Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
37 Avanços e Retrocessos II
Dias depois
Pelo que Gior me havia dito a sua busca pelo contrato ainda não tinha gerado frutos. De qualquer forma, ele continuava procurando. Enquanto isso me mantinha informada do estado de Regina, o que segundo ele não era dos melhores, uma vez que ela andava trabalhando demais novamente. Me dizia que chegava tadíssimo em casa, muitas vezes saindo da empresa por volta das onze da noite. Aquilo me preocupava, principalmente porque Henry me enchia de perguntas quando o ia buscar na escola. Sem contar das queixas que fazia a respeito da escola, dizendo que estava farto dos coleguinhas, das matérias e dos professores, resumindo, estava farto de tudo. Teria de ter uma conversa séria com Regina; e por mais que fosse doer, a mim e a ela, talvez fosse a hora de sugerir que ele viesse morar comigo.
— Quero mudar de escola. – ele disse, amuado, entrando no meu carro.
— Henry, já falamos sobre isso. – me inclinei para lhe beijar o rosto, mas ele fugiu com a cara, arredio. – Henry! – avisei em tom bravo.
— Mãe! – provocou, cruzando os braços.
— Não tem sentido você mudar agora no meio do ano, vai estragar o seu aproveitamento todo. – respondi em tom sério. – E coloca o cinto, por favor. – ele bufou, chateado, mas lá apertou o cinto como eu pedi.
O silêncio se instaurou entre nós. Ele visivelmente chateado e eu sem saber como lidar com ele. Arranquei com o carro e tentei iniciar uma conversa trivial que o fizesse melhorar de humor.
— E seu amigo, Michael? Também se fartou dele? – ele deu de ombros, sem falar nada. – Garoto, vá lá ... tira essa cara. Não está sendo fácil pra ninguém. – tentei apelar ao bom senso que sabia existir nele, apesar da tenra idade.
— Quem me dera que ele nunca tivesse aparecido. – disse, em voz baixa. Aquilo me pegou de surpresa. – Quem me dera não ter pai nenhum.
— Não diz uma coisa dessas, filho. – revidei tristemente. – Seu pai não é o responsável por isso tudo.
— Então quem é? Porque foi desde que ele apareceu que você e a mãe se desentenderam! – atirou, ligeiramente alterado. Confesso que aquela reação me assustou, porque nunca o tinha visto assim tão revoltado.
— Henry ... – suspirei. – Eu sei que você ainda é muito novo pra entender certas coisas, mas às vezes os adultos se desentendem mesmo e nem sempre a culpa é de outra pessoa .... – tentava arrumar uma forma de explicar que ele entendesse. – ... às vezes, quando algumas coisas já não estão bem com o casal qualquer coisa vira motivo pra briga, consegue entender?
— Então mesmo que ele não aparecesse vocês iam se separar? – lançou, enrugando a testa.
— Henry, eu não sei. – fui sincera. – Mas eu e a sua mãe chegámos à conclusão que é melhor cada uma ficar separada da outra por enquanto pra não piorar a situação. Precisamos pensar muito bem, ver no que erramos, pra ver se dá pra consertar.
— Mas porque é que vocês têm de viver em casas diferentes pra isso?
— Porque ... – estava dando um nó na minha cabeça. – ... pensa assim, por exemplo, sabe quando você tem um problema de matemática muito complicado para resolver? – ele assentiu com a cabeça. – Então, quando isso acontecia e você ficava martelando horas e horas no mesmo problema o que é que eu te dizia?
— Para ficar uns tempos sem olhar o problema, pra estudar, me concentrar no resto dos trabalhos, e só depois de resolver o resto voltar a olhar pro problema que eu não consegui resolver antes.
— E então? Depois disso tudo, sempre conseguia resolver o tal problema complicado de matemática? – ele pareceu pensar durante uns segundos.
— Às vezes?! – respondeu, receoso.
— Isso mesmo. Às vezes isso dá certo, se afastar durante uns tempos faz você conseguir analisar o problema sobre outra perspectiva, e às vezes, você acaba conseguindo o resolver e tudo volta a fazer sentido.
