Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
22 Turbulência
Notas iniciais
A viagem para Seattle havia sido tranquila. Como apenas iríamos ficar o tempo necessário para os meus exames e diagnóstico, achámos melhor levar Henry connosco já que ele assim não iria perder muito tempo de aulas. Além disso, com o ambiente como tinha ficado em Nova Iorque depois da invasão de Gold, deixar Henry lá sozinho com algum dos empregados seria arriscar demais. Sem contar com Neal, sabe-se lá onde, esperando uma oportunidade para se voltar a aproximar do menino.
Emma desfazia a mala sobre a cama do quarto de hóspedes enquanto eu checava alguns e-mails de trabalho no tablet. Escutei-a largar um suspiro exasperado e desviei por dois segundos o olhar do que estava fazendo no aparelho eletrónico.
– O que foi? – Questionei.
– Pensar que aquela noite no hotel ficou estragada é frustrante. – Disse sem parar de tirar as roupas da mala.
– Você não precisa de uma noite em um hotel pra ter sexo comigo. – Respondi vagamente, reencaminanhado mais um e-mail importante a Katia.
– Isso foi desnecessário.
Voltei a desviar a atenção do tablet para ela, desta vez mantendo o olhar continuamente nela. Fiquei observando-a durante alguns segundos enquanto ela guardava algumas roupas no armário.
– O que foi? – Perguntei mais uma vez, fazendo-a me olhar.
– Essa resposta … — Respondeu, se aproximando de onde eu estava, numa cadeira perto dos pés da cama. – … não era preciso responder assim.
Eu acabei rindo da maneira dela e balancei a cabeça levemente, voltando de novo o olhar para o aparelho.
– Poxa Regina! – Exclamou repentinamente, me assustando e ao mesmo me fazendo mais uma vez deixar o tablet de lado para olhá-la. – Você sabe que eu vou até ao final do mundo com você e por você … agora custa cooperar?
– Ninguém te obrigou a vir comigo. – Respondi secamente.
– Muito bem. – Revidou, se sentando na cama, quase de frente para mim. – Quer continuar com essa indiferença pra cima de mim até quando? Eu não tou cobrando absolutamente nada de você e nem quero, mas acho que também não mereço isto.
– Okay. – Respondi, me levantando e jogando o tablet na cadeira. – Você tá frustrada. Eu entendo. – Cheguei junto dela, me colocando entre as suas pernas, e desci devagar, até me sentar numa das suas coxas.
– O que você tá fazendo? – Perguntou em voz baixa.
– Acabando com a sua frustração. – Esclareci, descendo com rapidez a mão esquerda até ao cos da sua calça.
– Eu não acredito que você tá fazendo isso. – Agarrou a minha mão e a afastou, fazendo força para que eu saísse de cima dela.
– Não entendo você. Não era isso que queria? – Respondi sem paciência e me levantei.
– Se eu quisesse isso … — Ela enfatizou o “isso” ao mesmo tempo que descia o olhar para o seu centro. – … eu mesma o faria. Sério, detesto quando você se faz de burra pra não ter de falar comigo sobre o que importa!
Desta vez fui eu a suspirar. Levei uma das mãos à testa e esfreguei o local, fechando brevemente os olhos.
– Eu não te quero machucar Emma. – Respondi enfim, tristemente.
– Mas você tá começando a conseguir.
Olhei-a com tristeza, mas não fui capaz de dizer mais nada. Voltei a minha atenção depois para o tablet sobre a cadeira e ia tornar a pegá-lo, mas acabei sendo impedida por ela que me agarrou pelo braço me fazendo virar de novo para encará-la.
– Eu não vou a lado nenhum. Eu sei que você acha que tá protegendo a mim e a Henry, mas não está. – Disse seriamente, os seus lábios quase desenhando uma linha reta pela tensão. – Acha mesmo que é por nos mandar embora que a gente não vai sofrer junto com você? – Soltou uma risada fraca, irónica e amargurada. – Você não controla tudo. E se você não me obrigou a te amar, não é a deixar de te amar que você vai-me obrigar. As coisas simplesmente não acontecem assim.
