Notas iniciais
Olá meus amores =) Realmente é incrível esse processo de escrever fanfics! Se assemelha um pouco aos roteiros das telenovelas em que existem linhas gerais pelas quais o autor vai caminhando, mas ao mesmo tempo, por vezes, a audiência tem a sua influência conseguindo mudar algumas coisas que estavam até então já pré-concebidas e pensadas. Foi isso que tornei a sentir desde a última atualização com os comentários de vcs. É muito bom mesmo, porque vcs me apresentam alternativas que eu nem pensava no momento, vcs me obrigam a "sair da caixa" que eu criei. xD Nossa, como estou chata hoje. Deixem pra lá, obrigada, vcs são lindos tdos. Boa leitura!

A noite de véspera à entrevista foi passada com uma Emma demasiado distante e ausente ao meu lado. Se fisicamente ela estava comigo, já dizer-se o mesmo do resto era bastante questionável. Senti-a preocupada, mas cada vez que lhe perguntava o motivo, ela simplesmente limitava-se a ser grossa dizendo que tinha motivos mais do que suficientes para estar assim.

– Não disse que confiava em mim? – atirei já aborrecida desviando a atenção do laptop postado sobre o meu colo para ela, inerte, naquela posição enervante, encarando o teto do nosso quarto.

– Uma coisa não invalida a outra. – retorquiu secamente. – Regina, – suspirou, endireitando-se de modo a ficar encostada à cabeceira da cama. – apesar de confiar em você e nas suas decisões, não gosto de ficar sabendo das coisas pelos outros ou pelos jornais. Você já devia estar cansada de saber disso.

– Eu sei, mas essa foi uma situação extraordinária. – tentei me explicar. – E você também não pode falar muito. – não consegui evitar lançar a farpa.

Ela revirou os olhos como se dissesse “A sério?” e virou-me as costas, voltando a deitar-se.

Eu bufei indignada. Não era como se eu gostasse de discutir, mas tirava-me do sério o fato dela não admitir que mantinha ainda contato com o Outro.

Voltei a atenção para o laptop e comecei a digitar uma nova resposta para Katia por e-mail com uma série de indicações para uma reunião que aconteceria pela manhã do dia seguinte. Estava tão imersa na tarefa que acabei dando um pulo com o susto da entoação do toque do celular de Emma em cima da mesa-de-cabeceira.

Sem virar o rosto, tentei espiar pelo canto do olho a reacção dela. Era o sinal de uma nova mensagem. Olhei as horas na tela do computador: 23h 47. Não era aquela hora pouco apropriada para importunar alguém?

Vi Emma esticar o braço e pegar no aparelho e digitar rapidamente uma resposta que eu não consegui ler. Depois, em vez de tornar a pousar o celular no lugar, ela manteve-o consigo como se esperasse uma resposta de volta. Mordi o lábio tal era a vontade de enchê-la de perguntas. Será que era ele? Só podia ser para fazê-la segurar o celular daquela maneira.

Estava prestes a abrir a boca para perguntar quem era quando o meu próprio celular começou tocando. Olhei o visor: Desconhecido. Soube imediatamente que era Mr. Gold.

– Acha que isto são horas? – rosnei ao atender. Escutei a sua risada seca do outro lado.

– Faz parte do acordo. – respondeu. Instantaneamente me senti tensa. Mais ainda. – Você precisa estar em casa às duas da tarde para que a minha equipe faça os ajustes finais para a gravação da entrevista. Eu chegarei por volta das quatro para começar gravando.

– Duas horas te esperando feito uma idiota? – revidei atónica com a cara de pau daquele homem.

– Duas horas se preparando para que tudo saia como planejamos, efectivamente. – replicou sem expressão aparente. – Não vai querer aparecer com a maquiagem borrada, não é mesmo, querida? – arremessou com sarcasmo.

– Tudo bem. – respondi, me dando conta do olhar intrigado de Emma para mim. – Estarei em casa às duas. – desliguei.

– Não acha que esse cara tá ultrapassando os limites com você? – Emma perguntou assim que me viu desligar. Olhei-a confusa. – Quer dizer … se fosse outra pessoa qualquer você não baixaria a cabeça assim. Que espécie de – fez uma pausa, tentando achar alguma palavra que melhor se adequasse ao que ela queria dizer. – coisa … – sem êxito. – … tá acontecendo entre vocês?

– Entre nós … ­– minha confusão era visível. – Você sabe com quem eu tava falando?

Fez uma espécie de careta, e mais uma vez se endireitou para me olhar direito. Reparei que ela continuava segurando o celular.

– Não é muito difícil adivinhar. – respondeu como se fosse realmente óbvio. – Quem mais te ligaria à meia-noite e continuaria respirando calmamente pra te fazer concordar com tudo e mais alguma coisa? Eu só encontro um nome. Gold.

