Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
39 Mudança de Foco e Clímax
Notas iniciais
Assim que o italiano chegou à recepção do hotel indicaram-lhe a suite 405, informando que a cliente que se encontrava ali hospedada teria autorizado o seu acesso. Giorgio estava nervoso e apreensivo, pois sabia que daquele encontro havia fortes probabilidades de algo correr menos bem; ele só não imaginava o quão mal poderia de facto correr.
Bateu suavemente na porta do quarto com os nós dos dedos como só o verdadeiro gentiluomo o sabe fazer e aguardou. Não quis mostrar ansiedade então esperou pacientemente que a porta se abrisse para ele. Virou o pulso para si, observando as horas no distinto relógio Rolex e aguardou. Deteve o impulso de voltar a tocar na porta, em vez disso, afundou os dedos nos cabelos deslizando-os até à nuca. Olhou o relógio novamente. Aguardou. Porque demorava tanto a abrir? Ele perguntava silenciosamente a si próprio enquanto aguardava.
Desabotoou mais um botão do colarinho da camisa e aguardou. Suspirou, olhou o relógio e a réstia de paciência se dissipou quando num ímpeto ousou bater novamente na madeira da porta. No entanto, a porta se abriu antes que a sua mão atingisse o seu fim.
— George. – a mulher pontuou no auge da sua arrogância como era de seu costume. – Sua aparência não é lá muito boa. Está tudo bem? – perguntou de forma cínica, simulando um ar preocupado, mas sem se dar muito ao trabalho em parecer credível.
— Non seja cínica. – revidou o italiano que fervia por dentro, apesar de ser raro a perda de compostura. – E você sta cansada de saber che è Giorgio.
Ela esboçou um sorriso perfeitamente alinhado e branco, recuando um pouco num gesto discreto para indicar-lhe que entrasse. Giorgio assentiu com a cabeça num movimento quase imperceptível e entrou. A mulher tinha uma postura refinada e serena que indicava que ela se sentia no controlo, por cima, e aquilo definitivamente tornava-a ainda mais atraente do que já era habitualmente. Seus olhos aguçados, verdes e felinos, embora fizessem lembrar a tonalidade das esmeraldas de Emma Swan, em todo o resto diferiam, principalmente na transparência daquelas pedras preciosas. Pelo contrário, eram de um opaco duro, seco e dúbio. E os cabelos lindos e maravilhosos que numa anterior presença se mostravam com algumas mechas acobreadas, agora estavam livres das madeixas, se revelando castanhos claros similares aos de uma linda garotinha de cinco anos.
— Emily? – soou dos lábios de Gior. – Onde sta ela?
— Tudo a seu tempo, querido. – respondeu calmamente, servindo-se de uma bebida no mini-bar. – Acha que sou tão imprudente ao ponto de expor a minha própria filha a uma situação delicada como essa?
— Va bene. – assentiu, breve, sem querer causar atrito. – Ma você falou che queria parlar con me sobre ela ou foi tutto una desculpa pra me enrolar?
— Te enrolar? – ela riu, debochadamente, com gosto. Deu um gole na bebida e sorriu. – Mas se eu fiz isso esses anos todos com você sem precisar de usar de artifícios você acha mesmo que era agora que eu precisaria?
Giorgio prendeu a mandíbula e fechou o punho com raiva, mas nada disse, mantendo-se em silêncio. Ela, pelo contrário, parecia com disposição para continuar falando.
— Você sempre foi tão imbecil, G-i-o-r-g-i-o. – quase soletrou o nome, fazendo questão de imitar a pronuncia italiana na perfeição. – Não fique tão surpreso, eu sempre soube o seu nome. – riu novamente, divertida.
— Basta! Perché me chamou aqui? – quis saber, abstraindo-se das provocações.
— Oh, e eu que pensei que iríamos começar essa conversa falando de trivialidades pra quebrar o gelo. – encolheu os ombros e fez uma careta como se tivesse ficado desiludida. – Muito bem. Já que está querendo ir direto ao ponto. Mas primeiro, sente-se. – indicou o sofá no compartimento ao lado. – É uma história longa.
— Do che tá falando? – perguntou nas costas dela, seguindo-a, antes de se sentar.
— De como Regina acabou com a minha vida, é claro. – respondeu, desta vez desmanchando o sorriso do seu rosto, substituindo-o por uma linha recta, tensa e implacável.