Baixei o olhar, encarando o chão de cabeça baixa, talvez mais baixo do que um dia eu imaginaria ter a capacidade de me submeter. Mas aí ela me fez reerguer o rosto, me segurando pelo queixo com uma das mãos.
– Você é minha rainha, e acredite, não é a possível existência de uma doença que me assusta mais ou me faz te admirar menos, pelo contrário. Você me resgatou e me fez voltar a acreditar no melhor sentimento do mundo e que eu achei que não era mais pra mim. – Ela falava tão cheia de firmeza e amor que me almaldiçoei pelas lágrimas que toldaram a minha visão deixando-a turva. – Você me ensinou tantas coisas boas, você já me deu tanto … e não tou falando de coisas materiais. – Acrescentou vendo que eu iria abrir a boca, e ela estava totalmente certa, eu iria, porque sou terrivelmente cabeça dura. – Eu iria ao inferno pra te buscar se fosse preciso, você tem noção disso?
– Você não tem de …
– Então não me obriga a ir, porque acredita em mim Regina, isso seria uma coisa que você me obrigaria a fazer se fosse preciso.
Abanei a cabeça para cima e para baixo com intensidade, fechando os olhos, prendendo as lágrimas no canto dos olhos que eu sei que caíriam inevitavelmente quando eu os tornasse a abrir.
– Vem cá. – Me abraçou, me fazendo despencar nos braços dela a meio dos meus sussurros deseperados de “desculpas” engolidos pelo som dos meus soluços. – A gente vai sair dessa, você vai ver.
Ela continuou me abraçando, me afagando as costas, e me beijando às vezes o rosto por cima das lágrimas. Quando consegui-me acalmar minimamente, ainda assim me permiti continuar ali na segurança dos seus braços, apenas a sentindo contra mim, sua respiração batendo quente na minha têmpora perto do ouvido e seu perfume natural me preenchendo as narinas encostadas aos seus cabelos loiros. Inspirei a sua fragância com intensidade como se me pudesse ajudar a respirar melhor novamente. Beijei a sua bochecha direita e abracei-a mais ainda, incapaz de a largar tão cedo. Como é que eu poderia viver longe dela se era tão difícil soltá-la de mim?
– Eu achava que tinha conhecido finalmente o conceito de família com Neal, mas eu estava tão errada. – Emma me dizia naquela tarde de Domingo, enquanto víamos Henry brincando com as outras crianças no parque. – Não digo que não tenham existido momentos bons, mas isso aqui .. – Ela me apertou pelos ombros me abraçando mais no banco em que estávamos sentadas de frente para os balanços onde uma das crianças balouçava empurrada por uma mulher. – … isso aqui eu nunca senti. Essa sensação de pertencer a algo maior que dá sentido à sua vida. – Ela sorriu e estalou um beijo ruidoso numa das minhas faces me fazendo rir. – Eu não tive pais …
Eu ia interrompê-la, porque sabia o quanto a lembrança da sua infância sendo órfã era triste para ela, mas ela se antecipou, continuando:
– Mas junto com você eu aprendi a ser mãe.
– Emma! – Eu ri. – Você já era mãe antes de me conhecer.
– Até pode ser. – Ela respondeu, olhando para um Henry suado de oito anos que corria entre os balanços e o escorregador. – Mas eu só me senti uma mãe de verdade com você. Estranho não é? – Se virou para me olhar, sorrindo.
– Desde que eu me apaixonei por você eu não acho mais nada estranho. – Respondi dando-lhe um selinho rápido no canto da boca.
– Porquê oras? Eu sou assim tão desapaixonável? – Inquiriu ofendida.
