Notas iniciais
Boa noite =) Música para a última parte do capítulo: https://www.youtube.com/watch?v=5j6LjxAaR88 (Alguma ideia de quem marcará presença? =P Já dei a pista!) Boa leitura!

Estava acabando de me arrumar no quarto, pronta para arrancar tanto Emma como Henry da casa de Giorgio já que havia recebido a desagradável notícia que teríamos uma infame convidada para jantar. Claro que Gior não fizera por mal e que no fundo havia sido chantageado a fim de concordar com aquela situação, mas eu não poderia tolerar aquilo. Por dois motivos diferentes: o primeiro porque não podia impedir o meu amigo de rever a filha, a pequena Emily; e segundo, porque se eu fosse ficar para aquele jantar com certeza iria acontecer uma tragédia e poderia-o colocar numa situação demasiado delicada.

– Você não consegue mesmo esquecer esse rancor todo pelo menos por uma noite? – Emma perguntou sentada na cama enquanto calçava as botas.

Olhei-a por cima do ombro, surpreendida. Não podia acreditar que ela estava me chamando de rancorosa! Ainda mais se tratando da pessoa em questão.

– Emma, aquela mulher foi a grande responsável pela ruptura que houve entre mim e Gior! – me virei repentinamente como se ela não estivesse atingindo a gravidade das ações daquela mulher.

Ela não me respondeu logo, em vez disso ergueu uma sobrancelha e passou a mão pelo queixo de maneira reflexiva.

– Afinal de contas … — começou falando meio relutante. – … de que tipo de ruptura você está falando?

Pisquei os olhos sem entender.

– Como que tipo de ruptura? – indaguei retoricamente. – Você sabe que por causa dela eu fiquei sem falar com Gior esses últimos seis anos!

Ela se levantou em silêncio sem dizer nada. Despiu a regata branca que tinha vestida largando-a de qualquer maneira em cima da cama e foi até ao armário no fundo do quarto tirando de lá uma das minhas camisas de cetim.

– Quer dizer que você guarda toda essa raiva de Christine porque ela se meteu entre você e Giorgio? – perguntou séria, começando a abotoar os botões da camisa azul.

Franzi o cenho completamente confusa com a conversa sem lógica.

– Não tou entendendo o porquê disso te causar tanto espanto. Eu e Giorgio nos conhecemos desde pequenos, fomos amigos de infância, crescemos juntos, nos ajudámos mutuamente …. – fiz uma pausa, e aproveitei para me aproximar dela que continuava compenetrada na tarefa de abotoar os botões da camisa. – Nada que você já não saiba.

Ela levantou o rosto, me encarando fixamente antes de abrir a boca.

– Será mesmo?

– O que está insinuando? – perguntei no mesmo estado de confusão.

– Será que não foi … não é mais do que isso? – revidou com mais um questionamento sem nexo.

– Emma … se você quer me dizer alguma coisa, diga de uma vez! Não tou com disposição pra brincar de adivinhações!

– Será que esse seu ódio descomunal por Christine não tá relacionado com você ser apaixonada por ele? – lançou bruscamente me fuzilando com as duas esmeraldas que tentavam decifrar toda a verdade que ela achava estar sendo ocultada.

– Apaixonada … — enruguei a testa, tentando juntar as peças do quebra-cabeças. – … você acha que eu tou apaixonada pelo meu melhor amigo?

– Você dormiu com ele? – atirou.

– O quê? Emma, onde você foi ….

– Responda. – se aproximou ainda mais do meu rosto, me fazendo sentir a sua respiração levemente alterada aquecendo a minha pele. – Você chegou a transar com ele?

Abri a boca pronta para contestar, mas tive de a fechar logo depois.

– Preciso que você transe comigo! – atirei de uma só vez antes que perdesse a coragem.

Primeiro Gior me olhou sem reação, mas depois de alguns segundos tentando processar aquela informação ele caiu na risada feito um louco.

– Isso é sério seu mala! Eu preciso que você …. Ah, merda! – meus cabelos naquele verão estavam pela altura dos ombros e eu havia ganhado a mania de os prender com um elástico cada vez que ficava ansiosa. – …. Gior … não me obriga a repetir! – amarrei as mechas desajeitadamente, deixando que a maior parte caíssem novamente pelos meus ombros.