* Há 7 anos atrás *
Dizem os entendidos nas ciências esotéricas que de sete em sete anos a vida tende a mudar. Que a cada fase desses sete anos um novo ciclo começa, com mudanças em vários aspectos da vida de cada um. Talvez essa fosse a justificação possível para entender o que estava prestes a acontecer na vida daquelas mulheres em que os caminhos estavam a ponto de se cruzar precisamente com a aproximação desse novo ciclo de sete.
A mais velha estava com 28 anos. Era uma mulher muito bonita, cabelos castanhos claros e olhos verdes tão ou mais felinos como os dos gatos. Uma jovem promissora, apaixonada pelas passarelas e pelo mundo da moda. Tinha estudado Design e Marketing de Moda e interessava-se em especial pela concepção do produto com principal foco nos acessórios e complementos. Para desagrado do pai que concordou em pagar todos os investimentos na área sob condição da filha frequentar o curso de gestão de empresas e de investimentos, o tiro saiu-lhe pela culatra no momento em que surge em cena Regina Mills, jovem empresária em ascensão no mercado.
A oportunidade de trabalhar com a empresária deixou Natalie deslumbrada, fervorosa, completamente apaixonada. No entanto, havia um pormenor que talvez não fosse tão pequeno assim. O apelido maldito que carregava consigo e com o qual ela definitivamente não queria ter qualquer ligação, especialmente agora que estava prestes a conhecer pessoalmente a sua diva. Fazia três meses que Natalie se comunicava através de um fórum de discussão na internet sobre Moda com Regina sob o pseudónimo “Hope”. E há menos de uma semana a empresária tinha-a convidado para um projeto. Natalie voltou a se sentir uma adolescente com os seus 17 anos. Isso ocorreu durante uma troca de e-mails que a mulher recordava com um sorriso sonhador na face enrubescida.
Mensagem de: Regina
Assunto: Uma proposta irrecusável ....
Como vai a mulher mais criativa que conheço? =) Já está se perguntando o que eu vou pedir? (risos) Nossa, ainda não te ensinei a se ter mais em conta não? Agora falando sério, na verdade são duas as propostas que tenho para você.
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Mensagem de: Hope
Assunto: Fwd: Uma proposta irrecusável ....
Olá =) Juro que está me ensinando direitinho (risos). Propostas, logo duas? Alguma indecente? =P
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Mensagem de: Regina
Assunto: Fwd: Uma proposta irrecusável ....
Se é indecente ou não é você que terá de me dizer. De preferência, pessoalmente. =) Pode-se dizer que essa é a primeira; venha me encontrar, tomar um café, um copo, um café da manhã, qualquer coisa.... você escolhe... se não quiser escolher, pode tomar tudo de uma só vez comigo. (risos).
A segunda proposta ... bem, você saberá qual é quando se encontrar comigo. xD
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Mensagem de: Hope
Assunto: Fwd: Uma proposta irrecusável ....
Vendo as coisas assim, parece que não tenho alternativa, não é mesmo? xD
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Mensagem de: Regina
Assunto: Fwd: Uma proposta irrecusável ....
Claro que tem! Mas sinceramente eu espero que não queira ter.
P.S. estou ansiosa por te encontrar e ver com os meus olhos a pessoa encantadora que é.
Era portanto inconveniente para ela qualquer ligação a Robert Gold. Além de prever que o seu pai seria contra o seu envolvimento com uma mulher, ainda mais ligada ao setor da moda, também não queria continuar vivendo sob a sua alçada, obrigada a percorrer os caminhos de uma vida que não queria para si. Fora com isso em mente que há sensivelmente dois meses tinha cortado ligações com Gold, tendo inclusive mudado números de telefone e endereço. Não estava sendo fácil viver modestamente, ou melhor, como ela dizia tantas vezes, “sobreviver”, porque vida de pobre era pior que luta na selva, mas por Regina valeria a pena. Por si, ela se apaixonaria de verdade, diferente do que se dizia sobre os casos com as outras. Natalie não seria mais uma, mas a tal. Ou melhor, Hope, com o seu dom criativo e a sua personalidade encantadora seria encarada como a própria personificação da esperança numa vida harmoniosa e verdadeiramente feliz na qual a empresária sempre depositou os seus mais íntimos desejos.
