Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
40 kátharsis
Notas iniciais
ca·tar·se |z| (grego kátharsis, -eós, purificação)
substantivo feminino
[Filosofia] Palavra pela qual Aristóteles designa a "purificação" sentida pelos espectadores durante e após uma representação dramática.
[Psicanálise] Método psicanalítico que consiste em trazer à consciência recordações recalcadas.
[Psicanálise] Libertação de emoção ou sentimento que sofreu repressão.
"catarse", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/catarse [consultado em 11-07-2016].
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3 meses depois …
Como era habitual, a mulher negra sorria serenamente para mim. É verdade que das primeiras vezes até o seu sorriso me irritava, mas agora simplesmente me limito a retribuir com uma serenidade semelhante à dela. Começa sempre por perguntar como foi o meu dia como se fossemos duas velhas conhecidas, ou então, quando estou de melhor humor, como se fossemos de facto amigas. Com o passar das semanas fui me apercebendo de como precisava de alguém para conversar; alguém completamente alheio a mim ou ao meu passado.
Monique fora indicada por Giorgio. Era psicanalista, atuando também como psicoterapeuta, e gentilmente se disponibilizara para trabalhar na nova clínica que Gior abrira em Nova Iorque. Relutante no começo, como só a minha teimosia conseguia ser, acabei por ceder e indo a uma primeira consulta. E … bem, não posso dizer que fora propriamente agradável, nem sequer horrível; simplesmente foi o que tinha de ser.
“Essa seria a primeira e última consulta a que iria, porque além de ser uma autêntica perda de tempo, também não faria absolutamente nada para trazer Emma de volta. No entanto, havia concordado com tal disparate para provar a Gior que não precisava daquilo para nada.
— Como vai, Regina? – começou por perguntar, com um sorriso no rosto jovem de olhar expressivo. Aquilo me irritou levemente, de tal forma que devo ter revirado os olhos sem me dar conta, porque ela soltou uma risadinha baixa. – Quem obrigou você a vir?
— É tão óbvio assim? – respondi retoricamente com um meio sorriso. – Você deve saber … afinal foi Giorgio que arquitetou tudo com a Dr.ª, não?
— Ao contrário do que possa pensar eu não sou apologista dos meus pacientes terem consulta comigo coagidos. – respondeu sem alterar o tom de voz. Pelo contrário, ela continuava sorrindo serenamente, sem denotar qualquer julgamento sobre a minha pessoa. – Pode sair se quiser.
— Como? – indaguei, pega de surpresa pela sua sugestão. Pensei imediatamente que aquilo era uma artimanha de psicologia invertida ou algo do género para me fazer ficar. – Quer que eu me vá embora?
— Eu não tenho qualquer «querer» aqui dentro dessa sala. – respondeu, arrumando a prancheta que tinha sobre o colo numa gaveta. – Mas você tem, portanto, se quiser ir embora pode ir.
Olhei com ar desconfiado para ela, analisando-a, enquanto ela se encaminhava para o computador na mesa, sentando-se diante dele.
— Eu fico. – cortei o silêncio. Ela levantou os olhos do ecrã e mais uma vez sorriu. – Mas aviso já que não vou me deitar em divã nenhum e ficar horas me lamentando sobre os meus problemas.
Monique me olhou estranho, sem reação, mas depois de alguns segundos simplesmente começou gargalhando em alto e bom som.
— Me desculpe. – pediu, levantando a mão, impedindo que eu abrisse novamente a boca. – E não, não estou rindo de você. – respondeu como se me tivesse lido os pensamentos. – É que eu sempre quis ter um divã no consultório, mas nunca me atrevi a comprar nenhum por achar demasiado cliché. – ergui a sobrancelha, meio incrédula com aquela mulher. – Parece que acertei em não comprar, certo? – olhei melhor em volta, vendo que de facto não existia qualquer divã, apenas um sofá em couro num canto da sala, e acabei rindo também, surpreendendo a mim mesma já que nem me recordava da última vez que soltara algum tipo de risada.
