Notas iniciais
Olá a todos! =) Me desculpem desde já, mas vou ser um pouco chata hoje com as notas. É o seguinte: Em primeiro lugar, este capítulo tem bastante coisa em italiano no inicio (vcs já vão perceber pq), então vou colocar a tradução nestas notas em vez de ser no final como é habitual. 1* Mangiare di più, signorina! / Tu sei molto magra, devi mangiare di più. Non essere tímida, ti prego! Mio ragazzo Giorgio non gradiranno. – Coma mais, senhorita! / Você é muito magra, tem de comer mais. Não seja tímida, por favor! Meu menino Giorgio não vai gostar. 2* Nonna! / Si vuole trasformarla in una palla gonfiabile giorno del suo matrimônio? – Avó! / Você quer transformá-la em uma bola inflável no dia do seu casamento? 3* Lei è molto magra. Lasciala mangiare lá torta! / Ela está muito magra. Deixe-a comer o bolo! 4* Nonna, lei sposerà presto! / Ha solo bisogno di essere nudi in luna di miele, e non alla cerimônia di nozze. – Avó, ela vai se casar em breve! / Ela só precisa ficar nua em sua lua-de-mel, e não para a cerimônia de casamento. 5* Stronza! / Che cosa è stato? – Estúpida/cretina (ou algo mais pesado) (..) / O que foi? 6* Non voglio la bocca sporca nella mia cucina! – Eu não quero boca suja na minha cozinha! 7* Grazie. La torta è deliziosa. – Obrigado. O bolo é delicioso. Frases com palavras soltas no meio jogadas em italiano, como já tenho feito, optei por não traduzir, porque acho que se pressupõe o que seja, mas caso haja algo que não tenha ficado claro, eu peço por favor que me falem sem qualquer problema. Qualquer coisa errada também da minha parte, é só gritar que eu agradeço! _____ // _____ // ______ // _____ // ______ // _____ // ______ // _____ // ______ // _____ // ___ A outra coisa que queria falar convosco veio de uma ideia que a Royal Bruna me deu, porque ela ficou curiosa com esta cena (cap 20) em específico que eu não desenvolvi: “Percorrendo a pele do meu rosto com os lábios, ela parou por instantes na minha têmpora, e segredou no meu ouvido a verdadeira proposta para aquela noite no hotel. – Miss Swan! – Exclamei surpreendida, afastando o rosto para olhá-la. – Quem te anda ensinando essas coisas? – Eu ri, a puxando para um beijo logo de seguida selando o acordo silencioso.” Então e eu sei que não foi só a Bruna que ficou se perguntando sobre a proposta de Emma no ouvido de Regina xD … além disso, tem gente que vem sentindo falta das cenas hot delas, então, pegando no pedido da R. Bruna para a concretização dessa saliência toda da Emma, segundo as palavras dela loool, eu tive a ideia de pedir a vossa ajuda. Eu vou lançar três hipóteses que envolvem cenas hot para vcs escolherem uma em que se irá revelar mais à frente (quando eu decidir escrever a cena da saliência xD) ser o fetiche/pedido de Emma para Regina que acabou por não se realizar naquele momento devido aos problemas que surgiram. Ok, me ajudam? Se acharem bacana a ideia, quando chegarem ao final desse capítulo terão nas notas finais 3 hipóteses, vou pedir que cada um de vcs APENAS escolha UMA, e aí a hipótese com mais votos será incorporada numa cena hot delas como se tivesse sido a tal proposta (in)decente de Emma do cap 20. Ah, outra coisa, sorry! Neste cap vcs vão descobrir (ou confirmar) qual o nome da mãe de Regina, e automaticamente relacionar tudo que já foi mostrado na fic à personagem de OUAT, por favor, não o façam. Eu adulterei um pouco a personagem, portanto não estranhem se a personalidade dela não for a mesma. Foi propositado. Boa leitura!

