Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
36 Planos e Estratégias
Notas iniciais
Ele falava sério quando disse “amanhã bem cedo”, porque eram seis da manhã quando a campainha do andar onde detinha o escritório tocou alto. Me levantei abruptamente do sofá, ainda de calcinha e camiseta, e abri a porta.
— Gior! – exclamei, pronta para o abraçar, só me dando conta depois dos trajes em que estava.
— Você generalmente recebe seus clienti assim? – perguntou, me olhando de cima abaixo.
— Me desculpa, sério! Que horror ... – corri para pegar uns jeans escuros. Fiquei tão sem jeito que só depois de enfiar a calça é que percebi que ele ria, balançando a cabeça com ar zombeteiro. – Não esperava que o seu cedo fosse 6 da manhã! – atirei, tentando me justificar, mas acabando por me juntar a ele, rindo.
— Non si preoccupi, bella. – fechou a porta atrás de si, entrando. – La visione non è desagradávole. – brincou.
— Bobo. – disse, me aproximando novamente. – É bom te ver. – e aí sim, ele se inclinou para me abraçar.
— Sì. – sussurrou, antes de me soltar, e me encarar de novo. – Me disse que precisava del mio ajuda ... Beh ...io sono qui!
— Obrigada e desculpa nem eu nem Regina termos dito nada mais cedo. – fez um gesto, desvalorizando o sucedido e olhou ao redor, analisando o espaço.
— Tem dormito qui? – perguntou, com a testa franzida. – Perché non foi pra un hotel?
— Sem cabeça para nada ... mas sim, tenho de pensar nisso, está se tornando insustentável ficar aqui.
— Ti prego, dimmi che tem tomado banho! – exclamou, escandalizado. Não conhecia tão bem Gior como Regina, mas percebi que ele estava exagerando no tom de voz.
— Claro que tenho! – exclamei, ofendida. – Há um banheiro pequeno com duche em um dos cómodos, lá atrás. – indiquei.
— Sto brincando, querida. – sorriu, me dando a certeza que tudo aquilo não passava de uma forma de descomprimir. – Que me dici de sairmos de qui? Você precisa di una café da manhã reforçado.
Concordei com a cabeça, pois ele tinha razão. Há quase três dias que não saía praticamente do escritório. Peguei minhas coisas e saímos juntos.
Tomámos o café da manhã no Mud Coffee, onde já era cliente habitual. Giorgio insistiu que pedíssemos muffins, torradas, suco e café. Quando o pedido chegou, nossa mesa ficou cheia, dando a impressão de que o pedido fora para quatro pessoas e não somente para duas.
— Você precisa di nutrirsi! – exclamou, mas vendo que eu o olhava de forma esquisista, clarificou: — Comer!
— Tem razão, eu preciso. – concordei, recolhendo o jornal que estava em cima da mesa ao lado. – Mas não acredito que vou comer tudo iss ...
— Che foi? – perguntou, espreitando o jornal pelo ângulo que conseguia já que estava à minha frente.
— Nunca me vou acostumar com isto. – suspirei, passando-lhe o jornal.
Gior começou lendo baixo, fazendo caras e bocas. De vez em quando levantava os olhos da notícia sensacionalista para me lançar um olhar solidário e de compreensão.
REGINA MILLS: NO MERCADO NOVAMENTE?
A prestigiada empresária da moda, Regina Mills, parece estar novamente livre e desempedida. Indícios fortes indicam o rompimento com sua noiva, a agente de fiança Emma Swan, já que a loira foi vista mais do que uma vez saindo da mansão Mills com uma mala de viagem. Além do mais, a empresária tem entrado e saído acompanhada apenas pelo motorista ou então pelo filho da ex, o menino de doze anos, Hanry. A que preço a mãe biológia abdicou do próprio filho? Será que tem volta ou Miss Mills está de novo no mercado?
— Nossa! Nem pra acertar il nome del ragazzo! – exclamou. – Disgustoso paparazzi! Mazzo di Ignoranti! – continuou o que a mim me soou como um monte de blasfémias, apesar de não entender metade.
— Não importa ... isso não muda nada. – interrompi-o, cansada. – Minha vida ao lado de Regina sempre vai ser assim. – dei uma pausa, pensativa. – Ou talvez a gente termine de uma vez e nunca mais eu tenha de me preocupar com essas manchetes.
— Emma. – chamou, buscando a minha mão sobre a mesa. – Non acredita mesmo nisso, è vero?
— Não sei Gior ... desde que Neal, Gold ... essa corja toda entrou na nossa vida, o relacionamento se degradou... Regina não confia mais em mim ... e pra falar a verdade ... – apertei os olhos, sem olhar diretamente para ele. – ... nem eu confio mais em mim pra fazê-la feliz.
— Ehi! – apertou a minha mão, me fazendo olhar em seus olhos que agora estavam cinza. – Non diga isso. Sono testemunha di quanto vocês se amam.
— Eu sei ... você é um bom amigo, Gior. – lancei-lhe um breve sorriso. – Teve um tempo em que achei que o amor era suficiente, mas hoje, depois de tudo.... – dei uma pausa, me retraindo com o olhar de desaprovação dele. – ... por favor, não me olhe assim. – pedi, fixando os olhos lacrimejantes nos deles. – Não me censure mais do que eu já faço, mas você não tem ideia... nossa relação passou de uma relação feliz e saudável para uma doentia, cheia de desconfianças, agressões mútuas ... não sei mais se existe forma de sobreviver.
