Nesses casos, seria bom um psicólogo.

— Mas a Eduarda é teimosa. Ela não vai por vontade própria — respondeu o rapaz negro colocando uma espécie de ponto final naquele tópico.

O nipo-brasileiro deu de ombros, concordando no final, mas rapidamente ele teve uma ideia e, então, sorriu para o amigo.

Fernando olhou para Samuel, estranhando aquele sorriso que dizia por si só que havia tido uma ideia em relação ao assunto que eles estavam tratando.

— Hoje, depois da aula, vamos passar no apartamento da Eduarda para conversarmos com ela. Você topa? — perguntou Samuel, animado.

Antes de responder, Fernando suspirou aliviado.

— Achei que tivesse pensando em uma ideia mais complicada. Que bom que não. Claro que nós vamos, vamos ajudar ela sim! — Sorriu depois de terminar sua frase.

A manhã de aulas correu normalmente, Samuel tentou se concentrar nos conteúdos que eram apresentados, entretanto, sua mente conseguia focar apenas em pensar no que acontecera com sua amiga, se Eduarda estava bem e o que, dessa vez, levou ela a terminar seu namoro com Renato pela terceira vez naquele ano. Por causa da sua falta de foco, as aulas passaram para o rapaz como torturas em que o tempo corria sem se preocupar com sua pressa, e isso o deixava com a ansiedade aflorada. Conseguiu respirar somente após ele e Fernando colocaram seus pés para fora do campus.

Eduarda vivia um pouco longe do instituto. Longe o suficiente para que Fernando e Samuel pegassem dois ônibus e tivessem que caminhar um bom trajeto até o prédio do apartamento da jovem mulher.

— Por que a gente não pegou um táxi? — reclamava Fernando por todo o caminho.

Eduarda vivia em um edifício residencial relativamente novo, não devia ter mais do que vinte anos da sua construção e já havia sido revitalizado com tecnologias novas de segurança. A jovem morava no terceiro andar, mas, como não existia elevador ali, Samuel e Fernando subiram a única escadaria do prédio até o terceiro andar e bateram à porta do lar da amiga.

Esperaram por alguns minutos e ninguém respondeu.

Samuel bateu mais uma vez na porta.

Quando não houve nenhuma resposta novamente, Fernando perdeu sua paciência e bateu com mais força.

— É assim que se faz — disse Fernando para Samuel, que apenas sorriu em resposta ao amigo.

Poucos segundos depois, Eduarda abriu a porta do seu apartamento e os rapazes encontraram a amiga vestindo um casaco moletom velho com um short e pantufas. A expressão no rosto dela era de alguém que estava acordada desde a Renascença, seu cabelo desarrumado estava preso em um coque alto que dava um charme diferenciado ao conjunto.

— Você tomou banho hoje? — perguntou Samuel quando sentiu um cheiro diferente. Rapidamente, Fernando lhe acertou levemente uma cotovelada nas costelas. — Ai! Nossa!

— O que vocês querem aqui? — perguntou a morena encarando os amigos com o olhar apático mais genuíno de todos.

— Você não foi na faculdade — começou Samuel —, daí, quando o Fernando disse que o Renato e você terminaram… de novo… eu fiquei preocupado.

— Terceira vez nesse ano. Até o final do ano, tem chances de somar mais dez — disse Fernando mostrando a numeração com seus dedos.

— Cala sua boca, Fernando.

Então Eduarda deixou a porta aberta e se virou de costas para os amigos, caminhando para dentro do seu apartamento. Os dois rapazes ficaram sem jeito, mas, ainda assim, entraram no lugar. Os três se reuniram no único sofá da sala de estar com uma decoração minimalista, mas que na verdade era porque Eduarda ainda não havia tido todo o tempo e dinheiro que gostaria para fazer uma decoração mais elaborada.

Eduarda passou suas mãos nos cabelos, puxando os mesmos. O rabicó que antes prendia o coque agora se encontrava em seu pulso. Conforme foi juntando os fios e formando um rabo-de-cavalo, ela conseguiu deixá-los presos outra vez quando puxou o acessório para cima, esticando e moldando ao redor do seu cabelo.

— Por que vocês terminaram? — perguntou Samuel lhe lançando um olhar murcho, seus lábios apertados e sua testa levemente franzida por causa de suas sobrancelhas um pouco curvadas.