— Eu diria que sim. – respondi, mais bem-humorada.
— Então, — ela fez uma pausa, saindo detrás da mesa e se sentando no sofá, cruzando a perna, como se estivesse relaxando em casa. – já vimos que nesse caso não há divã, mas problemas sim?
— Como assim? – será que eu estava lerda ou aquela mulher só sabia falar por códigos?
— Você disse que não ia deitar num divã para falar durante horas sobre os seus problemas. – eu assenti e ela continuou com a mesma serenidade do início. – Então, se quiser, sempre pode falar uns minutos sobre um dos seus problemas, mas neste sofá.
— Eu sabia que isso era um esquema para me fazer ficar! – exclamei, acusatoriamente, como se tivesse desvendado algum mistério. Ela me olhou em silêncio e aquilo me fez ficar desconfortável. – Me desculpe. – balancei a cabeça, me censurando. – Devo parecer neurótica. – confessei, cabisbaixa.
— Regina, deixe que seja eu a diagnosticar isso. – interveio em tom neutro. Me fez sinal para que me aproximasse e eu assim fiz, sentando-me na outra ponta do sofá. – Porque se acha neurótica?
— Como não achar?! – soltei, rindo debilmente. – Se não fosse não teria perdido tanto.
— O que perdeu?
— A Emma. – confessei, baixo. – À vida que tínhamos …. – continuei com pesar, suspirando. – e até a mim mesma.”
— Como foi o seu dia, Regina? – é claro que afinal aquela primeira consulta foi apenas a primeira de muitas que se seguiram.
— Bastante produtivo. – assentiu, me incentivando a continuar. – Os preparativos pra festa de Henry estão quase prontos. Gior esteve me ajudando com os últimos detalhes e Henry nem faz ideia da surpresa que o espera.
— Que bom. – mais um sorriso dos seus. – Todo menino merece uma festa para comemorar os seus 12 anos.
— Sim …
— Regina, — chamou, vendo que eu havia vacilado. – acha mesmo que a data da festa importa pra ele?
— Eu sei, mas às vezes penso até que ponto tudo que aconteceu o terá afetado. Pra não falar que ele fez os 12 anos no mês passado.
— Eu asseguro a você que ele está bem. – respondeu, detendo a minha atenção. – Aliás, ele lidou com tudo muito melhor do que você. Ele apenas quer a sua felicidade e essa festa, agora, vai ser bom pra vocês. Chega de drama! – piscou o olho, de forma cúmplice.
Acabei sorrindo, convencida.
— Chega de drama. – reforcei.
*** *** ***
O tempo é bom conselheiro, dizem alguns. No entanto, mesmo que possa existir alguma verdade nessa afirmação, depressa apercebi-me que isso não basta. Não basta deixar o tempo passar na esperança que as feridas sarem sozinhas quando somos nós próprios a ir lá com o dedo escarafunchá-las. Não basta olhar para a frente, como se tivéssemos duas palas ao lado dos olhos, sem perceber o cerne da questão … no fundo, sem nos percebermos a nós próprios.
O tempo cura tudo, dizem os mesmos. Eu discordo de antemão, porque as afirmações não podem ser interpretadas fora do contexto. Porque só pode curar-se aquele que o quer de facto. E eu durante muito tempo não o quis.
Não quis lidar com a morte da minha mãe de forma conveniente, porque afinal, para quê vergar-me quando isso não iria trazê-la de volta? Para quê voltar a apegar-me se tudo é efémero?
Não quis lidar com a doença do meu pai, porque era mais fácil recordá-lo como uma mera lembrança do que vê-lo degenerar diante dos meus olhos. Porque para mim, aquele não era o meu pai, mas uma sombra dele, e para sombra, já bastava o meu coração enegrecido.
