Notas iniciais
Porque eu me comovo fácil e a Viane faz aniversário esse mês =P ahaha, brincadeira. Olá a todos. Esqueçam a conversa sobre postar tudo de uma vez só, tentarei atualizar, mas não prometo rapidez. Agradeço de coração todas as palavras de incentivo e carinho para comigo e para com esta fic. =) Vcs são uns amores. Boa leitura!

Gior fizera de tudo para apressar os resultados dos meus exames, então, e embora ele ainda não me tivesse dito nada, eu sabia que ele já os tinha, três dias depois. Sabia disso porque conhecia-o demasiadamente bem, tão bem que era quase garantido que fosse o que fosse que tivesse acusado nesses exames estaria longe de ser algo de bom. Gior quase não me encarava direito, e decerto, estaria já arrependido por ter insistido em tratar pessoalmente do meu caso.

A juntar a tudo isso, logo no dia seguinte ao meu jantar no Shiro's Sushi com Gold , mais umas notas haviam saído em algumas revistas de fofoca para não falar dos boatos que corriam livres e soltos nas redes sociais acerca de um suposto affair que eu teria iniciado com um belo e misterioso moreno de olhos azuis. Escusado será dizer que Emma não ficou muito feliz com o sucedido. No entanto, parece que no meio disso tudo, algo de benéfico existe em se estar com uma doença grave já que todos se compadecem com o seu suposto estado frágil e acabam por colocar as suas frustrações e necessidades para segundo plano. Era isso que todos estavam fazendo, e admito, embora a princípio me aliviasse, depois de dias te tratando como uma doente condenada isso começa a mexer com os nervos de uma forma que você só tem vontade de mandar todos ir tomar no ..

– Amor, porque você não vai andando pra cama enquanto eu e …

– Enquanto você e Gior ficam aí de complô nas minhas costas? – cortei-a bruscamente.

Ela trocou um olhar culpado com Giorgio e baixou a cabeça para o prato que começou por levantar em silêncio.

– Mio bene. – ele disse suavemente, daquele jeito que avisava que ele estava temendo levar um soco forte no braço. – Eu não acho que aqui estejam reunidas as condições pra ter questa conversazione, ma …

– Diga de uma vez aquilo que eu já sei! – exclamei, sem paciência. Felizmente Henry estava no quarto da pequena Emily, tomando conta da pequena que devia já estar dormindo, uma vez que Chirstine concordara em deixar a menina na casa de Giorgio aquela noite. – É um tumor! Maligno! E eu vou morrer! Pronto! Não é assim tão difícil, ou é? – chutei o balde, tentando demonstrar que nada daquilo me assustava.

– Para com isso! – Emma retrucou com o tom de voz ligeiramente alterado. Largou o prato sobre a mesa e me fuzilou com aqueles olhos esmeralda que pareciam ter uma tocha quente acesa, prestes a alastrar para fora das íris em direção às pupilas apertadas. – Talvez fosse mesmo mais fácil se fosse um tumor! Assim bastava abrir essa sua cabeça dura de uma vez por todas e arrancar o mal pela raiz!

– Per favore. – Gior tentou, em vão, intervir.

– Não, sério Gior! Até parece que não tem sido testemunha da casmorrice dessa mulher! – acusou bem na minha cara, sem medir mais as palavras que nos últimos dias eu sei que ela estava tentando controlar. – Sabe o que tá parecendo de verdade Regina? Que você no fundo tá mesmo é cansada da vida que tem ao nosso lado e quer ver se enlouquece de uma vez nós todos pra não ter de ser você a …

– Zitto voi due! * — Giorgio levantou-se abruptamente e se colocou entre nós duas. – Já chega uma tar descontrolada … non credi Emma? – ele levantou o sobrolho com ar de reprovação na direção dela.

Emma revirou os olhos e bufou, do mesmo modo que Henry fazia quando era obrigado a admitir que a razão não estava com ele.

– Mio bene … non há tumor algum. – informou pausadamente, e antes que eu o interrompesse, ele me parou com um aceno da mão, e continuou, esclarecendo. – Todos seus exames estão em conformidade com os valores para uma saúde regular e sem qualquer sinal pra alarme. Inclusi, os exames que fizemos ao seu cérebro.

– O quê? – indaguei meio abobada. Não posso negar que era até um pouco ridícula aquela reação minha, ao invés de comemorar, mas não podia deixar de me sentir ainda mais impotente agora sabendo que eu não tinha efectivamente … nada? Franzi a testa em confusão.

– Non hai niente da un punto di vista biologico.* Sua atividade cerebral tá normalizada, não há sombras, vestígios ou qualquer indicador que associe o que você tem à doença di tua madre.