Ele limpou as lágrimas do riso que já caíam-lhe pelo rosto queimado do sol. Ele havia se tornado um belo jovem, bastante alto e entroncado o suficiente para impor respeito, ainda com os seus recém dezoito anos.

– Aish .. – ele colocou a mão no peito, tentando parar de rir. – … isso … è stato molto divertente! – e recomeçou a gargalhar alto.

– Para com isso! Eu tou falando sério! – exclamei com meus dezassete anos, quase dezoito, emburrada.

Só aí ele pareceu parar de rir. Limpou novamente o rosto com as mãos e me encarou com o rosto contraído.

– Tu sei innamorata di me? * — perguntou espantado. – Regina, mio bene … você sabe que io ti amo, mas …

– Você não tá entendendo. – respirei fundo antes de prosseguir com a confissão. – Eu acho que não gosto de homens!

Ele soltou um som que soou indecifrável pelos meus ouvidos e coçou o queixo no lugar do recente cavanhaque que havia deixado crescer nas últimas semanas.

– Mio bene, eu acho que existe um problema nessa sua associação de ideias. – ele olhou de mim para ele próprio, passando a mão pelo seu tronco em direção às pernas e retornou o olhar a mim. – Siga o meu raciocínio … eu sou um homem non è vero?

Bufei, cruzando os braços, já vendo onde aquilo ia parar, mas não o interrompi.

– E você acaba de dizer que não gosta de homens …. – ele apertou os olhos azuís como se estivesse fazendo um esforço muito grande para concluir o raciocínio. – … Eu já disse que sou um homem?

– Giorgio! – gritei já ameaçando dar-lhe um tapa no braço, mas ele me imobilizou logo.

– Tou brincando! – riu, me abraçando contra a minha vontade enquanto eu fungava no seu peito. – Hey .. você tá chorando mio bene?

Me recusei a olhá-lo, mantendo o meu rosto contra a sua camisa.

– Regina … amore mio, per favore. – ele me apertou mais, me deixando chorar e como consequência molhar a sua camisa toda.

Ele me amparou até ao último soluço. Se deitou comigo na minha cama e me deixou adormecer sobre o seu peito.

– Então é verdade! Você foi pra cama com ele! – Emma acusou, não me deixando sequer me recompor. – Agora faz sentido tamanha raiva dessa mulher! Isso aí é tudo dor de corno!

Plaft!

Quando dei por mim já Emma esfregava a face esquerda abismada pelo tapa que lhe dera.

– Emma! – levei as mãos ao rosto dela embora ela tivesse recuado para trás. – Desculpa! Eu não … você me tirou do sério!

Ela não respondeu nada, apenas ficou me olhando sem reação, mas ao menos continuou ali à minha frente.

– Querida … nada justifica isso, mas …. O que tá acontecendo? – abanei a cabeça começando a ser tomada pelo desespero. – Eu não sou nem nunca fui apaixonada por Giorgio. E se algum dia alguma coisa aconteceu entre nós não teve nada a ver com paixão, tesão … Emma …

Ela baixou o rosto, e aquilo me desesperou ainda mais.

– Amor por favor, me perdoa … eu não sei o que possa dizer mais pra …

– Foi Christine. – respondeu num sussurro.

– O quê?

Ela tornou a olhar para mim e retirou com delicadeza as minhas mãos do seu rosto, mantendo-as seguras nas dela.

– Hoje mais cedo quando você tava fazendo todos aqueles exames, Christine apareceu na clínica. – suspirou e eu comecei a sentir o meu sangue ferver com as coisas que ela me dizia. – Ela não disse nada diretamente … eu é que … eu não devia … merda! – praguejou para o alto, revirando os olhos. – Eu vi você sair toda arrasada da sala de exame … e Gior te abraçando e …

– E as palavras de Christine ficaram te martelando na cabeça não é? – completei, adivinhando tudo de uma só vez.

Ela assentiu com a cabeça, envergonhada.

– Aquela mulher não presta Emma. E quando eu digo que ela não presta, não tou falando apenas daquela pessoa que faz fofoca porque não tem nada que fazer da vida. É premeditado! – retirei uma mecha loira da frente do seu rosto e continuei com seriedade. – Tudo o que ela faz é com um propósito. E a principal arma dela é aquele seu jeito falsamente inocente de ser. Ela parece deixar escapar as coisas por distracção ou descuido, mas na verdade ela sabe muito bem o que tá fazendo.

