Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
14 Ritorno
Notas iniciais
Senti as minhas próprias lágrimas queimando na beirada dos meus olhos com a visão dele diante de mim. Depois de anos … quantos já tinham passado?
Ficámos em silêncio durante muito tempo. Ele simplesmente reticente, sem saber se avançava na minha direção ou se recuava por uma falta de reação minha.
Era estranho vê-lo assim … e embora todas as minhas emoções brigassem comigo, exigindo que eu corresse para os seus braços, o rancor e a mágoa racionalizados me obrigavam a cruzar os braços à frente do peito, fechar a cara, e franzir o cenho com ar enraivecido.
– O que você está dizendo querido? – Eu perguntava a Gior sem entender aquela conversa sem sentido dele. Estávamos em Nova Iorque, jantando em um dos melhores restaurantes das redondezas, festejando o fato de Emma ter aceite o meu pedido para vir morar junto, e ele escolhia o momento para me dizer que estava indo embora?
– Mio bene … você sabe … Christine …
– O que essa mulher foi inventar agora? – Eu lancei bruscamente, farta da presença daquela sujeita na nossa vida.
– Não comece. – Ele respondeu, me lançando um olhar de reprovação que me fez suspirar contrariada.
– Sinceramente … — Fiz uma pausa, limpando a boca ao guardanapo, e só depois continuando. – Você era muito mais homem quando era gay.
– Ah ah! Que piadinha. – Ele ironizou, pegando no copo de vinho e dando um gole demorado. – Ela provavelmente vai ter que fechar a loja em Boston, as vendas caíram demais esse último mês.
– Nunca chegaram a subir você quis dizer? – Eu revidei, e sim, estava lançando farpa atrás de farpa, mas também como eu podia entender aquilo? Meu melhor amigo, meu conselheiro, mais íntimo confessor, parceiro e cúmplice de todas as maluquices da vida, estava na minha frente, em um dos dias que era para ser dos mais felizes, me jogando na cara que ia-me deixar.
– Eu devia ter escolhido outro dia para te falar sobre isso. – Ele escolheu não dar atenção às minhas provocações. – Mas você sabe que eu jamais te deixaria, nós vamos continuar nos falando, só não vai ser …
– Todos os dias? Todas as semanas? – Eu continuei no ataque, porque já previa o que iria acontecer, e só me apetecia bater naquela Christina e por tabela em Giorgio por ser tão pau mandado. – Você diz isso agora Giorgio, mas aquela mulher não vai descansar até te afastar por completo de mim!
– Aquela mulher tem nome, Regina. – Ele ripostou arduamente, me fazendo ver que estava indo longe demais. Afinal eu também não admitiria que alguém falasse daquela forma de Emma. – E eu vou me casar com ela. – Ele jogou a bomba me fazendo quase cair para trás.
– Você .. o quê?
– Mio bene … — Ele murmurou, naquela pronúncia estrangeira que me trazia um misto de bons sentimentos, mas também de pesada perda.
– O que você está fazendo aqui? – Atirei, quase rugindo, em uma forma de ataque dissimulando o meu estado que era na realidade defensivo.
– Me perdoa Regina. – Ele baixou o olhar, se mostrando envergonhado, sem conseguir me encarar de volta. E confesso, me partiu o coração.
Aproximei-me donde ele se mantinha parado. Ele nunca tivera uma estrutura muito larga, nunca havia sido gordo, embora fosse bem constituído, mas a sua extrema magreza agora impressionava. Seu rosto antes bronzeado, agora era assombrado por uma palidez que nem sei dizer se a causa era realmente a falta do sol banhando a sua pele, ou outra coisa qualquer indecifrável para mim naquele momento. Cheguei ainda mais perto, ficando a poucos centímetros dele, e só aí o obriguei a me encarar de novo, e o que eu vi nos seus olhos aquosos, antes de um azul límpido e repleto de alegria, agora repousava uma neblina cerrada que me causava dor, transformando a cor das suas íris num tom de azul cinza e fosco.
