Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
32 Entrevista
Notas iniciais
Sentia o salto fino dos meus Christian Dior de sensivelmente oito centímetros fugirem para o lado cada vez que tocavam o chão a um novo passo meu. De repente, como uma garota que começa a aprender a dar os primeiros passos em um par de saltos altos finos, eu me desequilibrei, e só não me estatelei no piso frio da garagem subterrânea da mansão porque me apoiei a tempo na parede, ao lado do elevador.
Olhei para baixo, na direção dos meus pés, elegantemente calçados com sapatos pretos fechados de salto alto, com uma linha que afinava em direção ao bico, trazendo à memória o feminino dos anos 50. Não havia nada de errado com os sapatos, portanto eu só conseguia identificar um problema ali: Eu.
Agora que chegara a hora do tudo ou nada, a Regina Mills, grande empresária, segura e inabalável, assemelhava-se a uma mulher atormentada e com tanto medo de dar um passo em falso que tornava-se incapaz de desfilar nos seus comedidos Christian Dior. Patético na verdade, se tivermos em conta que uns meros oito centímetros estavam muito aquém dos dez centímetros dos Jimmy Choo do dia anterior.
Endireitei as costas e estiquei as pernas. Entrei no elevador com demasiada pressa e saí novamente assim que adentrei os fundos da mansão. O aparato televisivo estava-me encarando na sala, assim como os técnicos do audiovisual da Companhia Gold.
– Estávamos aguardando a sua chegada. – disse um homem jovem com linhas de expressão faciais bastante marcadas. Deduzi que aquele era o realizador, já que haviam uns três homens mais atrás operando as respectivas camaras.
– Então vão ter de aguardar mais alguns minutos. – respondi assertiva, e subi as escadas para o quarto sem que ninguém ousasse me interpelar.
Entrei no closet rapidamente e me dirigi à prateleira com os Jimmy Choo de dez centímetros.
– Estão por criar ainda os saltos que vão-me derrubar! – exclamei em voz alta, calçando os sapatos perigosamente elegantes de estilo executivo.
Despi o blazer preto que tinha vestido por cima da camisa azul-marinho de cetim e me olhei no espelho de corpo inteiro por momentos. Estava bastante bem, tirando a sombra por debaixo de ambos os olhos que revelavam as noites mal-dormidas dos últimos dias.
Procurei na bolsa sobre a cama um suavizante para olheiras com vitamina C que havia se tornado em um dos meus mais fortes aliados das últimas semanas. E voilà! Tudo aparentava imponência de novo, nem uma simples sombra de vulnerabilidade.
*** *** ***
Poucos minutos haviam passado e já as luzes reflectidas pelos painéis de iluminação me estavam queimando a pele do rosto. Olhei as horas no relógio de pulso no momento preciso em que a voz de Gold se fez soar pela acústica da sala.
– Admirada com a minha pontualidade? – atirou com aquele tom de voz altivo e emproado. – Espero que se encontre bem, minha querida. – alcançou a minha mão num cumprimento breve.
Depois, olhou em volta para a equipe de filmagem e com um estalar, literal, de dedos deu a indicação para o início da gravação. Sentou-se na outra ponta do meu sofá italiano de couro cinza e me dirigiu um leve piscar de olho. Uma moça de cabelos presos de forma desleixada em um coque no alto da cabeça passou rapidamente um pouco de base no rosto de Gold.
A seguir, Gold, o apresentador dali em diante, virou-se para mim e assentiu levemente com a cabeça. Sorriu miudamente e a contagem se escutou pelo ambiente … “em 3 … 2 … 1…”
– Sejam bem-vindos a mais um Por Trás da Ribalta! – ele anunciou com um sorrisinho distorcido. – Hoje temos uma convidada muitíssimo especial, não tem como o nome ser desconhecido devido a tudo que tem circulado na comunicação social, infelizmente não pelos melhores motivos. – comentou a última parte com pesar, e hipocrisia a meu ver, mas isso teria de guardar para mim. – É uma mulher brilhante nos negócios, dotada de uma beleza e carisma sem precedentes no sector da moda, e provavelmente uma das figuras mais faladas na actualidade … — fez uma pausa misteriosa e logo me piscou o olho como se ambos partilhássemos uma relação de cumplicidade. – … com vocês, a empresária Regina Mills.
Uma luz vermelha acendeu na câmara que estava apontada para mim, me indicando que o plano principal passara a ser eu. Sorri comedidamente, tentando passar uma imagem tranquila e confiante, embora por dentro essa não fosse a verdade já que estava extremamente apreensiva e nervosa. Afinal, nem uma simples lista de perguntas Gold tivera a decência de me ceder para que eu me preparasse minimamente.