– Ele só ligou pra acertar os detalhes pra amanhã. – me justifiquei, mas assim que me dei conta que o fazia, ataquei de volta. – E você com esse celular grudado na mão? Também não me parece que sejam horas pra você ficar trocando mensagens feito uma adolescente.

– Regina, nem vem! – esbravejou irritada. – Não tente virar o jogo. Nem compare uma coisa com a outra e o assunto era você, não eu.

– Muito conveniente, não acha? – atirei com acidez. – É mais fácil me apontar o dedo a toda a hora em vez de olhar pra você mesma.

Ela soltou um som de frustração e se levantou da cama.

– Isso. – murmurei baixo, enervada, observando-a se enfiar no banheiro. – Fuja da conversa. E depois sou eu! – gritei a última parte para que ela escutasse.

Levantei-me também, irritada. Reparei que ela havia levado o celular com ela. Claro; era óbvio que sim. Franzi o cenho e desviei a atenção para o meu celular. Peguei no aparelho e sem nenhuma hesitação marquei um número para o qual já deveria ter ligado há muito tempo. Rapidamente me atenderam.

– Boa noite. – cumprimentei o atendente. – Eu vou precisar da máxima descrição possível. – fui falando à medida que me encaminhava para a porta do quarto. – Preciso de dois homens de confiança. – sai do quarto e desci rapidamente para o escritório, trancando a porta atrás de mim. – Vou remeter agora mesmo para o vosso escritório os dados deles. – informei, esperando o computador ligar.

O atendente foi registando o que eu lhe dizia enquanto eu enviava por e-mail os dados de Henry e Emma.

– Já seguiu o e-mail. Essas são as pessoas. Mais uma vez reforço que eles não podem sequer sonhar que estão a ser vigiados. Eles não concordariam com meus métodos de proteção. – esclareci maquinalmente olhando para uma foto de nós os três em um porta-retrato em cima da mesa. – Apenas me dê a identificação da conta pra eu fazer imediatamente a transferência do valor.

– Pois não, senhorita. – respondeu do outro lado. Peguei numa caneta e rapidamente assentei o número da conta para proceder ao pagamento do serviço requisitado. – Para os dois requeridos, apenas me informe se o objetivo é o mesmo, ou seja, vigiar e intervir somente em caso de ameaça.

Mordi o lábio, não conseguindo responder de imediato. Para Henry estava mais do que claro o meu objetivo. Precisava protegê-lo de possíveis perigos agora que tudo provavelmente iria adquirir contornos avassaladores com a repercussão da entrevista do dia seguinte. Para Emma …

– Senhorita, está em linha?

– Desculpe, estou sim. – respondi, atordoada. – Para o menino é esse o objetivo.

– E para Miss Swan? – perguntou.

– Eu … – para Emma aquilo não era o suficiente. Eu queria, eu precisava saber tudo que acontecia com ela. Onde ela ia, com quem falava, e se até fosse possível, o que ela pensava.

– Sim?

– É possível colocar uma escuta no celular dela? – ousei perguntar. Aquilo era horrível, mas eu precisava saber se ela realmente se andava encontrando com ele.

Sim, é possível. – a voz do outro lado me respondeu em jeito automático. – Vai solicitar o serviço de escuta e investigação?

– Exatamente. Façam isso, mas ela não pode nem suspeitar. – confirmei, desviando o olhar para um outro porta-retrato mais atrás. Aquele tinha uma fotografia de mim e de Emma apenas. Fora já tirada há tanto tempo que mais parecia uma outra vida. Uma em que a certeza das coisas habitava em meu coração.

Havia convidado Emma para que me acompanhasse a Milão para a semana da moda, onde seriam apresentadas as coleções de moda primavera/verão daquele ano. Normalmente ia apenas com Giorgio que adorava as tendências da moda italiana, apesar de eu achar que o que ele verdadeiramente adorava eram as tendências de certos bellos italianos. Mas pela primeira vez, eu iria acompanhada por uma companhia feminina desde casa em vez de a encontrar em alguma exposição, coquetel ou mesmo durante algum dos desfiles do evento. Ou seja, agora a companhia feminina não era efémera, não era apenas companhia, era aquilo a que chamavam de uma verdadeira companheira. Por isso sentia-me ansiosa, e ao olhar para Emma inquieta na suite do Four Seasons Milano, a ansiedade só aumentava.

– Querida. – chamei-a, aproximando-me dela que dera um pulo com o susto, desviando a atenção para mim. – Então, – trouxe as suas mãos para mim e segurei-as com firmeza, antes de sorrir. – nervosa?

Ela balançou afirmativamente com a cabeça, retribuído o meu sorriso timidamente. Claramente ela estava fora da sua zona de conforto.

– Está arrependida por ter vindo? – perguntei, tentando não demonstrar o impacto que teria a sua resposta caso esta fosse afirmativa.