– O que .. – Eu comecei, mas a fragilidade que eu encontrei nele era tão chocante que até minha própria voz falhava na tentativa de lhe falar. – … é mesmo você Gior? – Eu descruzei os braços, estendendo um deles, e o tocando em um dos seus braços colado à lateral do seu corpo tenso. – O que aconteceu?
Ele tremeu com o meu contacto no seu braço, abanou a cabeça de forma frustrada, tentando ao mesmo tempo não chorar, e endireitou as costas, ficando ainda mais alto do que ele já era.
– Me deixa te dar um abraço antes? – Ele pareceu se recompor, exibindo um sorriso pequeno. Seu sorriso triste, mas não menos adorável por isso.
Não respondi verbalmente, assentindo com a cabeça, me permitindo deixar as explicações para depois e toda a cobrança que eu estou certa que não conseguiria evitar de fazer.
Abri os braços, ele se baixou, e me apertou daquele jeito dele. Tão moleque, tão leve dentro de um aperto que confortava e que enchia a gente de carinho e confiança. De desapego dentro de um apego muito mais extenso e importante que o que ficava para trás.
– Como eu senti a falta desse abraço. – Eu murmurei baixinho no seu ombro, e ele me apertou mais, me elevando no ar, fazendo meus saltos altos quase soltarem dos meus pés. – Seu cretino! – Eu exclamei, tentando não rir, enquanto dava um tapa forte em um dos seus ombros.
– Sabia que você me perdoaria amor mio! – Ele me pegou no colo, rindo, e sua risada trouxe a melodia que o seu tom de voz já não conseguia atingir, e me girou no ar em torno de si mesmo como se eu fosse uma princesa dos contos de fada. Ou uma Rainha como ele gostava de me chamar. – Mia Regina. – Ele parou comigo no colo, me olhou com os olhos brilhantes, e encostou o rosto à minha bochecha num simulacro de beijo.
– Não pense que se vai safar assim tão facilmente seu italiano de meia-tijela! – Eu afastei a cara dele, dando-lhe a indicação que era para me por no chão, e assim ele o fez, com a diferença que em vez do chão, ele me colocou no sofá encostado a uma das paredes da minha sala.
– Você tem razão. – Ele assentiu, se sentando ao meu lado sem sequer esperar permissão. Eu revirei os olhos, mas no fundo, embora não fosse admitir, observar que o seu comportamento abusado continuava o mesmo, me deixava com alguma esperança na salvação da nossa amizade. – Tenho muito que explicar a você futura Mrs. Swan … é isso mesmo? – Ele virou o assunto para mim, fazendo graça. No entanto, aquilo não resultaria assim, então eu fiz má cara, fazendo ele desfazer o sorriso zombeteiro da sua boca.
– Primeiro você vai me explicar o que aconteceu pra esse seu sumiço esses anos todos. – Eu exigi, cruzando a perna com ar imponente. Ele ia abrir a boca para falar logo de seguida, mas eu interrompi com outra exigência. – Depois, você vai tirar essa barba áspera do seu rosto lindo que me arranhou a pele inteira com essa sua esfregação.
Trocámos um olhar nosso, eu pisquei o olho, mas sem esboçar sorriso algum, e ele assentiu com a cabeça de uma forma serena, retendo aquele momento, aquela troca, talvez sentindo assim como eu que afinal não havia mudado o mais importante entre nós: a nossa amizade.
– Giooorr! Seu moleque atrevido, volta aqui! – Eu, com meus dezasseis anos, gritava correndo atrás do garoto abusado que era Giorgio dentro do recinto do colégio. – Devolve isso! – Eu exigia a ele que acabara de me roubar o diário que meu pai me havia oferecido como forma de me confortar pela morte precoce da minha mãe.