Não quis lidar com o sofrimento que causei a cada uma das pessoas que depositaram o seu coração nas minhas mãos, porque achei sempre que não era responsável por aquilo que cativava… ou por quem. Afinal, que responsabilidade poderia ter se nunca fizera falsas promessas a ninguém? Que vontade de rir! Desde quando se promete somente com palavras?! Penso agora.
Não quis lidar com o rompimento da amizade de longa data com Giorgio, porque mais uma vez achei que fizera o suficiente e que a mais não era obrigada. Diante do conflito maior não fui compreensiva o suficiente nem investiguei a fundo o porquê de uma amizade tão forte ter sido tão facilmente abalada por uma mulher que nem sequer me dei conta que machuquei nessa arte inata de cativar.
Não quis lidar com as minhas inseguranças quando o Outro entrou em cena, não enxergando que nunca esse Outro existiu, mas que era apenas o meu coração perseguido pelos meus próprios demónios. Afinal, se era tão fácil descartar falsos amores, o que impedia Emma de fazer o mesmo comigo?
Não quis lidar com a preocupação daqueles que me amam, porque isso era o mesmo que me atribuírem um atestado de fracasso. Era mais fácil, por mais insano que possa parecer, montar uma história fictícia que justificasse tudo aquilo que me fugia do controlo. Foi mais fácil pactuar com o jogo mental de Gold do que parar para escutar a mulher que amava. Foi mais fácil pensar resolver tudo entre suspiros de prazer que na realidade não passavam de escapes para o que se estava a passar bem debaixo dos meus olhos. Foi mais fácil mais uma vez fazer tudo à minha maneira, sem escutar ninguém.
Todas essas questões e outras mais foram delicadamente levantadas depois daquele dia na mansão. E isso, ao mesmo tempo que me consola, faz-me sentir inquieta e culpada. Mas a Dr.ª Monique tem sido fundamental nesse processo de recuperação de mim mesma. Perdi muito, mas como ela diz tantas vezes “nunca se perde para sempre”. Então mais vale ter perdido o que já não se resgata e se concentrar na parte do “para sempre”.
Acabei sorrindo, me encostando confortavelmente à poltrona do escritório. Henry estava com Gior e Emily, e isso me fazia feliz. No meio da tragédia fomos a pouco e pouco recolhendo os pedaços, vendo os que ainda encaixavam e deitando fora aqueles que simplesmente já não havia como fazerem parte da mesma peça.
Como Emily …. Era verdade que a menina não era filha biológica de Gior; a mãe dela, Christine, em outros tempos Natalie ou Hope, não mentira. Ela havia mesmo traído Giorgio, mas quando ela confessou quem era o pai todos nós ficámos em choque. Aliás, foi a mim que ela confessou em primeira mão.
“Apesar de presidiária, ela continuava sendo uma privilegiada. Tinha cela privada com televisão e estante de livros. Fui convidada a entrar pelo guarda prisional que se manteve à porta, enquanto a mulher de olhos verdes me encarava em silêncio.
— Sabe que não é obrigada a me receber. – comecei, vendo que ela mantinha o silêncio. – Muito menos a falar comigo. – continuei, me sentando numa cadeira que tinha num canto. Ela estava sentada na cama, com as costas encostadas à parede. – Por isso agradeço ter aceite esta visita.
Ela continuava em silêncio, apenas me observando atentamente, embora não tivesse nenhuma expressão em específico no rosto. Parecia em certo aspeto um pouco apática. Os seus olhos não tinham brilho e os seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo simples.
— É importante pra mim estar aqui, com você. – continuei em tom neutro, e vi finalmente uma das suas sobrancelhas arquear ligeiramente. – Conselho da psiquiatra. – confessei para minha própria surpresa. – Parece que afinal não é só você que tem problemas, hein?! – tentei brincar, mas sem muito sucesso. – Okay. Foi uma piada infeliz. – continuei aquele monólogo que já estava me fazendo ficar nervosa. – Christine, — me interrompi. – me desculpa, mas não sei como te devo tratar. Natalie? – ela não respondeu, então fiz menção de continuar, mas antes que o pudesse fazer, ela abriu a boca e falou num tom de voz despojado de qualquer emoção:
— Natalie morreu. – eu apenas assenti, tentando perceber se ela iria continuar, mas ela não desenvolveu.