— Eu terminei com ele — respondeu Eduarda.

Samuel suspirou e reformulou sua pergunta:

— Por que você terminou com ele?

— Não sei — respondeu a mulher dando de ombros. — É o de sempre. Às vezes, eu me canso do Renato. Ele tem muita energia, isso me cansa… Daí eu preciso tirar férias dele. — Ela encolheu seus ombros, fungou seu nariz e balançou sua cabeça para os lados, sua voz levemente rouca. — Férias do Renato…

Fernando negou com sua cabeça. Apesar de Eduarda ser sua amiga e ele gostar muito dela, não concordava com essas atitudes que a mesma tinha em relação ao seu relacionamento.

— E depois, quando você cansar de ficar sozinha, vai correr atrás dele e ele vai te aceitar de volta… — disse Fernando o olhar fixo em sua amiga, um tom duro na esperança de que ela compreendesse e parasse de cometer o mesmo erro. — Vai te machucar de novo e vai acabar machucando ele também!

— O que foi? Virou meu psicólogo agora, Fernando? — perguntou a morena rispidamente, quase cuspindo aquelas palavras, como se fossem agressões.

— Gente, vamos tentar não discutir — pediu Samuel, já prevendo o que viria pela frente se a interação entre eles continuasse naquele nível.

— Caramba, Eduarda! — falou Fernando em um tom alto, assustando levemente o rapaz que estava ao seu lado. — Caramba, cara! Você não consegue compreender como essa situação toda que você cria não afeta só a você? Olha o teu estado emocional e físico! — Fez um breve silêncio para que o alvo das suas palavras pudesse absorvê-las. — Mas também faz mal ao Renato. A gente não tá vendo ele agora, mas ele também deve estar se sentindo mal. Acha isso justo? E se fosse ao contrário? Como seria?

Eduarda escolheu o silêncio. Passou sua mão na testa, coçando a região em sequência com seus lábios apertados e seus olhos bem abertos. Levantou-se do sofá e, antes de falar, coçou sua testa por mais um curto espaço de tempo.

— Eu tô cansada, tá bom? — disse a jovem adulta com a voz ainda rouca. — Talvez você esteja certo, Fernando. Talvez. Eu quero descansar… ficar na minha cama… Quando saírem, fechem a porta. — Sem falar mais nada e sem fazer cerimônia, Eduarda entrou em seu quarto e se trancou lá.

Samuel soltou um longo suspiro se livrando de toda a tensão que se instaurou em seu corpo.

— Você pegou pesado — disse o nipo-brasileiro.

— Peguei, mas a Eduarda estava precisando — argumentou o afro-brasileiro.

— É… — disse Samuel, concordando com sua cabeça, sua voz saindo um pouco mais fina do que o convencional. Levantou-se do sofá. — Bom, vamos? Acho que fizemos tudo o que podíamos ter feito.

— Verdade — concordou Fernando.

A tarde estava dando lugar à noite quando Samuel chegou em casa, onde encontrou sua avó na sala de estar assistindo a um filme em japonês pelo aparelho de DVD do local. De uma forma não pensada, em uma ação automática, o rapaz esboçou um sorriso por achar aquela cena fofa. Adorava ver como os olhos de sua avó brilhavam ao voltarem a ver coisas do local onde nascera, mas também seu coração doeu porque, nesses momentos, sempre percebia o quanto ela devia sentir falta do Japão.

Certamente, se Samuel precisasse ir embora do Brasil, apesar dos problemas políticos e sociais do país, morreria de saudades da sua terra. Afinal, ele cresceu naquele lugar...

Lentamente, sentou-se ao lado de Sakura, que demorou alguns segundos para notar a presença do neto. Ela sorriu docilmente quando encontrou a figura do rapaz também sorrindo para ela.

Como foi seu dia, querido? — perguntou a mulher em japonês.

— Ahm... — O garoto pensou por alguns segundos, seu domínio da língua nipônica beirava o nulo. — Meu... O meu dia foi bom — respondeu com um japonês bem iniciante. — E a minha mãe e o meu pai? Não chegaram ainda?

Não, eles não estão em casa. Foram ao supermercado — respondeu Sakura, ainda falando em japonês.

— Hmm... — murmurou Samuel depois de escutar a resposta da avó.

Na televisão, apareceu uma cena dos personagens daquele filme nipônico comendo mochi, o famoso doce japonês feito de uma massa de arroz e com recheio de feijão doce.