Quando Gior regressou, Emma e Henry ainda não tinham voltado da rua, e embora eu tentasse não pensar muito sobre isso, meu receio que algum paparazzo disfarçado estivesse na nossa cola não me deixava completamente descansada. Temia que eles pudessem ser fotografados, ou pior, mesmo incomodados pela imprensa. Tentei não deixar meu pensamento voar muito longe, porque se o deixasse, estou certa que ele acabaria por me deixar exageradamente ansiosa e paranóica.

Enquanto isso, a empregada de Gior me preparava de forma atenciosa um café preto bem forte e me servia uma fatia enorme de bolo na cozinha.

– Oh por favor, não era preciso uma fatia tão grande. – Disse à mulher de meia-idade que era de uma gentileza incrível, embora ela claramente não entendesse muito do que eu dizia.

Ela tinha alguns cabelos grisalhos, e embora as rugas delicadas que lhe enfeitavam o rosto, nomeadamente à volta dos olhos, fossem sinais de velhice, mesmo assim ela apresentava um ar leve e jovial. Definitivamente aquela mulher sabia envelhecer, porque sua boa disposição e sorriso quase permanente a faziam se tornar uma companhia muito agradável.

– Mangiare di più, signorina! – Ela sorriu, colocando o prato com o bolo inteiro na mesa à minha frente e começando a partir mais um pedaço. – Tu sei molto magra, devi mangiare di più. Non essere tímida, ti prego! Mio ragazzo Giorgio non gradiranno. (1*)

Eu acabei rindo e balancei a cabeça levemente, deixando a mulher colocar mais bolo no meu prato, mesmo que eu não soubesse onde ia caber tanto bolo dentro do meu estômago. Calculei depois das primeiras impressões, embora Gior quase nada me tenha adiantado sobre aquela mulher — claramente muito mais do que uma empregada — que ela devia ter um papel muito importante na vida dele. O jeito dela falar sobre ele e o modo como o tratava do pouco que tinha visto era quase maternal, e isso de alguma forma me fez sentir menos triste por não ter estado presente na vida do meu amigo nos últimos anos.

– Nonna! – Gior exclamou entrando de rompante na cozinha. – Si vuole trasformarla in una palla gonfiabile giorno del suo matrimônio? (2*) – Ele pegou no prato com o bolo e o entregou a Giuseppina – sua empregada – pedindo para que ela o guardasse. – Qual é sua ideia Regina? Acabar com os meus planos? — Dirigiu a pergunta a mim indignado.

– Seus planos? – Perguntei com sarcasmo. – Giorgio querido, eu peço desculpas, mas quem vai-se casar sou eu, portanto os planos também pertencem a mim e não a você.

– E é mais que certo que seus piani passam pela negligenza. – Respondeu com ironia cruzando os braços.

Giuseppina balançou a cabeça como se achasse a atitute de Gior absurda, o que de fato eu concordava, até porque ele estava levando essas ideias mirabolantes para o casamento e para o aniversário de Henry a um nível surpreendentemente disparatado. Ele queria convocar a própria produção da companhia circense do Cirque du Soleil, por amor de Deus! Como é que alguém no seu juízo perfeito pensaria numa coisa dessas com o que estava acontecendo na minha vida?

– Lei è molto magra. Lasciala mangiare lá torta! (3*) – Giuseppina exigiu a Gior franzindo a testa, deixando as suas rugas mais marcadas na sua pele clara. Ela colocou as mãos na cintura como se ralhasse com um menino pequeno e aquilo me fez rir.

– Nonna, lei sposerà presto! – Respondeu à mulher que o olhava com um olhar severo que não combinava nada com ela nem com a posição que uma empregada deve ocupar numa casa em que esteja trabalhando. Isso claro, se ela fosse apenas uma empregada. Claramente não era, até pelo apelido carinhoso com que Giorgio a tratava. – Ha solo bisogno di essere nudi in luna di miele, e non alla cerimônia di nozze. (4*)

A mulher bufou, visivelmente aborrecida com a insistência do seu neto emprestado em me negar o bolo, e simplesmente se virou para a pia continuando com as suas tarefas.

– Você tá exagerando. – Falei para ele, tomando um gole do café. – Como sempre. – Acrescentei com um revirar de olhos.

