Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
30 Cláusulas Contratuais
Abri os olhos, amedrontada. Olhei mecanicamente para o relógio na cómoda que marcava as 7:05, e embora tenha tido meros instantes de sono durante a noite, entre pesadelos horríveis e lembranças angustiantes, mesmo assim me forcei a levantar. Tive de segurar uma pontada de dor de cabeça intensa antes de me colocar completamente de pé, mas devagar lá me consegui restabelecer.
Emma ainda estava deitada, mas não pareceu dar pela minha falta na cama, se limitando a virar para o outro lado e a enterrar o rosto no travesseiro em que antes estivera repousada a minha cabeça.
Sentia-me agitada e ansiosa. Dirigindo-me para o banheiro, me despi e entrei no duche rapidamente com esperança de reaver alguma da estabilidade perdida. Se é que alguma vez eu a detive em mim por algum período minimamente alargado de tempo.
A sensação da água caiando sobre o meu corpo era boa e relaxante e estava ajudando também a aliviar aquela enxaqueca matutina. No entanto não queria ficar demasiado tempo debaixo da água quente, não fosse o meu corpo amolecer e se escapolir daquilo que precisava fazer. O contrato estava em vigor, portanto era hora de começar aquela demanda de acordo com cada indicação feita por Gold.
Cláusula Primeira
A primeira contraente autoriza expressamente à segunda contraente a exploração da sua imagem pública através de todo o tipo de entrevistas em regime de exclusividade, sendo ilícitas as utilizações que deformem, mutilem, desfigurem ou que atinjam a primeira contraente na sua honra ou reputação.
Ou seja, através de uma única primeira cláusula daquele contrato, eu estava protegida como ele dissera, mas também obrigada a aceitar que ele apontasse todos os holofotes e mais alguns bem na minha cara. A entrevista estava marcada, não tinha como dizer não. Faltava apenas …
– Regina!
Comunicar a Emma.
– Regina! – escutei-a mais alto assim que desliguei a água. – Quando você pensava em me falar da entrevista? – mordi o lábio e saí do box, procurando por uma toalha.
– Entrevista? – não adiantava muito me fazer de desentendida, porque ela me fez aquela cara que dizia que não estava com paciência para enrolações. – Se está se referindo à entrevista pra Companhia Gold eu não entendo a surpresa. Eu te falei que faria.
A minha resposta não fez as linhas presas do seu rosto relaxarem. Em vez disso, ela esticou o braço na minha direção e só aí eu vi que o meu celular estava na sua mão.
– Você só se esqueceu de me informar sobre um detalhe sem qualquer importância. – disse em tom irónico. – Que a entrevista já foi marcada e que é amanhã! – ia perguntar como ela sabia, mas antes que eu pudesse verbalizar a pergunta, já ela me respondia agitada. – Um idiota qualquer que trabalha pro Gold ligou a exigir que você permitisse a entrada na casa hoje pra preparar a grande entrevista que, vejam só! – tenho certeza que não era sua pretensão, mas a sua voz saiu meio esganiçada na última exclamação. – Vai ser no que eu achava ser a nossa casa! Isso não pode ser sério! Me diz agora que eu escutei errado.
Okay … eu deveria ter conversado com ela melhor sobre isso, mas estava com tanto receio de ser submetida a uma série de perguntas sobre o jantar com Gold (que ela acabara por descobrir pelos jornais) que nem me atrevi a mencionar nada além de “por coincidência Mr. Gold estava com um dos assessores pessoais (o moreno misterioso de olhos azuís – Killian Jones – das revistas de fofoca) naquele mesmo restaurante e acabámos por tomar um café juntos.”
Portanto, até à data ela estava convencida que apenas havia terminado parte do jantar com ele, e que nada havia sido falado a não ser de mais uma vez ele ter insistido comigo para que eu concedesse a ele uma entrevista. Uma. Imagino o que ela acharia se soubesse que em vez disso eu havia assinado uns papéis que poderiam significar uma dezena de entrevistas, e quem sabe, ainda adquirisse contornos de um autêntico merchandising depois disso.
