Notas iniciais
Boa noite gente linda, maravilhosa e iluminada! Quanta emoção pela recomendação da Viane nessa fic! Menina, me deixou sem palavras (mentira, eu sempre tenho um testamento delas porque sou enrolada mesmo), então antes demais, muito obrigada por ir logo direto para a recomendação! É verdade, eu bem que tento me esconder aqui nos tipos de português, mas você me pegou xD De qualquer forma, fico feliz que isso não seja um entrave à compreensão da história. =) Fico feliz que essa fic, essa Regina, esse sentimento, essa emoção, tudo isso que eu sinto esteja sendo passado para fora, chegando a vcs desse jeito maravilhoso que me ilumina a mente em busca de novas peripécias e contornos nesse enredo pelo qual eu me apaixono mais a cada novo capítulo. Obrigada, linda recomendação. =D E eu preciso mesmo agradecer, não só as palavras da Viane mas a todos que deixam opiniões, eu não sei se já falei isso aqui, mas é impressionante o quanto as vossas reações ou às vezes um comentário aparentemente sem muito conteúdo me ajuda a ter ideias e encaminha esta história até para fora dos ângulos pré-estabelecidos por mim. Por isso, eu digo-vos, não menosprezem o poder das vossas opiniões, porque cada uma da sua maneira é interessante e acrescenta sempre. Não se calem nunca. =P ahahahah, ok, estou um saco hj. E pronto, vamos de uma vez com isso. Boa leitura!

O cansaço e a dor devem ter levado a melhor de mim, porque a luz do amanhecer batendo nos meus olhos me fez perceber que eu devo ter caído num sono profundo em algum ponto da madrugada. Vi que continuava despida, e de repente o frio se fez sentir por todo o meu corpo e eu tive de me enfiar por baixo dos lençóis. Felizmente a minha cabeça me parecia ter dado uma trégua, porque a dor era menor, embora ainda continuasse lá.

O celular de Emma continuava na minha mão, a única parte do meu corpo que permanecera quente, queimando. Isso me fez ter a certeza que ela não havia voltado ao nosso quarto. Olhei para o celular para ver as horas, mas antes que eu pudesse assimilar essa informação, uma nova mensagem estava anunciada no ecrã, me fazendo estremecer.

Seria certo invadir mais uma vez a privacidade de Emma daquela maneira? Nunca fui uma pessoa com esse tipo de comportamento, mas agora …

Foda-se! Ela estava-me traindo! E de acordo com os meus princípios isso transcende qualquer boa vontade pelo respeito à privacidade da sua própria mulher. Ou não?

Suspirei raivosa, igual a um animal selvagem encarcerado na própria jaula. Premi o botão para abrir a mensagem, e tal como suspeitava, era mais um recado do Outro.

Me encontra hoje às 19h pra matar a saudade?

Meu Deus! Mas há quanto tempo durariam aqueles encontros bem debaixo do meu nariz? A dor que eu sentira na noite anterior e em todos aqueles dias que antecederam instantaneamente virou raiva, um ódio descomunal, uma vontade intransponível de bater em Emma até ela cair em si. Mas pior… aquilo me fazia ter pela primeira vez vontade de perder todo o meu autocontrolo e matar aquele filho da puta do jeito mais doloroso e lento possível.

Tentei me acalmar, afinal, era uma pessoa controlada, civilizada, com um certo nível. Não me rebaixaria daquela forma, mas aquilo não ficaria assim. Custava-me, não vou negar, ver que a mulher com quem eu partilhava tudo, as minhas coisas, a minha história, vulnerabilidades e receios, o meu amor e toda a minha vida, fosse capaz de me trair daquela maneira, mas …

Mas se há coisa que a vida me ensinou foi que o hoje é outro dia. Dia de agir.

Encarei o celular de novo, sem lágrimas, sem tremores, sem fraquezas. Apenas raiva. Controlada, calculada, mas raiva, ódio. Meus dedos responderam a todos esses sentimentos e emoções e escreveram uma resposta àquela pergunta daquele imbecil do Neal.