Samuel percebeu que o olhar da sua avó se prendeu naquela cena, quase hipnotizada por aquele doce. Então o rapaz tentou se lembrar da última vez que a mulher havia comido algum doce tradicional do seu país, apesar de a filha ter um mercado de produtos asiáticos no andar abaixo a aquela casa. Se Samuel fosse personagem de um desenho animado, nesse momento, acenderia uma lâmpada acima da sua cabeça com o pensamento que teve. Sorrindo, o rapaz continuou a assistir ao filme com sua avó.

Mais tarde, após sua mãe e seu pai terem voltado do supermercado com as compras do mês, quando todos estavam dormindo em suas camas, menos o jovem rapaz, aproveitou o silêncio da madrugada para preparar uma surpresa à idosa.

Deixou às escondidas uma tigela com uma xícara de arroz japonês e um pouco de água sobre a pia. Assim que retornou em passos lentos para a cozinha, retirou a água e bateu aquele arroz no liquidificador com mais um pouco de água.

Apenas quando estava moldando a massa de arroz que se encontrava não muito quente, mas sim em uma temperatura morna, Samuel percebeu que havia esquecido de preparar o doce de feijão vermelho. Tentou analisar em sua mente se daria tempo de preparar o doce e depois moldar o recheio dentro daqueles bolinhos. Mas saiu da sua linha de raciocínio quando ouviu alguém entrando na cozinha. Era sua avó com um olhar de curiosidade e surpresa ao ver a pequena bagunça que o rapaz tinha feito.

— O que está acontecendo, Samuel? — perguntou Sakura em português.

— Batian... — disse o rapaz, um pouco surpreso, então começou a rir instintivamente. — Eu queria fazer uma surpresa para a senhora, então resolvi fazer alguns mochi... Mas eu esqueci de fazer o anko...

Em silêncio, mas feliz com aquele gesto do neto, a senhora de idade se aproximou da mesa sem esconder seu sorriso. Ela perguntou:

— Mas por que você não comprou?

— Bom... Achei que seria mais significativo eu fazer com minhas próprias mãos — respondeu Samuel, agora um pouco sem graça. — E também, desde pequeno, a senhora sempre quis me ensinar mais sobre a cultura do Japão, idioma e tudo mais... Eu aprendi tão pouco. Achei essa receita fácil na internet, quis fazer.

— Eu te ajudo a terminar... — disse a mais velha se aproximando e passando o amido de milho em suas mãos.

— Não, a senhora não precisa fazer isso... — sussurrou Samuel, observando Sakura começar a colocar a mão na massa.

— Tudo bem, e não precisa se preocupar com o doce de feijão. Na hora do café da manhã, vamos fazer os mochi assados ou fritos. Ficam ótimos para o desjejum — disse a mais velha sorrindo enquanto olhava para o neto e moldava os bolinhos.

Estar com sua avó em um momento como aquele não fazia apenas com que o coração de Samuel se enchesse de calor, mas também sentia seus laços com ela ficarem mais fortes. Internamente, o rapaz tinha medo de que seu tempo com a mulher estivesse curto. Nunca verbalizaria aquele sentimento, nunca o colocaria no mundo físico, mas ele existia em sua mente. Apesar de viverem juntos sob o mesmo teto, os momentos como aquele eram raros. Samuel estava correndo por causa dos seus estudos e geralmente a senhora de idade estava na casa do amigo médium, o Daniel, focada em horas de espiritualidade que a faziam mais feliz.

O Espiritismo foi a única religião presente no Brasil com a qual Sakura simpatizou. Ela também havia se interessado por aquelas de matriz africana, mas foi na sua amizade com o médium Daniel que ela encontrou várias respostas que precisava em vários momentos de sua vida. Por enquanto, o sonho da mais velha, além de um dia retornar ao Japão antes de morrer, era fazer com que o neto se encontrasse com o amigo para uma sessão. Ela sabia que o neto precisava saber de coisas de sua vida anterior.

O resto daquela semana passou normalmente como qualquer outra, exceto pelo fato de que Eduarda estava faltando muitas das aulas do seu curso de Jornalismo, o que preocupava seus amigos, mas, por sorte, conseguiram a matéria para a amiga estudar em casa com uma de suas colegas de curso. Apenas não conseguiram resolver o problema das suas faltas. Enquanto Eduarda não dava sinais de avanço em seu humor, Samuel tinha que tocar sua vida.