Claúsula Segunda
A primeira contraente cede voluntariamente em favor da segunda contraente de qualquer benefício ou proveito que possa advir da repercussão da exploração da sua imagem realizada pela segunda contraente, tais como: direitos sobre a sua imagem para fins comerciais, promocionais, de patrocínio, publicitários ou de merchandising,
Não nego, a minha consciência estava um pouco pesada por ter escondido tanta coisa dela ultimamente, mas também, quem era ela para falar? Quem a escutasse até poderia pensar que era a rainha da moral e da ética! Logo ela, que me mentia e combinava de se encontrar com o Outro nas minhas costas para fazer sabe-se lá o quê! No mesmo instante que me lembrei das mensagens entre eles, todo o sentimento de culpa desapareceu e em vez dele, uma enorme raiva surgiu no lugar.
– E quem te deu o direito de atender as minhas chamadas? – atirei, arrancando o celular da sua mão. – Que eu saiba minha assistente pessoal ainda se chama Katia. – acrescentei cheia de veneno.
Ela me olhou com aquele brilho intenso nos olhos esverdeados, agora com tonalidades de amarelos, como os olhos de uma gata selvagem e arisca.
– Você deveria ter falado comigo. – revidou, se aproximando e me puxando pelo pulso. – Tudo tem limite Regina e eu não sei a que distância já estão os meus.
Sentia a sua respiração quente e pesada no meu rosto e seu aperto forte envolvendo o meu pulso. Queria dizer algo como “então porque você continua aqui?” apenas porque estava com raiva e porque sou orgulhosa, mas não ousei sequer em voltar a revidar porque tenho a certeza que se a visse virar-me as costas de vez, algo quebraria para sempre dentro de mim.
– Você pode tar chateada, magoada comigo … — ela recomeçou. Desta vez falava vagarosamente, escolhendo as palavras a dedo. – … mas não pode ficar por aí descontando isso desse jeito. Fazer o que te dá na cabeça assim … tomar decisões tão importantes quanto essas que não envolvem apenas você.
Que não envolvem apenas a mim? Imediatamente pensei naquele desgraçado. Ela estava preocupada com ele? Será que achava que essa entrevista teria consequências para o amante dela? Amante? Oh Deus! O que é que eu estava dizendo?!
– Regina, tá me escutando? – escutei-a perguntar. Pisquei os olhos e retomei o foco. Balancei levemente a cabeça. – Não tá? – via-a franzir a testa fazendo o seu rosto adquirir uma expressão confusa.
– Não … quer dizer, sim. – ela ergueu uma sobrancelha hesitante. – Eu quero dizer, sim, eu escutei o que você disse.
– O que eu faço com você? Me diz. – perguntou, mas não foi de fato uma pergunta à espera de uma resposta. Seus lábios se moldaram num resquício de sorriso. – Tem certeza que isso que você vai fazer é uma boa ideia?
– A entrevista?
Ela me olhou novamente confusa por breves instantes.
– Mas não é disso que estamos falando?
Esbocei um sorriso que acredito que não tenha sido muito convicente ao mesmo tempo que fiz um meneio com a cabeça em sentido afirmativo. Se não tomasse cuidado iria colocar tudo a perder e o Outro ia acabar mesmo por nos destruir. Precisava manter o sangue frio.
– Desculpa, eu só … não dormi o suficiente. – escolhi justificar assim.
– Amor, eu não confio nesse Gold. Você sabe que se eu pudesse, tudo isso … mídia, fotógrafos, revistas … — foi enumerando enquanto o aperto no meu pulso virava uma carícia com o polegar. – … tudo isso sumia das nossas vidas.
– Mas isso faz parte da minha vida, você sabe. – reagi àquele assunto como tantas outras vezes.
– Eu sei. E por isso eu aceitei. – respondeu, percorrendo o meu rosto demoradamente com os olhos. – Eu só espero que você saiba o que tá fazendo, é só isso. – suspirou, baixando brevemente os olhos para o meu tronco, ainda enrolado pela toalha.
– Eu sei o que tou fazendo. – tranquilizei com segurança, deixando que seu olhar queimasse em mim, primeiro na direção onde ela mantinha os olhos, depois no meu próprio olhar castanho quando ela subiu os olhos até ao meu rosto ainda húmido. – Confia em mim.
Lançou-me um sorriso triste, e respondeu:
– Não posso te dar mais provas que confio as nossas vidas a você. – me abraçou cuidadosamente, me pegando desprevenida, e se afastou. – Também gostava que você pudesse confiar.
É inútil dizer que o sentimento de culpa tornou a cair pesadamente sobre mim. Ela parecia tão sincera, tão transparente, e tão entristecida ao mesmo tempo que se afastava na direção do quarto abdicando de qualquer possibilidade para uma nova argumentação.