– Então eu não tenho nada?

Ele coçou a nuca e pareceu entrar num estado profundo de reflexão. Foi a minha vez de revirar os olhos com impaciência.

– Receio que entre o nada e o tutto existe uma linea demasiado estreita. – disse com ares exagerados de filósofo, mais para si mesmo do que propriamente para mim. – È necessario identificare la patologia.

– O que raios isso quer dizer? – vociferei.

– Psicoterapia, Regina. – Emma esclareceu por ele.

– Nem morta! – proferi em modos de sentença, cruzando os braços à frente do peito.

– Regina …

– Sabe o que parece às vezes? – cortei-a. Ela levantou a sobrancelha aloirada, esperando que eu continuasse. – Que você quer arrumar uma doença pra mim pra se conseguir justificar pra você mesma.

– Justificar? – indagou, confusa.

– Sim Emma! Isso mesmo! Pra justificar pra você própria o fato dos seus limites estarem extrapolando.

– Você não tá fazendo sentido nenhum.

– Exatamente, e por você achar que eu ultimamente não faço sentido nenhum é porque devo estar claramente doente. Admite … você tem se agarrado a isso como justificativa para continuar comigo.

– Oh meu Deus! Você tá completamente louca! – revidou em jeito de troça, o que só me enervou mais ainda. – Você tá escutando isso Gior? – se virou para ele com um sorriso distorcido no rosto. – Repete os exames todos! Faz outros mais rigorosos, eu sei lá! Ela não tá bem … — e sem dizer mais nada, ela simplesmente deu as costas e se retirou da cozinha.

Fiquei encarando o vazio, na direção da porta por onde ela acabara de sair, enquanto me amaldiçoava mentalmente por ter me comportado exatamente como uma louca.

– Regina … — escutei Gior chamar numa pronúncia carregada, no volume de um mero sussurro.

Desviei o olhar do vazio para ele, mas não soube como lhe responder à pergunta que ele me fazia em silêncio com o olhar. “Porquê?”, ele perguntava, mas eu estava restringida às claúsulas de um contrato, cuja existência o meu melhor amigo sequer podia ter conhecimento.

– Perdoe a minha indiscrição, mas me diga, minha querida. – Gold não falava, ele dançava com as palavras e com a forma como elas assentavam em nós. – Sua futura esposa, a bela e intensa Emma Swan … me responda … ela foi interpelada por Mr. Cassidy, não é mesmo?

Não entendia direito onde ele queria chegar com aquilo, até porque aquilo era passado. Emma me confessara que tinha vacilado, e que, inevitavelmente havia acontecido um beijo entre eles. Um beijo que ela logo tratara de parar, mas ainda assim um beijo. No entanto, estava convicta comigo própria que esse episódio tinha ficado resolvido dentro de mim e sem chances de ser rebuscado.

– Onde quer chegar com isso Gold? – perguntei, agoniada. Já não bastava aquela revelação horrível minutos antes como que saída da cartola de um mágico que Neal Cassidy era um assassino e agora Gold trazia Emma para a conversa.

– Eu não quero chegar a lado algum, queridinha. Apenas tento abrir os seus olhos para tornar o inevitável em evitável. Acho que pouparia um desgosto maior, já que o meu não pôde ser poupado. – ia interrompê-lo abruptamente, mas ele continuou. – Ainda mais nesse caso … com uma criança inocente no meio.

– No que depender de mim Neal Cassidy não vai voltar sequer a poder olhar para o meu filho. – respondi, apertando os lábios, começando a sentir toda a raiva borbulhando sob a temperatura do meu corpo enquanto tentava manter a mínima calma visível no restaurante.

– Ele fez novo contato com sua mulher, sabia? – lançou com os olhos brilhando na minha direção.

– Como? – indaguei, pega de surpresa pela revelação. Ele jogou um sorriso divertido.

– Logo depois daquela encenação toda na porta da sua casa em Nova Iorque, lembra? Inclusive, eu estava lá por solicitação dele. – clarificou, me fazendo recordar aquele escândalo na porta da mansão que me fez ganhar novas manchetes super sensacionalistas nos cabeçalhos dos principais jornais.

– Sim. – confirmei secamente. – Aliás, por sua culpa aquela situação ganhou os contornos que se viu. Mais um escândalo para o enorme repertório de Regina Mills. – completei com ironia.

– É … eu estou ciente disso, me perdoe.

– Não me importa. Tudo isso, um escândalo a mais ou a menos, não vai mudar nada. O que me interessa, Gold, é a minha família. E é aí que esse Neal tá pisando terreno perigoso.

Ele assentiu levemente com a cabeça.