Giorgio escutava tudo aquilo perplexo, ainda sem conseguir juntar completamente as peças daquele puzzle. Houve mais que uma tentativa de falar, mas simplesmente abria a boca sem conseguir emitir nenhum som, apenas perplexidade. Christine por momentos desaparecia diante de si transfigurando-se na moça sonhadora e apaixonada da história que contava. Natalie parecia ser doce, lutadora e cheia de esperança chegando a ser irónico em como o pseudónimo “Hope” lhe assentara bem e servia como uma luva à história.
— Ma ... – conseguiu balbuciar, tentando raciocinar sobre o que ela contava. – ... perché non me recordo de você? Se Regina sempre me contou tutto ... – coçou a cabeça, confuso. – Nem ricordo da tua cara antes..... non faz sentido.
— Minha cara? – soltou uma risada de escárnio. – Até isso aquela desgraçada me roubou.
— Como assim? – perguntou o italiano tentando entender.
— Teve um dia que cheguei mais cedo do que a hora marcada pra me encontrar com ela. E você ... Giorgio ... – começou em tom acusatório. – ... você ficou me barrando a entrada, fazendo tempo enquanto ela terminava de comer a piranha da assistente na mesa daquele escritório que ela teve em Brooklyn, lembra?
*Flashback*
— Hope! – exclamou com certo exagero o homem de porte alto assim que a viu. – Que buono vê la, — sorriu sem jeito, colocando-se na frente da mulher que tentava passar. – aqui ... tão cedo.
A mulher olhou-o com estranheza, mas depois de o cumprimentar tentou passar novamente. Giorgio impediu, dizendo que Regina estava numa reunião, mas algo parecia não bater certo para a mulher de olhos verdes. Desconfiada, sorriu cordialmente, aceitando a bebida que o italiano lhe oferecia. No entanto, antes que os seus lábios tocassem a bebida, ela sacudiu o copo bem na cara de Giorgio acertando-lhe com o líquido nos olhos.
— Aihh, meus olhos! – gritou, esfregando a cara enquanto Hope passava por ele, entrando na sala de Regina.
Foi a derradeira confirmação das suas suspeitas, seus sonhos despedaçados, assim como o seu coração naquele momento estilhaçado em mil pedacinhos perante a imagem que nunca haveria de esquecer na vida. Regina praticamente em cima de uma mulher desnuda da cintura para baixo que estava deitada sobre a mesa gemendo e se contorcendo enquanto a mão daquela desaparecia entre as suas pernas.
— Como pode fazer isso comigo? – gritou com lágrimas nos olhos. Regina voltou-se, fazendo com que o corpo desnudo de que se servia ficasse ainda mais exposto. – Eu pensei que ...
— Hope. – ainda a escutou falar, mas ela simplesmente não suportava mais estar ali.
— Você não vale nada! – gritou, aos prantos, antes de correr na direção oposta. Esbarrou ainda com Giorgio na porta e continuou correndo feito uma desgovernada.
Saiu para a rua com a visão turva pelas lágrimas que escorriam agora sem qualquer travão e só parou quando conseguiu pegar um taxi.
— Houve um acidente. – informou sem qualquer expressão no rosto rígido que em nada fazia supor que pertencera um dia a Hope. – Um choque entre veículos em que não morri por sorte. Mas sabe o que dói mais no que aconteceu?
Giorgio estava chocado. De repente, aquela moça sonhadora revivera na sua mente. Até aquele momento, para ele Hope não passara de mais um entre os muitos casos de Regina. Mais uma mulher com quem ela saíra, mas que não havia passado daí. Seu estômago revirou, causando desconforto.
— O que dói mais ... – ela continuou, mas desta vez sem conseguir camuflar alguma emoção no tom de voz. – ... é que ela nem sequer me procurou depois disso. Nem um telefonema, uma mensagem, nada!
— Ma nunca soubemos de questo incidente. – respondeu, tentando justificar.
— Saberiam se tivessem ido atrás de mim! Se preocupado minimamente! – acusou, cheia de raiva. – Fiquei desfigurada, — continuou, se recolocando novamente. – e cerca de 3 meses hospitalizada.
— Pare de bancar la vittima! – o italiano reagiu, se levantando. – Come podíamos te encontrar se nem o seu nome verdadeiro sabiamos?! Afinal... Hope, — fez uma pausa, se sentindo completamente desorientado. – Natalie .... Christine .... chi és tu veramente?
Ela soltou outra risada de escárnio. Bebeu o resto da sua bebida, pousando o copo na mesinha ao lado, e se levantou, fuzilando Giorgio com o olhar desafiador.