– Não é isso boba! – Tive de rir do bico que ela pôs e segurar a vontade de o morder. Em vez disso, fixei os seus dois globos oculares grandes e expressivos e me perdi por segundos neles, mergulhando naquele encantamento que eram as suas esmeraldas. – Eu apenas …
– O quê?
– Ah Emma … eu nunca fui muito de me apaixonar. – Desvalorizei o assunto, desviando o olhar para Henry que agora estava subindo para o escorregador atrás de um outro menino. – Eu acho que nunca ninguém conseguiu transpor essa última barreira como você fez comigo.
– Então, quantas barreiras as outras conseguiram transpor? – Perguntou em tom de divertimento.
– Hmm.. – Tentei refletir sobre a pergunta dela de forma ausente, acabando por me distrair pela forma criativa como Henry tinha descido no escorregador, e depois de chegar no chão, olhar na nossa direção e fazer o sinal de “irado” com a mão, me fazendo repetir o gesto e mandar um beijo pelo ar enquanto ele fingia ser atingido por esse beijo imaginário no peito e logo depois fingia desfalecer, acabando por me fazer rir alto.
– Quantas foram hein? – Escutei Emma do meu lado de novo, me fazendo encará-la, me relembrando a pergunta que ela fizera e que eu acabara por não responder por estar embevecida pelas brincadeiras de Henry.
– As barreiras? – Questionei franzindo a testa, ao que ela assentiu com a cabeça. – Hm .. eu diria que antes de você todas conseguiram transpor qualquer barreira que envolvesse tecido de roupa. Se você contar com a lingerie, e dependendo da época do ano, eu diria que pelo menos umas cinco ou seis barreiras algumas conseguiram transpor.
Ela me deu um encontrão com o ombro me fazendo rir.
– Puxa vida, agora fiquei super tranquila. – Respondeu emburrada com ironia.
– Ah querida, você não escutou o que eu disse? – Ela ergueu a sobrancelha esperando esclarecimento. – Que nunca ninguém conseguiu transpor essa última barreira como você fez comigo.
– E que barreira é essa?
– Aquela que vestia o meu coração. – Respondi com um sorriso sincero. – E nem tou falando de tecido sabe? Era mais uma armadura de ferro que o protegia do exterior.
– Então quer dizer que eu te deixo indefesa? – Perguntou séria.
– Talvez. – Respondi ainda sorrindo. – Mas não importa, porque eu nunca me senti tão feliz como eu me sinto com você. – Ela abriu aquele sorrisão que eu amava, me fazendo quase de certeza parecer uma tonta a olhando.
– Mãeeeeee! – Henry soltou um grito entusiasmado nos fazendo desviar o olhar uma da outra para ele. Ele estava de novo no cimo do escorregador, mas quando viu que a gente o olhava, ele se deitou e escorregou mesmo assim naquela posição. Depois antes de chegar completamente embaixo se endireitou e soltou um grito qualquer.
Nós as duas rimos daquela bagunça dele. Assim que ele parou, se levantou e correu na nossa direção, o seu rosto estava todo vermelho de tanto correr e pular.
– Podemos ir tomar sorvete, podemos podemos? – Ele pedia juntando as mãozinhas em sinal de súplica e olhava de Emma para mim. Depois, ele fez algo inesperado, se virou diretamente para mim e com uns olhinhos de cachorrinho pidão, tornou a falar. – Podemos mãeee? Por favor! – Ele cantarolou todo alegre.
Foi aí que eu percebi que o “mãe” de antes, quando ele estava no escorregador, tinha sido para mim e não para Emma, até porque eu nunca o ouvira chamar Emma desse jeito, com ela era sempre “mamãe”. Demorei um pouco para me recompor, e foi impossível não trocar um olhar com Emma ao meu lado, que no mesmo instante tentou disfarçar a emoção que tomou conta também do seu olhar, o tornando mais brilhante ainda pela iminência das lágrimas. Ela também havia reparado na nova forma de tratamento do menino para comigo. Olhei para ele de novo e abrindo um sorriso enorme, respondi-lhe com uma alegria que não tinha ideia que era possível sentir dentro do peito:
– Claro que podemos ir tomar sorvete, meu filho.