– Mas o que ela tem contra você? – perguntou.

Encolhi os ombros.

– Eu não sei. – respirei fundo. – Mas seja o que for, eu não quero que ela seja a responsável por causar de novo outra grande ruptura na minha vida.

– Você tem razão. – balançou a cabeça ligeiramente. – Desculpa.

– Escuta … — mordi o lábio levemente, antes de continuar. – Porque eu não quero que esse assunto volte a ser motivo de mal-entendido entre a gente, eu quero te contar …

– Não precisa.

– Precisa sim. – soltei as minhas mãos das dela e subi-as até aos botões que faltavam abotoar da sua (minha) camisa. Fui falando enquanto terminava a tarefa. – É verdade que eu já transei com Gior. – senti ela segurar a respiração, na expectativa. – Ele foi a primeira pessoa com quem eu estive dessa forma.

– Sei sicura? * — ele estava sobre mim, completamente despido, tirando a cueca justa, de cor avermelhada.

Engoli em seco debaixo dele.

– Regina … porque você quer tanto isso? Você mesma falou que não gosta de …

Interompi-o com um beijo apressado, desajeitado e nervoso. Eu sabia que Giorgio gostava de meninos, nunca havia conhecido nenhuma namorada dele, então assim era mais seguro. Na minha cabeça não haveria o risco dele se apaixonar romanticamente ou algo do género por mim. E talvez assim eu pudesse tirar aquelas coisas que eu andava sentindo da minha cabeça, e do meu corpo. Talvez se eu fizesse sexo com ele, eu não quereria mais nada da vida. Talvez eu deixasse de me sentir estranha perto da garota alta e de coxas grossas da classe de inglês. Talvez o calorzinho que percorria o meu corpo na aula de ginástica cada vez que tínhamos de fazer acrobacias em grupo me deixasse de uma vez por todas. Talvez …

– Mia Regina. – ele sussurrou tão perto. Seus lábios roçavam a cartilagem da minha orelha.

Fechei os olhos e inclinei a cabeça de encontro ao colchão. Senti seus lábios beijarem a pele do meu pescoço, descendo os beijos pelo colo dos meus seios.

Ele fora carinhoso como só ele sabia ser. Suas mãos eram grandes e meus seios eram facilmente cobertos pelas palmas quentes que me massageavam com a força necessária para estimular a zona erógena em questão. Sua boca parecia demasiado estudada e adaptada para um corpo feminino, embora eu não pudesse ter a certeza de facto, já que experiência prática eu não tinha praticamente nenhuma. Procurei pela sua boca de novo, mas a aspereza leve da barba, mesmo feita, me incomodava ligeiramente. Seu corpo sob o meu era bem torneado, mas minhas mãos não sabiam como deslizar sobre ele.

Eu me dei conta que o amava profundamente. Amava-o tanto que daria a própria vida para o ter para sempre junto comigo, mas não necessariamente dentro do meu corpo. Amei-o ainda mais depois, após perceber todo o esforço e empenho, embrulhados em toda a delicadeza e amor do mundo na tentativa de me proporcionar o êxtase total através do acto que eu havia-lhe implorado que me cedesse. Ele gozou. Eu acho que estive quase. Ele sorriu e disse que me amava e que não me queria perder nunca.

Eu soltei a respiração, acariciei a sua face depois dele se ter retirado de mim, e sorri de volta.

– Grazie amore mio. – disse, antes de me levantar e me dirigir ao banheiro que tinha no quarto.

– Vocês nem sequer tentaram ficar juntos? – Emma perguntou ainda meio boquiaberta com o que eu confessara.

– Mas nós ficámos juntos, querida. – respondi com um sorriso que se foi estreitando com a lembrança do que diria a seguir. – Até Christine ter entrado na nossa vida.

Ela me encarou em silêncio, como se finalmente tivesse compreendido o verdadeiro significado e peso de toda aquela história. Como se tivesse assimilado pela primeira vez a dimensão do meu amor por Gior.

– Uau. – disse, impressionada, recolhendo novamente as minhas mãos que se postavam ainda sobre a sua camisa. – Agora sim eu tenho razão pra ter ciúmes! – exclamou de repente, mas havia descontração no seu tom de voz. Havia aquela pureza de sentimento que eu amava nela, aquela ingenuidade encantadora. Que não julga, que não busca motivos para ficar num canto. Que apenas se assegura a ela mesma e se rejubila com isso.