Depois que voltou do apartamento de Eduarda, enquanto estudava em seu quarto, a mente de Samuel começou levá-lo para longe aos poucos. De repente, o jovem universitário se lembrou do irmão do ex-namorado de sua amiga, o tal de Henrique.

Sem perceber, abriu um sorriso se lembrando da aparência do mais velho, de como se sentiu quando seus olhos encontraram os dele, o frio na barriga e uma intensa nostalgia invadindo seu corpo.

Tinha a sensação de que conhecia Henrique de algum lugar, mas como a família dele era toda rica de berço, famosa entre os educadores, e também tinha o fato de que seu pai trabalhava para a universidade que fazia parte do aglomerado de empresas do Grupo Barreto, grupo cuja uma pequena parte ainda pertencia à família de Renato e Henrique, era possível, ainda que pouco provável.

— Será que ele é? — perguntou-se Samuel, ainda pensando em Henrique. — Não, mas, se eu não me engano, ele deve ter uma namorada, ou isso é coisa da minha cabeça — continuava pensando em voz alta, a ponta traseira de sua caneta em sua boca enquanto o mesmo analisava se aquela ideia se tratava de fato ou fruto da sua imaginação.

Naquela semana, ele também ocupou sua mente relembrando de Henrique. Nunca um cara que ele viu por tão pouco tempo lhe causou tanta impressão como aquele sujeito. Henrique teimava em não querer deixar seus pensamentos, e Samuel tentou de tudo, inclusive conversar com outros caras por aplicativos de pegação, porém não adiantava. Em pouco tempo de papo, sua mente já trazia à tona a memória recente do filho mais novo da Família Barreto. Pensar tanto no rapaz, com certeza, atrairia ele para perto de Samuel, não é mesmo? Bom, o rapaz pensava dessa forma, apesar de que nunca admitiria. Mas, para sua surpresa, quem acabou indo atrás de Samuel foi a patricinha que ele conheceu na mesma festa, a jovem chamada Sandra.

Foi numa tarde de sábado em que Samuel trabalhava com sua mãe no Mercado Okada. Ele estava ajudando Martinha na reposição de algumas mercadorias que estavam em falta desde o começo da semana, quando escutou uma voz feminina chamar seu nome. Ele não reconheceu quem era pela voz, apenas quando se virou e enxergou Sandra de frente para ele, que Samuel foi capaz de reconhecê-la, apesar de não ter conseguido esboçar uma reação.

— Não lembra de mim? — perguntou Sandra, levemente chateada.

— Não… Eu lembro! — respondeu ele, sem graça. — Mas é que… eu tô surpreso que você realmente esteja aqui. — Soltou uma risada para disfarçar, mas não conseguiu.

— Eu disse que apareceria, não disse? — questionou Sandra, agora em um tom mais descontraído em sua voz. Ainda sorrindo, ela enganchou seu braço no de Samuel. — Vamos, me mostre tudo o que tem aqui!

Martinha observava, com surpresa, a figura de Sandra. Era o tipo de pessoa que ela só via nas novelas da televisão, estava impressionada por encontrar um tipo daqueles na vida real. Ela não fazia em nada o perfil das pessoas que apareciam para comprar naquela loja.

— É que eu acho que não tem nada aqui que você compraria, Sandra — Samuel começou a explicar com medo que ela achasse que ele estivesse sendo grosso. — Não vendemos acessórios, mas sim produtos relacionados a alimentação, entende? — perguntou, franzindo sua testa e deixando seus lábios num formato de zigue-zague.

— Quando eu digo que adoro produtos asiáticos, também me refiro à comida, okay? — respondeu a patricinha, ainda animada, e o rapaz apenas teve que concordar com sua cabeça. — Então, vocês têm aqueles refrigerantes com sabores megadiferentes? — Ela soltou uma risada anasalada no final de sua frase.

A visita surpresa de Sandra ao Mercado Okada resultou nela e Samuel indo comer alguma coisa em um restaurante que tinha ali perto. Tratava-se de um estabelecimento de comida tipicamente nordestina que estava fazendo muito sucesso no bairro por causa do ótimo atendimento oferecido pelos funcionários e, claro, também por causa da comida de alta qualidade disponível no cardápio.