– Eu entendo. Sabe Regina .. nós os dois temos mais em comum do que aquilo que pensa. – Ergui a sobrancelha e ele esboçou um sorriso pequeno. – Eu também prezo muito a família.

– O que você quis dizer com ele ter feito novo contato com Emma? – retornei ao assunto que ele levantou instantes antes.

– Ah, isso. – fingiu só agora ter relembrado quando eu sabia que no fundo ele fizera de propósito para me segurar naquela conversa. – Os interesses de Neal Cassidy se resumem a notoriedade, projeção e visibilidade. – fez uma pausa como se tentasse lembrar-se de algo que faltava. – … ah, e é claro, à consequência direta ou indireta destes itens todos.

– Dinheiro. – concluí. Ele soltou uma risada baixa.

– Precisamente. – confirmou calmamente, antes de tomar um gole de vinho. – E imagine só uma das estratégias do garotão! – ele recomeçou com ar trocista. – Ele pretende reconquistar a sua mulher! É amor, diz ele com todas as letras. – ele soltou uma nova risada de escárnio. – Cá entre nós queridinha …. Acrescente “Emma Swan” à lista dos itens que garantem a ele a fortuna almejada.

Senti meus próprios dentes rangendo com raiva e a minha mandíbula exercendo fortemente pressão sobre os ossos temporais do crânio agravando a dor de cabeça que já estava sentindo.

– Ele me informou que conseguiu abrir uma brecha no coração de Miss Swan nesse dia. Que ela ficou balançada com o discurso de arrependimento dele, que aliás, ele me garantiu ser real. – desviou os olhos do meu rosto e retirou algo do bolso da camisa negra, me entregando a mim de seguida. Era um celular. – Dê uma olhada nas mensagens.

Por favor, preciso falar com você.Vou te ligar em breve. Não faça nada até lá.

– Emma respondeu? – minha incredulidade falou por mim. – Como … isso aqui é real? – tornei a olhar para ele.

– Esse celular é de Mr. Cassidy. Ele me emprestou porque tinha pretensão de usar isso a favor dele na mídia. Pode acreditar, retroceda as mensagens … não reconhece as mais antigas?

Voltei a olhar para o visor do aparelho, e meu rosto deve ter me denunciado, porque Gold acabou rindo do meu estado.

Agora que reencontrei você, fica difícil ficar longe. Morrendo já de saudades.

P.S. – Eu te amo.

Me encontra hoje às 19h pra matar a saudade?Motel 6 Brooklyn, quarto 2

Aquela última resposta me causou náuseas. Quem marcara aquele encontro fora eu própria me fazendo passar por Emma. Deve ter sido a partir desse momento que tudo começou a se descontrolar dentro de mim com a sombra daquele homem nas nossas vidas.

– Emma não me falou nada. – declarei baixinho mais para mim do que para ele. Havia desilusão na minha voz, mas também tristeza. De qualquer das formas, tentei não me abalar, até porque uma resposta que diz “Vou te ligar em breve. Não faça nada até lá” não é prova de nada em concreto, e eu pertenço ao grupo de pessoas que tenta ao máximo não tirar conclusões precipitadas. Até porque no fundo, já o fizera antes e nada de bom resultara daí.

– Eu não quero perturbar você com isso, mas é apenas pra você ficar ciente da pessoa com quem está lidando. – comentou ao ver que eu me mantinha em silêncio absoluto. – Mr. Cassidy chegou na sua vida pra arruiná-la, de uma forma ou de outra. Ele é mais perigoso do que aparenta.

– E onde eu entro nisso tudo? Sim, porque você não vai querer me convencer que veio até mim, me avisar do perigo que é Neal Cassidy sem ter algum interesse. – revidei, devolvendo o celular.

Ele não respondeu logo à minha pergunta porque o garçom chegava com um barco enorme com as iguarias asiáticas que Gold havia pedido.

– Ora bem! É aí que tem lugar o acordo que eu vim propor-lhe. – respondeu com uma empolgação repentina assim que o garçom se afastou. – Eu passo a explicar, queridinha. Eu quero que você …

– Regina, mio bene, o que tá acontecendo? – Gior perguntou, me trazendo de novo para a realidade. Senti um arrepio me percorrer a espinha quando ele se aproximou mais de mim.

– Eu fui uma estúpida com ela, eu admito. – disse apenas, deixando que os meus ombros descaíssem.

– Sì, você foi. Ma perché? – questionou alisando uma das maças do meu rosto com as costas da mão. – Você não tá contando tudo. – suspirou. – Mas não sou eu que vou te obrigar a falar.

– Até porque não ia adiantar. – tentei responder com humor, mas ele não se riu.

– Meu conselho médico é terapia, per ora. – comunicou de forma distante. – Se você quiser te indico uno specialista.