— Sim, mas e se mesmo assim você não resolver o problema com a mãe e tudo continuar sem sentido?
— Não se preocupe, garoto. Neste problema eu pelo menos sei de uma coisa que faz todo o sentido, tanto pra mim como pra Regina. – sorri, suavemente.
— O quê? – perguntou, expectante.
— Você. – respondi, despenteando-lhe rapidamente os cabelos de forma carinhosa. – Você será sempre o nosso elo de ligação. Aquilo que faz sentido. Você sabe que nós te amamos muito, certo? – assentiu, cabisbaixo. – E nós sabemos que não está sendo nada fácil pra você, mas que mesmo assim você tá se aguentando firme e forte. Olha, eu prometo que vai melhorar. – parei o carro de frente para os portões da mansão. – Acredita em mim?
— Eu acredito. – respondeu, levantando o rosto com um meio sorriso.
— Tem paciência com sua mãe, ok? – ele balançou a cabeça em silêncio. – Eu confio em você, garoto. – me inclinei ligeiramente beijando-lhe a fronte. Desta vez ele não se esquivou. – Preciso ir agora, mas o que me diz de sairmos pra fazer alguma coisa no Sábado?
— E a mãe? – perguntou, baixinho.
— Sua mãe provavelmente vai estar trabalhando, não é mesmo? – atirei, irónica, mas sem qualquer malícia. Ele fez uma careta como que me dando razão. – Hey ... eu prometo que falo com ela sobre isso, tá bom? É a forma que ela tem de lidar com os problemas, sabe? Trabalhando... por isso precisa ter paciência. Logo logo tudo acalma.
— Está bem. – respondeu, desapertando o cinto. – Vou indo ...
— Vai lá. – pisquei-lhe o olho e ele saiu, batendo com a porta do carro. Esperei ele entrar pelos portões e só depois dei a partida de novo. Teria mesmo de conversar com Regina.
*** *** ***
Quanto mais pesquisava sobre a filha de Gold, menos a história fazia sentido. Por incrível que pudesse parecer não havia uma única foto sobre a filha do magnata na comunicação social. E daí, talvez isso não fosse assim tão estranho tendo em conta que Gold controlava grande parte das notícias que circulavam nos vários meios. Decidi apelar aos meus conhecimentos como agente de fiança; fiz alguns contatos com gente influente nos tribunais e consegui a certidão de óbito de uma Natalie Fisher Gold, falecida em 6 de Junho de 2004, ou seja, há sensivelmente sete anos atrás.
Consegui ter acesso também ao relatório da medicina legal que atribuía a causa da morte a um traumatismo craniano, seguido de asfixia provocada. Sem qualquer outra pista decidi ligar a Giorgio.
— Ciao bella!— atendeu do outro lado.
— Oi Gior. Está sozinho?
— La mia Regina è in riunione.
— Desculpa, o quê? – perguntei, sem entender nada do que ele falava. Escutei-o rir do outro lado e comecei a pensar se ele não fazia de propósito.
— Regina sta numa reunião. Estou approfittando pra procurar na sala dela.— respondeu, quase num sussurro.
— Ah, ok. Eu descobri o nome da filha de Gold. Natalie Fisher Gold. – informei, olhando a documentação mais uma vez. – Te diz alguma coisa? – ele não respondeu logo.
— Credo di no.— respondeu, após alguma reflexão. – Não, nunca ouvi parlar.
— Bem ... vou continuar investigando. Depois nos falamos.
— Okay bella. Un bacio.— desligámos.
*** *** ***
Sem avanços na minha investigação e quase a dar em doida, decidi procurar Regina. Era quase hora do jantar e um telefonema foi o que bastou para confirmar que ela estava no escritório. Cheguei rapidamente sem cerimónia, não perdendo muito tempo para cumprimentar as pessoas que saíam, ou outras que se preparavam para sair. Era o caso de Katia.
— Oi Katia. – ela me olhou surpreendida, mas, como já era característica sua, com toda a descrição rapidamente ocultou o ar surpreendido, substituindo-o por um sorriso cordial.