– Non, mio bene. – Ele pegou na chaleira que fumegava em cima da mesa, e despejou um pouco de água numa xícara que pegou para ele. – Essa sua negligenza em relação ao matrimônio é que não é normal. Emma comprou um anel de noivado pra você per Dio! Custa colaborar e dar algum amor à sua futura moglie?

– Ela já é minha mulher, Gior. – Respondi assertiva. – Não é uma festa que vai fazer a diferença.

– Regina … — Ele suspirou, soprando depois para o líquido na sua xícara tentando o arrefecer para conseguir tomar o seu chá. – Não é apenas a cerimónia de casamento que acho que tá descurando. – Ele não me olhava, se concentrando no chá.

– O que quer dizer? – Verguei a sobrancelha.

Ele levantou o olhar e ficou me olhando pensativo.

– Ah Giorgio! Se tem alguma coisa pra me dizer, diga logo! – Exclamei impaciente com as caras e bocas que ele fazia em silêncio.

– Você deveria fazer mais sexo. – Respondeu como se aquela resposta fosse francamente aceitável.

Giuseppina olhou para trás, na nossa direção, por cima do ombro, e eu tive vontade de me enfiar num buraco, mas apenas lancei rispidamente a Gior:

– O quê?

– Não, sério! Quantas vezes vocês tão fazendo por semana? – Perguntou, subitamente muito interessado no tema.

– O que você tem a ver com isso?

– Regina, mio cuore, eu sou médico.

– Sim, neurologista e não sexólogo! – Revidei na defensiva. – Ou tá se especializando em sexologia e quer me usar como objecto de estudo? – Sussurrei, constrangida com a presença de Giuseppina, embora tenha quase a certeza que ela não percebia praticamente nada do que eu falava.

– Acho que o problema deve ser a qualidade do sexo mesmo. – Encolheu os ombros e tomou finalmente o primeiro gole do seu chá. – Lembro bem que você ficava tensa quando ficava muito tempo sem conseguir…

– Te bater? – Interrompi dando um chute no seu tornozelo por debaixo da mesa.

– Stronza! – Ele gritou com a dor, batendo o joelho com força no tampo da mesa. Antes que ele conseguisse se recompor, Giuseppina deu-lhe com a colher de pau em um dos ombros o fazendo gemer ainda mais de dor. – Che cosa è stato? (5*) – Perguntou à mulher que o olhava com censura.

– Non voglio la bocca sporca nella mia cucina! (6*) – Repreendeu como se Giorgio fosse uma criança.

Levei a mão à boca, escondendo o riso, internamente achando muito bem feito o que a mulher tinha feito, mas nem ousei em abrir a boca ou ainda levaria com uma colherada também.

Gior se encolheu como um menino e aquela cena foi de longe impagável, e logo a mulher tornou a sorrir, se virando para mim e me estendendo mais um pedaço de bolo.

– Grazie. La torta è deliziosa. (7*) – Respondi educadamente, aceitando mais um pedaço de bolo que provavelmente eu iria ter de esconder em algum lugar porque se o comesse iria arrebentar. Mas recusar algo de Giuseppina a partir daquele dia estava fora de questão! Ela era francamente assustadora quando queria.

Ela sorriu, satisfeita, e tornou a se virar para a bancada para os seus afazeres.

Giorgio esfregava o ombro e me olhava com cara feia por eu estar rindo em silêncio dele.

– Talvez a causa da sua tensão seja apenas demasiada cafeína. – Disse ele, apontando para o café que eu terminava de tomar.

– Ou talvez seja o agravamento da sua idiotice. – Revidei com deboche. – Mas talvez você tenha razão … — Ele fixou o olhar em mim surpreendido. — … talvez eu ande negligenciando Emma um pouco. – Confessei em voz baixa sem olhar para ele.

– E por que acha che questo sta acontecendo? – Escutei-o perguntar sem transmitir qualquer tipo de prognóstico.

– Acha que eu posso ter o mesmo que ela? – Atirei sem lhe responder diretamente, o fuzilando com o olhar na tentativa de descobrir na hora qualquer tentativa de mentira fosse qual fosse a sua resposta.