– Antes demais, obrigada por me receber a mim e à minha equipe na sua casa.
– Eu que agradeço pela oportunidade. – respondi, sempre mantendo o sorriso plástico no rosto. – Acredito que há muita coisa a esclarecer …
– Claro que sim, querida – ele me cortou bruscamente –, mas antes, preparamos um vídeo para homenagear você e o seu trabalho.
Forcei um sorriso amarelo, exibindo em simultâneo um ar agradável de surpresa ao visionar as primeiras imagens que passavam na tela montada numa das paredes da sala. Imagens das primeiras coleções de roupa com letras garrafais sobrepostas passavam no ecrã: Jovem Mills lança coleção de inverno; Jovem empreendedora de moda ganha terreno nas passerelles (…) e por aí adiante, com mais imagens distintas de manchetes de jornais: Regina Mills e a patente Keep U; Empresária Mills compra grupo fabril de tecidos; Regina Mills assume publicamente a sua homossexualidade; Miss Mills: loiras, ruivas ou morenas? (…)
E assim consecutivamente, até que cada um dos temas levantados apenas se limitava a aludir manchetes de cariz sensacionalista cujo único interesse era de explorar a vida íntima da ascendente empresária de sucesso: Eu.
– Que percurso, aham? – Gold falou após aquele rol de fofoquice acabar. – Não é fácil ser uma figura pública, não é querida?
Soltei uma gargalhada curta, dissimulada, e respondi com leveza:
– Não é nada fácil, e embora eu pudesse responder que já me habituei, isso não seria verdade. – respirei calmamente, nunca esquecendo que todos os olhos e lentes apontavam para mim. – Acho que uma pessoa nunca se habitua, especialmente quando tem família, mas claro, faz parte.
– Por falar em família – era agora, já adivinhava o que viria a seguir. –, acredito que esteja enfrentando alguns problemas até conjugais .. – meneou a cabeça divertido – … bem, posso falar isso, não? Embora esse casamento pareça estar sendo eternamente adiado.
– O casamento é só mais um ato jurídico. Como é do conhecimento geral, mantenho uma relação de longa data com Emma, em que aliás, o nosso filho é a maior prova desse compromisso e entrega mútua.
– Exato. – respondeu, com uma ponta de veneno encoberta. – Acredito que estamos todos cientes disso, querida. – uma pausa provocatória. – Mas então, a pergunta que não quer calar – outra pausa, esta mais premeditada ainda. Senti as palmas suadas e os dedos das mãos se torcerem sobre o meu colo. –, o que mudou depois do Motel 6 Brooklyn?
– O que mudou? – pisquei, confusa por meros instantes.
– Sim … as repercussões desse escândalo na mídia sabemos quais foram, aliás, todos nós assistimos à baixaria que foi – nessa altura o sangue já me fervia nas veias, a pele queimava na própria epiderme, e o ar cínico de Gold apenas contribuía para aumentar a raiva que palpitava dentro do meu peito. –, mas no núcleo perfeito da família Mills? Por favor, Regina, acredito que todos queiramos saber o que o aparecimento de Neal Cassidy representou ou ainda representa na vida de Regina Mills.
Apertando a mandíbula com força, forcei mais uma vez a recta dos meus lábios numa leve curva, simulando um pequeno sorriso.
– Tenho de confessar: não está sendo fácil. – soltei um suspiro, parte dele completamente sincero e espontâneo. – O reaparecimento de Mr. Cassidy na vida da minha mulher – e fiz questão de frisar o tom possessivo como que demarcando território. – foi inusitado. E um golpe; para toda a minha família.
Os pronomes possessivos dominavam o meu discurso propositadamente. Não deixaria que um só ser pensasse que estávamos abalados, e muito menos que a crise era maior do que eu tomava consciência que era. Continuei desse modo, assertiva:
– De qualquer forma, o mais importante para mim neste momento é preservar o bem-estar do meu filho e não deixar que o regresso do progenitor lhe cause qualquer tipo de constrangimento ou incómodo tanto a nível emocional como psíquico.
– Isso parece-me sensato. – proferiu o entrevistador. – Mas o mesmo não posso dizer do seu comportamento em Brooklyn. Um quarto de motel, Regina? Qual a explicação? Decerto que não pensou no menino quando partiu para cima do pai dele.
– Pai?! – exclamei, indignada. Gold estava indo longe demais. – Você chama de pai alguém que abandona a mãe do próprio filho, grávida?