— Que gosto tê-la aqui, Miss Swan. – balançou ligeiramente a cabeça, e corrigiu: — Emma.
— Obrigada. – devolvi o sorriso. – Estou vendo que já estava de saída.
— Sim, de facto, mas Miss Mills ainda está no escritório. Precisa ... – ponderou, percebendo-se que não sabia exatamente como tratar daquele assunto. – ... que eu a anuncie?
— Não se preocupe, eu liguei pra ela há meia hora avisando que viria. – ela assentiu em silêncio, me lançando mais um sorriso. – Mas não se detenha por minha causa, já deve estar mais do que na sua hora.
— É ... está mesmo. – olhou as horas no celular. – Não precisa mesmo de nada? – perguntou com certa empatia, o que me fez esboçar novo sorriso.
— Preciso. – respondi e ela logo fez que sim com a cabeça, aguardando que eu falasse. – Que você acabe de arrumar as suas coisas e vá descansar pra casa. – ela ficou sem jeito. – Não me diga que tá aprendendo com Regina? Qualquer dia dorme aqui também. – brinquei, mas aquilo só fez ela ficar ligeiramente enrubescida.
— Tem razão ... mas é que ... – desviou o olhar por segundos para a porta de vidro fosco que dava para a sala de Regina e baixou o tom. – ... me custa deixá-la aqui sozinha.
Fiquei sem palavras por instantes com aquela dedicação. Sabia que Katia era competente, profissional e trabalhadora, mas não tinha ideia da extensão da sua lealdade e preocupação com Regina. Acabei me aproximando, tocando-a no braço.
— Pode ir ... eu cuido dela a partir de agora. – pisquei-lhe o olho de forma cúmplice. Ela novamente assentiu sorrindo, voltando a sua atenção para a mesa.
Não esperei que saísse, antes, fui entrando na sala de Regina. Ela levantou os olhos dos papéis que estudava e me encarou em silêncio.
— Hey, — me dirigi à mesa, enquanto ela retirava os óculos da cara. – pensei em trazer o jantar, mas achei que isso só iria alimentar ainda mais esse seu vício pelo trabalho.
— Preferiu me deixar morrer à fome então? – atirou, sarcástica, ácida. Ainda assim não consegui conter uma risada curta.
— Preferi te convidar pra jantar com o nosso filho. – respondi, desarmando-a. – Há quanto tempo não janta com ele?
— Emma ...
— Não me venha com Emma. Não o deixei com você pra ele se sentir abandonado. – não foi minha intenção, mas aquilo acabou saindo como uma acusação. Ela baixou o rosto. – Regina ... não foi isso que quis dizer ...
— Não, não. – acenou com a mão, balançando a cabeça. – Você tá certa. Não tenho estado presente como deveria. Ele deve estar com ódio de mim. – confessou quase em lágrimas, desta vez olhando para mim.
— Ódio? – refutei, incrédula. – E a gente lá criou um filho pra sentir esse tipo de coisa?! – ela sorriu, finalmente. – E Gior? Tem estado com ele? Soube que veio pra cá ... – mudei de assunto, me fazendo de desentendida.
— Tenho, um pouco. Quer dizer ... é mais ele que tem estado comigo, isso quando não o deixo horas sozinho esperando que eu saia de alguma reunião. Isso é tão horrível como me soa?
— Um pouco. – respondi, sincera. Ela sorriu, suspirando. – Aliás, vim falar com você também por causa disso. Você tem de abrandar, está prejudicando toda a gente. E por mais que me custe te dizer isso, não posso fingir que não está acontecendo. – dei uma pausa, reunindo coragem. – Vou levar Henry pra morar comigo se continuar desse jeito.
Ela não falou nada, apenas assentiu com a cabeça, com ar de derrota.
— Outra coisa ... – continuei, chamando a sua atenção ainda mais. – Preciso que me fale de Natalie Fisher Gold. – exigi sem meias palavras. Ela ficou imediatamente branca.
— Como ... – seu semblante era de plena confusão. – Como sabe da filha de Gold?