— Hope? – ousei perguntar.
— Essa foi você que matou. – revidou, seca. Eu assenti mais uma vez, sem saber como continuar.
Ficámos novamente em silêncio. Aquilo tinha sido má ideia, onde eu tinha a cabeça para ter dado ouvidos à Dr.ª Monique? Balancei a cabeça e fiz menção de me levantar para ir embora.
— Regina, — ela chamou e eu imediatamente congelei. – o que veio fazer aqui? – perguntou, me colocando contra a parede. Eu prendi o lábio com os dentes e desviei umas quantas mechas de cabelo da testa para o lado.
— Eu … — balbuciei, sem saber o que dizer. – não sei ao certo.
— Eu gostava mais de você quando você sabia direitinho o que fazer– lançou, me apanhando desprevenida. – …. ao certo. – adicionou com um sorriso malicioso. Mas seria possível? Ela estava mesmo flertando comigo? Todo o ar apático dela pareceu se dissipar ao mesmo tempo que dava lugar a uma mulher completamente charmosa e segura de si mesma, até os seus olhos pareciam ter recuperado um pouco de brilho.
— Por quê fez isso? – atirei, desorientada.
— A dor de corno é difícil de suportar, não é mesmo? – arremessou com veneno. – Foi assim que você me fez sentir quando vi você com aquela mulher. Eu já andava desconfiada, mas ver com os meus próprios olhos foi … — fez uma pausa como se recordar aquilo fosse doloroso. – … indiscritível.
— Me desculpa. – disse, por fim. Segurei o seu olhar por alguns segundos, porque queria que ela soubesse que era verdade aquilo que eu dizia. – Nunca te quis machucar, mas infelizmente foi o que fiz naquele tempo.
— Soube que você matou Cassidy. – declarou, me fazendo piscar com a mudança brusca de assunto.
— Foi legítima defesa! – me defendi, alarmada.
— Até nisso você teve sorte. – comentou com ironia. – Sabia que o conheci pouco depois de você ter conhecido a sua amada?
— Como? – aquela história era nova. – Você conhecia o Neal? – ela riu, divertida.
— Aquele idiota me ajudou a te deixar louca. – confessou. – Juro que pensei que Emma fosse se render, porque Regina … o homem tinha uma pegada! – gargalhou alto.
— Não acredito no que estou ouvindo. – era tudo tão sórdido, tão nojento.
— Ah, para de bancar a santa! Até parece. – se levantou da cama, se aproximando perigosamente de mim. – Talvez sejamos mais parecidas do que pensávamos.
— Eu não sou nada como você!
— O que interessa é que deu errado. – se ajoelhou à minha frente, assentando as mãos nos braços da cadeira, numa posição que me deixou imediatamente desconfortável pela aproximação que desencadeou entre nós. – Emma nunca deu bola pra ele, mas você, Regina, sempre tão habituada a ter tudo e todos sob controlo agiu feito uma doida varrida que acabou por estragar o próprio casamento. – uma das suas mãos deslizou pelo meu braço até à minha face. – Não foi minha linda?
— Tira a mão de mim! – enxotei a mão dela, o que a fez se levantar ao mesmo tempo que se ria abertamente. – Você não tem coração. – ela parou de rir, e me olhou de novo.
— Isso foi porque você o arrancou de mim. – acusou, ríspida. – Mas me diga …. Como está a minha filha?
Aquilo me pegou outra vez de surpresa. No meio daquela conversa completamente desequilibrada ela finalmente havia-se lembrado da filha.
— Estando com o pai só pode estar bem. – atirei, fria, esquecendo qualquer tentativa de ser afável.
— Giorgio não é pai de Emily.