Gold franziu o cenho, erguendo levemente a sobrancelha com um ar surpreendido. Me dando conta da porcaria que havia feito, tentei recuperar a calma, e abanando levemente a cabeça, encarei diretamente a câmara, tornando a falar:
– Peço desculpa a todos que estão assistindo, mas este assunto é delicado, e como disse antes, foi um golpe pra toda a minha família. – suspirei, desviando a atenção para o copo de água que Gold me estendia. Esbocei um pequeno sorriso, aceitando a água. – Sei que todos devem estar me achando uma louca, desequilibrada, nesses últimos tempos … — segurei firmemente o copo a fim de esconder como as minhas mãos tremiam. – … mas a verdade é que eu só estou tentando proteger a quem mais amo nessa vida.
– Tenho a certeza que todos compreendem, querida. – assentiu, se inclinando brevemente para me tocar uma das mãos. – E acredite – se encostou novamente às costas do sofá, nunca me deixando de encarar com o olhar escuro penetrante. – , não há ninguém mais interessado do que eu em esclarecer essa história, por você.
Sorri entre-dentes e balancei a cabeça como que assentindo:
– Acredito que sim. – o meu tom era desprovido de qualquer sentimento.
A seguir ele voltou-se para a outra câmara, provavelmente a que estaria responsável por gravar planos só dele, e sorriu com ar sereno, antes de falar:
– A nossa estrela precisa se refazer das emoções. – ia interromper, mas antes que pudesse sequer abrir a boca, ele continuou para a câmara. – E se você gostou desse momento, se prepare, porque vem aí uma entrevista inédita com o dobro das emoções! Vejo vocês no próximo Por Trás da Ribalta, com uma convidada muito especial, a estonteante empresária da moda, Regina Mills!
CORTA
Logo após a indicação do realizador, a luz vermelha se apagou da câmara que gravava Gold, e só aí eu me dei conta que tinha sido enganada da forma mais baixa possível.
– Como se atreve? – brami, me levantando na direção dele. – Você disse que essa era a entrevista e não um teaser qualquer pra atiçar gente intriguista! O que pretende com isto, Gold?
– Regina, eu peço pra você se acalmar. – disse, fazendo sinal com a mão ao seu pessoal para se irem retirando. – Não entende que tudo faz parte do processo televisivo?
– Processo pra me arruinar você quer dizer?
– Querida, você não entende como as coisas se processam. Eu apenas usei de uma técnica para instigar o telespectador para que a mídia em peso possa cobrir essa entrevista e todo o desenrolar que decorrer daí.
– Mas você tinha de me ter colocado a par antes! – revidei, gesticulando dramaticamente.
– Se eu não o fiz foi precisamente para conseguir captar toda a emoção de você. Regina, você não vê? – ao franzir a testa, sem entender, ele explicou: – Toda a gente vai ficar do seu lado depois de ver que a verdadeira vítima dessa história é você.
Ele sorria satisfeito; parecia orgulhoso do seu plano mesquinho:
– Acredite em mim, querida: – ao falar, pegou nas minhas mãos como se quisesse me confortar. – depois de eu terminar com essa história, não vai sobrar alma que não derrame pelo menos uma lágrima pela fatalidade que se abateu sobre a vida da prestigiada Regina Mills. – prometeu sincero, enquanto beijava as costas de ambas as mãos.
– E agora? – perguntei, assim que ele se endireitou, me soltando. – Qual o próximo passo?
– Agora … – um brilho misterioso precipitou-se pelos seus olhos quase negros num rasgo de segundo, antes de ele poder continuar: – … você aguarda um contato meu. Farei com que chegue a você as indicações a seguir.
Sentindo um frio na barriga e um leve fraquejar nas pernas balbuciei um fraco “Ok”. Ele se inclinou um pouco, tocando com uma das suas faces na minha, e se afastou, dizendo que não era necessário levá-lo até à porta, pois já conhecia o caminho.
*** *** ***
Olhei as horas no celular pela milésima vez com um esgar nítido de descontentamento. Passavam quinze minutos das onze da noite e nada de Emma chegar em casa. Nem um telefonema, nem uma mensagem, nada! Nenhum tipo de aviso que ela chegaria tarde. Quando Henry, agora adormecido sobre o meu colo, me perguntara por ela, preocupado, me limitei a dizer que algo relacionado a trabalho deveria ter atrasado a mãe. O que ele não chegou a perceber foi que logo após ele ter subido para vestir o pijama, eu ativei o aplicativo instalado no meu celular que me indicava o paradeiro de Emma. Um sistema útil proporcionado pelo serviço da empresa de segurança e investigação contratado, mas que durante quase uma hora me fez acreditar que não funcionava, visto indicar a inalterável estado de imobilidade de Emma no pequeno escritório que ela detinha na periferia da cidade.