Seus olhos demoraram a se ajustar ao verdadeiro significado da minha pergunta, eu consegui perceber, até porque ele mostrou num primeiro momento confusão. Mas depois, sem que ele tivesse de perguntar-me qualquer coisa, ele soube ao que me referia e a quem com a pergunta que fiz.

– Não minta pra mim. – Exigi com a voz firme, antes que ele pudesse responder.

– É essa a razão de você tar transcurando de Emma?

– Eu te fiz uma pergunta Giorgio. – Respondi bruscamente.

– Sì, lo so. Mas eu fiz uma pergunta antes de você. – Esboçou um sorriso pequeno, impregnado de autoridade. Revirei os olhos.

– Também. – Respondi, derrotada. – Acho que essa também é uma das razões.

– E as outras?

– Eu não quero que eles sofram. – Concluí, o encarando com verdadeira honestidade.

Ele sustentou o meu olhar com seriedade. Levou a xícara de chá aos lábios e absorveu mais um pouco do líquido sem retirar os olhos dos meus. Pousou novamente a xícara no pires em cima da mesa e esboçou um sorriso inesperado.

– Associar a distância ao apaziguamento do sofrimento è un'illusione quando você ama essas pessoas. – Ele disse calmamente. – Você mais do que ninguém deveria saber isso, non è vero?

Não consegui responder nada, então ele continuou com a mesma calma de antes na voz:

– Sua mãe pode ter morrido, mio bene … — Meu olhar fraquejou, se fixando na xícara vazia de café à minha frente. – … mas suo padre è ancora vivo. E mesmo assim, você parou de sofrer por estar longe dele?

– É diferente. – Argumentei, subindo de novo o olhar inquieto até ao dele. – Meu pai está vivo apenas fisicamente. Ele deixou de ser meu pai há muito tempo e você sabe disso!

– Eu tenho o visitado. – Respondeu, e aquilo me apanhou de surpresa, porque não fazia ideia que ele mantivera contato com o meu pai durante aqueles anos em que tínhamos estado afastados. – Perdonami per manter em segredo, mas foi a forma que eu achei para não me sentir tão longe de você. A distância também não diminuiu o meu sofrimento. – E desta vez foi ele que desceu o olhar até à xicara.

Balancei a cabeça incrédula, sem querer acreditar que Giorgio havia continuado a visitar o meu pai depois de termos quebrado contato, e que eu, pelo contrário, fora precisamente nesse momento, em que deixei de ver ou falar com Gior, que o deixei de visitar na instituição especializada para doentes com demência avançada.

– Como .. Giorgio … – Balbuciei, tentando achar as palavras mas sem grande êxito. – … como … eu não fazia ideia …

– Eu estou tirando uma especialização em Neurocognição e Demências. – Esclareceu, me deixando ainda mais boquiaberta. – Eu queria con tutto mio cuore que houvesse una cura, mio bene … — Ele suspirou, esboçando um sorriso triste. – Eu tenho feito alguns exercícios com ele, ele às vezes fala o seu nome …

– Para Gior, por favor. – Cortei, não suportando sentir as lágrimas ardendo no canto dos meus olhos. – Eu não sei porque você foi-me contar isso. – Me levantei abruptamente, não aguentando estender qualquer tipo de conversa que envolvesse aquele assunto.

– Não é se afastando das pessoas que você vai deixar de sofrer. – Ainda o escutei dizer, antes de sair da cozinha e me enfiar no quarto de hóspedes da casa dele.

*** *** ***

Mal podia acreditar que Gior nesses últimos anos estivera tão perto e eu sem saber. Ainda por cima encontrando com meu pai na clínica em que ele estava internado há longos anos desde que deixara de conseguir administrar a sua vida sozinho, de forma independente. A minha cabeça estava estourando de dor, e eu não sabia nem mais como me sentia direito. Me fechei no quarto e corri para a cama, enfiando a cabeça no travesseiro. Minha vontade era sumir, achar um botão qualquer de off na minha nuca ou em qualquer outro lugar do meu corpo e poder apertá-lo, nem que fosse por alguns segundos.