Mas como Emma podia ter caído nos braços daquele cafajeste mais uma vez? Depois de tudo que ele lhe fez no passado? Como? Emma era tão … oh Deus, ela é tão maravilhosa. Não, lágrimas, não. Reli a mensagem que acabara de escrever no celular dela:

Motel 6 Brooklyn, quarto 2

Enviei a mensagem com a confirmação do encontro naquele motel de quinta categoria, e apaguei todas as mensagens dele para que Emma não desconfiasse de nada. Inspirei fundo, me abastecendo de uma nova força que eu por momentos pensara não existir mais em mim.

Me levantei, me enfiei no banheiro sem mais nenhum segundo pensamento, apenas aquele primeiro, o de tirar essa história a limpo. Se aquele cafajeste pensava que podia tornar a brincar com Emma, ele estava muito enganado. Porque agora, ela não estava mais sozinha.

Liguei o chuveiro. Lavei toda a dor passada com a água que escorreu imediatamente pelo meu corpo. Fui rápida, não deixando que a água quente adormecesse a minha decisão e a minha força, e saí, me enxugando na toalha branca pendurada ao lado.

Vesti o meu mais implacável e glamouroso fato de executiva. Me olhei no espelho, me encarando com seriedade. Fiz um degrade em tons cinzentos com as minhas melhores e mais caras sombras, e delineei ambos os olhos com um perfeito e assertivo risco preto. Coloquei um batom vermelho, sangue. Saí do banheiro, e caminhei até ao espelho de corpo inteiro do meu closet, me admirando como há longas semanas eu não o fazia. Eu estava vestida para matar. Sorri, peguei uma bolsa a condizer com o figurino, onde coloquei os meus pertences pessoais, e saí do quarto.

– Mãe? – A voz sonolenta de Henry me parou abruptamente no corredor fazendo todo o meu sangue gelar.

– Oi querido … — Encarei-o, forçando um sorriso tranquilo. – Ainda é cedo … — Olhei para o relógio no meu pulso. – Você hoje não tem aulas só depois do almoço?

– Sim. – Ele me respondeu sério de um jeito vago, ainda vestido com o seu pijama com motivos de aviador. Vi ele olhar para o lado, e senti meus nervos aflorando assim que constatei para onde o seu olhar estava direcionado: o quarto de hóspedes. – Mamãe não dormiu com você esta noite. – Não era uma pergunta, era uma afirmação. Meu coração apertou, mas eu não deixei de sorrir.

– Ah sim. – Fingi desentendimento, me aproximando dele com calma. – É que essa noite eu passei um pouquinho mal e não estava deixando a sua mãe descansar, então eu pedi pra ela ir pro quarto de hóspedes pra ela conseguir dormir.

Ele me lançou um olhar desconfiado, tornando logo depois a olhar para a porta semiaberta do quarto de hóspedes ao lado. Desviei o olhar também para o quarto, e pude perceber pelo que dava para ver do cómodo que não havia sinal de movimentação, e por consequência, da presença de Emma lá dentro. Será que ela tinha ido ter com ele? Não, não podia ser, se ela nem o celular tinha voltado para pegar comigo.

– É por causa dele não é? – Henry me tirou dos meus pensamentos com a pergunta repentina. Fiquei em silêncio, apanhada desprevenida pela sua frontalidade, e sem saber que responder. – Por causa do meu … — Ele baixou o olhar brevemente para as próprias mãos e depois tornou a me encarar com o prenúncio das lágrimas nos seus olhos castanhos. — … do meu pai?

– Meu amor. – Eu abracei-o, apertando-o contra mim, sem conseguir inventar mais uma desculpa para amenizar a sua dor. Meu menino não merecia aquilo, nós não merecíamos aquilo, mas a adulta ali era eu, a mãe ali era eu … pelo menos a única, aparentemente, que continuava preocupada com o bem-estar de Henry. – Vai ficar tudo bem. – Eu falei, buscando uma certeza que eu não tinha.

