Notas iniciais
Olá resistentes! xD Que outro nome dar a pessoas tão incríveis e comprometidas como são vcs com essa fic? Obrigada *__* Como prometido, aqui segue mais um capítulo. Espero que gostem, mas antes algumas traduções do nosso amigo italiano: (será que vou dar spoiler com isso?! O_O) Chi parla? - Quem fala? Che bello sentire la tua voce! - Que bom é ouvir a sua voz! ... non è la mia figlia. - ... não é minha filha. Boa leitura!

Regressei a casa mais atordoada do que nunca, me sentindo impotente, mas também com um sentimento forte de deceção. Se Regina de facto havia contratado alguém para me seguir, para controlar todos os meus passos e direções, então o nosso relacionamento estava pior do que eu pensava. A minha cabeça estava num turbilhão de ideias, suspeitas e pensamentos confusos. Notei que de vez em quando olhava por detrás do meu ombro, na expectativa de encontrar o espião, e isso só fez o sentimento que assolava o meu coração se tornar mais ruim ainda.

Apesar de me sentir um fracasso autêntico, entrei em casa de mansinho para não fazer barulho. As luzes do hall estavam apagadas, mas não me dei ao trabalho de as acender, pois sabia demasiado bem o caminho mesmo sem enxergá-lo. Caminhei na penumbra, me dirigindo ao escritório de onde imediatamente visionei uma luz amena, provavelmente vinda do candeeiro suspenso de uma das paredes.

Meu semblante severo mudou assim que a vi jogada no sofá, estremecendo sozinha ao mesmo tempo que soltava alguns sons impercetíveis. Parecia estar tendo um pesadelo.

— Não … — escutei-a murmurar, aflita. – … me larga.

— Regina. – chamei de forma suave, estendendo a mão para a tocar.

— Pára! – gritou, me afastando a mão num ímpeto incrível, ainda de olhos fechados.

— Hey … se acalma. – pedi gentilmente, tentando mostrar que estava tudo bem, embora por dentro eu estivesse arrasada. – Você devia estar tendo um pesadelo.

Já de olhos abertos, ela tentava ajustar a visão, começando a olhar para todos os lados, como se estivesse completamente perdida ainda.

— Hein … vamos, vou com você até ao quarto. – disse, tentando ajudá-la a levantar. Ela me olhou de forma estranha, antes de lançar:

— Que horas são? – perguntou quase de forma acusatória. E mais uma vez, não tendo feito nada de errado dei por mim me mexendo de forma desconfortável no lugar. A verdade é que doía demais aquela desconfiança, mas ao mesmo tempo, as revelações das últimas horas e o medo de perder Regina para sempre me faziam ficar calada. Pelo menos por enquanto.

Contrariando a minha impulsividade respondi-lhe:

— É tarde já … vamos, você precisa dormir.

— Onde você estava até agora? O que tá acontecendo com você? – atirou, enraivecida.

— Eu precisei resolver uns assuntos. – respondi, sem a olhar direito. Senti logo que ela sabia. Gold tinha razão, ela apenas estava esperando que eu confessasse a suposta traição. E muito embora aquilo estivesse me partindo em mil pedaços, não era altura para fraquejar. Se eu queria ajudá-la e talvez salvar o que restasse da nossa vida em conjunto, então eu teria de entrar no jogo de Gold. Optei por poucas palavras, até porque não era capaz de mais. – E não tá acontecendo nada.

— Uns assuntos? – ripostou, tentando não gritar. – Custava dar um telefonema? Henry perguntou por você … tive de lhe mentir. Acha certo isso?

Ela esperava uma resposta minha, impaciente como só ela era capaz de ser. Levei a mão à cabeça, sem jeito, sem chão, sem estrutura para lidar com aquilo. Não podia me precipitar, agir por impulso. Gold se mostrara mais perigoso do que nunca, e enquanto restasse peças soltas desse quebra-cabeça, eu não podia baixar a guarda, nem mesmo para Regina. Precisava descobrir quem era essa filha por quem ele buscava vingança.