– Oba!! Eu vou querer de flocos! – Ele exclamou naturalmente, voltando a correr para o escorregador todo feliz e completamente alheado do significado do que acabara de acontecer.
– Eu não quero ficar naquele quarto! – Henry entrou porta adentro do quarto sem bater ou pedir licença fazendo com que eu soltasse Emma repentinamente. – Tá tudo rosa e cheio de boneca por todo lado e a cama tem cheiro de fraldas.
– E desde quando você é mal-educado desse jeito? – Emma repreendeu se voltando para ele.
– Desde que vocês andam aí de segredinhos e ficam … — Ele começou de um jeito trocista. – “Henry vai pro quarto, Henry agora vá tomar banho, Henry … blá blá” … se era pra ficar trancado num quarto com cheiro de fralda, eu preferia que vocês me tivessem deixado trancado no meu quarto!
– Escuta aqui moleque … — Emma chegou perto dele e o puxou pelo braço. – Mas você pensa que tá falando com algum dos seus coleguinhas da escola?
– Pra eu falar com algum dos meus colegas era preciso eu poder ir pra escola e não ficar sendo mandado a toda hora pro quarto! – Ele respondeu gritando na cara de Emma com maus modos.
Mal ele acabou de falar, e sem que eu conseguisse impedir, Emma levantou a mão e deu uma bofetada na cara dele. Henry se encolheu no mesmo instante, olhando para ela horrorizado. Eu mesma fiquei sem ação, nunca naqueles anos todos havia visto Emma levantar a mão para ele, quanto mais chegar a bater-lhe de fato.
– Eu odeio você! – Henry gritou com raiva esfregando o rosto com a mão. Depois, antes que a gente o visse chorando, ele saiu do quarto batendo a porta com força.
Emma olhou para mim completamente abalada e sem saber o que dizer. Apenas se sentou numa das extremidades da cama e baixou a cabeça, escondendo o rosto nas mãos.
– Emma. – Me aproximei dela, me ajoelhando à sua frente. Segurei nas mãos dela que tapavam o seu rosto e as trouxe para o seu colo, as mantendo seguras nas minhas. – Amor, não fica assim. Você sabe que ele não quis dizer aquilo, isso tudo tem sido difícil também pra ele … ele é um menino sensível. Eu devia ter falado com ele melhor sobre esta nossa vinda a Seattle.
– Eu não sei o que deu em mim pra bater nele. – Ela sussurrou com a voz entrecortada, dando sinais de choro. – Você sabe que eu nunca fiz isso, eu não sei…
– Shiiu, querida, eu sei. – Cortei, trazendo a suas mãos até aos meus lábios e as beijando. Me endireitei e me sentei ao seu lado na cama, limpando a sua face das lágrimas que começavam a escorrer. – Eu sei meu amor, não fica assim. Não tem sido fácil pra você também não é? – Disse com pesar, meu coração dolorido por ter de presenciar toda a angústia e dor dela. E que em parte, eu sei que também tinha contribuido para acumular. – Eu vou falar com ele… hm?
Ela esboçou um sorriso que não fazia os seus olhos brilharem e assentiu com a cabeça.
– Sua vez de descansar tá bom? Já já o nosso filho tá aí rindo com a gente. – Notei o quanto o seu sorriso se tornou mais alegre com as minhas palavras, e eu sorri de volta, a beijando com suavidade, antes de acrescentar num sussurro. – Desculpa esse meu jeito prepotente. – E saí do quarto sem lhe dar tempo para responder.
*** *** ***
Henry estava no quarto rosa com cheiro de fralda. Bem, rosa realmente era a cor das paredes do cómodo onde Giorgio idealizara o quartinho da sua filha que pelo que eu fiquei sabendo nunca chegara de fato a morar com ele ali. Quanto ao cheiro de fralda nitidamente Henry tinha inventado, tendo em conta que o único cheiro que predominava na divisão era aquele cheirinho característico a bebé, provavelmente vindo de algum spray aromatizador ou talvez dos sachês perfumados que era bem a cara de Gior ter colocado em alguma das gavetas dos móveis.