Ele parou de repente, quase me fazendo embater nele, e sorriu de um jeito muito manhoso, todo cheio de si, enquanto abria o diário na minha frente e começava lendo uma das passagens:
– Querido diário ou diário querido, nunca soube como esse esquema de confessionário funcionava … — Embora a voz dele estivesse mudando, se tornando mais grave com a entrada na adolescência, ele fazia força para a afinar e ao mesmo tempo para disfarçar o seu sotaque estrangeiro, tentando me imitar de um jeito trocista que me tirava do sério. – … mas na falta de um rol qualquer de regras, eu vou usá-lo para fazer aquilo que papai pretende e não consegue desde que mamãe se foi: desabafar.
– Para agora! Isso é invasão de privacidade! – Eu puxei-lhe o diário das mãos bruscamente. – Porque você é tão idiota Gior?
– E porque você é tão metida? – Ele me atirou, mostrando a língua. – Até parece que é una sorta di Regina! * – Ele me provocou, caçoando do meu nome como ele gostava de fazer diversas vezes.
– E não sou uma espécie de Regina, eu sou Regina. – Eu respondi triunfante. – Rainha pra você. – Acrescentei fazendo pose.
– Anda aprendendo direitinho mio bene. – Ele sorriu de lado, passando a mão pelos cabelos, tentando os pentear. – Mia Regina. – Acrescentou.
– Quem falou que eu sou sua? – Cruzei os braços.
– Uma Rainha é sempre dos seus súbitos. – Ele revidou, puxando uma das minhas mãos e beijando-a de forma exagerada, como se prestasse reverência a uma divindade. – Além disso tio Richard já deve estar preparando o casamento não? – Ele riu com a própria piada, que não deixava de ter um fundo de verdade.
– Pior que papai acha isso mesmo. – Suspirei, abanando a cabeça, e puxando a minha mão de volta. – Ele pensa que a gente tá namorando, e está muito feliz com isso. Ele gosta de você.
– Claro que seu pai gosta de mim, eu sou maravilhoso. – Respondeu rindo.
– E modesto. – Revirei os olhos. – Quero ver quando ele descobrir a verdade.
– Qual verdade? Que a gente não namora, mas se pega? – Ele atirou gargalhando, acabando por levar um tapa meu no braço.
– Seu grosso! – Fechei a cara, guardando o diário na mochila. – Foi só daquela vez … e nem me faça falar sobre isso.
Ele ergueu a sobrancelha castanha sem entender.
– Você nem sabe beijar direito. – Esclareci, fazendo-o ficar ofendido na mesma hora. E claro, como ele era sempre tão exagerado, ele levou a mão ao peito como se o tivessem atacado na sua moral para a vida toda.
– Thomas não é da mesma opinião. – Ele disse calmamente, enquanto fazia sinal discretamente para um dos garotos da equipe de baseball que parecia estar indo embora.
– Vai ver é por isso. – Eu dei de ombros, seriamente convencida que a culpa por eu não gostar do beijo se devia à homossexualidade de Giorgio. – Eu estou indo pra casa, vem comigo? – Perguntei, já que era costume a gente sempre acabar por se encontrar lá mesmo.
– Com uma condição. – Ele respondeu, e eu bufei impaciente.
– O que é agora?
– Você vai desabafar todas as suas mágoas e tristezas no ombro deste seu súbito, mia Regina. – Ele respondeu, estendendo a mão e indicando a minha mochila com o olhar.
Entendendo o que ele quis dizer, eu retirei o diário de novo da mochila, e entreguei a ele, que me piscou o olho e me abraçou.
Embora eu estivesse exigindo explicações a Giorgio, ele continuava sentado ao meu lado no sofá em silêncio. Parecia relutante em começar, e claramente nervoso, já que não tinha parado de esfregar as mãos desde que eu falara pela última vez.
– Ok … eu vou ajudar você então. – Eu quebrei o silêncio, pegando em uma das suas mãos de modo a que ele parasse de a esfregar na outra. – Começa por me explicar porque raios você agora se chama George?