— Quer dizer que é verdade? – senti uma pontada no peito com a iminência da confirmação da história do magnata. – Você seduziu mesmo a filha dele?
— Eu ... o quê? – seu rosto tornou a ganhar um pouco mais de cor, mas a confusão continuava estampada no seu semblante. – Emma ... onde você foi buscar isso? E como você ficou sabendo da existência dessa mulher?
— Espera. – balancei a cabeça, tentando pensar. – Vamos por partes. O que essa Natalie tem a ver com você afinal? – ela mordeu o lábio, indecisa se havia de falar. – Regina! Me conta!
— Eu não devia, faz parte do contrato. – respirei fundo, outra vez o maltido contrato. Ela suspirou, esfregando a testa. – Ela morreu.
— Sim, eu sei. E? – ergui a sobrancelha.
— E Gold quer vingar a morte dela!
— E o que você tem a ver com isso?! Regina, deixa de meias palavras! – me irritei.
— Eu prometi ajudá-lo, ok? É tudo que precisa saber. – vendo que eu ia abrir a boca novamente, acrescentou – Emma, confia em mim, por favor. – segurou uma das minhas mãos que estava sobre a mesa, me fazendo vacilar. – Eu nunca faria nada que fosse prejudicar a nossa família. A única coisa que te peço é um voto de confiança.
— Sabe que chega a ser irónico isso .... – falei em tom baixo, fixando as nossas mãos sobre a mesa. – ... logo você falando de confiança. – saiu quase num fio de voz essa última parte, mas a verdade é que me sentia muito magoada e não conseguia mais esconder isso.
— Eu errei, eu admito. – desviei o olhar das nossas mãos para os seus olhos. – Nunca devia ter contratado ninguém pra te espiar ... mas, Emma ... – seus olhos tremiam de nervoso. – Porque não volta pra casa? Vamos tentar de novo.
— Por mais que me custe ... – soltei a mão da dela, limpando uma lágrima que teimou em cair do meu olho. – ... enquanto existirem esses segredos entre a gente não posso voltar. Você ergueu uma muralha entre você e eu, será que não entende? Admito que também houve vezes que não ajudei, mas pra mim chega .... o momento é este. Porque não me conta sobre esse acordo com Gold? – ela não respondeu. Acabei me irritando, subindo o tom de voz. – Você não vê que ele tá jogando com a gente? Ele vai-te machucar ... e eu estou aqui, impotente, porque você não quer a minha ajuda, porque você jamais quer dar parte fraca!
— Emma, por favor! – tentou se aproximar, segurando a minha mão de novo, mas eu não deixei, recuando. – Isso tá prestes a terminar, é sério. Falta uma entrevista e depois esse pesadelo acaba. Só preciso ... – ajeitou o cabelo, agitada, sem fixar por muito tempo o olhar no meu. – ... só preciso do seu apoio. – declarou quase em confidência.
— Não posso apoiar você na loucura, me desculpa. – admiti, olhando para cima em desespero. Depois para ela novamente. – Quando vai dar essa entrevista? – perguntei, vendo que já nem ela conseguia disfarçar o estado de sofrimento em que estava.
— Amanhã, às 2 da tarde, lá em casa. – informou.
— Pego Henry na escola e vou pra lá. – disse, seca. Ela sorriu, numa nova tentativa de aproximação, mas eu estava demasiado incomodada para sorrir de volta.
— Obrigada. – disse, desta vez respeitando a distância que eu involuntariamente impus. – Eu prometo que isto acaba amanhã, e que depois disso, tudo voltará a ser como era.
Soltei um riso fraco, esticando por segundos a mão para lhe tocar a face morena.
— Eh ... – soltei um suspiro forte, revelando toda a minha exaustão e em simultâneo descrença. – .. ... não faça promessas que não pode cumprir. O que “era”, como o verbo indica, já foi.
— Emma. – escutei-a ainda nas minhas costas, em tom quebrado, antes de sair da sala, deixando-a sozinha.
A ideia do jantar completamente desajustada do cenário, da situação, mas acima de tudo, do meu coração. Não conseguia mais.
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