*** *** ***
As malas estavam feitas e a viagem de regresso a Nova Iorque marcada apesar de Henry estar contrariado com a decisão. A paixonite aguda pela pequena Emily e a relutância em voltar à escola eram os pretextos que ele usava para querer ficar em Seattle até ao final da semana.
– Você já perdeu mais tempo de aulas do que era suposto. – Emma disse distraidamente enquanto observava Emily tentando montar um quebra-cabeças infantil no chão da sala.
Não podia negar que Emily era realmente apaixonante. Seus olhinhos claros, assim como os de Gior, eram azuís, mas diferente de seu pai, a tonalidade do azul era menos óbvia, dando a impressão de por vezes ter reflexos esverdeados se assemelhando aos de Emma. Calculei que o motivo provavelmente estaria relacionado à própria coloração verde impressa nas íris falsas daquela Christina, por infortúnio mãe da pequenina.
Os cabelos pela altura dos ombros não eram completamente lisos. Os fios finos e acastanhados pareciam conter a mesma vivacidade da própria criança, não sendo escorridos por completo e sim cheio de jeitinhos ao longo do seu comprimento acabando por criar ondas bonitas de movimento.
A pele de Emily era alva, mas rosada nas bochechas salientes e bem definidas fazendo uma covinha amorosa quando a menina se ria com vontade. As sobrancelhas acastanhadas como à cor do cabelo fletiam constantemente em concentração cada vez que encaixava uma nova peça no quebra-cabeças, e após fazê-lo com êxito, as tais covinhas surgiam bem marcadas nas maças do rosto denunciando um sorriso satisfeito impossível de conter.
– E a Keep “U” precisa de mim. – expliquei depois de alguns segundos de silêncio. – Tem ideia das reuniões que eu tive de desmarcar por causa deste .. – ia dizer “disparate”, mas assim que voltei os olhos para Emma, que desviara os olhos para mim automaticamente, eu corrigi. – … desta viagem de última hora?
Henry apenas deu de ombros e se sentou no chão ao lado de Emily pronto para ajudar a criança na tarefa que ela parecia não querer largar nem por um segundo, ainda mais na fase final em que já tinha quase toda a cabeça de Elsa montada.
– Papà, guarda! * – Emily clamou entusiasmada, tirando pela primeira vez os olhos do quebra-cabeças de Frozen, e procurando pela atenção do pai que estava perto da janela tomando um drink de forma ausente. – Elsa! Ela não é a mais bella das pincesas? – perguntou com um sorriso de orelha a orelha.
Gior rasgou os lábios num sorriso embevecido. Toda a distância e nebulosidade que há meros instantes cobriam o seu olhar sumiram de forma instantânea. Pousou o drink com gelo no mini bar a um canto da sala e aproximou-se da filha. Sentou-se no sofá, inclinando as costas para que ficasse mais perto do corpo de Emily, e observou por uns segundos o quebra-cabeça quase completo.
– É molto bella, sem dúvida! – confirmou ainda olhando para o desenho. – Mas você tá errada mio amore. – acrescentou, desviando os olhos para os da filha. – Ela non è a mais bella.
Emily pareceu quase ofendida com aquilo que o pai acabara de dizer. Olhou para o rosto sério de Gior de forma desconfiada, enrugando a testa pequena, e depois como se estivesse pronta para ralhar com o próprio pai colocou as mãos na cintura pronta para argumentar.
– Elsa é a mais bella das pincesas sì! – reafirmou convicta.
– Non, não è não. – insistiu.
– Gior … – sussurrei, postando a minha mão no seu ombro como num aviso silencioso. A menina parecia agora segurar as lágrimas. Onde Gior tinha a cabeça?
– Elsa é a mais bella. – Emily murmurou, fazendo força para suster o olhar penetrante do pai.
– Elsa é muito bonita, Emily. – Gior disse calmamente deixando a menina na expectativa. – Ma a principessa mais bella de todas tem outro nome. – ele sorriu abertamente e num só impulso pegou na menina e sentou-a no seu colo. – Vou dar uma pista a você principessa mia! – segredou no ouvido da menina fazendo-a rir com cócegas.
– Papà! – ela exclamou rindo com as suas covinhas características. E em um minuto as lágrimas guardadas nos seus globos oculares verteram para fora, mas em vez de serem lágrimas de tristeza como seria o caso se tivessem escorrido no minuto anterior, estas eram quentes e alegres, lágrimas de cócegas e de riso. Lágrimas reflectoras de amor. – Papà!