– Boba. – encostei a testa na dela. – Eu te amo tanto, mas tanto, que meu corpo reclama a toda hora pelo seu. E sabe o que acontece quando não te encontra?

– Hm?

– Ele se fecha pra vida. Todos os meus sentidos morrem, me deixando prisioneira da razão constante do meu trabalho, das pessoas que cruzam as minhas reuniões, de todas as negociações que eu espero vencer e que os outros anseiam por me ver perder. – vi-a fechar os olhos e a curva mais convidativa do seu corpo se redesenhar na minha frente na forma de um sorriso sereno e arrebatador. Não resisti à tentação de a tocar. Primeiro nas extremidades, pincelando discretamente com a ponta da língua, e depois, contornando o meio carnudo e apetecível da carne dos seus lábios pressionados propositadamente para me fazer sugá-los com leveza.

– Hmmm … — ela entoou com exagero o gemido manhoso, ainda colada aos meus lábios. – Decididamente eu já não tou com ciúmes.

Abracei-a, rindo alto, reapainoxada pela sua leveza e encantamento pela centésima vez. Não, acho que já vai muito mais além do que isso, mas não importa. Porque no amor, se perde a conta.

*** *** ***

Infelizmente tive de deixar Giorgio sozinho para lidar com aquele jantar, mas na realidade eu acabara de lhe fazer um favor, porque se eu tivesse aceitado jantar na companhia daquela mulher, rigorosamente nada iria correr bem. Ainda mais depois de saber que ela tinha tentado envenenar Emma contra mim com mais uma das suas mentiras. Eu tenho certeza que se a visse naquele momento, Emily ficaria órfã de mãe.

Então, nos despedimos por aquela noite de Gior e Giuseppina. Me desculpei por não ficar, mas ele compreendeu, confessando que não era da sua vontade receber aquela mulher na sua casa, mas que ela não havia-lhe deixado alternativa já que havia metido Emily no meio. Ela traria com a ela a menina que Gior não via há quinze dias, e isso, eu compreendia tremendamente bem. Pensar em ficar longe de Henry por muito menos tempo que isso já me causava aflição, então nem conseguia imaginar o quão difícil era para meu amigo aquela situação.

Lamentei não poder conhecer Emily naquele momento, mas prometi-lhe que mais breve do que esperávamos poderíamos ir todos passear pelo parque com ela.

– Porque a gente não ficou pra jantar? – Henry perguntou dentro do carro. – Eu queria conhecer a Emily!

– Porque se a gente ficasse nada de bom ia resultar desse jantar. – respondi vagamente, olhando pelo vidro do carro.

– É por causa da mulher de Gior? Aquela que você não gosta, não é mãe?

– Ela não é mulher dele. – contestei, encarando-o com seriedade. – Ela é apenas mãe da filha dele. Entende a diferença, querido?

– Sim … — ele coçou a cabeça, bagunçando um pouco os cabelos. – Eles não dormem juntos como vocês.

Emma riu, esticando a mão até aos cabelos dele, ajeitando alguns fios que haviam ficado no ar.

– Eles não dormem juntos e a única coisa que os liga um ao outro é a menina. – Emma desenvolveu.

– Porque a mãe da Emily traiu Gior com outro? – ele continuou o rol de perguntas.

– Henry … — avisei em tom de repreensão.

– Eu não sou mais criança! Eu sei das coisas!

– Garoto, há muitas razões pra duas pessoas se separarem, mesmo depois de ter um filho. Nem tudo tem a ver com traição. – foi Emma que interveio, tentando amenizar, já que se fosse eu a responder, acabaria mesmo por denegrir forte e feio a imagem de Christine na frente do nosso filho.

– Mas a razão de Gior não poder tar com Emily não tem a ver com ele não saber se é mesmo pai dela? – a naturalidade com que ele perguntou aquilo nos surpreendeu, fazendo com que houvesse uma troca de olhares discretos entre mim e Emma.

– Isso é assunto deles filho.

– Isso mesmo, não há porquê o rapazinho se intrometer. – reforcei o que Emma dissera, o que fez com que ele ficasse emburrado e não quisesse mais conversa.