— Essa tarde está sendo muito agradável, Samuel. Você não tem ideia, amigo… — disse Sandra sorrindo, havendo certo brilho que emanava com sua energia um pouco caótica. — Eu estava precisando sair e me divertir assim.

— Aconteceu alguma coisa de ruim? — perguntou Samuel, estranhando que o que eles fizeram era sinônimo de diversão para uma garota tão podre de rica, que não precisava se preocupar em trabalhar.

— Meu noivo, a gente briga muito e acabo perdendo a paciência com ele — respondeu ela depois de beber sua água com gás.

— Você tem um noivo? — questionou o rapaz, surpreso.

— Sim! — Em seguida, ela mostrou seu anel de noivado, e Samuel ficou surpreso por não ter notado aquela pedra da primeira vez em que conversou com Sandra. — Esse anel foi da minha avó, foi um pedido especial para que meu anel de noivado fosse esse — explicou sorrindo.

— Seu noivo é um cara sortudo, mas… não querendo me meter na sua vida… Por que vocês brigam muito?

Antes de responder, Sandra suspirou, descansando seus ombros.

— Bom, não precisa ficar preocupado porque agora você é meu amigo, então… Mas, enfim… Acontece que meu noivo e eu não temos um relacionamento convencional.

— Como assim? — perguntou Samuel, ficando mais curioso.

— É que, assim — continuou Sandra —, meu noivo e eu vamos nos casar por questões de negócios entre as duas famílias. É um acordo que temos, sabe? É isso.

Samuel fez uma careta, estranhando que esse tipo de coisa ainda acontecesse em pleno século XXI.

— E você tá bem com essa situação? — perguntou, ainda chocado.

A rica respondeu positivamente com sua cabeça.

— Sim — continuou a patricinha. — Mas é porque eu gosto muito dele. Assim, meu noivo não é uma pessoa ruim. Nosso casamento ajudará a família dele e eu sou apaixonada por ele desde que eu era uma menina. Eu sei que ele não me machucaria.

— Nossa! Parece coisa de novela, mas se você diz que você está bem, quem sou eu para julgar, né?

Sandra sorriu e ajeitou seu cabelo.

— Ai, Samuel, um dia, você vai conhecer meu noivo e vai ver como ele é um cara muito bom. Estudioso e trabalhador, assim como o meu pai era. — Quando falou do seu pai, Sandra desfez seu sorriso por alguns instantes, entretanto, houve tempo para Samuel notar, e ele notou, realizando assim sua próxima pergunta:

— Era? Ele… — Não conseguiu terminar a pergunta.

— Sim — respondeu a jovem podre de rica, confirmando com sua cabeça. — Sim, ele morreu. Bom, ele cometeu suicídio. Não aguentou a pressão dos seus próprios problemas, por isso que minha mãe também tem medo que aconteça o mesmo comigo — explicou.

— Nossa, Sandra, eu não queria… Eu juro… — Samuel começou a se desculpar rapidamente, não queria ter deixado o clima da conversa entre eles pesado, havia se arrependido de ter pedido uma confirmação sobre o possível falecimento do pai dela.

— Tudo bem. Isso já faz tempo também — respondeu Sandra fazendo um gesto com sua mão ao jogá-la para trás. Pegou sua bolsa de grife e tirou algumas notas em dinheiro, deixando sobre a mesa do restaurante. — Acho que isso paga nossa conta. — Ela sorriu, encolhendo seus ombros. — Eu vou indo agora, Samuel. Obrigada pela sua companhia, tenho certeza de que seremos grandes amigos.

Antes de deixar o estabelecimento, ela beijou a bochecha do rapaz.

Apesar de Sandra ser uma pessoa fora do mundo em que Samuel vivia, ainda assim, era uma pessoa muito divertida, e, durante a troca de conversa entre eles, o rapaz podia perceber que ela sentia falta de ter alguém para conversar. Um amigo de verdade, talvez. Não sabia o porquê de ela ter lhe escolhido para ser seu novo amigo, entretanto, não pensava em cortar Sandra. Ainda mais, depois de ouvir a história sobre o pai dela. Sentiu pena da mesma por alguns instantes, mas logo esse sentimento foi substituído por simpatia. Sua vida sempre estava aberta para mais um amigo, Samuel tinha esse problema de querer ajudar todo mundo ao mesmo tempo, desde seus amigos mais antigos até conhecidos com quem ele havia acabado de criar laços.