– Não … a cidade é linda. – respondeu em tom vago. – Não tou arrependida por ter vindo. Tudo aqui é maravilhoso. Seria muita mal-agradecida se …

– Emma, querida. – interrompi-a com maciez. A mesma maciez com que uma das minhas mãos subia até à lateral do seu rosto e tocava levemente em uma mecha de cabelo sua. – Não precisa de cerimónia aqui. – brinquei, olhando brevemente para os lados. – não entre quatro paredes, quando apenas estamos as duas. Quer voltar para Boston?

– Não! – bradou apressada. Fez um meneio com a cabeça e puxou a minha mão de volta. – Eu tou muito feliz por me ter convidado pra esse evento. Mas para mim, que sempre tive uma vida simples com o meu filho, tudo isso assusta.

Prendi o lábio, insegura. Com Emma tudo era mais delicado, eu nem sempre tinha uma resposta imediata para ela, pelo menos não uma que realmente a reconfortasse. Ela não procurava uma aventura, dinheiro, cinco minutos de fama, ou uma noite de loucura. E sobretudo, ela não era como as outras; ela importava de verdade.

– Regina – chamou, me fazendo estremecer. Tinha a certeza que ela ia dizer que queria acabar tudo, que fora precipitada, que tudo aquilo era um erro, que …. – Você me faz tão feliz. – revelou, me surpreendendo. – Eu apenas não estava mais habituada a isso. – sorriu, anulando o espaço que existia entre nós, e tomando os meus lábios em um beijo suave.

– Você também me faz – murmurei junto da sua boca. – imensamente feliz.

Ela largou um suspiro frustrado e se afastou alguns centímetros. Fleti a sobrancelha sem realmente entender o porquê daquilo.

– Acha que seria muito indelicado borrar seu batom agora que estamos de saída? – questionou, abrindo um sorriso maliciosamente divertido.

– Não há nada que seja indelicado pra você, querida. – segredei num sorriso cheio de cumplicidade enquanto me preparava para beijá-la.

Toc

Separámo-nos entre o som das batidas na porta.

Toc

– Allora, sono già … – antes que pudéssemos responder, a porta se abriu, revelando o italiano intrometido, e naquele momento, demasiado inconveniente. – … pronto? – completou já nos encarando espantado.

– Você não sabe bater? – arremessei, tentando disfarçar o rubor leve que eu senti tomando conta da minha face.

Ele esboçou um sorriso astucioso, repleto de insinuações implícitas e aproximou-se alegremente.

– Ma eu bati, donna bella mia. – respondeu graciosamente, fazendo um gracejo com a mão ao tocar delicadamente no queixo de Emma ao meu lado. – Ma capisco l'insignificanza de tutto esso diante de tanto amor. – acrescentou, fixando o olhar demoradamente em Emma, fazendo com que esta trocasse o peso do corpo de um pé para o outro, desconfortável.

– Gior. – avisei, afugentando a mão dele do rosto de Emma.

Ele desviou a atenção para mim, e com toda a elegância e boas maneiras, estendeu-me um lenço azul-cobalto e me fez um aceno discreto com a cabeça. Eu revirei os olhos e passei a ponta do pedaço de tecido sobre o canto da boca de Emma.

– Não se assuste querida. – pedi gentilmente, reparando que o seu constrangimento só parecia aumentar. – É apenas uma mancha pequena de batom. – esclareci com um sorriso, devolvendo logo o lenço com muito menos delicadeza a Gior que parecia muitíssimo bem humorado com o flagrante que nos tinha dado.

– Emma Swan – mais uma vez ele pareceu dirigir-se a ela que continuava calada e sem saber como lidar com o jeito especial de Giorgio. – Podemos encarar o Cisne como uma evolução mágica, non è vero?

– Por favor Gior. Cala a boca. – rosnei, ameaçando-o com o olhar. Ele apenas deu de ombros e soltou uma gargalhada descontraída, sem qualquer ponta de maldade.

– Per favore, cara mia. – pediu a Emma. – Não se acanhe, pelo contrário, afinal, o mérito é todo seu por conquistar una donna così … – fez uma pausa premeditada e aí eu sabia que ele estava preparando alguma gracinha encoberta para lançar. – … difficile … como Regina.

Dei um encontrão nele de propósito ao me dirigir para a cama, onde estavam pousadas duas clutches, uma em tom bege, que combinava com o vestido de Emma (sim, vestido!), e outra de cor preta que eu usaria com o blazer acetinado na mesma cor.

Escutei a risada de Emma, finalmente, o que acabou por me deixar mais leve. E apesar de saber exatamente o que Gior havia querido insinuar antes – ser difícil estava relacionado à minha dificuldade de entrega e devoção total a uma só pessoa, e não ao rigor na seleção por uma parceira no departamento amoroso – eu relaxei com aquele sorriso tão encantador de Emma.