– Senhoritas. – Edward chamou da frente. – Já decidiram o destino?

– Mcdonald’s! – Henry se intrometeu, antecipando-se a nós.

– Já almoçámos no Mcdonald’s. – fiz uma careta.

– Mas eu não tava junto! – ele reclamou cruzando os braços. – Você só chamou a mamãe e eu tive de comer aquele peixe cozido que a Giuseppina fez. – argumentou.

Emma reprimiu o riso ao meu lado, e nem foi preciso trocar nenhuma palavra com ela para saber que no fundo ela concordava com Henry. Balancei a cabeça contrariada, mas me dei por vencida.

– Mcdonald’s, por favor, Edward. – ordenei não muito satisfeita a Edward que logo assentiu em silêncio com um sorriso cordial.

– Oba!! – Henry gritou entusiasmado ganhando um “shhh” meu.

– Ele consegue sempre tudo que quer. – Emma murmurou do meu lado. – Não te lembra alguém? – provocou com um sorriso de canto. Revirei os olhos em resposta, e mesmo antes de pensar em alguma coisa para responder ouvi o meu celular tocando.

Emma me lançou o seu típico olhar que advertia “Se for assunto de trabalho não atende”, mas eu apenas dei de ombros e procurei pelo aparelho na minha bolsa. Escutei-a resmungar qualquer coisa de forma impaciente, mas não me incomodei, atendendo a chamada sem demora.

– Regina Mills. – autoanunciei-me.

– É um prazer escutar a sua voz novamente. – respondeu de forma galanteadora numa voz que não me parecia estranha, mas que mesmo assim não consegui identificar. – Estou ligando apenas pra dizer que reservei mesa no restaurante Shiro's Sushi como combinado mais cedo e que em menos de dez minutos estarei lá.

Pisquei os olhos, pega de surpresa. Era o … como era mesmo o nome do sujeito?

– Miss Mills?

– Jones? – balbuciei ainda meio incerta. Emma levantou a sobracelha, sua atenção captada instantaneamente pelo modo como eu ficara. – O senhor está em Seattle?

Escutei-o rir divertido do outro lado.

– Mas não era esse o combinado? – indagou ainda no mesmo tom de diversão.

– Sim … claro. – respondi, tentando disfarçar o meu estado de embaraço. Quando lancei a tal proposta do jantar em Seattle nunca pensei que ele conseguisse chegar a tempo, ainda mais tão em cima da hora, conseguir arranjar um voo de última hora e ainda as horas de viagem. Como é que ele poderia ter chegado à cidade em tão pouco tempo?

– Então espero encontrá-la daqui a pouco no restaurante pra tratarmos de negócios. – disse com firmeza, finalizando. – Até já.

– Até já. – me vi responder sem nem pensar direito.

– Até já? – Emma questionou sem entender assim que desliguei o celular.

– Eu lamento meus amores. – falei para ela e para o nosso filho que a essa altura também me olhava com curiosidade. – Mas eu tenho um jantar de negócios precisamente agora.

– Do que você tá falando? Não acredito que até aqui você arrumou forma de marcar um jantar de trabalho! Por amor de Deus Regina, você veio pra cuidar da sua saúde não pra ficar se stressando mais ainda! – Emma explodiu.

– Emma. – toquei-lhe o joelho, acenando discretamente para Henry que exibia um semblante preocupado.

Ela abanou a cabeça, claramente contrariada e incomodada, mas acabou por concordar em não continuar com a repreensão que me estava dando como se eu fosse uma criancinha pequena.

– Você vá nesse jantar, mas me liga assim que terminar pra te ir buscar. – eu assenti com a cabeça. – Mas me liga mesmo okay?

– Sim querida. – respondi, revirando os olhos.

– E se precisar de alguma coisa, qualquer indício de mal-estar, qualquer sintoma …

– Tá bom Emma! Eu ligo, pode deixar. – reafirmei.

– Qual o restaurante? – perguntou.

– Shiro's Sushi na 2ª Avenida. – informei como se estivesse passando o relatório completo à minha mãe.

– E com quem é o jantar?

– Emma!

Henry acabou rindo de nós duas.

– Chegámos senhoritas. – era a voz de Edward anunciando que tínhamos chegado ao Mcdonald’s.