Levantei repentinamente, segurando uma breve tontura e procurei pela minha bolsa. Ao avistá-la jogada no banco que ficava aos pés da cama, procurei pelos comprimidos que andava tomando para a dor de cabeça sem qualquer prescrição médica. Coloquei dois na boca e fui para o banheiro do quarto para beber um pouco de água a fim de os fazer descer pela minha garganta. Me olhei por momentos no espelho e pude comprovar que estava com o aspecto que eu desconfiava: horrível. Abri a torneira e passei um pouco de água fria no rosto, molhando algumas mechas teimosas do meu cabelo que insistiam em cair para a frente. Girei nos calcanhares e me baixei, sentando no vaso sanitário com a cara enterrada nas mãos, completamente transtornada.

Continuei caminhando lentamente pelo corredor comprido sem parar ou desviar a minha atenção para as portas que davam entrada para os diversos quartos dos pacientes ali, ou como eles gostavam de chamar, membros da comunidade do Alecrim. O espaço não era dos piores, tendo em conta o que vazava às vezes através da comunicação social sobre os asilos para doentes mentais. Não, muito pelo contrário, a Casa do Alecrim era um centro especializado concebido exclusivamente para pessoas com demência. Fora um espaço construído de raiz a pensar em pessoas com características muito próprias, promovendo condições e projetos ajustados à realidadepessoal, familiar, social, psicossocial e situacional de cada pessoa com Demência. E em termos de ambiente, caso fosse possível se abstrair da dura realidade, era até um espaço bastante alegre e arejado. Os funcionários também eram muito atenciosos, todos os profissionais aliás que trabalhavam ali, mas a cada novo passo na direção do quarto do meu pai, eu era capaz de sentir as minhas pernas cada vez mais bambas e um remoinho muito incomodativo na barriga de nervoso.

– Está se sentindo bem, mio bene? – Meu amigo perguntou em voz baixa e eu pude sentir a sua mão grande nas minhas costas, me conduzindo na direção da porta que se aproximava à nossa direita. – Ele me pareceu bastante sereno ontem. – Ele me ofereceu um sorriso pacificador, e eu suspirei.

Entrámos na sala espaçosa, onde estavam três senhores de idade bastante avançada sentados ao redor de uma mesa com um baralho de cartas. Em vez de estarem jogando algum jogo de cartas, como seria o mais lógico, um deles estava empilhando carta sobre carta parecendo construir um castelinho enquanto outro deles olhava absorto, praticamente ausente, com seus olhos meio vidrados para o castelo de cartas. O terceiro homem parecia ser menos idoso que os outros dois, e se balançava na cadeira, o que chamou logo a atenção de um dos assistentes da sala que apressou o passo na direção dele, parecendo explicar gentilmente o perigo de se balançar daquela forma.

– Cadê meu pai? – Perguntei a Gior, desviando o olhar daquela cena e percorrendo toda a sala com o olhar. – Ele não está aqui. – Senti meu coração apertado e sem me dar conta apertei com força o braço de Gior ao meu lado.

Outro funcionário que passava por ali com uma bandeja para levar a refeição para um doente provavelmente acamado, parou e sorriu atenciosamente para a gente.

– Miss Mills. – Cumprimentou com um aceno de cabeça, e depois se virou para Giorgio e deu uma piscadinha para ele, me fazendo revirar os olhos mentalmente. – Mr. Mills está se preparando para o casamento. – O rapaz disse naturalmente.

– Casamento? – Perguntei, sentindo a boca seca e a minha garganta trancada como se um nó se estivesse formando dentro dela.

– Sim, ele hoje pensa que é o dia do seu casamento. – E ele continuava falando tranquilamente como se nada daquilo fosse insanidade. – Ele está muito contente, não para de dizer que a sua noiva é a mulher mais linda de todas.

– Giorgio, eu quero ir embora. – Murmurei para o meu amigo que tinha essa capacidade formidável, diferente de mim, de se manter tranquilo com toda aquela loucura.

– Ah mio bene, vamos, não fica assim. – Ele sorriu, me segurando pelo queixo com delicadeza. – Ele está contente, você não escutou? Andiamo, vamos fazer parte dessa felicidade toda! Adoro i matrimoni!