À medida que o meu cérebro tecia mil e um planos diferentes fui me encaminhando para a mesa das bebidas em silêncio. Regina estava inerte, me observando num misto de agitação e sofrimento. Preparei meu drink e continuei pensando. Eu tinha de me afastar dali, porque enquanto estivesse no meio do fogo cruzado junto com Regina nada conseguiria enxergar. Foi com isso em mente que tomei a minha decisão com o coração aos prantos.

— Desculpa, ok? Eu só não quis te preocupar. – declarei de forma nervosa, não a encarando, porém, completamente. – E sim, eu já percebi que não ter avisado só fez pior.

Ela se aproximou de mim, me analisando atentamente. Tentei ao máximo disfarçar o nervoso, com o medo horrível que tinha de me descair. Nunca fora minha especialidade mentir, pelo menos não para ela, mas esta seria a última de uma série de mentiras e encobrimentos que acontecia entre a gente. Dei um gole generoso na bebida, bebendo todo o líquido restante do copo.

— Você tá se vingando de mim? É isso? – arremessou, zangada. Franzi o cenho, sem dar resposta. – Ou todas as minhas falhas viraram desculpa pra cair na cama com ele? – sustive a respiração por segundos, me segurando para não acabar respondendo que ela estava errada, que eu não verdade tinha quase matado o cara maldito. Em vez disso, nada disse, sentindo os olhos picarem-me nas órbitas. – Ou pior … – ela continuou quase sucumbindo ao choro. – … você descobriu que ainda o ama?

Deixei de a encarar completamente, fixando o chão para que não visse as primeiras lágrimas querendo saltar dos meus olhos trémulos. Senti ela virando as costas, saindo de perto de mim. Assim que me apercebi sozinha deixei que os meus joelhos tocassem o chão e uma enorme onda de soluços e choro me invadisse na privacidade daquele cómodo.

*** *** ***

Chi parla? *— escutei o idioma estrangeiro do outro lado da linha numa entoação ausente.

— Sou eu, Gior. – informei. – Emma.

Emma! Che bello sentire la tua voce! *— exclamou com alegria, revelando uma mudança drástica de tom ao me reconhecer. – Ma que aconteceu? Qualcosa com Regina?— perguntou, a preocupação tomando conta da sua voz.

— Ela está bem. – respondi. – Quer dizer … — acabei por vacilar com a lembrança dos últimos acontecimentos. – … eu preciso muito da sua ajuda.

Certo.— fez uma pausa, pensativo. – Ela está mesmo bene?

— Melhor falarmos pessoalmente. – comuniquei, sem nem saber por onde começar. – Me desculpa ligar assim, desse jeito. Sei que você não está com a vida facilitada também.

Non fa male, la mia bella.— respondeu daquele jeito dele, meigo e carinhoso. – Também preciso sair di qui. – acrescentou, entristecido.

— Ainda em Seattle? – ele assentiu do outro lado em um som fraco. – O ... o resultado ... – vacilei, temendo a resposta. Regina e eu tínhamos regressado a Nova Iorque antes de Gior ficar sabendo o resultado do teste de paternidade de Emily, e com todos os problemas que estavam acontecendo, nem eu nem Regina tínhamos voltado a falar com ele. De repente me senti terrivelmente mal por lhe estar ligando somente agora, que precisava de ajuda.– ... já saiu?

Emily ...— suspirou. – ... non è la mia figlia. *

— Não é? – como uma idiota, escutei a minha própria voz perguntando. – Oh Gior ... – sem ação, não fui capaz de encontrar palavras para exprimir a tristeza e o sentimento profundo de solidariedade que senti para com ele. – Porque não disse nada? A gente podia ... pensar que você esteve sozinho ....