Giorgio estalou um beijo ruidoso na bochecha de Emily e deixou a menina se recompor.
– Qual a pincesa mais bella de todas? – perguntou a menina sentada numa das pernas do pai.
– Ela parece una boneca pintada a mano de tão delicata que é. – respondeu Gior, desenhando linhas imaginárias com a ponta do indicador sobre os contornos do rosto da própria filha. – Sua bellezza não cabe na palavra bella. E sua dolcezza só é mais dolce perché è incredibilmente obstinada.
A menina ria sem entender direito as palavras do pai ou a quem ele se referia com aquela descrição. Ela franzia o nariz pequeno e enxotava o dedo indicador do pai cada vez que ele o passava pelas suas narinas fazendo-lhe comichão.
– Como se chama a pincesa? – perguntou ansiosa.
– E ainda tem o nome mais bello de todos. – Emily ficou impaciente e agarrou a camisa às listras do pai. – E o temperamento mais distinto também! – comentou rindo. – Você é a principessa mais bonita de todas, amore mio! – confessou finalmente.
– Bobinho! – Emily exclamou alto balançando a cabeça e fazendo força para voltar ao chão para o seu quebra-cabeças. – Elsa é a mais linda! – reforçou ao se sentar no chão de novo. Retomou a atenção para a imagem de Elsa e continuou a tarefa de montar o desenho sem ligar mais às contrariedades que o pai havia colocado.
– Vocês realmente poderiam ficar até ao final da semana. – Gior comentou, se levantando e tornando a se dirigir ao mini bar. – São solo mais dois dias. – completou me olhando por cima do copo de bebida que levava aos lábios.
Emma não ousou responder, limitando-se a encarar a tela do enorme televisor da sala. Sabia que por sua vontade não regressaríamos tão cedo a Nova Iorque, principalmente por saber que naquele preciso momento uma equipe de televisão estava invadindo, com o meu devido consentimento, a nossa casa, para preparar tudo para a entrevista do dia seguinte.
– Eu preciso estar em Nova Iorque amanhã sem falta. – respondi a ele. – Vou dar uma entrevista. – baixei o olhar para Henry que continuava imerso no quebra-cabeças junto com Emily.
Gior me fitou surpreso, mas depressa se refez.
– Amanhã sai o resultado do teste. – pronunciou simplesmente. Engoliu o resto do líquido do copo e voltou-me as costas para se servir de mais um drink.
Fiquei encarando as suas costas pelo tempo que me pareceu uma eternidade, afogada na culpa por não estar presente como havia sido minha intenção para prestar-lhe apoio. Ele ia finalmente saber se era mesmo o pai de Emily e eu estaria do outro lado do país, a quilómetros de distância, dando uma maldita entrevista para uma cadeia de televisão com o objetivo de ir em frente com um plano sórdido e asqueroso.
– Espero che tutto va bene com a sua entrevista. – ele disse, não com ressentimento, apenas com aquele mesmo distanciamento de minutos antes. Deu um novo gole na bebida e virou-se para a janela sem dizer mais nada.
– Il pranzo è servito! * — Giuseppina avisou vinda da sala de jantar.
Giorgio já estava no terceiro drink e ainda nem tínhamos almoçado. Cruzei o olhar com o de uma Giuseppina que espreitava pela porta com uma expressão incrédula no rosto.
– Giorgio ragazzo! – bradou, colocando as duas mãos na cintura num gesto muito parecido com o de Emily momentos atrás, o que me fez pensar que a garotinha devia ter pego aquele gesto inconscientemente da convivência com a leal senhora. – Penso che sia abbastanza. * – recriminou com um olhar severo.
Gior desviou o olhar do copo de bebida que tinha nas mãos para à filha que agora tinha sua atenção captada pela forma como Giuseppina interviera.
A menina olhou da zangada senhora para o pai, em estado de alerta.
– Oh oh. – Emily soltou cantarolando. – Papà vai ficar de castigo. – comentou num misto de divertimento e inocência.
Depois, sem que ninguém dissesse nada, ela se levantou do chão e correu para o pai, se agarrando a uma das suas pernas.
– Xisupia não zanga com papai. – pediu com os olhinhos amendoandos enquanto encarava a empregada.
Giuseppina baixou os olhos para Emily e esboçou um doce sorriso.