– Você ficou chateado comigo? – perguntei, buscando a sua mão que abandonara o meu rosto.

Ele esboçou um sorriso curto e balançou a cabeça.

– É claro que não amore mio. – me beijou rapidamente as costas da mão e logo depois largou-a. – Eu só me preoccupo per te.

– Eu sei. – sorri fracamente.

– E Emma também, não se esqueça. – piscou o olho sorrateiramente, e sem acrescentar mais nada, passou por mim e se retirou também da cozinha me deixando sozinha na divisão com os meus pensamentos.

*** *** ***

Não sei quanto tempo havia passado, mas em vez de tentar ter algumas horas de descanso, eu continuei na cozinha da casa de Giorgio, dando voltas e mais voltas mentais aos acontecimentos dos últimos dias. Mr. Gold não perdera tempo em me enviar por mensagem a data e horário da grande entrevista que tinha como pretexto o início da concretização do seu plano, e agora, do meu também. Embora meu estado reticente, ele insistiu para que o local fosse na minha casa em Nova Iorque, uma entrevista com ambiente intimista, em que a entrevistada – eu – se justificaria perante o grande público acerca do escândalo do Motel 6 Brooklyn, como ficara conhecido na comunicação social.

A não ser isso, não tinha mais detalhes sobre o que seria esperado do decorrer dessa entrevista, mas Gold, por contrato escrito, se comprometera a “explorar” a minha imagem sem causar dano para mim. Como ele dissera, a partir do momento que eu assinara aquele contrato, eu passava a ser sua protegida. Se eu acreditava piamente nisso era uma história bem diferente. Ele procurava vingança pela filha assassinada ou paz como definira, mas daí a se importar pela minha inteira integridade emocional ou psicológica eu não apostaria as minhas fichas. Aliás, como poderia ele zelar por isso se nem eu mesma estava sendo capaz de o fazer pelo meu próprio bem? Acho que foi nesse sentido que me obriguei a assinar aquele contrato. A procura pela recuperação do controlo que eu sentia estar perdendo. Pensava que com um objectivo definido, estruturado nas suas várias etapas cruciais, eu recuperaria o discernimento que o Outro me roubara desde o maldito dia que se lembrou de assombrar a minha consciência. Sempre fui uma mulher que trabalhava melhor assim; implacável e insatisfeita até realizar o pretendido, e ter um contrato me impediria assim de desistir no meio do caminho. O caminho que levaria ao fim do Outro, e por consequência, ao restabelecimento da minha paz.

Tudo estava muito bem assente do ponto de vista racional, mas não posso negar que a existência de Emma e Henry ao mesmo tempo que me impulsionava a ir avante com aquele plano, também complicava as coisas do ponto de vista psicológico. Não queria machucar ninguém, acima de tudo, não queria perdê-los, mas deixar Neal Cassidy à solta, sondando e investindo contra a minha família também não era uma hipótese. Mas se eu seguisse todos os passos, me deixasse dirigir naquela encenação quase cinematográfica do magnata das comunicações, tudo correria bem. Foi com tudo isso em mente que me decidi finalmente a levantar do banco na cozinha em que estava sentada.

– Mãe? – Henry indagou ensonado ao entrar na cozinha, esfregando os olhos.

– Meu amor. – esbocei um sorriso, me aproximando dele. Só aí me dei conta do quanto eu sentira falta dele me chamando de “mãe” como se isso não acontecesse há séculos. – Não consegue dormir?

Ele bocejou longamente de um jeito tão fofo que me fez lembrar de quando ele era mais pequeno e adormecera tantas vezes com a cabeça sobre o meu colo enquanto eu fazia carinho nos seus cabelos.

– Eu acho que acabei adormecendo olhando Emily dormir. Aí acordei com dor no corpo e vontade de ir no banheiro.

– Tá se amarrando na menininha não é mesmo? – perguntei, brincando. – Ela é mesmo uma bonequinha.

Ele fez um maneio com a cabeça como se concordasse e disse que estava com sede. Eu sorri meigamente para ele, e abri a geladeira, retirando de lá uma garrafa com água. Peguei um copo e enchi-o com um pouco da água e estendi-o na sua direção.

– Quer que eu aqueça um pouco de leite pra você tomar como fazia quando era pequeno? – perguntei com um sorriso tão cheio de carinho e saudades que me fez ter vontade de retroceder no tempo.

– Eu não sou mais criança. – ele respondeu rindo.

– Então e é só criança que toma leite quente é?

Ele balançou a cabeça ainda rindo, e puxou um banco para se sentar, antes de pousar o copo com a água na mesa. Imitando-o, fiz o mesmo, puxando também um banco, e me sentei ao seu lado.