Ele baixou o olhar para a mão dele que eu segurava na minha. Eu apertei a mão dele, incentivando-o, encorajando-o, e tentando acima de tudo, dizer a mim mesma que não iria tecer julgamentos antes da hora.
– Christine. – Apenas essa palavra saiu em um sussurro da sua boca, e automaticamente, meu sangue ferveu, trazendo de volta o sentimento de raiva que aquela mulher causou em mim um dia.
– O que aquela mulher fez com você? – Eu explodi, puxando a sua mão mais para mim na urgência de saber o que havia sucedido com a vida do meu amigo. – Eu fiquei esperando eternamente o tal convite de casamento, mas você simplesmente sumiu do mapa! Eu fiquei louca de preocupação, você tem noção disso? E depois … aquela mensagem sua … — Eu comecei falando sem parar, com uma ponta de mágoa ainda, e talvez também de rancor, sobre tudo que havia acontecido há quase seis anos atrás . – A última mensagem que eu recebi sua foi você dizendo que existiam coisas mais importantes que a nossa amizade no momento, e que você, estava se desvinculando … — Relembrar aquilo doía, mas agora eu iria jogar na cara dele tudo o que tinha ficado engasgado na minha garganta esses anos todos. – … você me disse que estava se desvinculando desse … — Eu larguei a mão dele subitamente, erguendo ambas as mãos no ar gesticulando sinal de aspas. — … desse contrato! Contrato Gior? A nossa amizade é isso que sempre foi pra você?
– Regina, por favor. – Ele choramingava, e eu não aguentei mais e me levantei dando-lhe costas. – Essa mensagem não fui eu que enviei, mio bene, me acredita … quando eu fiquei a par disso já era tarde. – O escutei dizendo, e logo depois senti uma das suas mãos na minha cintura, me fazendo estremecer. Me virei para tornar a encará-lo, e o meu semblante figurava ainda maior confusão e dúvidas do que antes.
Ele inspirou fundo, passou as mãos pelos cabelos, agora com alguns grisalhos perto das patilhas, por debaixo das orelhas, como se tentasse ganhar fôlego para as explicações que se anunciavam.
– Christine me disse antes do casamento que estava esperando um filho meu. – Ele disse, e eu pasmei na hora, ficando sem palavras. – Eu fiquei feliz sabe? Mesmo nunca tendo pensado nessa possibilidade. Quis correr e te contar … oh mio bene … — Ele esfregou o rosto no lugar da barba de há três dias. – … você sempre teve razão sobre ela … Regina, me perdoa. Eu tive tanta vergonha …
Minha cabeça estava literalmente andado à roda com aquelas últimas revelações. Abanei a cabeça meio perplexa, e passei por ele, percebendo a minha necessidade de me voltar a sentar.
– Ela me arruinou a vida! Me fez pactuar com esse casamento sem a sua presença mia Regina, me chantageou dizendo que fugiria com o meu filho na barriga, me fez mudar mio nome di battesimo … — A sua voz parecia cada vez mais distante, e a minha cabeça girando sem parar. – … Aquela stupida! Desgraçou la mia vita! Figlia di …
Levei as mãos à cabeça, tentando fazer o rodopio parar.
– Regina!! – Gior gritou, parando todo o praguejar em italiano que parecia estar exclamando em voz distante para os meus ouvidos. – Dio mio! Você está bem?
Senti as mãos dele frias na minha nuca, fazendo pressão levemente para baixo de encontro as minhas próprias mãos.
– Respira mio bene. – Sua voz me dizia, baixinho, enquanto ele massageava minhas têmporas. – Vai passar.
E como se as suas mãos fossem mágicas e o timbre da sua voz portador de poderes terapêuticos, o rodopio foi abrandando, a dor desvanecendo e a náusea sendo levada embora junto com todos os sintomas.
– Melhor? – Perguntou, me levantando lentamente a cabeça pelo queixo.
Eu assenti, esboçando um breve sorriso em agradecimento.
– É a primeira vez que você sente isso? – Ele perguntou de novo.