— Prometi vingança a mim mesma. – continuou falando. Seus olhos brilhavam da mesma maneira aterradora que os olhos de Robert Gold e era impressionante como agora era fácil associar. – Tiraria tudo de Regina, tudo! Começando por você, sua bicha falsificada de italiano!
— Guarda la tua lingua! – revidou de forma ameaçadora. A mulher simplesmente riu. – Tu non é buona da cabeça.
— O que você acha ou deixa de achar não me interessa. – continuou naquele delírio sinistro. – Fui submetida a uma série de plásticas até voltar a ter um rosto agradável à vista. Não posso reclamar muito é verdade. – sorriu, satisfeita, espreitando o seu reflexo num espelho preso na parede. – Hope estava morta para sempre. Natalie então nem se fala. Sabia que não se lembrariam de mim apesar de tudo, não depois da indiferença, do desprezo com que me trataram. Foi tão fácil enganá-lo .... e Regina, essa, nunca sequer teve a sensação de que já me pudesse conhecer. Tolos!
— Molto bene. Basta con questa conversa! – interrompeu. – Conseguiu o que quis.
— Não tudo. – retorquiu, encarando novamente o homem com quem casara em tempos. – Foi muito pouco. Não depois da chegada de Emma Swan.
— O che você quer agora? Parla! – se aproximou mais, agarrando-a bruscamente pelo pulso.
— Adivinha? – seu sorriso era perturbador, doentio.
— Parla de una vez!
— Sua queridinha não passa de hoje. Aliás, já vai tarde demais.
— Che diz? – arregalou os olhos.
— Digo que é melhor preparar um paletó fúnebre bem chique porque Regina morre hoje. – puxou o braço, se soltando dele. – Papai está se encarregando disso nesse exato momento.
— Non ... – murmurou, branco. Ainda assim, deslizou rapidamente a mão trémula pela camisa agarrando no celular ao mesmo tempo que se afastava de Christine.
Foi o tempo de Emma atender do outro lado, do homem balbuciar meia dúzia de avisos e de sentir uma dor forte na cabeça. A seguir, ainda antes do seu corpo embater contra o chão, tudo caiu na penumbra.
*** *** ***
— Bem-vindos a este especial Por Trás da Ribalta!— anunciou o apresentador, homem de cabelos castanhos pelo pescoço, sorriso esquivo e dissimulado, vestido de negro como era habitual. – Hoje somos convidados de alguém muito especial que com toda a amabilidade nos está recebendo na sua maravilhosa casa. – continuou a lenga-lenga.
Havia pessoas contratadas, a quem fora pago um caché, para estarem na plateia montada nos fundos do piso subterrâneo da mansão. Regina aguardava atrás das cortinas improvisadas a deixa para entrar, mas com tudo o que acabara de ouvir de Emma a dúvida instalara-se no seu íntimo. Na bolsa que levara consigo havia algo que a loira não fazia ideia do que era, mas que a morena como precaução comprara há uns dias. Nunca teve intenção de usar, mas no momento que se tornasse necessário, então não hesitaria. Além disso, teria testemunhas.
— Hoje ela está aqui, disposta a partilhar com a gente toda a verdade! – ele continuava, sensacionalista como sempre. A morena revirou os olhos. – Esqueçam as fofocas, o “diz que me disse”, porque hoje tudo o que pensavam saber sobre esta mulher será tirado a limpo. Com toda a generosidade e transparência eu peço um enorme aplauso para Regina Mills!
Houve uma salva de palmas, indicando a entrada da mulher de tez morena. Ela sorria no seu batom perfeitamente delineado pelos lábios cheios e provocantes. Seu cabelo estava dois centímetros mais curto, conferindo-lhe um ar sofisticado e poderoso. Cumpimentou Mr. Gold com um sorriso maravilhoso que a recebeu de pé, depois fez um pequeno aceno com a cabeça e com a mão na direção da plateia gesticulando um “obrigada” e se sentou ao lado do apresentador.
— Como sempre maravilhosa, querida. – elogiou com graciosidade. – Todos querem saber antes demais .... – começou direto, como aliás, ele indicara no Anexo N. C. que faria. – ... e isso é recente, — ela ergueu a sobrancelha relembrando o roteiro. O que era recente não estava naquela porcaria! O que poderia ser senão.... – como está lidando com a separação de Emma?