– Eu tive pensando … — ele começou, dirigindo a minha inteira atenção para o que viria daquela cabecinha engenhosa. – … eu meio que gostava de ter uma irmãzinha.

Fiquei momentaneamente sem palavras, pois certo será dizer que aquela confissão era a última coisa que eu esperava escutar àquela hora da madrugada. Ele continuou naturalmente, como um homenzinho sério e bem informado:

– Eu sei que pra você e pra mamãe não é do mesmo jeito que pros pais dos meus amigos, mas dá pra fazer, né?

– Querido, onde você foi buscar essas ideias? – questionei, surpreendida pelo tema que ele parecia ter plena consciência ao abordar, mesmo que ainda assim pudesse ser de um modo vago.

– De querer uma irmãzinha ou de vocês poderem dar uma pra mim? – inquiriu ingenuamente com o nariz franzido, o que fazia com que ele esboçasse uma careta engraçada.

– Ai Henry, meu amor, você não existe! – exclamei sem conseguir deixar de rir e de colocar uma das mãos sobre a dele. – Primeiro que tudo rapazinho, você sabe que uma vez que a gente decide ter um bebezinho é uma responsabilidade. É uma pessoinha pequena que precisa ser cuidada, amada e protegida. Não é como um dos seus videogames que pode ser desligado na hora que a vontade de brincar acaba.

– Puxa mãe, eu sei!! Não sou burro! Eu sei que não é brinquedo. – revidou, quase ofendido.

– Está certo querido. Eu sei que você é inteligente e muito responsável também. – sorri, retirando as minhas mãos da dele. – E é verdade sobre isso que você perguntou. A medicina tem evoluído muito nos últimos anos, então se sua mãe e eu quiséssemos, nós poderíamos dar um irmãozinho ou uma irmãzinha a você. Sem falar que há muita criança à espera de ser adotada também. Talvez Emma preferisse antes fazer isso se … – seus olhos arregalaram em entusiasmo da mesma forma que acontecia quando ele estava prestes a receber um presente. – … “se” Henry, – pontuei chamando-o à realidade. – “se” nós decidíssemos um dia ter outro filho.

– Mas porquê vocês não querem? – ele não ia desistir tão cedo. – Ia ser tão legal! Aí eu ia ser o irmão mais velho e podia protegê-la e ..

– Você vai ter de se contentar com Emily por agora. – cortei, bagunçando os seus cabelos e encerrando o assunto. Me inclinei, dei um beijo na sua testa e me levantei. – Vamos mocinho. Daqui a pouco é de manhã e nós não dormimos nada. Eu te coloco pra dormir.

– Não precisa. – respondeu meio emburrado, mais pela rebeldia do momento do que propriamente por estar chateado. – Mas eu ia ser um ótimo irmão mais velho. – ainda resmungou antes de desaparecer do meu ângulo de visão.

– Tenho a certeza que sim, querido. – sussurrei parada no lugar, com um sorriso triste no rosto, nem sei bem porquê.

*** *** ***

Entrei aos apalpanços no quarto onde estávamos acomodadas na casa de Gior e pude perceber facilmente que Emma não dormia porque ela estava deitada de costas, encarando o tecto na penumbra, e ela nunca assumia essa posição enquanto adormecida. Olhei as horas visíveis pela luz verde no relógio da cómoda onde marcava 04:17 e me sentei de costas para ela na cama.

– Decidiu dormir? – sua voz soou áspera e amargurada no silêncio do quarto.

– Não é uma questão de decisão. – respondi. – Nem tudo está nas minhas mãos.

– Porque você continua me castigando por algo que eu não fiz? – senti sua voz mais próxima nas minhas costas e movimento dando a entender que ela se sentara.

– Do que tá falando? – girei o tronco o suficiente para poder encará-la mesmo que somente só conseguisse ver a forma do seu vulto.

– De Neal … do que aconteceu … você … – se endireitou enquanto parecia reorganizar as palavras. – … você me fez achar que tinha ficado tudo bem sobre .. o beijo que aconteceu entre mim e ele, mas cada vez que tem oportunidade você me trata mal, fica me atacando, insinuando coisas. Dizendo que eu não te quero … como você fez hoje à frente de Gior.

– Emma …

– Eu pensei – ela me cortou rapidamente. – que depois daquela noite que passámos juntas no hotel você não tornaria a fazer isso, eu achei … eu realmente estava sentindo que a gente estava de novo bem. – ela fez uma pausa, mais para se recompor do que para pensar. Ela parecia saber muito bem tudo aquilo que precisava de falar. – E eu tenho sido compreensiva, eu sei que tenho. E apesar do meu surto de ciúmes estúpidos por causa das fofocas de Christine, eu entendi que fui idiota. Até Gior tem me ajudado a ter calma, ainda mais com essa pressão toda de saber o que você tinha ou deixava de ter.