– Emily. – pronunciou vagarosamente. – Io non – colocou uma mão no próprio peito, se referindo a si própria. – zango com papà. Sì? – desenvolveu com dificuldade de um jeito totalmente enrolado.
Penso que Giuseppina apesar de já estar nos Estados Unidos há alguns anos, segundo o que Gior me dissera, não conseguia de forma alguma aprender a língua, mas isso nunca fora um grande problema na hora de se comunicar com Emily.
– Sì. – a menina respondeu sorrindo de volta. Depois levantou a cabeça para poder olhar para Gior e seu sorriso alastrou quase até às covinhas de tão largo que se estendeu. – Papà salvei você!
Vi Gior segurar a emoção nas linhas do seu rosto contraído e rapidamente pousar o copo na mesa ao lado. Se baixou e pegou na menina ao colo num rasgo de segundo arrancando um gritinho dela.
– Quem falou que são sempre os príncipes a salvar as principesse? – bramiu girando a menina no ar, o que a fez gargalhar alto. – Tu sempre mi salva, mia principessa!
A menina continuou rindo alto, pedindo entre risadas para que o pai a colocasse no topo da torre. A torre, eu entendi segundos depois, era o própio Giorgio, que acabava de a sentar sobre os seus ombros dando-lhe acesso à vista mais privilegiada da sala já que ficara acima de todos nós.
Toda a cena fez o meu coração comprimir. Desde a menina correndo em defesa do pai até ao olhar penoso e angustiado que Gior lançou a Giuseppina ao mesmo tempo que parecia se tentar desculpar por aquele momento singelo de fraqueza.
– Mangiamo nonna. * – ele pronunciou com um sorriso de canto ao chegar junto da senhora. Postou uma mão nas costas largas da mulher de cabelos grisalhos e conduziu-a também para a mesa de jantar. – Pranza con noi, per favore. * – pediu gentilmente.
Giuseppina acenou afirmativamente com a cabeça e sorriu, deixando a doçura e compreensão tomar conta do seu olhar novamente.
Apesar de tudo meu coração afrouxou uns milímetros da culpa que estava sentindo por deixar Gior sozinho. Ele tinha alguém que olhasse por ele melhor do que eu era capaz naquele momento.
Seguindo Emma, me dirigi também para a mesa para aquele que seria o último almoço entre nós em Seattle.
*** *** ***
As despedidas não foram calorosas. Foram rápidas e suficientemente eficazes para seguir com o que tinha de ser. Beijei Giorgio no rosto, apesar dele não me ter beijado de volta. Seu abraço fora frouxo e complexado, algo que nunca combinara com um abraço entre a gente. Seu sorriso se assemelhou àquele que encontrei quando ele reaparecera aquele dia depois de seis anos no meu escritório. E seu olhar quebradiço como se aquela fosse uma despedida, desta vez não por seis anos, mas para todo o sempre. Claro que não era de nada disso que se tratava, mas foi uma despedida em que pesaram todos os presságios de má sorte.
Desejava com todo o meu coração que Giorgio pudesse ser feliz. E tendo quase a certeza que Emily era sua filha, meu coração pareceu se acalmar, e me impulsionar a deixar os meus próximos passos serem comandados pela cabeça. Era imprescindível frieza.
Chegámos por volta das oito horas da noite. Escusado será dizer que enquanto Henry achava tudo absolutamente “irado” assim que entrou na nossa casa e viu praticamente um estúdio de televisão montado, já Emma não expressara nenhum reação, limitando-se a subir em silêncio para o quarto.
– Eu também vou aparecer na televisão? – Henry perguntou olhando com curiosidade para as câmaras dispostas pela sala grande que tínhamos no piso inferior.
– Não toque em nada, querido. – avisei, tentando prevenir algum acidente provocado pela excitação dele com todos aqueles objetos dispostos pela divisão. – E não, você não vai aparecer.
– Ele não vem aqui, vem? – perguntou repentinamente com o semblante preocupado.
– Quem?
– O meu … – hesitou, incomodado. – … o Neal.
Mexi-me meio desconfortável no lugar, mas acabei abanando a cabeça em sinal de negação.
– Pra que vai servir essa entrevista? – questionou. E se para Emma eu podia deixar que os meus ciúmes e ressentimento me toldassem as respostas, para Henry a situação era diferente. Ele sim era o verdadeiro inocente dessa história.
– Vai servir pra ficar tudo bem com a gente. – retorqui com brevidade, não querendo aprofundar muito mais aquele assunto.