Me deixei arrastar para fora da sala até aos jardins exteriores que eram cobertos por um toldo, protegendo as pessoas tanto da chuva como do intenso sol. Assim que avistei meu pai, parado bem debaixo de onde o alpendre acabava, ele se virou e abriu um enorme sorriso. Seu sorriso estava tão satisfeito, tão aberto, tão carregado de alegria que meu coração só não quebrou porque eu precisava dele inteiro para segurar as lágrimas que ameaçavam escorrer dos meus olhos. Senti mais uma vez a mão reconfortante de Gior nas minhas costas, me apoiando, e então caminhei até junto do homem de cabelos grisalhos, vestido de forma impecável com um paletó cinza escuro, quase negro, por cima do terno a combinar na mesma cor. Ele usava uma gravata-borboleta preta com reflexos de azul, um acessório que a minha mãe adorava o ver usando em cerimônias solenes e nunca dispensava, tendo durante o casamento deles, inclusive, comprado uma série delas de presente. Chegando mais perto dele, pude ver que a sua barba estava feita, com certeza feita a lâmina porque seu rosto estava perfeito, lisinho, e com contornos de jovialidade. Sorri tristemente por dentro, porque infelizmente essa jovialidade não correspondia à saúde mental que não mais existia na cabeça dele. No entanto tinha de admitir que os médicos, enfermeiros e todos os auxiliares tinham feito um bom trabalho com a sua imagem, até porque ele não mais possuía a capacidade de se arrumar sozinho.

– Meu amor, mas você ainda nem se arrumou! – Ele exclamou sem deixar de sorrir pegando numa das minhas mãos.

– Como vai tio Richard? – Gior perguntou estendendo a mão para o meu pai num cumprimento.

– Tio? – Meu pai fez uma cara de desentendimento e a seguir riu alto, como se Giorgio tivesse contado uma piada. – Cora, meu amor, vá se arrumar, depressa! – Ele tornou a falar para mim, e no mesmo instante senti aquela vontade de chorar se intensificando. – O padre deve tar chegando!

Eu balancei a cabeça para cima e para baixo, completamente quebrada, e mais uma vez senti Gior me apoiando rodeando a minha cintura com o braço.

– Eu vou acompanhá-la não se preocupe. – Gior respondeu ao meu pai que por sua vez o olhou de cima a baixo com ar de desconfiado. Mas isso não durou mais do que dois segundos, porque a seguir ele abriu de novo um sorriso e se desculpou dizendo que tinha de ir embora porque estava atrasado para a lua-de-mel.

Assim que meu pai desapareceu, escondi o rosto no peito de Giorgio, desabando no choro que reprimira com tanta dificuldade dentro de mim.

You'll fall like a guillotine, and kneel before the queen
You'll fall like a guillotine, and I will rise

– Ai .. quê isso? – Murmurei completamente desorientada, como se a minha cabeça tivesse sido arrancada por uma guilhotina pesada de cima do meu pescoço. – Que dor…

I don't need blue blood running through my veins because
Like a queen, like a queen, I can make you say you love me

Só depois de algum tempo reconheci que era a música do toque do meu celular atordoando os meus ouvidos que pulsavam, parecendo que os tímpanos iam arrebentar em questão de segundos se aquilo não parasse. Ajustei o foco da minha visão e vi que estava caída no chão do banheiro. Depois de cambalear mais do que uma vez, consegui voltar ao quarto, me segurando aos móveis.

– Dá pra parar de tocar? Que inferno! – Gritei, mas aparentemente não foi muito boa ideia, porque só fez a dor na minha cabeça aumentar.

You'll fall like a guillotine, and kneel before the queen
You'll fall like a guillotine, and I will rise

– Quem é? – Perguntei bruscamente sem nem olhar o nome ou número no visor.

Antes que alguém respondesse escutei um riso seco do outro lado, o que só me fez sentir ainda mais desorientada.

– Parece que hoje o dia não lhe está correndo muito bem, queridinha. – Ele disse com um leve tom de divertimento na voz. – Pensou na minha proposta? – Perguntou sem rodeios.