Grazie, ma non se sinta male.— cortou, mais estabilizado. – Vocês non podiam fazer nada.

— Sim, mas ...

Emma.— voltou a interromper, calmamente. – Eu sei que Regina non sta bene. Sei que vocês têm os vossos propi problema. Dimmi ... precisa de mim para quando? — acabei sorrindo com a capacidade que ele tinha de colocar a sua própria dor em segundo plano e com toda a generosidade que demonstrava naquele momento.

— Para ontem? – brinquei, descontraindo um pouco.

Molto bene. Preciso deixar algumas cose organizzate na clínica, ma domani mattina estou aí com vocês.

— Amanhã? – perguntei, me certificando, pois nem sempre conseguia entender aquela mistura de línguas que ele usava para falar.

Sì, isso. Amanhã cedo.— clarificou.

— Gior ... – fiquei sem jeito de repente, e ele notou.

C'è un problema?

— Me encontre no meu escritório e ... não fale nada para Regina.

Ora mi stai fazendo preocupar de verdade.

— Eu e Regina não estamos mais juntas. – lancei de uma só vez. Silêncio do outro lado. – Eu te explico tudo depois, não me sinto segura com essas ligações. Sabe onde fica o escritório?

Inviami o endereço.— pediu, breve.

— Ok. Até amanhã, Gior. – me despedi. – E ... obrigada.

Un bacio.— desligou.

Voltei a colocar o telefone na base e escondi por momentos o rosto nas mãos, pousando a cabeça. Parecia surreal o que estava vivendo. Henry estava na mansão com Regina esses dois últimos dias, e até pensar numa melhor opção, tudo se manteria assim. Não tinha lógica destabilizar ainda mais a vida do menino, em vez disso, propus uma trégua a Regina.

Flashback – 2 dias atrás

“- Posso entrar? – pedi, atrás da porta do nosso quarto. Já tinha amanhecido e nem sinal dela. – Regina? – tentei novamente, sem obter qualquer resposta.

Tinha dormido as poucas horas que restaram da madrugada no sofá do escritório. Se bem que dormir não era bem o termo certo. O que eu tinha feito era mais pensar sem parar de olhos fechados, de tal modo que as pálpebras me doiam. Eram quase oito, o que era estranho, já que Regina sempre se levantava cedo em dia de semana. Decidi não esperar mais e entrar.

— O que você quer? – assim que abri a porta vi-a sentada na poltrona de frente para a porta, me fuzilando com o olhar enegrecido.

— Você ... – comecei, aos tropeções, surpresa. – ... não dormiu?

— O que acha? – revidou, sarcástica, com um típico revirar de olhos. – O que pretende fazer? Veio arrumar as malas pra ir logo correndo para os braços do seu amante?

Cerrei os dentes, me sentindo injustiçada, mas precisava ser forte.

— Não seja infantil. – respondi, sem muita paciência. – Você fica bem nessa casa sozinha? – vendo que ela estava prestes a soltar mais uma farpa, continuei sem a deixar falar. – Estou perguntando por causa de Henry. Acho melhor ele ficar por enquanto aqui, – dei uma pausa, suspirando – se não houver problema pra você, é claro.

Ela piscou, espantada.

— Claro que não há problema! – exclamou com o semblante sério. – Ele ... é meu ... – vacilou, baixando por segundos o olhar, insegura. – ... é como se fosse meu filho também.

Confesso que naquele momento me partiu o coração. É claro que Henry era filho dela! Ela achava que eu ia levá-lo comigo para ficar brincando de casinha com Neal como se ela não existisse?

— Ele é seu filho, Regina. – respondi, e tive a impressão que ela soltou a respiração que segurava. – Eu vou ficar esses dias no meu escritório na periferia .... Henry precisa de alguma estabilidade, por mais pequena que possa ser nesse momento. Ele fica melhor aqui. – finalizei. A verdade é que por outro lado também me sentia mais segura sabendo que Henry estava com ela. Com ele por perto tinha a certeza que Regina se iria recompor depressa.