– Gior, eu estou bem. – Cortei, até porque não era hora para aquilo. Não depois de tudo que ele desabara em cima de mim. – Quer dizer que você tem um filho? – E eu não consegui evitar de sorrir com aquela ideia.
Ele sorriu também, e nesse instante, durante uma pequena fração de segundo, eu vislumbrei a alegria que era característica intrínseca dele no passado.
– Filha. – Ele corrigiu, e seus olhos brilharam orgulhosos, mas depois se voltaram a encher de amargura, e eu não entendi logo o porquê disso. – Eu estou lutando na justiça pra provar que ela é minha filha. Eu pedi o divórcio a Christine meses depois de termos casado. Ela concordou, mas ficou com parte do lucro das clínicas privadas que eu abri em Seattle.
– Então você tem estado esses anos todos em Seattle? – Indaguei surpresa, pensando que ele pudesse estar mais longe.
Ele assentiu com a cabeça, com o olhar distante. Ele estava de joelhos, na minha frente, agora segurando as minhas mãos, e eu me vi sem querer acariciando as dele com a ponta dos dedos.
– Pouco depois de estar concluído o processo de divórcio, Christine veio pra cima de mim com uma conversa sem sentido … — Ele continuou a explicação num tom de voz calmo, mas ao mesmo tempo que carregava um desgaste emocional muito grande, e que eu achei que não combinava nada com ele. – … minha principessa … — E aí ele sorriu e o brilho voltou aos seus olhos. – Minha filha … ela está agora com cinco aninhos. Seu nome é Emily. – Depois, o sorriso murchou, na antecipação provavelmente do que ele me contaria a seguir. – Segundo Christine, Emily não é realmente minha, porque ela teve um caso qualquer com um cara …
– Oh Gior! – Eu apertei as suas mãos, sem saber direito como reagir a toda a história absurda que ele me contava. – Eu sinto muito. – E aquela era a mais pura das verdades, até porque quem melhor do que eu poderia saber o que ele estava passando naquele momento? Me identifiquei em parte na mesma hora, pensando em Henry, e em como ele poderia ser retirado de mim a qualquer instante.
– Mas não é verdade Regina. – Ele parou os meus pensamentos repentinamente, me olhando cheio de certezas. – Emily é minha filha, eu sei que é … ela está mentindo.
Eu encarei-o em silêncio séria, me mostrando solidária com a dor dele, no fundo pensando em como tudo aquilo era tão irónico. Meu amigo reaparecer na minha vida precisamente nesse momento, enfrentando um problema que me remetia instantaneamente aos meus próprios.
– Mas como você pode ter tanta certeza? – Eu ousei perguntar. – E o que Christina ganharia com isso?
Ele riu, e eu não entendi, franzindo o cenho para ele, até porque não havia feito nenhuma piada e nem a situação era motivo para dar risada.
– Christine. – Ele corrigiu abanando a cabeça, mas o seu jeito não era de reprovação. – Eu devia ter te escutado mio bene …
– Hey .. – Eu puxei as mãos dele para mim. – Mas se você tivesse me escutado, você hoje não teria sua principessa. – Disse, me surpreendendo com a minha própria resposta, me apercebendo finalmente que eu já o havia perdoado.
– Mas eu não tenho do mesmo jeito. – Ele revidou triste e cabisbaixo.
– Meu querido. – E foi a minha vez de lhe levantar o queixo. – No que depender de mim, você terá. – Assegurei.
Ele sorriu, e levantou as minhas mãos para as beijar.
– Grazie mia Regina. – Ele agradeceu, se levantando do chão, e se voltando a se sentar ao meu lado. – Eu sei que ainda não é o grande dia, mas pode abrir o presente se quiser. – Ele indicou o embrulho sobre a mesa.
Olhei para a mesa, já esquecida do tal presente misterioso que não havia chegado a perceber de quem era.
– Você é meu cliente das oito? – Eu perguntei sem esperar resposta, porque estava nítido que era. – Ai Gior … — Suspirei, subitamente entristecida. – Nem sei mais se vai haver casamento.