Eu não ousei interrompê-la, embora estivesse me custando escutar tudo aquilo. Ela continuou com a voz mansa, meio apagada, apenas sem furor, quase mal-tratada:

– Mas hoje foi demais. Sabe o medo que me deu de repente? E ironicamente nisso você acertou no ponto.

– O quê? – a pergunta saiu miudinha, comedida, não por timidez, mas por receio do golpe que teriam as suas próximas palavras.

– Eu desejei mesmo que você tivesse algo para justificar o seu comportamento em relação a mim. Eu achei que era a única explicação pra você continuar me atacando dessa forma. Eu pensei: “Meu Deus! Ela precisa ter alguma coisa na cabeça que a faça não me amar mais.” – ela soltou uma risada triste e embargada. – Eu me senti horrível também por esse pensamento. Eu me senti um lixo de pessoa.

– Querida …

– Então me diz de uma vez por todas – tornou a interromper sem vacilar, e embora estivéssemos no escuro, eu sabia exatamente como a expressão do seu rosto estava condoída. – isso tudo é porque você não me perdoou ainda pelo beijo ou é porque você simplesmente cansou de mim?

Silêncio. Não sabia como responder-lhe àquilo, não porque tivesse dúvidas sobre o meu amor por ela, mas porque no fundo ainda não tinha engolido esse aparecimento repentino do Outro. Ainda mais depois da última revelação que Gold havia me feito me mostrando a última mensagem de Emma para Neal. Ela mantinha sim contato com ele nas minhas costas, e estava me omitindo esse detalhe colossal da forma mais hipócrita possível. Logo ela que não queria mais segredos! Minha demora em responder foi precisamente por isso, não saber se deveria confrontá-la ou não. Primeiro porque teria de confessar que andei mexendo mais do que devia no celular dela (porque embora ela soubesse que eu o tinha feito, não chegara a saber até que ponto – que eu enviara mensagem do seu celular por exemplo a fazer-me passar por ela), e segundo, porque eu teria de revelar que Gold me mostrara a troca de mensagens no celular de Neal, e que por consequência, tudo isso me ligaria ao plano secreto que eu estava expressamente proibida de revelar a ela.

– Vai continuar sem me responder ou devo encarar o seu silêncio como uma resposta? – lançou, desta vez com voz de desafio.

– Não se faça de vítima! Você andou se encontrando com ele este tempo todo nas minhas costas! – Gritei na cara dela, descontrolada. – Me fazendo de otária!

(…)

– A única coisa que aconteceu entre mim e ele foi um beijo. – Confessou, de cabeça baixa, e eu não soube mais que reação ter, até porque minha cabeça estava latejando igual a uma bomba em contagem regressiva pronta para explodir. – Eu me afastei dele logo, não permiti que continuasse. – Ela levantou a cabeça, fixando o seu olhar lacrimejante no meu, perplexo. – Mas sabe o que me dói mais? – Lançou retoricamente, continuando logo com a voz chorosa. – É saber que você desconfiou de mim ao ponto de arquitetar um plano qualquer para o encontrar naquele motel.

(…)

– Eu só continuei falando com Neal porque ele me disse que apesar de eu ter refeito a minha vida ao lado de outra pessoa, ele gostaria de ter algum tipo de relação com o filho. (…)

Aquela conversa semanas antes passou como um raio trovejando pelos meus ouvidos. Na altura acreditei na palavra dela, que realmente tudo não tivesse passado de um mal-entendido, que a sordidez de Neal Cassidy me tivesse acabado por influenciar por causa do meu medo em perder Emma, mas minha cabeça estava demasiado confusa e dolorida diante da descoberta daquele novo contato entre eles. Porque ela ligaria para ele em breve como tinha escrito na mensagem?

(…)

– Porque você não pergunta a Emma hein? – Ele dizia com a boca roçando no meu ouvido, me fazendo paralisar e temer o pior. – Pergunta pra ela vai … ela vai te contar como ela sentia falta dos meus beijos que sempre a deixaram louca.

– Cala a boca! – Gritei, nunca desejando mais nada com tanta força na vida como calar a sujeira que ele dizia.

– Custa escutar a verdade é? – Ele continuou, enquanto fungava na base do meu pescoço como um cachorro sarnento. – Que Emma gosta mesmo é de um pau duro dentro dela. Tem ideia do que é isso Vossa Celebridade? – Ele praticamente salivou na minha pele enquanto me puxou uma das mãos e a levou para cima da frente da sua calça, me fazendo sentir o volume que pulsava ali. – Isso … sinta e entenda o quanto isso a fez feliz mais uma vez depois de tantos anos se contentando com simples brinquedos. (…)

Simples brinquedos? Franzi a testa em estado ausente enquanto, estou certa, Emma continuava esperando uma resposta para a sua pergunta.