Quando retornou para o Mercado Okada, logo Samuel teve que escutar várias perguntas de sua mãe e das duas funcionárias curiosas. As três falavam ao mesmo tempo e não davam espaço para as respostas de suas dúvidas e curiosidades. Aos poucos, a cabeça de Samuel foi se enchendo de tantas perguntas e começou a doer. Vera, Martinha e Kika apenas pararam de falar quando o garoto soltou um grito desesperado.

— Eu sou sua mãe, Samuel! — disse Vera imediatamente, ofendida.

— Desculpa, mas vocês pareciam um trio de papagaios — respondeu Samuel, recuperando sua linha de raciocínio. — Eu conheci a Sandra naquela festa que eu fui com a Eduarda e o Fernando, semana passada, lembram? Ela é uma moça rica, um pouco fútil…

— Ou seja, uma perua em treinamento — disse Kika, interrompendo o filho da sua chefe.

— Porque idade para ser patricinha, aquela ali não tem mais — continuou Martinha, iniciando um riso que foi acompanhado pela sua colega de trabalho.

Vera interrompeu as duas com um tapa no ombro e cada uma e pediu em um tom firme:

— Deixem-no terminar de falar!

— Enfim — retomou —, eu acho que ela simpatizou comigo, talvez queira que eu seja o personal amigo gay dela... Acontece que ela parece ser bem sozinha, e não tem problema. Ela é legal, interessante e engraçada.

— E rica — disse Martinha. — Ter amigos ricos é sempre bom.

— Mas rico é sempre mão de vaca — concluiu Kika.

— Bom, eu vou subir e escovar meus dentes — disse Samuel, ignorando as duas, que desataram uma conversa sem pausa. — Depois eu volto para continuar ajudando aqui. — Sorriu e em seguida deixou o estabelecimento familiar, indo em direção ao portão do lado que levava para o segundo andar, sua casa.

Sobre a cama de Samuel, encontrava-se o seu livro de poemas favorito, aberto com as páginas para baixo. A cama se encontrava também com algumas roupas por cima dela. O jovem estava sentado à sua mesa de estudos, com seu computador aberto no portal de estudantes da Universidade Barreto. Através da sua caixa de som, conectada ao seu celular, Samuel escutava uma melodia que fez parte da sua infância, a música “Ding Dong”, de uma telenovela infantil chamada “Floribella”.

No canto do desktop, subiu uma notificação de mensagem. Era Fernando chamando Samuel para conversar na versão web do WhatsApp, que, naquele momento, encontrava-se aberta no computador. Samuel clicou no ícone da barra de tarefas e a janela rapidamente abriu, e então clicou no chat com o nome do amigo.

Fernando o convidou para eles irem assistir a um filme juntos no cinema. Por alguns segundos, Samuel ficou dividido entre continuar estudando ou sair de casa. A ideia do cinema era bem mais bem-vinda do que a de continuar sobre os livros. Ele então respondeu perguntando qual cinema e em qual shopping. Depois que o amigo respondeu, ele avisou que o encontraria no local.

Samuel vestiu uma calça jeans que tinha em seu armário, uma camisa branca com listras amarelas e uma jaqueta jeans for cima. Calçou um par de coturnos que estavam no fundo do seu armário e penteou seus cabelos dividindo os mesmos ao meio.

Antes de deixar o seu quarto e a sua casa, deu uma última olhada no espelho e se sentiu belíssimo.

No shopping onde combinaram de se encontrar, Fernando vestia uma camisa social azulada e calças sociais também.

Quando Samuel chegou ali, ambos se cumprimentaram com um abraço.

— Que filme vamos ver? — perguntou Samuel quando começou a andar ao lado do amigo.

— Eu estava pensando em algum filme de ação — respondeu Fernando, pensativo. — Algum desses de super-herói.

— Ah, eu topo — respondeu Samuel. — Vai ser legal. A gente vai comprar pipoca?

— Você quer? Eu não faço questão… — disse o rapaz negro.

— Não, eu também não. A pipoca do cinema é muito cara — continuou o nipo-brasileiro. — Então, a gente vai passar numa loja antes?

— Sim, vamos comprar os ingressos e, quando tiver quase na hora da sessão, a gente passa numa Americanas ou qualquer uma dessas lojas — explicou o amigo.