— Você fica no seu escritório? – perguntou. Não percebi se o tom sugeria desconfiança ou preocupação, mas logo ela continuou. – Mas lá não tem o mínimo de condições. Porque não fica antes no quarto de hóspedes?

— Amor ... – soltei, sem querer. Ela tornou a baixar o olhar, machucada. – Regina ... acho melhor darmos um tempo ... ficar separadas vai ...

— Ser bom. – completou. – Sim, eu sei. – concordou, fazendo uma pausa por momentos. – Você pode passar a ir buscar Henry na escola e ... os fins de semana dividimos. Quer dizer, quando você arrumar algum lugar pra ficar com condições.

Acabei sorrindo, assentindo com a cabeça levemente. Era incrível como aquela mulher era forte e racional, deveras racional. No meio do dilúvio, ela se desfazendo em lágrimas por dentro, ainda assim estabelecendo horários, fazendo planejamento.

— Se importa que tome um banho e pegue algumas roupas? Não demoro.

— Essa casa também é sua, Emma. – respondeu, distante. – Mas se não se importa, use o outro banheiro. Ainda tenho de me arrumar, deixar Henry na escola e correr pra empresa.

— Tudo bem. – me dirigi a passos rápidos até ao guarda-roupa e tirei algumas peças, as suficientes para umas duas semanas. – Quanto a Henry ... – comecei, me virando para encará-la. Ela havia-se levantado enquanto eu tirava as roupas, se mantendo à distância de um braço de mim. – ... prefere que eu fale com ele?

Ela fixou o olhar no meu, concentrada. Depois, desceu o olhar até à jaqueta de pele que eu tinha nas mãos. Esticou o braço e acariciou o material por breves momentos. As recordações provavelmente assaltavam-lhe a mente da mesma maneira que faziam comigo.

— O que você quer que eu fale pra ele? – retomou a atenção à conversa, recuando um passo, e me encarando novamente.

— Que aconteça o que acontecer nada vai mudar pra ele.

— Oh Emma. – suspirou, frustrada. – Já mudou, não entende?

— Por favor, Regina ...

— Quer que eu iluda o menino, dizendo que está tudo bem quando na verdade nunca esteve tão mal como agora?! – exclamou, condoída. – Não entendo como foi capaz ....

— Você não me perdoaria? – lancei, com firmeza.

— Como assim não perdoaria? – ergueu a sobrancelha, confusa.

— Uma traição, você perdoaria?

— Você está me deixando confusa.... você disse ontem que transou com ele.

— Eu não disse nada. Você tirou as suas próprias conclusões! – atirei, farta de estar sendo acusada de algo que não tinha feito.

Ela abriu a boca para falar, mas tornou a fechar.

— É isso que dá bancar a neurótica e desconfiada. Acaba descobrindo o que não quer! – atirei mais uma vez, começando a sentir o sangue quente. – Se eu fosse você pedia o reembolso do serviço prestado.

— Emma ... – chamou, a sua voz era de exaustão. Vi-a esfregar a têmpora com o indicador e o polegar.

— Olha ... vamos dar um tempo pra assentar as ideias. Ok? Eu estou de cabeça quente, você também não está bem ... – assentiu levemente em silêncio em concordância comigo. – ... e continuar discutindo é a última coisa que a gente precisa nesse momento. Se precisar de algo pode me ligar, mas acho melhor ficarmos uns tempos sem nos ver.

Ela não disse mais nada, apenas me apertou levemente o ombro como se falar mais alguma coisa já fosse demais para ela, e deu as costas, se enfiando no banheiro.”

Olhei à minha volta, para a confusão em que estava o meu escritório, com algumas peças de roupa penduradas ou no encosto da cadeira ou na maçaneta da porta, e suspirei. Talvez fosse a hora de procurar um apartamento.