– Você tá deslumbrante. – sussurrei ao chegar junto dela, entregando-lhe a clutches bege. – Mais ainda.

– Quanto è bella l'amore! – Gior exclamara entusiasmado. – Andiamo, una foto prima di andare! – demandou já tirando uma máquina fotográfica do bolso do paletó listrado.

Olhei para Emma, tentando me certificar que ela estava de acordo com a foto que Gior queria tirar. Ela sorriu e piscou-me o olho.

– Não é uma foto que me vai fazer fugir de você. – comentou baixinho, perto do meu ouvido.

Eu ri, puxando-a para o meu colo, à medida que Gior praguejava palavras em italiano querendo que nos apressássemos já que Lorenzo (ou seria Luigi?) o estava esperando em baixo na receção do hotel. Pelos vistos o rolo com a tal Christina não era sério – pensei, aliviada.

– Você sabe que a partir de agora não será apenas uma foto, mas várias … dezenas …. – sussurrei contra a sua têmpora enquanto Gior apontava a máquina para nós duas.

– Dezenas? – inquiriu, me olhando indignada. – Pensei que você fosse mais famosa que isso. Tipo centenas …. Milhares de fotos! – acabei rindo com ela ao mesmo tempo que Gior batia a foto, imortalizando as nossas risadas para sempre.

Limpei uma lágrima que escorria pelo meu rosto com a mão livre, uma vez que havia pegado na moldura com aquela foto inconscientemente, mantendo assim o celular seguro com o ombro.

Miss Mills? – pisquei, sendo trazida de volta ao presente, deixando escorregar em simultâneo o porta-retrato da mão.

Craccc!

– Miss Mills … está tudo bem? Escutei um barulho de algo quebrando. – a voz do atendente soou novamente, me deixando completamente atordoada com a porcaria que eu havia acabado de fazer.

O vidro da moldura estava todo quebrado, assim como a nossa imagem fragmentada debaixo do material transparente. Meu peito acelerou, sentindo mais um mau presságio. Tentei limpar aquela desgraça rapidamente, mas acabei ferindo a ponta dos dedos nos pedaços de vidro aguçados.

– Está tudo bem. Foi apenas algo que quebrou aqui. – expliquei. Mas porque é que eu tinha a sensação que o que tinha quebrado era muito mais do que um vidro de um porta-retrato?

Muito bem. Vai desejar mais alguma coisa da nossa parte? – perguntou.

– Não, já tenho tudo que preciso. – respondi.

Seria mesmo? Porque me sentia tão sem nada de repente então? – não consigo evitar de pensar comigo mesma enquanto a voz do outro lado da linha se despede, desligando a chamada. E tudo o que escuto é o som irritante da linha sem ninguém mais para me fazer companhia.

O som ensurdecedor que me grita nos tímpanos denunciando a minha própria solidão. E tudo que sinto é o ardor na pele dos dedos que sangram. A dualidade dos bons sentimentos e dos maus, debatendo-se e eclodindo dentro de mim, explodindo não só com o meu coração, mas também com a minha alma. E tudo que eu achava ser certeza e uno, vejo estilhaçado e mal definido, da mesma forma que se encontra o vidro daquele porta-retrato exibindo uma foto com as nossas risadas, agora, penosamente distorcidas.

*** *** ***

Edward levou Henry bem cedo para a escola já que as suas aulas começavam às oito naquele dia. Quando desci para a cozinha, Emma já estava tomando café, imersa nos seus pensamentos, em pé e encostada à pia sem olhar para nenhum ponto em específico.

– Bom dia. – cumprimentei antes mesmo de me servir de um pouco de café. – Não vai se sentar?

– Isso tudo é animação por causa da entrevista? – atirou com deboche propositado. Engoliu o resto do café e se virou para colocar a xícara na pia.

– Porque você faz isso? – questionei, aborrecida com a atitude dela. – Já entendi que não está feliz com isso tá bom?

– E mesmo assim você insiste. – revidou, voltando a se virar para mim. Fiquei calada, e tomei um gole do meu café em silêncio. – Vou trabalhar. – falou já se afastando.

– Emma. – chamei; ela voltou-se. – Nem vai me dar um beijo?

Ela não disse nada, apenas se aproximou o suficiente de mim para tocar os lábios nos meus. Em menos de dois segundos já estava se afastando novamente e o som da porta batendo ecoava pela casa marcando a sua saída. Suspirei.

Seria mesmo o tratamento do mal pior que o próprio mal? Não me detive mais na busca de uma resposta. O meu celular tocava.

– Sim Katia. – atendi, dando um último gole no café. – Chegarei em 10 minutos. – e desliguei, rapidamente indo pegar o carro para ir para a empresa.