Henry não deu pela minha presença, embora eu tenha fechado a porta atrás de mim quando entrei no quarto. Dava para escutar o seu choro abafado enquanto o observava encolhido no chão, sentado, encostado à cama, com a cara escondida entre os joelhos. Se não foi dor física aquela que senti dentro do peito, então foi muito semelhante a isso, porque estava doendo muito, dolorosamente. Meu reflexo me fez cobrir o seio esquerdo com a mão, sentindo as batidas fortes contra a minha caixa torácica.
Aproximei-me em silêncio do menino que continuava sufocando o choro entre as pernas, e me baixei com cuidado, me sentando ao seu lado. Só aí ele pareceu sentir a minha presença, porque levantou a cabeça e me olhou, limpando rapidamente a cara na manga comprida da camiseta azul-marinho que vestia.
– Hey rapazinho. – Disse suavemente sem o tocar diretamente, apenas permitindo que o meu tronco encostasse levemente na lateral do seu corpo. – Acho que o cheiro a fralda foi implicância da sua parte. – Comentei em tom de brincadeira tentando amenizar a tensão. Ele fungou e engoliu um soluço cheio de valentia, mas não falou nada. – Sabe que esse cheirinho aqui me lembra você quando te conheci?
Aquilo pareceu prender a sua atenção porque ele me olhou curioso.
– Quer dizer … depois do banho que a sua mãe deve ter-te dado é claro. – Adicionei rindo o que acabou arrancando um sorriso pequeno dos seus lábios. – Lembro como se fosse ontem … — Comecei com ar nostálgico me perdendo nas lembranças daquele dia. – … eu tenho de agradecer a você, sabia meu amor?
– Me agradecer porquê? – Perguntou interessado.
– Porque foi você que me convidou a fazer parte da sua vida … da vida de Emma. – Respondi sorrindo. – Tudo porque me convidou para jantar. Se não fosse você Henry, com seus seis anos de idade, eu não seria tão feliz como eu sou hoje.
– E eu cheirava assim? – Ele franziu o nariz, fazendo uma careta. Aquilo me fez soltar uma risada antes de responder.
– Bem, como eu disse, depois de Emma dar um banho em você. Eu lembro desse jantar, dessa noite, da forma como você não parou quieto um só segundo. Eu fui jantar na casa onde você morava com sua mãe em Boston. Você não lembra? – Perguntei curiosa, me dando conta que nunca chegara a perguntar-lhe sobre aquilo.
Ele pareceu fazer um esforço para buscar essa lembrança nas suas recordações mostrando um semblante sério e concentrado.
– Acho que não. – Respondeu enfim encolhendo os ombros. – Eu lembro de você sempre.
– Como assim querido? – Arqueei a sobrancelha dando mostras que não tinha entendido a resposta dele.
– Quando eu penso em jantares, eu sempre lembro de você neles. Eu não lembro de muita coisa de quando eu era criança, mas sempre que eu lembro de mim assim, eu sempre vejo você lá comigo … — Ele fez uma pausa pesada, antes de completar melancolicamente. – … e da mamãe. Você, ela e eu, nós os três. Juntos.
Sorri com a sua resposta, enternecida. Pela forma como ele colocara as coisas, quase parecia realmente que eu sempre fizera parte da vida dele. Tive de me segurar para não chorar, porque só de lembrar das coisas absurdas que havia ponderado antes, me fazia ter vontade de bater em mim própria. Eu jamais conseguiria-me separar deles.
– Mas agora não somos mais só nós os três. – Ele continuou de repente, me tirando dos meus pensamentos. Encarei-o com atenção, esperando que ele continuasse o que parecia que ia acabar por se revelar como sendo um desabafo. – Mamãe trouxe ele para a nossa vida.