— Claro que é. Pouco importa com quantos caras você se tenha deitado.
— O pai da menina está morto e eu estou olhando para a assassina dele. – afirmou, convicta.
— Cassidy? – indaguei, completamente admirada. – É claro. – por fim, tudo fazia sentido. – Você andou minando a minha vida na calada durante estes últimos anos de todas as formas que encontrou.
— Pode não acreditar, mas essa parte não foi propositada. Não é irónico? Como a vida tem destas coisas? – se encostou à cama e cruzou os braços me encarando com seriedade. – Como os nossos destinos tinham de se cruzar das mais variadas formas?
Não respondi, apenas me levantei calmamente, fazendo sinal ao guarda para abrir a cela.
— Só desejo que os nossos destinos de agora em diante fiquem bem longe um do outro. – disse de costas para ela, enquanto saía da cela. Depois, me tornei a virar e me despedi: — Uma ótima estadia aqui dentro. Aproveite a terapia, porque você claramente precisa mais do que eu.”
Neal Cassidy era o pai de Emily, que por sua vez, isso a tornava irmã de Henry. Condenada então por forjar a própria morte e por falsificação de identidade, Christine fora condenada a sete anos de prisão.
Cassidy, foi diferente. Encostei a cabeça e fechei os olhos, relembrando o sucedido.
“— Me deixa! – vociferou Cassidy, completamente fora de si. Escutou-se um novo grito, desta vez de Emma, e outro de Henry, e logo a seguir um novo ...
BANG!
— Nãoooooo !
Escutei a voz de Emma gritar de forma tão ensurdecedora que quase acreditei que era o fim. Senti o impacto contra o meu peito que ardia e a humidade das lágrimas quentes escorrendo pelo meu rosto.
— Mãeee! – o meu menino chorava, aflito, mas não o conseguia ver. De repente o peso do corpo sobre mim foi retirado e só aí pude ver o rosto de Emma novamente. Em choque, olhei para o corpo caído de Cassidy com uma mancha vermelha no peito e logo depois para mim. A minha mão ainda estava enterrada na minha bolsa e aos poucos retirei-a, vendo a arma daquele crime horrendo.
— Regina! – chamou por mim, me forçando a olhar para ela. – Você só se estava defendendo. – murmurou, seguindo exatamente a minha linha de pensamento. Ainda sem reação, Henry se jogou nos meus braços, assim que Emma retirou o revólver da minha mão.
— Você está bem, mãe? – ele perguntou em voz baixinha tão ou mais assustado quanto eu.
— Meu rapazinho. – abracei-o de volta, tentando reagir. – Me desculpa, eu não queria ….
Ele não respondeu, limitando-se a me abraçar mais forte ainda. Depois, ouviu-se uma sirene, e logo de seguida os policiais forçaram a sua entrada na casa.”
Felizmente, fora considerado legítima defesa e nada nesse aspecto agravou a minha situação.
Tornei a abrir os olhos, sentindo um calafrio. Depois de todo o episódio, Giorgio havia denunciado Christine às autoridades e exigido a guarda de Emily. Foi ele quem sugeriu que Henry fosse também a algumas consultas com a Dr.ª Monique, embora tenham durado poucas sessões, pois a terapeuta nos assegurou que ele estava bem.
Killian Jones fora preso pelo assassinato de Robert Gold e iria ficar uns bons anos mofando na cadeia. Ao que constava, na adolescência, o moreno fora apaixonado por Natalie, paixão essa que lhe custara uma mão. Pensar nisso ainda me deixava um pouco agoniada. Pensar em como as nossas histórias acabaram por se cruzar num desfecho tão trágico e sangrento ainda me tirava o sono algumas noites, mas isso era o preço a pagar por ter de certa forma tomado as decisões erradas.