(…)

– Ou então .. – Sua voz soou como um ronronar manhoso tocando a pele da minha orelha. – …você poderia me algemar, me botar de quatro e me foder até a insanidade com o seu cassetete.

– Miss Swan! – Exclamei surpreendida, afastando o rosto para olhá-la. – Quem te anda ensinando essas coisas? – Eu ri, a puxando para um beijo logo de seguida selando o acordo silencioso.

Minha cabeça estava dando um nó e não era um nó qualquer. Devia ser um tipo de nó que com certeza só um escuteiro empenhado e habilidoso saberia o nome e o modo mais fácil para o desfazer. Para minha derradeira infelicidade, eu nunca me interessei muito pela nobre atividade, nem mesmo quando Henry teve vontade de enveredar pelos divertidos, como ele apregoava aos quatros ventos, acampamentos escutistas cheios de nós e amarras. Inclusive, recordo-me de o ouvir dizer algo como “da perfeição de um nó pode depender uma vida”, e ironicamente só agora eu entendia, obviamente em sentido metafórico, a veracidade desta afirmação. Facto era que talvez se eu tivesse prestado mais atenção, agora eu saberia as laçadas certas para desenrolar a confusão em que estavam todas as amarras dentro do meu cérebro. Ou talvez não … mas pelo menos eu saberia o nome do nó.

– Okay. Eu tenho a minha resposta. – escutei Emma falar me despertando novamente dos meus devaneios.

Vi a sua silhueta me voltar as costas e ela se tornar a deitar, de lado, de costas para mim.

– Eu não te perdoei. – despejei de uma só vez.

Ela se virou de novo. Vi-a se sentar mais uma vez, e depois, acender a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira ao seu lado. A luz não era muito forte, apenas a suficiente para permitir que a gente se enxergasse nos olhos, de ambas, marejados.

– Me perdoa. – disse, séria. – Por tudo que é mais sagrado, por Henry – o nosso filho – me perdoa. – pediu com a intensidade condensada que machucava. Que perfurava a sua alma de dentro para fora, e que uma vez fora, te penetrava novamente em sentido contrário até atingir um coração metafísico que não mais existia em carne, e que por isso, tornava a dor infinita.

As lágrimas caíram pelo meu rosto abrasado em calor se juntando às gotículas minúsculas de suor na minha pele.

– Eu não sei se sou capaz. – admiti, morrendo por dentro. – Eu juro que quero. – solucei.

– Não teve significado nenhum. – disse em lágrimas. – Eu não o amo.

Como havíamos chegado àquele nível de desespero? Quando foi que o Amor se tornara tão aniquilador no sentido mais negativo da palavra? Quando é que a poesia que O vela e embala O tornou tão cru? Quando o Outro cruzou as rimas dos versos da nossa estrofe! Foi quando! Franzi o cenho enraivecida.

– Para de mentir! – gritei horrorizada comigo mesma, afundei a cara nas mãos e me acocorei sobre a cama toda encolhida.

“Amor é confiança, amor é confiança, amor é …” – repeti mentalmente para mim mesma aquela afirmação que virara cliché da vida rotineira. Mas que fazer quando as evidências estão debaixo do seu nariz?

– Amor demais é fraqueza. – minha mãe respondeu jovialmente com um aceno de mão como se desvalorizasse completamente os meus sentimentos pela morte de Micha, minha gata persa, de cinco anos. – E no caso de um bicho, é tolice. – ela riu. – Minha querida, eu compro outra ainda mais bonita pra você. – me fez sentar com ela na salinha do chá.

Eu fungava desconsolada, com meus treze anos.

– Mas eu quero a Micha. – choraminguei.

– Amor, você pode chamá-la de Micha II, que tal? Olha que título mais nobre! – ela pegou um lenço de seda e secou as lágrimas da minha bochecha com ele.

– Mas não vai ser a mesma coisa. – insisti.

Ela suspirou e sorriu tristemente. Depois inclinou-se sobre a mesinha de centro da sala e pegou na campainha de prata que estava pousada sobre o tampo da mesma. Balançou-a com delicadeza no ar, fazendo-a tilintar naquele som agudo e tantas vezes irritante para mim, e em questão de segundos a empregada Alessandra – mãe do meu amigo Giorgio – surgiu com um sorriso bem-disposto.