Ele retirou a mão da minha, pensativo. Sabia que ele me recriminava como melhor amigo de Regina, e estava apenas esperando para ver quando ele se levantaria para se ir embora. No entanto, antes que isso acontecesse ele tornou a me encarar, reflexivo.
— Perché mi chamaste? – e embora estivesse sério, o seu tom não era de reprovação.
— Para que me ajude a livrar Regina do esquema de Robert Gold. – informei, me recompondo. – Oiça ... – suspirei. – ... não espero que me compreenda, mas você é o melhor amigo de Regina, e sei que a última coisa que você quer é que ela sofra ... assim como eu .... – baixei por segundos o olhar para o café. – ... por enquanto é tudo que sei.
Silêncio. Ele desviou o olhar de mim e voltou a sua atenção para o jornaleco em cima da mesa. Deteve-se uns segundos na notícia nojenta que ambos já tinhamos lido e franziu o cenho. Depois, voltou a olhar para mim com uma expressão mais amena.
— Ti quero molto bene, Emma. – esboçou um pequeno sorriso que me fez sentir aliviada. – Me parte il cuore ver vocês duas sofrendo, ma non sempre as circostanze da vita jogam a nosso favor. Mas tenha a certeza che sono tão amigo de Regina como sono tuo.
— Gior... – aquilo me deixou, literalmente, em lágrimas. Limpei rapidamente os olhos com as mãos e dei um gole no café.
Aí me dei conta que andava precisando de um amigo faz bastante tempo, de alguém que não me condenasse, que independentemente de tudo estivesse ali para me apoiar. Me dei conta também que não havia sentido falta desse amigo nos últimos anos, porque até há pouco tempo o revia em Regina. Aquilo me deu novamente vontade de chorar.
— Oh, per favore! Non chore! – pediu ele, se levantando e mudando de lugar, sentando-se ao meu lado. – Pronto ... você pode usare mio ombro. – me abraçou com um braço que me deu a volta facilmente. – Afinal ... io tenho due, está vendo? – brincou, me apertando. – Esse é de Regina, ma esse ombro qui a partir de hoje é tuo. – acabei sorrindo com tamanha amabilidade e carinho.
— Obrigada. – balbuciei.
Desde que Giorgio apareceu de novo na vida de Regina e ainda mais depois dos problemas enfrentados nos últimos tempos, tinha também me aproximado do amigo italiano, mas não a esse ponto. Minha amizade com ele sempre teve por base Regina, aliás, nossas conversas cingiam-se a ela e aos seus problemas, mas agora, saber que ele se afirmava como meu amigo, independentemente do relacionamento com Regina, me fazia sentir muito menos sozinha.
Tomámos o café da manhã sossegados. Gior foi incrível, não permitindo que nada interrompesse aquele momento, me fazendo comer metade de uma torrada e meio muffin, um pouco de suco e café. Só depois de acabarmos é que recomeçamos a conversa. Contei-lhe tudo o que sabia sobre o acordo que Regina tinha feito com Gold. Contei-lhe sobre o encontro com Neal, drogado e completamente fora de si; sobre o encontro tenebroso com Gold e sobre a revelação da filha perdida do magnata. Se realmente era verdade a história da filha dele ter sido uma das conquistas de Regina, então Giorgio teria de saber de quem se tratava.
— Pense Gior .... quem poderá ter sido?
— Oh ma belle ... – ele coçou a cabeça, sem jeito. Sem entender, ergui a sobrancelha. – Non è facile ... non foram poucas...
— Tantas assim? – não consegui evitar a pergunta, me sentindo ligeiramente desconfortável.
— Ele non disse come ela era? – balancei a cabeça negativamente. – Non pense mal de Regina ... você mudou ela, Emma.
— Não importa ... – era verdade, não importava, embora naquele momento doesse um pouquinho. – ... precisamos descobrir essa ex-namorada.
— Ma il diavolo non disse che a filha tava morta? – acabei rindo com o nome que ele atribuiu a Gold (il diavolo).
— As palavras exatas dele foram “Perdia-a pra sempre”.
— Pensa que sta viva? – perguntou. Eu simplesmente encolhi os ombros. – O che posso fazer pra aiutare?
— O contrato. – fiz uma pausa, baixando ainda mais o tom de voz. – Preciso que descubra onde Regina o guardou. Precisamos descobrir o conteúdo exato desse contrato, porque a única coisa que sei é que por causa disso Regina está obrigada a dar essas entrevistas pro canal dele. Parece que Gold assegurou que Neal iria se afastar de nós e que basicamente todos os nossos problemas acabariam. Algo de muito errado tem nesse documento e Regina não me conta de forma nenhuma. – ele apenas assentiu, esperando eu continuar. – Sei que ela acha que está me protegendo, mas não enxerga que esse Gold é furada na certa, mas pra você... talvez pra você ela solte algo.
— Ligarei pra ela. – disse. – Direi che estou attraversando una fase difficile e que preciso di ela.
— O que não deixa de ser verdade, né? – perguntei, referindo-me à situação da paternidade de Emily. E desta vez fui eu que lhe toquei na mão num gesto de apoio, até porque não sabia fazer mais nada além disso. Ele me beijou a têmpora, agradecido.
— Si ela perguntar per você?
— Diga o básico, que me encontrou por acaso e que tomámos um café.
— Certo. – se afastou um pouco para me olhar melhor. – E você? Que farai?
— Eu vou descobrir quem é essa filha misteriosa.
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