Teve dois segundos para se reajustar ao tema, relembrando que era público que elas não estavam mais juntas e reagiu com cuidado:
— Não está sendo fácil. – respondeu séria, mas calmamente. – Emma foi e continua sendo muito importante na minha vida. – Gold assentiu. – Passámos por muita coisa juntas. – e agora sim, a pressão começava a fazer-lhe efeito, porque teve de procurar o ar para concluir. – Ela me transformou, me ensinou o conceito de família, me fez perceber o quão precioso e delicado e ... – a voz atraiçoou-a, saindo ligeiramente trémula com a emoção. – ... e maravilhoso é ... esse sentimento de amor, de entrega total, que faz com que todo o resto valha a pena.
— Certo. – revidou, com alguma brusquidão. – Porque nem sempre foi assim, não é? — atacou.
O que estava acontecendo? Aquilo não estava no roteiro. As palavras de Emma começavam a fazer sentido .... aquele homem teria um intuito completamente oposto àquele que fora combinado? Mas seria pessoal? Mas como?, ela se perguntava, se nunca lhe tinha dado razões para tal.
*** *** ***
— Me solta!
— Mãe, mãe!
— Agarra o moleque! – gritou um dos homens encorpados que segurava a loira pelos braços, tendo conseguido imobilizá-la.
O outro correu, agarrando Henry pela t-shirt folgada para desespero de Emma.
— Henry! Deixa ele seu cretino! – debateu-se. – O que pensam que estão fazendo? Vocês estão na minha casa agredindo a mim e ao meu filho.
— Temos ordens de Mr. Gold para não deixar que nada perturbe a entrevista que decorre neste momento. – respondeu o que agarrava Henry que por sinal era menos corpolento do que aquele que segurava a loira.
— Portanto nem que aqui fosse o Pólo Norte e você a mamãe Noel e seu filho um duende em véspera de Natal a gente largaria vocês. – completou o outro.
— Que piada. – revidou, seca, enquanto era arrastada para a cozinha.
— Pronto. – disse o que segurava a loira buscando umas algemas e com elas prendendo-a às pernas da mesa. – Agora você vai ficar quietinha. Jones, segura aí o garoto enquanto eu procuro um banheiro. Tenho de dar uma mija.
— Nossa, que elegância. – murmurou Emma fazendo uma cara de nojo. Logo depois escutou-se uma risada baixa. Emma levantou a cabeça vendo que a mesma viera do capanga que estava com Henry.
— Elegância não faz parte do vocabulário dele mesmo. – respondeu, sorrindo.
Aquele sorriso ...os olhos azuis ... algo ali era familiar, até que se acendeu uma luz.
— Jones? Killian Jones? – perguntou, analisando-o para confirmar se realmente era a mesma pessoa, até porque apenas o vira em fotos.
— Olá, amor. – assentiu, novamente com um sorriso galanteador no rosto moreno. Depois simplesmente soltou Henry e foi até Emma, curvando-se para que estivesse à sua altura já que a loira estava toda curvada por causa das algemas. – Em outra ocasião eu juro que ficaria pra conversar com uma dama tão linda como a senhorita, mas de momento tenho um crocodilo pra abater. – endireitando-se de novo, simplesmente desapareceu da cozinha deixando-os sozinhos.
— Henry, — virou-se para o filho. – pelo amor de Deus, fica aqui! – pediu, mas nem sequer esperou uma resposta porque simplesmente não havia tempo para isso. Tirou um grampo do cabelo com a mão livre e com extrema habilidade conseguiu abrir as algemas. – Me espera aqui, garoto. – piscou o olho para ele que parecia nervoso e saiu correndo.
*** *** ***
— Afinal, não deixa de ser público o número bastante avultado que soma às suas conquistas. – o homem continuava aquela provocação, destabilizando a morena que não conseguia entender onde ele queria chegar.
— Não sei que interesse maior isso possa ter para as pessoas, mas não nego que namorei bastante enquanto solteira. – respondeu entre-dentes, embora com um sorriso cordial. – Hoje é diferente ... como já disse, Emma foi a pessoa que fez com que tudo mudasse na minha forma de encarar os relacionamentos.
— Então é verdade que nesse trajeto, até Miss Swan entrar em cena, muitos corações saíram machucados? – atirou, sério. – Não existe nenhum caso em particular, nenhuma pessoa, a quem deva um pedido de desculpas?
Regina franziu a testa, sem entender o rumo daquela conversa.
— Sinceramente, Robert, — começou, tratando-o de propósito com informalidade. – Se houve ... – o rosto do apresentador sugeria expectativa, ansiedade, como se realmente aguardasse a confirmação pública de alguma coisa. – ... eu não lembro.