– Querida Alessandra, sei bem que ainda não são cinco, mas por favor, vamos quebrar as convenções por hoje e abrir uma excepção. Pode trazer já o chá. – Alessandra assentiu com a cabeça de forma afável e já estava se retirando, quando a minha mãe se lembrou de tornar a falar. – Ah é verdade. Traga também aqueles biscoitos de canela deliciosos. A minha Regina tá precisando curar um coração partido. – acrescentou a última parte com uma piscadinha de olho cúmplice para Alessandra.

– Biscoito de canela não vai trazer a Micha de volta. – resmunguei assim que Alessandra se retirou.

– Sabia que a canela contém cálcio e fibra que proporcionam a proteção contra doenças do coração? – atirou repentinamente, não fazendo caso da minha ladainha de lamentações.

Eu não respondi, emburrada. Ela então pegou nas minhas mãos e me fez olhá-la na expectativa.

– Regina, eu acho que chegou a hora de ensinar a você uma das lições mais valiosas que você deve aprender nessa vida se não a mais valiosa de todas.

Enruguei a testa sem entender o que ela poderia ter a me ensinar naquele momento, ainda mais que pudesse ter a ver com a morte de Micha. Entretanto, com a maior das brevidades, Alessandra retornou, depositou a bandeja com o chá e os biscoitos na mesinha à nossa frente e voltou a sair.

Cora aproveitou a oportunidade para largar as minhas mãos e encher com chá duas xícaras; uma para ela e outra para mim. Calmamente me estendeu uma das xícaras e tomou para ela a outra. Soprou graciosamente o líquido que fumegava quente da xícara e tomou um gole de passarinho, bem miudinho.

– O amor é o sentimento mais poderoso que existe, e como tal, nós, meros mortais, temos duas opções diante dele. – tomou mais um gole e era nítido na sua expressão o quanto estava lhe caindo bem aquele chá de hortelã pimenta. – Podemos minguar com ele até mirrar e morrer em seu nome …

– Ou? – questionei verdadeiramente interessada.

Ela sorriu, se inclinou, pegando um biscoito e dando uma dentadinha quase imperceptivel e só depois de outro gole de chá respondeu:

– Ou aprender a dominá-lo para evitar sofrimentos futuros.

– Mas .. como?

– Ora minha querida filha, como seria? – soltou uma risadinha espirituosa. – Não o deixando perfurar a nossa alma é claro.

– Mas mãe .. – comecei de um jeito ainda mais confuso do que antes. – … mas isso não seria o contrário de amar?

– Doce criança. – me olhou por cima da sua xícara fumegante com leveza. – Um dia você vai entender que somos nós que escolhemos a nossa própria forma de amar. E com certeza não será isso que tirará o mérito aos sentimentos de alguém. Pense nisso – ela disse cheia daquela graça que ela tinha da realeza. Hoje já não saberia dizer se era verídica ou encenação. – E enterre Micha. Compramos uma urna se quiser feita sob medida especialmente pra ela.

Assenti tristemente com a cabeça, e logo depois tomei o primeiro gole do meu chá. Contudo, antes que pudesse engolir o líquido mescla de frescura e quentura, ela acrescentou naturalmente como se estivesse me dando os bons dias:

– Mas sobretudo, enterre-a bem fundo no seu coração. Se não a conseguir sentir mais tanto melhor.

– Eu não estou mentindo! – Emma tentou se defender. Sentia-a me tocando, me rodeando com os seus braços que naquele momento apenas pareciam mais amarras a juntar às outras tantas que eu sentia dentro de mim. – Foi só a porcaria de um beijo que eu nem sequer correspondi!

– Eu não queria … — balbuciei entre lágrimas.

– Shiuu .. amor. Eu estou aqui. – ela murmurou numa tentativa que me pareceu de consolação que só me fez sentir ainda mais presa. – Eu vou estar sempre aqui enquanto você me amar. – prometeu me beijando a cabeça.

– Eu não queria. – tornei a falar entre solavancos apertados.

– Não queria o quê amor? – soprou no meu ouvido.

Me endireitei repentinamente e me atirei bruscamente nos seus braços, rodeando-lhe o pescoço com possessividade.

– Eu te amo tanto que chega a doer. – confessei num sussurro apagado.

Se ela me escutou ou não eu não cheguei a saber, apenas sei que quase me senti sufocar naquele aperto que ela devolveu sobre as minhas costas como se estivesse empenhada na tarefa de fundir a sua matéria com a minha própria.

Eu não queria amá-la de acordo com a primeira opção. Eu não queria minguar, mirrar e morrer em nome desse sentimento tão nobre (e catastrófico) chamado Amor.

Notas finais
TRADUÇÃO: * Zitto voi due! - Calem a boca vocês duas! * Non hai niente da un punto di vista biologico. - Você não tem nada do ponto de vista biológico.