Henry se soltou do cinto e foi o primeiro a se aprontar para sair.

– Ok … — Emma estava relutante e fui eu a me aproximar da sua boca para lhe dar um beijo. – Se cuida. – pediu preocupada.

– É só um jantar amor. – assegurei com um sorriso. Ela assentiu e saiu logo atrás do nosso filho, batendo a porta do seu lado.

– Edward, por favor.

– 2ª Avenida, certo? – perguntou.

– Isso mesmo. – ele arrancou novamente com o carro.

*** *** ***

Assim que cheguei à entrada do restaurante e Edward parou o carro para que eu saísse, notei uma movimentação estranha no local. Alguma figura pública importante deveria estar jantando ali, porque haviam alguns fotógrafos parados na porta que pareciam ter sido barrados pela segurança.

Se estivéssemos em Nova Iorque, provavelmente eu arriscaria dizer que a figura pública seria eu própria, mas não acredito, já que a descrição havia sido meu principal requisito para permitir a minha viagem a Seattle. Ninguém sabia que eu estava ali, a não ser ....

Um homem bem vestido com um terno cinzento-escuro, de paletó acinturado com caimento moderno, e as calças ajustadas, se aproximou rapidamente antes que eu pudesse entrar no restaurante.

– Miss Mills. – acolheu rapidamente a minha mão, me pegando de surpresa. – Quanta honra. – sibilou, encostando brevemente os lábios nas costas da minha mão, enquanto os seus olhos de um azul obstinado mergulhavam em mim.

Minha reação foi puxar a mão de volta, mas antes que o pudesse fazer a luz dos flashs bateu em mim, me dando a certeza que uma daquelas fotos faria manchete no The New York Times do dia seguinte.

Tapei o rosto com a bolsa, e inevitavelmente me deixei levar para dentro do restaurante, já que minha maior preocupação era sair de perto de toda a confusão.

– Quem você pensa que é? – explodi, embora em voz baixa, na recepção do restaurante oriental. – Quanta petulância da sua parte!

Ele largou a minha mão, mantendo no entanto a sua mão esquerda atrás das costas, e esboçou um sorriso cínico.

– Então sempre fui inconveniente? – perguntou, fazendo charme.

Franzi o cenho por instantes, mas de repente como se estivesse revendo mentalmente a conversa telefónica mais cedo, tudo se montou na minha cabeça.

– Jones? – indaguei, olhando-o de cima a baixo. Ele jogou um sorriso sedutor e fez uma vénia discreta com a cabeça.

– Em que nome está a reserva? – a pergunta veio do recepcionista, fazendo com que a nossa atenção fosse desviada.

Jones pigarreou com ar altivo, levantando o pescoço como se fosse um galo de capoeira se exibindo e respondeu ao empregado:

– Killian Jones.

*** *** ***

Cedi, mais uma vez. Eu não sei o que estava acontecendo comigo, mas em vez de ir embora na mesma hora, virar as costas àquele homem e certamente à armação que devia estar por detrás de tudo aquilo, eu fiz precisamente o contrário. Não podia ser ingénua, aliás, ficaria até mal para mim tendo em conta a minha experiência nesse mundo, mas algo me impediu de ir embora. Algo me impeliu a aceitar o convite para me sentar à mesa quando o garçom afastou a cadeira de frente para Jones para que eu me sentasse. Recolhi o guardanapo de pano e o coloquei sobre o colo em silêncio, apenas observando com curiosidade Killian Jones despir o paletó e o entregar ao rapaz depois.

Foi aí que eu percebi a luva preta na mão esquerda. Desci os olhos até à mesa onde ele pousou a mão devagar, e tornei a encará-lo nos olhos.

Ele riu, e eu ergui a sobrancelha com ar entediado.

– Me chamando de exibicionista em pensamento, amor? – apontou para a própria mão. – É uma mão biónica. – esclareceu, me surpreendendo mais uma vez. – Um acidente de trabalho.

– Primeiro … — testei a minha voz, e só depois de ter a certeza que era confiável, continuei severamente. – Eu não sou seu amor. E segundo, sim, você é muito inconveniente. E terceiro, não me interessa nem um pouco a sua mão biónica.

Ele desviou por instantes o olhar para o garçom que servia o vinho, e sorriu de lado, como se estivesse achando tudo muito divertido.