— Não lembra?! – e foi ali que ele deu sinais visivéis que estava a ponto de perder a compostura.
— Ouça, as pessoas com quem eu andei envolvida ou deixei de andar são passado. – revidou, visivelmente impaciente. – Nunca fiz promessas a ninguém que não tivesse intenção de cumprir, portanto a resposta é não: não há ninguém a quem deva um pedido de desculpas. – ele ia falar, mas a morena continuou, prosseguindo: — A não ser a Emma que tem sido uma companheira e tanto para mim nos últimos anos e a quem ultimamente eu não tenho dado o devido valor.
Gold pressionou o polegar com os dedos, raivoso. Parecia decepcionado, mas depressa se refez, substituindo o semblante rígido e raivoso por um dos seus sorrisos embebidos em hipocrisia.
— Vamos avançar então. – sorriu, desviando o olhar para o lado como se estivesse procurando algo. – Vamos esclarecer o caso do motel Brooklyn para que de uma vez por todas se coloque um ponto final ...
Antes de concluir a frase, sentiu-se certa agitação na plateia e numa questão de segundos aquilo que estava previamente assente no roteiro ganha consistência com Neal Cassidy partindo na direção de Regina.
— Quem deixou ele entrar?! – escutou-se a encenação de Gold como se este estivesse realmente alarmado. – Agarrem-no!
— Me solta! – Regina gritou, se levantando do sofá. No momento que sentiu o seu pulso sendo severamente magoado tirou imediatamente as conclusões que lhe restavam. O plano nunca fora matar o Outro.
O alvo era ela!
— Façam alguma coisa! – ouvia-se a voz de Gold como se nada daquilo tivesse sido premeditado. – Seguranças!!
— Me solta! Aihh! – tornou a gritar, enquanto ele conseguia prendê-la contra o sofá com o peso do corpo.
Com o desespero, conseguiu acerta-lhe no estômago e com isso pegar a bolsa que havia trazido consigo já com receio de algo dar errado. O que ela nunca pensara é que por “errado” se entendesse o risco de perder a própria vida. Debateu-se o quanto pode, enfiando a mão por dentro da bolsa procurando o revólver escondido que comprara sem Emma saber. Não conseguia ver nem ouvir mais nada quando as mãos do Outro subiram-lhe ao pescoço, apertando-o ligeiramente.
*** *** ***
— Não, não!! Por Deus!! – a loira correu desenfreada para as garagens, pois sabia que era ali que a entrevista decorria. – Vá lá! Deus! Não permitas que nada lhe aconteça!
— Mãe! – ainda escutou Henry atrás de si, mas não havia tempo para mais represálias, então continuou correndo com o filho no seu encalço.
BANG!— se escutou, propagando-se pelas garagens cobertas. Um som ensurdecedor.
— Regina!! – gritou, seguida por Henry que acabava de a alcançar na entrada do piso subterrâneo.
Pegou em Henry como pode e avançou pelas cortinas esperando o pior.
— Essa foi por tudo que me fez perder! – era Jones quem falava, vindo da plateia com um revólver apontado ao corpo caído de Mr. Gold. – E não falo somente da minha mão. – concluiu, olhando o sangue que jorrava agora do peito do apresentador.
Houve um momento de preplexidade pelo ocorrido, mas o frenesim ainda continuava do lado de Regina que mais roxa do que morena continuava naquela luta corpo a corpo com Cassidy que a estrangulava quase em câmara lenta.
— Larga ela! – a loira partiu para cima de Cassidy.
— Em.... ma! – exclamou, com dificuldade, buscando o ar.
— Mãe! – Henry correu na direção de Regina, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto amedrontado.
A morena abraçou-o rapidamente, mas logo prontificou-se a protegê-lo, colocando-se à sua frente. Neal não parava de se debater, parecia que sua força tinha multiplicado umas três vezes e num espaço de segundos era Emma que estava no chão.
— Alguém ajude! – a morena gritou para um dos operadores de camara. – Não vêm que ele está matando a minha mulher, seus idiotas! — sem conseguir se conter ela alcançou o ombro do Outro, fazendo com que este se virasse novamente para ela, atacando-a.
— Me deixa! – vociferou Cassidy, completamente fora de si. Escutou-se um novo grito, desta vez de Emma, e outro de Henry, e logo a seguir um novo ...
BANG!
— Nãoooooo !
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