– Eu sei que .. – A frase dele foi interrompida por um soluço que ele soltou junto com a sufocação do próprio choro que se anunciava agora e que me fez ter a certeza que ele devia estar sofrendo com aquilo aqueles últimos dias em silêncio. – Eu sei que eu disse que não queria nada com ele … mãe … mas … — Ele falava a meio do choro, numa aflição que me fez instantaneamente baixar, como um reflexo, colocar os joelhos no chão e o trazer mais ainda para perto de mim. – … mas se a culpa disso for …

– Não é! Oh meu amor, meu filho querido … — O segurei pelo rosto, fazendo com que ele me encarasse com atenção. O desespero tomava conta de mim ao perceber que a minha própria dor não me permitira ver o verdadeiro estado de Henry, e isso definitivamente eu não poderia permitir que continuasse acontecendo. – Henry, escuta com atenção o que eu vou dizer a você … — Limpei com as minhas mãos o seu rosto das lágrimas que caíam em cascata e beijei-lhe uma das faces ruborizada e húmida, apenas para o tornar a encarar com todo o amor e segurança que eu precisava-lhe transmitir. – Você não tem culpa … você entende isso meu amor? A sua mãe e eu é que não soubemos proteger você, mas nunca … — Eu desci minhas mãos do seu rosto para os seus ombros, os apertando. – … nunca nesta vida se culpe por isso. Nós amamos muito, muito você.

– Vocês vão se separar? – Ele perguntou, seu nariz avermelhado do choro, e o medo estampado no seu rosto moldado em uma ingenuidade que me fazia desejar por momentos que ele não fosse esse menino tão precioso e sensível como ele era. – Eu não quero ir viver com ele … — Ele murmurou, quase choramingando.

– Você não vai! – Eu segurei nas mãos dele com firmeza, numa urgência tão grande de lhe provar que as coisas não seriam assim, e talvez inconscientemente, de provar a mim própria também. – Eu não vou deixar que isso aconteça.

– Promete? – Ele pediu, seus olhinhos trémulos, inseguros, receosos, e inundados de uma fragilidade que me remeteram de forma instantânea ao modo como Emma me fez fazer também uma promessa na noite anterior.

– Prometo querido. – Disse com uma segurança capaz de me fortalecer todas as minhas estruturas recém abaladas. – Eu prometo … Ninguém vai afastar você de mim.

Ele não disse mais nada, em vez disso, se jogou nos meus braços com tal impulso que eu tive de me forçar para a frente para não cair, e me abraçou com uma força tão grande capaz de fazer sentir plenamente como aquele rapazinho, meu filho, era de igual forma, tanto uma parte de mim como de Emma.

– Se acalma agora. – Eu pedi, esfregando as suas costas com uma das mãos, enquanto amparava a sua nuca quase como se de repente ele não passasse de um bebezinho. O bebezinho que eu não tive, infelizmente, a alegria de cuidar desde o nascimento junto com Emma. Mas agora eu estava aqui, agora seria diferente. – Vamos … shiuu, tudo vai ficar bem. – Sussurrei sem deixar de o apertar, permitindo que ele derramasse todas as lágrimas e medos que houvessem para derramar nos meus ombros. – Meu rapazinho tão corajoso e forte. – Senti ele afrouxando o abraço, e o deixei se afastar aos poucos. Ele me olhou com os olhos avermelhados combinando com o nariz, mas eu sorri ainda assim, deslizando ambas as mãos para os seus braços, tentando passar um conforto que nem sei como eu consegui transpor para fora se nem mesmo eu o estava sentindo. – Você é minha coisa boa sabia? – Falei, e aquela era a mais pura das verdades, porque sem dúvida alguma Henry era a coisa mais preciosa e boa que talvez ainda fosse restar da minha união com Emma, caso ela terminasse em breve.

Eu me preparei para me levantar, para poder me endireitar, mas antes que o conseguisse fazer por completo Henry me agarrou em uma das mãos.

– E você é a nossa coisa boa … — Ele disse, esboçando um pequeno sorriso. – Mãe … — Ele apertou a minha mão com força.

– O que é querido?

– Não deixa ele levar a mamãe pra longe de você. – Ele pediu com o semblante sério, seus olhos semicerrados e atentos, em simultâneo e contrariamente, com uma preocupação fora do normal, mas com uma maturidade e força que me fez sorrir com o almejar de uma vitória que eu não sabia mais que ainda continuava desejando alcançar.