– Afinal … quem você é de verdade, Killian Jones? – perguntei, perdendo a paciência.

– Eu gostaria de poder dizer a você que sou seu príncipe encantado … — revirei os olhos e ele tomou um gole de vinho. – … mas esse posto não combina muito bem comigo. Talvez um saqueador, capaz de navegar por mares sem fim pra roubar o seu coração?

– Que poético. – respondi com sarcasmo, provando também do vinho.

– Eu concordo. – se recostou no encosto da cadeira, me analisando com demasiado interesse. – Sempre achei a poesia coisa de viado. Eu prefiro …

– Você é sempre assim tão cheio de si mesmo? – cruzei a perna por debaixo da mesa, me recostando também melhor à cadeira.

– Você ainda não viu nada. – sorriu com malícia. – Infelizmente, outros assuntos se sobrepõem às minhas inúmeras qualidades. Eu realmente vim tratar de negócios. – o sorriso desvaneceu.

– Imagino que esses negócios nada têm a ver com o lançamento da nova marca de acessórios. – fiz uma pausa, fixando-o com atenção. – Aliás, nem coleção existe pra ser lançada, certo?

– Adoro mulheres inteligentes. – disse com um novo sorriso dançando nos seus lábios travessos. – Eu sou apenas o mensageiro.

– Um pau mandado você quer dizer? – provoquei, devolvendo o sorriso. – Pra quem você trabalha?

– Ainda não descobriu?

Fleti a sobrancelha desconfiada, vendo ele levar a mão direita até ao lóbulo da orelha do mesmo lado, onde havia presa uma argola pequena em ouro. Ele rodou o brinco umas duas vezes, e seu olhar abandonou o meu, se fixando num ponto qualquer, atrás de mim.

How good or bad? happy or sad?
Does it have to get it?

Olhei para trás pelo ombro, e o vi.

Losing yourself, no cry for help
So don't think you need it

Novamente todo vestido de negro, inclusive a gravata, quase não se distinguido da camisa na mesma cor por debaixo do paletó. Seu rosto era inexpressivo, enquanto o empregado estendia as mãos para ajudá-lo a despir o paletó.

And old friends are just a chore,
But now you need 'em more than ever before

Assim que olhou na minha direção, a linha fina e inexpressiva dos seus lábios se curvou milímetros nas pontas e ele avançou até à nossa mesa.

All that glitter and all that gold
Won't buy you happy
When you've been bored and sore
Riding white horses, you can't control
With all your glitter and all of your gold

Avançou mais, em passos firmes e sem vacilação. Destro, calmo e firme, tão firme que era quase impercéptivel o coxear. Killian se levantou imediatamente, passando por mim com a mão esticada na intenção de o cumprimentar. O cumprimento não veio, pois o outro chegou até à mesa, fez um aceno discreto com a cabeça dispensando Jones, e tomou o seu lugar, na cadeira à minha frente. Killian fechou o semblante ocultando a ira, e se retirou.

Take care of your soul,
Take care of your soul
Soul, soul, soul..

Você? – indaguei sem saber muito bem o que pensar daquilo.

– Minha querida. – sorriu, indicando ao garçom a necessidade de trocar copos. Prontamente, trouxeram-lhe um copo limpo e encheram com vinho. – Não acha uma coincidência deliciosa ambos apreciarmos um bom sushi? – desviou o olhar para o guardanapo de pano em cima da mesa, colocando-o também sobre o colo.

– Eu não acredito em coincidências, Gold. – revidei entre dentes. Ele disfarçou uma risada de escárnio. – Eu disse que ligaria.

– O que posso dizer? Eu não gosto que me façam esperar. – encolheu os ombros, absorto no cardápio que o garçom entregara nas mãos dele. – Me acompanha num barco de sushi e sashimi?

Soltei um suspiro exasperado, e ele sorriu, se fazendo de desentendido, entregando de volta o cardápio.

How high, how low? How on your own?
Are you gonna get?
Because, losing your soul will cost you more
Than that life you're paying for
And all those friends you left behind
You might need 'em when it's cold outside

– Então, queridinha, algo aconteceu? Tá tão calada. – cinismo definia Gold naquele momento.

– O que quer de mim? – ripostei sem paciência, começando a sentir dor de cabeça.

– Sorria. – enruguei a testa em confusão. – Não quer ficar feia na foto, hum?