Samuel sorriu e concordou com sua cabeça.

Depois que compraram os ingressos, os dois ficaram um bom tempo perambulando pelo shopping enquanto esperavam pelo horário da sessão. Quando faltava meia-hora para começar, passaram em uma loja de conveniências do shopping e compraram dois pacotes de salgadinhos, refrigerante e duas barras de chocolate. Depois de entregarem os ingressos ao moço que ficava na frente das salas, os dois amigos entraram e esperaram o filme começar.

Depois que assistiram ao filme do qual muito gostaram, foram para a praça de alimentação, onde dividiram um combo oferecido por uma rede de fast-food.

— A Eduarda falou com você? — perguntou Samuel enquanto dividia um hambúrguer ao meio. — Eu mando mensagem para ela, mas ela só sabe ignorar. Ela visualiza, mas não responde! Eu odeio isso! — disse bufando enquanto cortava o sanduíche.

— Cuidado para não esmigalhar o pão. — pediu Fernando com o olho na comida. — A gente também tá na mesma, ela não me responde — respondeu finalmente à pergunta do amigo.

— Eu me preocupo porque ela pode estar muito mal e tentar alguma loucura. Sabe do que eu tô falando, eu sei que você sabe — disse ele entregando a parte que correspondia ao seu amigo. Lambeu seu dedo, limpando o molho que caiu nele.

— Acha que a Eduarda tentaria uma coisa assim? Tirar a própria vida? — questionou o de cabelo encaracolado.

— Acho — respondeu Samuel antes de pensar, mas, depois de dizer, resolveu pensar de novo. — Não sei. Talvez? A Eduarda sempre foi emocionalmente fraca — explicou.

— Eu não acho que a Eduarda seria capaz de fazer uma coisa assim — respondeu o rapaz negro depois de engolir o que havia mastigado anteriormente. — Ela pode ter sim um emocional mais fraco, mas ela não tá tão mal assim… — Deu mais uma mordida no seu sanduíche.

— Será mesmo? — perguntou Samuel, erguendo suas sobrancelhas e enrugando sua testa. Olhou para os lados pensativo, preocupado. — Se ela não voltar para a faculdade amanhã, vou ter que tomar alguma providência.

— Se ela não voltar para a faculdade na segunda-feira, ela vai ser expulsa — disse Fernando, apertando seus lábios enquanto limpava sua mão.

Os dois amigos se despediram na frente do shopping. Eles pensaram em dividir uma corrida de Uber, mas como Fernando vivia perto do prédio da faculdade, era um caminho muito longe e não compensaria. Por isso, decidiram ir embora separadamente.

Samuel havia acabado de chamar um motorista, quando um carro parou à sua frente. Ficou surpreso com a rapidez daquele sujeito, mas, quando a janela foi abaixada, o rapaz teve uma surpresa.

Atrás do volante, encontrava-se Henrique.

Estava tão bonito quanto naquela noite em que o conheceu, vestia uma roupa casual, mas, ao mesmo tempo, muito chique.

— Você é Uber? — perguntou Samuel, sem entender.

O rapaz mais velho soltou uma risada antes de responder ao mais novo:

— Não, mas eu estava saindo do estacionamento e te vi aí parado. Lembra de mim, não é? — perguntou com curiosidade em seus olhos claros.

— Sim — respondeu Samuel, meio sem graça. Sentia-se estranho só por conversar com ele. Era como um sonho. — Você é o irmão do Renato. Na… Ex-namorado da Eduarda.

— Isso mesmo. Bom, já que você me conhece, pode aceitar minha carona — disse sorrindo.

Samuel queria muito entrar naquele carro, mas, para todos os efeitos, ele ainda era um estranho. Era uma luta entre querer e achar ser certo. Olhou para os lados enquanto pensava em uma desculpa para recusar a carona de Henrique.

— Eu não quero te incomodar. — Samuel mandou a primeira desculpa clássica.

— Não vai. Não se preocupa, porque eu também tenho dinheiro para gasolina. Vamos, entra. Você vai poupar dinheiro, ainda por cima — disse o rapaz, sorrindo.

Samuel sorriu de volta, abriu a porta do carro e em seguida entrou. Cancelou a corrida que havia pedido pelo aplicativo e em seguida Henrique deu a partida, voltando para a estrada.