– Então porque a mamãe não parece feliz com isso tudo? – arremessou, me deixando sem saída.
Não podia continuar achando que Henry era uma criancinha pequena que não entendia as coisas. Podia, devido à tenra idade, não ter ainda capacidade para compreender certas situações mais complicadas, mas se havia coisa em que ele era muito perspicaz, era decididamente na leitura das pessoas. Ele sentia que eu e Emma estávamos com problemas, e não dava mais como negar.
– Henry. – limpei a garganta e me sentei com cuidado na ponta do sofá, acenando-lhe para que fizesse o mesmo. – Eu e sua mãe estamos passando por uma fase complicada.
– Mas vai passar né? – se apressou a questionar.
– Eu … – hesitei, prendendo o lábio entre os dentes. – … espero que sim. É por isso que eu quero dar essa entrevista. Quero acabar logo com todas as fofocas maldosas e explicar que eu, você e sua mãe somos uma família e que o resto não interessa.
Ele assentiu com a cabeça pensativo. Depois desviou a atenção de novo para os projectores de luzes montados nos tripés, câmaras e painés de iluminação, e perguntou:
– E é preciso isto tudo? – meu coração apertou com a pergunta. E embora ele estivesse apenas se referindo a todo aquele equipamento, não pude deixar de pensar que o “isto tudo” era muito mais extenso do que uma mera entrevista para a televisão.
Foi o suficiente para que a lembrança do contrato que fizera com Gold me fizesse estremecer até à última vértebra da espinha.
Cláusula Terceira
No seguimento do presente contrato, a primeira contraente concorda em colaborar em regime de sigilo e confidencialidade com a segunda contraente no Acordo N.C. assinado na data constante à assinatura do presente contrato que vigorará até que o êxito daquele Acordo seja atingido e de natureza irrefutável. Mais se acrescenta que no sentido da boa delegação do Acordo, a primeira contraente fica obrigada:
A não informar a ninguém acerca do conteúdo existente no Acordo N.C.Nem, de fato, da existência deste Acordo, apensado ao presente contrato.Cláusula Quarta
Não obstante a autorização para exploração da imagem pública da primeira contraente, fica ainda estabelecida autorização à segunda contraente para solicitar à primeira contraente, quando aquela assim entender, cooperação com o plano confidencial acordado no Acordo N.C., referido na cláusula anterior.
Voltei a atenção para Henry que me olhava com um olhar estranho, e me forcei a sorrir.
– Eu só estou tentando proteger vocês. – disse, como se tentasse me defender de alguma acusação que Henry tivesse feito.
– Eu sei me proteger, mãe. – respondeu, abrindo um sorriso todo cheio de si. – Sou o homem da casa! Certo?
Acabei rindo, deixando de lado tudo que estava implicado no Acordo N.C. – guardado sob combinação secreta no cofre da Keep “U” – e sorri de volta para ele.
– Você é mesmo o homem da casa, meu amor. – contemplei por momentos o seu rosto, antes mais arredondado, adquirindo com a mudança da idade os novos contornos da puberdade. – Qualquer dia não vai caber mais no meu colo. – comentei ainda sorrindo, com uma ponta de nostalgia.
– Eu já não caibo mais no seu colo. – contestou, se jogando bruscamente para cima de mim para comprovar aquilo que dissera.
– Henry! Você vai me esmagar assim! – exclamei chegando as costas contra o sofá já que Henry estava fazendo tanto peso em cima de mim.
– Eu disse! – respondeu, tirando o peso de cima de mim, satisfeito por ter mostrado o seu ponto de vista de forma incontestável.
– Não era preciso ter levado tão à letra, querido. – comentei com um aceno de cabeça.
– Ah mãe! Não fica triste. – me abraçou de repente. – Eu vou querer sempre o seu colo, tá? – virou o rosto para mim, ainda com os braços à minha volta.
Henry tinha a capacidade de me enternecer tão simplesmente pela sua autenticidade e forma espontânea de ser. Acho que era uma coisa genética, porque Emma também tinha o mesmo dom.
– Tá bom, homenzinho da casa. – respondi em tom gracioso. – Meu colo estará sempre esperando por você.
– Vou jogar videogame antes do jantar, kay? – perguntou já se levantando com pressa.
– Okay. – sorri, vendo-o correr pelas escadas, sem sequer o repreender por isso como era meu costume.
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