Sua cabeça descaiu ligeiramente para a esquerda, e sua mão direita pegou no copo, erguendo-o no alto. Seu olhar portava um brilho misterioso que à luz do restaurante se assemelhava ao de uma Pedra Negra, belíssima, mas simultaneamente, temida. Estreitei os olhos castanhos, como se assim o pudesse examinar melhor, e espreitei discretamente para trás. Um jovem aloirado com uma máquina fotográfica estava a poucos centímetros dali, pedindo uma foto.

Gold assentiu com a cabeça, e o jovem se posicionou para bater a foto de nós dois. Logo depois, o rapaz agradeceu e se retirou.

– Você sabe que eu posso te processar por extorsão, não sabe? Mesmo que indireta.

Ele riu.

– Querida, eu não preciso da sua imagem pra enriquecer mais ainda. Não se trata de dinheiro. – respondeu.

– Muito bem. – tomei um gole também de vinho. – Coloque então as cartas na mesa. Se quer mesmo que eu jogue esse seu jogo, me conte as regras, e qual o objectivo.

– É justo. – assentiu, estalando os dedos no ar, o que fez com que logo alguém passasse por ele e lhe entregasse uma pasta. – Por favor. – esticou a pasta na minha direção para que eu a pegasse.

All that glitter and all that gold
Won't buy you happy
When you've been bored and sore
Riding white horses, you can't control
With all your glitter and all of your gold
Take care of your soul

Abri a pasta e tirei de lá um acervo de folhas e fotografias. A minha primeira reação foi desviar o olhar com repulsa, e olhar de novo para Mr. Gold que tinha uma expressão nebulosa no rosto, sem dar margem para interpretações.

– O que … — gaguejei, tornando a olhar para as fotos daquilo que parecia ser um crime horrendo. – … o que é isso?

Folheei as páginas, parando no que parecia ser uma ficha de homicídio em que passei brevemente os olhos pelo que estava escrito:

Vítima: Natalie Fisher Gold

6 de Junho de 2004

Local: Tallahassee, Florida

Idade: 29 anos

Causa da morte: Agredida na cabeça e asfixiada

Relação do autor com a vítima: desconhecida

Descrição: A vítima foi atingida com uma pedra na cabeça diversas vezes e asfixiada com um lençol. Havia indícios de elevadas quantidades de substâncias químicas no organismo da vítima, ao que tudo indica que antes de falecer ela já não estaria em plena consciência das suas faculdades mentais. Líquido seminal encontrado no corpo da vítima indicando recente actividade sexual, provavelmente com o autor do crime. Teste de estupro, negativo.

– Que horror! – fixei novamente a foto na ficha, da mulher toda ensanguentada, a vítima daquele crime. Virei a página e vi a cópia da certidão de óbito, confirmando que aquela jovem mulher era filha de Gold. – Porque você tá me mostrando tudo isso?

– Eu tenho um acordo a propor-lhe. – disse apenas. – É do seu interesse também, então acho que nós dois sairemos a ganhar.

Abanei a cabeça, incrédula, confusa, e sem saber o que aquele crime poderia ter a ver comigo ou com alguma coisa que fosse do meu interesse.

– Eu não sei com que espécie de pessoas a sua falecida filha poderia estar metida, mas eu lamento o seu triste fim. De qualquer forma, eu não vejo como esse assunto pode ter alguma relevância para mim. – respondi com certa frieza, mas realmente estava farta de me envolver em confusão.


One day you're gonna wake up and find that
No dream is losing it's shining
Nobody is by your side
When the rain comes down
And you're losing your mind
So, who you're gonna run to?
Where you're gonna hide?
Glitter and gold won't keep you warm
All those lonely nights
And all those friends that are such a chore
You're gonna need 'em more than ever before

Retirei o guardanapo do colo, jogando-o na mesa, e estava pronta para me levantar e ir embora, quando ele tornou a falar, naquele mesmo tom de voz calmo e sem emoção:

– O assassino é Neal Cassidy.

(…)

Take care of your soul
Take care of your soul
Soul, soul, soul...
Take care of your soul
Soul, soul, soul...
Take care of your soul
Take care of your soul

Notas finais
Tradução: * Tu sei innamorata di me? - Você está apaixonada por mim? * Sei sicura? - Você tem certeza?