– Deixa comigo. – Eu pisquei o olho para ele em forma de brincadeira, e o seu sorriso alargou como num rasgo inalcançável de tempo, trazendo de volta o garoto alegre e feliz com o qual eu fui me habituando a lidar à medida que os anos passavam por ele marcando o seu crescimento. – Agora que tal você voltar pra cama mais um pouquinho? – Sugeri.

Ele assentiu, soltando a minha mão.

– Edward te leva na escola … ou … — Fiz uma revisão mental da minha agenda para me certificar que teria tempo. – … eu posso te vir buscar pra almoçar e depois te levo pra escola? Que me diz?

– Não é preciso mãe. – Ele respondeu sem hesitação. – Eu hoje vou dar uma de mauricinho e vou de motorista, pode deixar. – Ele provocou, mas numa atitude de brincadeira, troçando da própria posição que aquilo poderia representar, mas que hoje, ele parecia não se importar mais. – Posso dizer a Edward pra passar na casa de Michael pra o pegar? Hoje a gente vai pisar no recalque daqueles sem noção da escola.

– Henry! – Eu repreendi, mas simplesmente cai na risada sem conseguir continuar com qualquer intenção de advertência. Henry era tal e qual Emma: encantadoramente genuíno. – Pode sim meu amor … mas não se esqueça nunca que o …

– O que vem de baixo não me atinge. – Ele completou o que eu ia falar, me calando ao mesmo tempo que me enchia de orgulho pelo menino que eu ajudei a criar durante esses anos e que me fazia ter absoluta certeza de que ele era meu filho.

– Isso. – Assenti com um sorriso, fazendo depois um aceno com a cabeça indicando que queria um beijo de até logo. Ele rodeou o meu pescoço com os braços, estalando um beijo gostoso numa das minhas faces, e me segredou um rápido “eu te amo” no ouvido, se desgrudando rapidamente de mim, e se enfiando no quarto, fechando a porta logo atrás dele.

Fiquei encarando por alguns segundos a porta que ele acabara de fechar; o nome dele na plaquinha que ele fizera questão de afixar na porta no ano passado, e aquilo ao mesmo tempo que me fazia sorrir feito uma boba, também me causava um medo terrível que um dia, num futuro não muito longínquo, essa mesma placa com o seu nome pudesse mudar de porta, e principalmente de casa.

– Não é porque seu nome agora vai ficar pregado nessa porta que eu vou ficar cheio de mimimis pra entrar no quarto de um pivete metido a importante. – Emma zoava, de braços cruzados encostada à parede naquele mesmo corredor, enquanto eu me assegurava junto com Henry que a plaquinha que ele havia pedido para colocar na porta do seu quarto não tinha ficado torta. – Ainda mais se o pivete é o meu próprio filho!

– Para com isso Emma! – Eu exclamei rindo, começando a ficar com dó do coitado do nosso filho com a zoação de Emma sobre a teimosia dele em colocar a placa. – Deixa ele!

– Mas afinal que diferença faz se o seu nome está aí ou não garoto? – Ela perguntou a Henry, deixando por momentos de fazer troça da situação.

Ele não respondeu logo, apenas ficou encarando a placa com o seu nome com um sorriso distante no rosto. Emma trocou um olhar cúmplice comigo, na expectativa do que ele diria. Eu apenas sorri e abanei a cabeça pronta para desvalorizar o assunto, quando por fim Henry tornou a falar, sem deixar de contemplar a placa:

– A diferença não é a placa estar aqui ou não. – Ele fez uma pausa, chegando mais perto da porta, esticando o braço e endireitando um milímetro a placa de uma forma muito compenetrada, e só depois ele se permitiu continuar a resposta. – É eu poder escolher se ela fica ou não. – E ele se virou finalmente para nos olhar, encolhendo os ombros simplesmente como se aquilo que ele dissera não fosse nada demais. Nenhuma de nós foi capaz de responder, então ele franziu a testa e acrescentou espontaneamente. – Afinal este é o meu quarto ou não?

– Claro que é querido. – Me vi respondendo com um sorriso meigo. – É o seu quarto. – Olhei num curto espaço de tempo para Emma, acrescentando quase como em um sussurro, incapaz de saber se ela escutaria. – É a sua casa.