– Gold? – Indaguei ainda meio alucinada.

– Realmente não tá indo bem não. – Comentou sarcasticamente. – Sim, Miss Mills. É o próprio. Agora vamos ao que interessa, terá a amabilidade de me conceder a entrevista … — Fez uma pausa premeditada, antes de concluir de um jeito que me pareceu ter conotação de ameaça. – … ou não?

Levei a mão à nuca com a dor, e fechei os olhos por segundos, apenas para os tornar a abrir de novo antes de conseguir responder alguma coisa.

– Pode ficar descansado. – Respondi de forma exasperada. – Terá a sua maldita entrevista. Aguarde o meu contato. – Atirei rudemente, desligando a chamada na cara dele.

Atirei o celular com raiva para cima da cama, e soltei um rugido em voz alta, num misto de raiva e frustração. Logo depois escutei o som de alguém batento na porta, e tentei com toda a força me conter, largando um suspiro completamente consumido pela exaustão.

– Regina. – Era Emma que entrava com cautela no quarto. Seu rosto transfigurado pela preocupação, tornando a fisionomia das suas linhas expressivas inevitavelmente menos delicadas. – Você está bem?

Olhei para ela, deixei descair ligeiramente os ombros, e balancei a cabeça fracamente.

– Não. – Respondi com franqueza. Sentei-me de costas para ela, na beirada da cama.

– Gior me falou que você estava aqui. – Ela disse.

– E que mais ele disse? – Arremessei com os dentes cerrados, a encarando por cima do ombro. – Se ele se metesse mais na vida dele do que na minha talvez ele já tivesse a própria filha com ele! – Atirei irritada, e me levantei, pronta para me esconder no banheiro de novo.

– Hey! – Exclamou, e quando dei conta, ela já estava me puxando para ela. – Que mal é que ele te fez? Que mal fez o mundo a você Regina? Você tem de parar de empurrar toda a gente pra fora da sua vida! – Ela atirou de volta, e ao olhar bem para os seus olhos, vi a nítida frustração e impotência borbulhando inquitas dentro das esmeraldas que eram as suas íris.

– Me larga … — Sussurrei, minha voz sumindo e se perdendo dentro do meu peito enquanto ela continuava me prendendo a ela com força pelos ombros. – … me deixa em …

– Em paz? – Rugiu, me achocalhando o tronco. – É assim que você acha que vai conseguir isso? Ficando sem ninguém, abandonada, com pena de si própria … sozinha? Ah?

– Emma você tá me machucando! Me solta! – Gritei de volta, tentando me soltar das suas mãos que me agarraram mais ainda, me trazendo para mais perto do seu peito.

– Não! – Berrou, me fazendo arregalar os olhos assustada. – Você que tá me machucando, você que tá me deixando fora de mim … — Podia sentir seu hálito quente esbarrando no meu rosto à medida que ela falava e sua voz quebrava, baixando de tom. – … você tá arrasando com o meu coração cada vez que não me deixa entrar no seu. – Concluiu, baixando o olhar brevemente, e me soltando logo depois de forma repentina.

– Desculpa, eu não queria, eu .. – Balbuciei sem saber como continuar, vendo-a se afastando de mim cada vez mais.

– Você não queria o quê? Me machucar? – Revidou com ironia, um sorriso distorcido nos lábios rosados. – Não. – Disse, me fazendo franzir a testa sem entender. – Me machucar é exatamente o que você queria. Parabéns. – Completou, dando as costas, prestes a sair pela porta.

– Emma …

O som forte da porta batendo ficou entoando na minha cabeça, e eu desmoronei no chão, me deixando cair de joelhos aos prantos.

Notas finais
Escolham (se quiserem) apenas uma opção: 1 – Risco de flagrante no elevador/corredor (sítio público) do hotel (ou outro lugar); 2 – Utilização de strap-on dildo, isto é, brinquedo sexual – geralmente - pénis artificial; 3 – Fantasias (roupas) sexuais – aceito (e agradeço) sugestões de fantasias.