– Henry, não seja injusto meu filho. – Adverti rapidamente. – Sua mãe não tem culpa, ela também tá sofrendo sabe? – Ele me olhou parecendo não levar muito a sério aquilo que eu dissera. – É verdade, ela está. – Suspirei. – Eu sei que você é muito inteligente, mas há coisas que ainda são um pouco complexas demais para a sua cabecinha.
Ele simplesmente revirou os olhos me fazendo rir pelo gesto insubordinado.
– Quando seu pai … — Ele ia-me interromper, mas eu não permiti, continuando. – … e você tá completamente no seu direito de não o sentir assim nem de o reconhecer por esse nome. Mas acima de tudo, Henry, eu quero que você saiba que isso não muda nada entre a gente. E sobre a sua mãe, eu não quero mais presenciar toda aquela hostilidade que eu vi há pouco, tá me entendendo? – Ele enrugou a testa, e eu acrescentei, esclarecendo. – Agressividade Henry. Você foi agressivo, desrespeitoso no modo como se dirigiu a ela.
– Ela me bateu! – Contestou, se defendendo.
– Sim, eu sei. – Assenti tristemente. – E isso também não foi bonito. Ela ficou muito mal depois de você sair, querido.
– Eu só quero ir pra casa. – Suspirou, cabisbaixo. – Afinal o que a gente veio fazer aqui? – Tornou a me olhar, não me deixando alternativa a não ser contar a verdade.
– A nossa vinda até Seattle não tem nada a ver com Neal ou com aquela confusão toda que aconteceu na nossa casa com a imprensa. Pelo menos não tem a haver só com isso. – Expliquei com calma, tentando não transparecer o quanto estava ficando nervosa. – Você sabe que as clínicas de Gior são aqui, certo? – Ele fez que sim com um maneio de cabeça. – Então … eu preciso fazer uns exames médicos, e assim juntamos uma coisa à outra. Nos afastamos da confusão durante uns tempos e eu faço os exames aqui com Gior.
– Mas .. – Seu rosto adquiriu contornos de preocupação. – Você tá doente mesmo?
– Oh querido … não, claro que não. – Me apressei a responder, talvez de forma exagerada, já que ele mostrou uma cara enorme de desconfiança. – É rotina, meu amor. Sua mãe tá me enchendo já há muito tempo por causa de umas dores de cabeça que eu ando sentindo, então eu decidi fazer esses exames pra provar a ela que tá tudo bem. – Sorri para ele, decidindo não aprofundar muito mais o tema, até porque realmente, tudo aquilo que eu sentia ultimamente podia ser apenas do stress.
Ele acenou positivamente com a cabeça e largou a respiração com força fazendo seus ombros descaírem um pouco.
– Posso sair um pouco, conhecer as redondezas enquanto Gior não volta? – Perguntou, mudando de assunto. Giorgio havia-nos deixado no seu apartamento para nos instalarmos à vontade enquanto ele tratava de alguns assuntos dele.
– Porque não chama sua mãe? Ela vai adorar dar uma volta com você. – Sugeri gentilmente, tocando-lhe no braço.
– Ela deve tar chateada comigo.
– Você também não tava chateado com ela? – Perguntei e ele fez que sim com a cabeça. – E agora, ainda tá?
– Não. – Respondeu esboçando um sorriso de canto. Sorri e inclinei-me, esbarrando de leve no ombro dele.
– Então tenho a certeza que ela também já não está. – Pisquei o olho para ele de forma cúmplice e seu sorriso aumentou de tamanho.
Ele se levantou do chão onde estava ao meu lado, depois de me beijar a bochecha, e saiu do quarto, me deixando com um sorriso no rosto ao mesmo tempo que contemplava cada um dos brinquedos arrumados em seu devido lugar. Todos novos, cheirosos, e imaculados, aparentemente esperando por Emily.
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