Emma me fixou com aquele olhar tão específico, tão delicado mas ao mesmo tempo forte, intenso, feroz, e antes que eu me visse mergulhando completamente naquele olhar como era costume, ela abriu um sorrisão tão reluzente que me fez voltar a me apaixonar por ela de forma imediata.

– Ah qual é? – A voz de Henry nos trouxe de volta, nos fazendo quebrar o contato visual. – Eu sei qual é a da mamãe! Aposto que isso tudo é vontade de ter o nome dela também na porta do quarto de vocês! – Ele caiu na gargalhada, zoando Emma da mesma forma que ela o havia zoado anteriormente.

Eu me juntei a Henry e comecei rindo muito alto, talvez de forma exagerada para a situação, mas sinceramente naquele momento, junto deles, todas as gargalhadas eram mais do que justificadas.

– Mas você não tem porquê se preocupar amor … — Eu comecei falando para Emma que exibia agora um bico adorável, fingindo estar chateada, ao mesmo tempo que eu e ela tentávamos segurar o riso. – … Porque seu nome está já marcado aqui … — Coloquei a mão sobre o lado esquerdo do meu peito.

– Do tipo com um daqueles ferros quentes pré-históricos e ultrapassados com que marcavam o gado? – Ela ironizou sem deixar de sorrir imensamente.

– Que horror! – Eu exclamei ofendida, mas sem deixar de rir. – Desse jeito até parece que está me chamando de …

– De amor da minha vida? – Ela me interrompeu, esticando o braço e me puxando para ela pela cintura. – Hmm? – Murmurou com a sua boca a centímetros da minha.

– Ah esqueçam! – Escutei a voz de Henry resmungando. – Com vocês nenhuma placa faria a menor diferença. Eu vou para o meu quarto. – Virei a cabeça para olhar para ele, mas sem abandonar os braços de Emma, e vi ele apontando para o quarto ao lado do seu, o nosso, e fazendo uma careta e logo entrando rapidamente para o próprio quarto e batendo com a porta na nossa cara, deixando a placa com o seu nome bem visível, o que me fez sorrir feito uma boba, enquanto sentia os primeiros beijos de Emma me arrepiando naquele sítio que ela tão bem conhecia do meu pescoço.

– Hey! – Me assustei com aquela voz.

Desviei os olhos da placa na porta do quarto de Henry para ver Emma de cabelos molhados, vestida com um roupão branco, me encarando.

– Hey. – Falei, pateticamente, de volta.

– Você está melhor? – Ela me perguntou, me olhando com uma seriedade que me assustava.

Como ela podia se comportar como se nada estivesse acontecendo? Como é que ela podia me mentir daquela maneira, me enganar, me trair da forma mais descarada e depois ainda vir me perguntar se …

– Amor. – Ela me chamou. Será que eu tinha escutado direito? “Amor”? – Eu não devia ter deixado você ontem sozinha. – Ela continuou, se aproximando de mim. Senti todo o meu corpo ficar preso no lugar e em cada músculo do meu organismo perplexo. – Me perdoa?

Tenho certeza que qualquer sinal de cor do meu rosto devia ter sumido porque eu me sentia pronta a desfalecer, quando senti os braços dela me sustentando me impedindo de cair.

– O que você tem Regina? Fala comigo por favor. – Ela disse com ar preocupado.

Ganhei coragem para olhar nos seus olhos que sempre me fascinaram, e que agora, me causavam um misto de medo e tristeza pelo que eu poderia encontrar neles. Mas eu fiquei surpresa, e com certeza seria ilusão, mas uma sensação enorme de alívio me golpeou a cabeça quando meus olhos pousaram nos dela. Não havia mentira, fingimento, traição. Havia apenas aquele encantamento genuíno ornamentando as suas íris verdes. E um espelho, refletindo o meu medo, a minha preocupação e a minha dor.

– Não é nada. – Eu consegui achar a minha voz para responder, embora eu tenha plena consciência que aquela resposta não lhe agradaria de forma alguma. – Eu ... Emma, eu preciso ir. – Tentei me soltar dos seus braços para ir embora, mas ela me segurou uma das mãos.