As ruas estavam bem movimentadas, como sempre em uma cidade grande. Samuel alternava seu olhar entre prestar atenção ao trânsito e admirar a beleza de Henrique, que, quando ficava sério e concentrado na direção, destacava ainda mais seus traços mais bonitos. Sua barba por fazer, seu cabelo sendo desenhado pelas luzes da cidade que invadiam o veículo e que também criavam novas variações nos traços do rapaz. Sempre que percebia que seu coração ia bater mais forte, voltava a olhar para as ruas.

— Você é nikkei? — questionou Henrique de repente.

Samuel estranhou aquela pergunta. Com suas sobrancelhas desenhando um arco e um bico presente nos seus lábios, ele perguntou:

— Como?

— Perguntei se você é nikkei… — explicou Henrique, ficando vermelho. — É essa a palavra, né? Para filhos de imigrantes japoneses que nasceram fora do Japão… — Samuel soltou uma risada que deixou Henrique ainda mais vermelho, tendo a confirmação de que falou besteira. — Desculpa…

— Não, não… Tudo bem — disse Samuel parando de rir aos poucos. — Nikkei é qualquer japonês que saiu do Japão para viver fora… Tipo minha avó. Eu sou… brasileiro mesmo — respondeu Samuel, mexendo sua cabeça. — Minha mãe não me criou muito preso na cultura nipônica… o que deixa a minha batian… que é a minha avó, muito brava às vezes, mas é porque também meu pai é da terceira geração de nascidos no Brasil…

— Desculpa se eu te ofendi, Samuel… Eu não queria — pediu Henrique, incomodado ao pensar que poderia ter pisado na bola.

— Não, eu entendi que você não fez por malícia — disse o outro antes de ficar em silêncio por alguns segundos.

— Me conta mais sobre você, sei que estuda na Universidade Barreto. Estuda o quê? — perguntou Henrique, voltando a focar na estrada.

— Administração. Meu pai trabalha na contabilidade da universidade — respondeu Samuel, voltando a olhar para o motorista. — E você estuda Direito, né?

— Sim, como meu pai sempre quis. Mas, na verdade, eu também queria estudar Direito, então… — disse o mais velho enquanto encolhia seus ombros. — Você sempre quis estudar Administração?

— Sim. Sempre. Minha mãe tem um mercado de produtos orientais e eu cresci naquele lugar, acabou se tornando meu sonho administrar ele no lugar da minha mãe. É meio clichê, eu sei… — disse Samuel ao perceber a ironia da sua vida.

— Ah, tudo bem, não problema de a gente escolher o caminho confortável. Tem aqueles que gostam de se aventurar e aqueles que gostam de ficar confortáveis. — Após dizer isso, Henrique lançou seu olhar rapidamente para o rapaz no banco do carona. Um sorriso inclinado para cima que acabou acertando em cheio o coração de Samuel.

Ficaram alguns minutos em silêncio, entre alguns semáforos e curvas. Após esse tempo que parecia infinito para ambos, Henrique soltou a seguinte pergunta:

— Você tem namorada? — Engoliu a seco depois de perguntar.

Samuel inclinou sua cabeça e apertou seus olhos levemente, pensando naquela pergunta.

— Eu sou… gay — respondeu ele. — E não, eu não tenho namorado. — Achou pertinente adicionar aquela informação extra.

Henrique tentou segurar seu sorriso, mas não conseguiu muito. Logo soltou uma informação extra:

— Eu também estou solteiro.

Então o carro parou em frente à fachada do Mercado Okada. Quando Samuel colocou sua cabeça para fora da janela, confirmou para o seu motorista que aquela era sua casa. Antes de Samuel deixar o carro, Henrique entregou seu celular a ele.

— Salva meu número. Me dá o teu, que eu vou salvar o meu número — pediu o motorista.

Samuel sorriu e pegou o celular do mais velho, logo entregando o seu. Depois que cada um salvou os respectivos números, ele deixou o carro, que logo em seguida voltou a rodar pela estrada. Antes de entrar em sua casa, o nipo-brasileiro abriu o aplicativo do WhatsApp e foi até o chat de Henrique. Viu a foto dele no círculo e sorriu.

— Henrique… — sussurrou Samuel para sim mesmo.

Colocou a tela do celular por cima do seu peitoral, ainda sorrindo serenamente, não apenas com seus lábios, mas também com seus olhos.

Notas finais
-Ritter