Quando estava prestes a desistir e a ligar-lhe, o ponto indicativo se moveu de lugar, indicando que Emma se movia para fora do escritório. Eram nessa altura nove e meia, e o meu coração descomprimiu achando que ela estaria vindo para casa, mas tomando o caminho contrário, foi com um golpe terrível que vi o ponto indicando Brooklyn, motel 6.
Imagens odiosas e repugnantes passavam pelos meus olhos como se realmente eu fosse capaz de a ver com ele: se esfregando na barba cerrada; beijando a boca imunda; rebolando em cima dele, enquanto gemidos de prazer soltavam-se bem do fundo da sua garganta.
Tremia; toda eu tremia, de cólera, de raiva, de nojo. Levei a mão, que até então acariciava os cabelos do meu menino, à testa, como se algo crescesse bem no topo dela. Ressentida, enojada, com uma dor tremenda no peito, toda eu queimava em pânico. Tentava raciocinar, arrumar alguma explicação lógica, algo, por mais ínfimo que fosse que pudesse me dar a certeza que Emma não me traia naquele exato momento. Nada!
A seguir vieram as lágrimas quentes que não mais queimavam sobre a epiderme em ebulição. Me sentia tão enganada, tão condoída, tão … nada. Como é que ela foi capaz? Me trair daquela maneira tão sórdida e ordinária. Como é que …
– Mãe .. – escutei Henry sussurrar numa vozinha enrolada, meio dormindo, meio acordado.
Em uma das suas bochechas jazia uma das minhas lágrimas, rolando como se não mais pertencesse a mim, mas a ele. Abracei-o por instinto, como se o pudesse proteger da dor que eu não mais podia conter em mim. E quanto a Henry? Pensei de repente, me sentindo quase desfalecer sobre o meu querido filho. Meu?
Apertei-o mais contra mim; um medo gelado que me fazia arrefecer de toda a raiva anterior que estava sentindo. Não chegara a tratar da adoção de Henry ... sim, era apenas um ato jurídico …
– Que vai fazer com que eu te perca. – murmurei baixinho entre lágrimas contra a cabeça dele.
– Mãe, você tá bem? – Henry, já desperto, me olhava com ar amedrontado. – Porque você tá chorando?
– Estou bem, meu amor. Estou bem. – respondi rápido, secando as lágrimas que insistiam em cair. – Eu prometo. Tá tudo bem.
– Você não parece bem. – se endireitou para me observar melhor.
– Eu tive um pesadelo … você sabe como é quando a gente tem pesadelo, não é? – tentei sorrir, embora a minha vista se mantivesse toldada pela humidade das lágrimas reprimidas. – Vamos pra cama.
– E a mãe? – perguntou, se referindo com um ar sério a Emma. – Não veio pra casa?
Tive de fazer uma força sobre-humana para conseguir responder-lhe, mas antes de todo o resto estava Henry. Não conseguia suportar a iminência do medo que ameaçava tomar conta do seu olhar acastanhado e ternurento.
– Ela veio sim. – menti, sorrindo depois como se estivesse tudo bem. – Mas logo depois de chegar ela viu que tinha esquecido um documento muito importante do trabalho no escritório, e por isso, teve de voltar pra ir buscar.
Henry me fixou por longos segundos como se me analisasse, e eu, reunindo toda a força que restava em mim, me mantive firme, com um sorriso apaziguador no rosto.
– Vamos, querido, eu subo com você. – após mais uma tranche de longos segundos, ele pareceu se convencer e assentiu com a cabeça.
Subimos juntos, lado a lado. Segurei o choro mais uma vez, tão forte como o aperto que senti da sua mão fechando sobre a minha enquanto subíamos os últimos degraus.
Ele adentrou as cobertas, e me beijou o rosto, me permitindo beijá-lo depois na testa. Tornei a sorrir, desejando-lhe boa noite. Sem ousar vacilar caminhei até à porta, só me virando no último momento. Henry me encarava com ar tão taciturno que me fez estremecer tão forte que senti a necessidade de me apoiar no batente da porta.
– Te amo, rapazinho. – sussurrei, antes de encostar a porta.
Desci apressadamente para o escritório, quase atropelando os próprios pés. Tranquei a porta e me afundei no sofá, e com o cuidado necessário para não perturbar o meu tão amado filho, desabei num pranto silencioso de dor e de mágoas.