– Onde você vai assim? – Eu não entendi logo a pergunta dela, mas ao ver seu olhar me percorrer de cima a baixo, eu me lembrei do figurino selecionado exclusivamente com um propósito para o dia, e fiquei imediatamente nauseada. – Tem algum almoço super importante de negócios hoje? Não que eu esteja reclamando … — Ela encostou a boca à minha orelha esquerda, me fazendo arrepiar, e simultaneamente, me fazer sentir culpada por isso. Pela minha fraqueza por ela. – … eu adoro quando você se veste desse jeito, toda autoritária, me dá vontade de …

– Eu estou atrasada! – Eu praticamente fugi dela, puxando a minha mão de volta e saindo disparada pelas escadas para baixo sem lhe dar qualquer hipótese de resposta.

Mas que raios … suspirei demoradamente uma vez longe dela. Corri para a garagem para pegar o carro com a minha cabeça ainda com mais dúvidas do que antes. Será que ela estava dando em cima de mim daquela forma para disfarçar? Abanei a cabeça. Não podia ser … desejo não se finge, ou se finge? E se ela realmente andava se encontrando com o Outro, porque ela me continuava desejando? Mas espera … talvez ela estivesse dividida. Ou talvez …

Biii Biii – Estremeci com o som da buzina do carro em que eu quase embati no cruzamento à minha frente.

– Abra os olhos madame! – O condutor do carro gritou pelo vidro com maus modos.

Ok, teria de parar um pouco. Se continuasse dessa forma ia acabar por me matar antes de conseguir responder a metade das minhas próprias perguntas. Decidi me concentrar no trabalho, era isso. Olhei para as horas no painel do carro verificando que eram exatamente sete horas. Sabia que tinha uma reunião marcada para as oito, Katia já me tinha enviado uma mensagem com a confirmação, então não poderia me atrasar. Isso era o suficiente para passar na cafetaria, tomar um café bem quente e forte e preparar alguns apontamentos finais antes do cliente chegar.

Assim que cheguei, depois de pegar um café e levá-lo comigo, me dirigi diretamente para a minha sala. Katia hoje chegaria mais tarde, então não a encontrei na sua mesa ao entrar na minha sala, em vez disso, encontrei em cima da minha mesa um enorme embrulho prateado com um laço bonito em tom azulado. Aproximei-me sem saber muito bem a quê se podia dever aquele presente. Talvez fosse alguma criação de algum designer de moda que eu tenha ajudado a divulgar o trabalho, não seria a primeira vez que isso aconteceria.

Havia um pequeno cartão preso no laço, e com cuidado, retirei-o para poder ler a dedicatória:

Um presente antecipado de casamento do seu cliente das 8:00.

Com uma saudade tremenda no coração.

Tive de reler aquelas linhas pelo menos mais duas vezes, mas nem isso adiantou, porque continuei na mesma ignorância sobre a pessoa que poderia ter enviado aquele presente. Ótimo! Mais uma dúvida para se juntar a todas as outras do meu dia!

Estava pronta para simplesmente rasgar o cartão com a raiva, quando escuto alguém batendo na porta da minha sala, me fazendo virar. Sem que eu desse permissão, um homem de cabelos castanhos, demasiado alto, bastante magro, com a barba rarefeita e uns olhos de coloração nebulosa, entra em silêncio, esboçando um sorriso estranhamente lindo, mas carregado de uma tristeza que chegava a doer olhar para ele.

– Quem é você? – Lancei, apertando os punhos, nervosa com aquele estranho de aparência tão áspera.

Ele desceu o olhar diretamente até aos meus olhos, permanecendo no lugar, sem avançar sequer um passo, e depois de escassos segundos que pareceram horas, eu levei as mãos à boca completamente estarrecida pelo reconhecimento sobre a identidade daquele homem.

– George Ferraz. – Sua voz soou exatamente da maneira que eu me lembrava, embora tivesse adquirido uma entoação menos melodiosa e suave agora. – E tu sei … — Seus olhos pareciam agora tão mais familiares do que momentos atrás com a iminência das lágrimas tomando conta deles. – La eterna Regina del mio cuore. *

Notas finais
Tradução: * E tu sei la eterna Regina del mio cuore. - E tu és a eterna Rainha do meu coração.