– Como assim mio bene? – Ele perguntou sem entender. – O matrimonio não é já daqui a três semanas?
– É … — Respondi com um receio e hesitação descomunal.
– O que está acontecendo? – Perguntou.
– É uma longa história querido.
Ele olhou para o relógio preso no pulso, e esboçou um pequeno sorriso para mim.
– Eu marquei hora com você por algum motivo, non è vero? – Interrogou de novo de forma gentil.
Eu sorri também, correspondendo ao seu sorriso lindo. Assenti com a cabeça, e comecei contando em traços gerais o que estava acontecendo na minha vida nesses últimos tempos.
Ele me escutou em silêncio, sem me interromper uma única vez, aparentando estar num estado de introspecção interrupta por um longo tempo, mesmo depois de eu já ter terminado de falar.
– Você não vai falar nada? – Questionei com a sobrancelha erguida.
– Sabe mio cuore … você não mudou nada. – Ele afirmou, me deixando sem entender na mesma. Ele continuou então. – Sempre que o assunto era Emma, você se tornava uma menina insegura, cheia de receios. Porquê isso Regina? Ela se rendeu aos seus encantos há tanto tempo já, ela se entregou, vocês criaram um lar juntas …
– Você não escutou o que eu disse? O pai de Henry voltou! – Eu tentei me conter na alteração da minha voz. – E ela está tendo um caso com ele nas minhas costas!
– Eu escutei. – Ele confirmou, me fazendo ficar ainda mais nervosa com a falta de uma reação digna dele. – Mas pelo que você me acabou de contar, você apenas desconfia. Não há provas.
– Quer prova maior que as mensagens que ele mandou a ela? – Lancei como se fosse óbvio o meu transtorno e completamente justificado.
– Vamos fazer assim mio bene. – E ele se levantou, se dirigindo para a mesa onde estava depositado o presente. – Minha hora com você está terminando por agora, então eu vou convidar você para almoçar comigo … — E vi ele pegar no embrulho de presente e se virar novamente para mim. – … e você vai chamar Emma pra vir junto. – Ele ainda nem tinha acabado de falar e eu já abanava a cabeça em negação, o que fez ele revirar os olhos à medida que voltava para ao pé de mim. – O que tem amor mio? Eu quero rever sua noiva também. – Ele me piscou o olho ao mesmo tempo que me entregava o embrulho.
Noiva … a palavra me causou um certo embrulho no estômago, muito menos apelativo do que o embrulho de presente que eu acabara de segurar com ambas as mãos. Ele se curvou, me beijou a bochecha demoradamente, me sussurrando um até logo, e saiu da sala sem dizer mais nada.
Eu fiquei inerte, sentada, olhando para o presente no meu colo. Suspirei melancólica, e comecei abrindo o embrulho para ver o que Gior tinha comprado para mim. Havia uma caixa no enredado de papéis, eu abria-a com cuidado, e lá dentro, estava depositada uma parte de mim que Giorgio pelo jeito havia feito questão de me devolver. Eu sorri, abrindo o diário antigo. No processo, um bilhete se soltou de entre as folhas, e eu peguei nele para ler o que estava escrito:
Seu mais fiel súbito regressou para ceder o ombro a todas as suas mágoas e tristezas, e a tudo que mais fizer falta à sua Regina. Ti amo mio bene.
Meu sorriso alargou ao terminar de ler aquelas linhas. Após alguns segundos relendo aquilo, o que causou em mim uma tremenda alegria que nem sei como descrever em palavras, resolvi voltar minha atenção para o diário. Logo na contracapa, na letra cuidada de Gior, estava escrito o seu número de telefone e o endereço do hotel onde ele estava hospedado e os respectivos contatos. Sorrir não era mais o bastante. Levei o diário ao peito, apertando-o contra mim com ambas as mãos, e me levantei pronta para iniciar mais uma manhã atarefada de trabalho.
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