*** *** ***
As costas nuas, pálidas e fortes, ondulavam sobre o corpo que deslizava sobre ela. Mãos rudes se ergueram, caindo de forma pesada sobre as costas alvas, apertando a pele por onde passavam. Depressa aquela pele nua ganhou cores, como se de uma tela em branco se tratasse, e que depois das primeiras pinceladas, se começa convertendo em abstracto de cores carregadas de emoção. Ele investiu com as palmas abertas sobre as omoplatas primeiro, mas ainda nem o rubor se tinha intensificado na pele, já as mãos apressadas trilhavam a lombar, apertando a cintura nas laterais.
Todo o tronco era familiar; todo o movimento ondulatório lhe causava uma sensação de queimadura crescente no seu centro apertado. Seus olhos acompanharam as mãos rudes, morenas, de dedos grossos e ríspidos. Acompanharam quando elas desceram e se enfiaram, deselegantes, na parte detrás da calcinha branca. Não mais à vista, seus olhos acompanharam o volume daquelas mãos apertando a carne ao seu alcance. Depois, algo intensificou a queimadura no sexo, mas antes que pudesse entender ao certo o sucedido, tornou a olhar a cena, e horrorizada, ouviu um gemido conhecido. Enrugando a testa, tentou distinguir melhor o som familiar, mas em choque percebeu que era o seu gemido; as suas costas: a brancura se transformando em tez morena como se de um feitiço se tratasse.
– Viu só? – rugiu entre a primeira e segunda estocada. – Sabia que tudo que você precisava era de um pau duro te fodendo gostoso.
– Não!
Aguçando a audição, apercebeu-se que eram gemidos de dor. Mas a dor não parava, pelo contrário, apenas doía mais e um pouco mais a cada nova investida do membro grosso e erecto dentro dela.
Lágrimas retidas, pendidas dos olhos marrons, e uma dor avassaladora a trespassavam. E um lamento fraco e moribundo chorava: “Não … não …”
– Regina. – escutei.
– Pára! – gritei de sobreaviso antes de empurrar para longe as mãos que me agarravam.
– Se acalma. – abri os olhos, reconhecendo a preocupação estampada no rosto gentil de Emma. – Você devia estar tendo um pesadelo.
Abanei a cabeça, descomposta, tentando perceber o que tinha acontecido. Contudo, assim que olhei ao redor o aperto no peito regressou mais forte do que nunca. Estava no sofá, no escritório, onde provavelmente havia adormecido de cansaço e de tanto chorar.
– Hein .. vamos, vou com você até ao quarto.
– Que horas são? – perguntei de repente, ainda tentando reorganizar as ideias. Senti imediatamente o desconforto vindo dela.
– É tarde já … vamos, você precisa dormir.
– Onde você estava até agora? – atirei; a raiva recomeçando a borbulhar. – O que tá acontecendo com você?
– Eu precisei resolver uns assuntos. – respondeu, sem me olhar direito. – E não tá acontecendo nada.
– Uns assuntos? – controlei o volume, embora a minha vontade fosse gritar, explodir, com ela. – Custava dar um telefonema? Henry perguntou por você … tive de lhe mentir. Acha certo isso?
Vi-a levar a mão até à cabeça, coçando a nuca, sem jeito. Depois se afastou de mim, se dirigindo à pequena mesa com bebidas. Preparou um drink rapidamente, tomou um gole grande, deixando o álcool da bebida queimar a garganta como se precisasse de um incentivo para me voltar a enfrentar:
– Desculpa, ok? Eu só não quis te preocupar. – declarou, não me encarando porém completamente. – E sim, eu já percebi que não ter avisado só fez pior.
Me aproximei dela devagar, analisando-a. Senti o quanto estava nervosa, o que só confirmava as minhas certezas por mais redundante que isso pudesse parecer. Levou o copo de novo à boca, engolindo quase todo o líquido restante.
– Você tá se vingando de mim? É isso? – arremessei, zangada. Ela franziu o cenho, sem dar resposta. – Ou todas as minhas falhas viraram desculpa pra cair na cama com ele? – sustive a respiração por segundos. Ela fez o mesmo, tremelicando das esmeraldas atordoadas. – Ou pior … – segurei o tremor da voz que ameaçava dar sinais de choro. – … você descobriu que ainda o ama?
A resposta dela veio da pior maneira possível: os olhos desceram, fixando o chão. Não suportando mais, virei as costas, saindo do cómodo.
Subi as escadas em silêncio, entrei no quarto, trancando a porta por dentro, e me joguei na cama. A minha vontade naquele momento era dormir e não acordar mais.
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