As feridas estavam sarando aos poucos, e muito embora as cicatrizes fossem permanentes, estava aprendendo que elas se faziam necessárias, porque eram um lembrete; não um lembrete da culpa e do sofrimento, mas um sinal de que alguém me considerava o bastante para permitir que eu recomeçasse a partir de um novo ponto de partida.
Emma deu um sumiço no contrato e em tudo que me pudesse ligar a Robert Gold. Agradeci-lhe ainda nas urgências do hospital para onde fomos encaminhados pela polícia. Tirando o choque e o meu pulso quebrado saímos todos ilesos. Ainda hoje dou graças aos Céus.
Olhei as horas, percebendo que Emma deveria estar chegando. Embora Henry estivesse vivendo com ela em seu novo apartamento, tínhamos acordado que a mansão seria mais apropriada para receber todos os convidados. E esta tarde ela viria conferir a decoração comigo já que a festa de aniversário seria em dois dias. A campainha tocou, embora ela continuasse com as chaves, uma vez que eu não aceitara que ela as devolvesse.
— Está cansada de saber que não precisa tocar. – falei assim que abri a porta. Ela esboçou um sorriso, se inclinando para me beijar o rosto.
— E você, — entrou bem-humorada. – está cansada de saber que essa não é mais a minha casa.
— Tudo bem. – dei de ombros, fechando a porta atrás de mim. – Mas também não precisa ficar de cerimónia, não é? – adicionei, vendo que ela tinha ficado parada no hall de entrada, aguardando que eu fechasse a porta.
— Tem razão. – respondeu, sem deixar de sorrir.
Encaminhou-se para a sala que já estava com todos os móveis arredados para o canto e cheia de enfeites, entre os quais, balões, bandeirinhas, fitas coloridas.
— Demasiado infantil? – perguntei, rindo. Ela demorou a responder, observando os detalhes do tema alusivo aos desenhos japoneses.
— Ele vai surtar, Regina! – exclamou, se virando para mim feito uma criança empolgada. – Está fantástico!
— Você diz isso porque ainda não viu os jardins! – comentei, excitada também.
Ela depressa pareceu esquecer as formalidades e foi até à varanda, que dava acesso ao jardim e à piscina, sem esperar por mim. Aquilo me alegrou tanto que dei por mim sorrindo de orelha a orelha.
— Ninguém melhor do que você pra organizar uma festa. – escutei-a dizer, deslumbrada pelo insuflável em forma de Songoku do Dragon Ball que dava acesso direto à piscina através de um escorrega que literalmente tomava a forma do ataque mais conhecido da história do desenho: o famoso kamehameha.
— Eu juro que deixo você escorregar também. – disse em uma gargalhada, provocando. Ela me empurrou de leve o ombro, sorrindo.
— O nosso garoto tem mesmo bom gosto. – comentou, sem olhar para mim, se referindo ao desenho animado.
— Sim … — murmurei, brevemente ausente.
— O que é? – se virou novamente para me encarar.
— Nada. – respondi, tentando não demonstrar tristeza.
— Eu te conheço. – e era verdade, ela me conhecia até bem melhor que eu às vezes.
— É só que … — não fui capaz de a olhar diretamente porque era inevitável não continuar doendo um bocadinho que fosse. – … quando você fala assim parece que nada mudou.
Ela não respondeu imediatamente, parecendo pensativa enquanto se virava novamente para a piscina. Alguns segundos depois senti o seu toque muito ao de leve nas minhas costas, mas não me atrevi a mexer.
— Isso não me preocupa. – comentou tranquilamente. — Sempre vão existir coisas que mudam e outras que continuarão na mesma. Não acha? – girou a cabeça ligeiramente para que me pudesse olhar.
— Acho sim. – acabei por responder com a mesma tranquilidade com que me perguntara. Ela sorriu com a resposta e eu correspondi. – Quer dizer que a decoração está mesmo aprovada? – perguntei, mudando o assunto com um sorriso ainda mais largo.
— Aprovada? Acho que você devia cobrar entrada! – tentou falar em tom sério, mas logo caímos as duas na risada.
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