Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
11 Inequação
Notas iniciais
– Hey garoto! – Ela disse sorrindo a Henry pelo vidro do carro. – Vamos depressa, entra aí. – Fez-lhe sinal para que ele se sentasse no banco de trás do meu carro, já que ela ia na frente ao meu lado.
Ele franziu o cenho confuso, mas obedeceu a ela, fechando rapidamente a porta de trás e colocando o cinto de segurança.
– O que aconteceu? – O escutei perguntar depois de acomodado atrás com a sua mochila.
– Como assim querido? – Minha vez de indagar, enquanto o olhava sorrindo pelo espelho retrovisor central do carro, tentando não demonstrar a pilha de nervos em que estava.
– Vocês duas vindo me buscar na escola? – Ele lançou fazendo uma careta de desconfiado. – Eu juro que desta vez não fiz nada! – Ele se antecipou, um pouco inquieto.
– Claro que não Henry. Nós sabemos. – Emma assegurou, antes de me olhar brevemente de forma cúmplice, e logo tornar a olhar em frente para a estrada.
– E da outra vez … — Eu comecei falando pausadamente, da forma mais controlada e calma que conseguia. — … você não teve culpa. Pelo menos não inteiramente.
– O assunto é outro filho. – Emma disse com cautela.
– O que há com vocês? – Ele perguntou sem entender, e a ansiedade que eu encontrei na sua voz estava começando a me deixar ainda mais nervosa. – Vocês estão estranhas.
– Vamos fazer assim meu amor .. – Comecei, olhando para ele pelo espelho à medida que falava com um sorriso sereno, ou que eu esperava que fosse, no rosto. – Vamos tomar aquele sorvete de flocos que você tanto gosta na Maggie Moo's e depois conversamos, ok?
– Então aconteceu mesmo alguma coisa! – Ele exclamou apreensivo, seus olhinhos inquietos me fitando pelo espelho.
Desviei por segundos o olhar do espelho para Emma, tentando buscar apoio, mas o que eu vi simplesmente me tirou qualquer esperança disso. Ela estava com o brilho de lágrimas irradiando de seus olhos, e só de olhar para ela, eu percebi que ela estava com dificuldade em manter a respiração regular. Voltei com meu olhar para Henry através do espelho, sorrindo meigamente, e de forma discreta desprendi uma das mãos do volante do carro, e apertei a mão de Emma com a minha.
– Aconteceu sim querido, é algo que eu e sua mãe precisamos contar a você, mas nada de ruim. – Falei, nunca deixando de apertar a mão dela, que me apertou a minha de volta, como quem sela um agradecimento silencioso. – Eu prometo. – Dei uma piscadinha para ele que acabou por lhe arrancar um sorriso mais tranquilo.
Não demorou muito para chegarmos na sorveteria, até porque não ficava muito longe da escola de Henry. A ansiedade de momentos antes parecia estar esquecida, porque assim que ele fez o pedido e correu para sentar na sua mesa preferida, aquela em que sempre sentávamos todos os Domingos quando íamos os três tomar sorvete, ele nunca me parecera tão feliz.
Apesar de ele levar a melhor muitas vezes e sempre acabar me fazendo comprar sorvete para ele durante a semana, nessas vezes, nunca sentávamos, até porque havia pressa, mil e uma coisas para fazer, dentre elas, os deveres de casa. Então quando isso acontecia o pedido do sorvete era sempre feito pelo carro, sem que a gente entrasse no estabelecimento. Era somente aos Domingos, com Emma, que a gente entrava ao final da tarde, às vezes mais tarde, depois do jantar, na sorvetaria, e sentávamos precisamente naquela mesa do fundo, onde ele agora estava sentado, se lambuzando de sorvete, com um sorriso satisfeito no rosto.
Deixei Emma pagando os sorvetes, enquanto olhava aquela cena do nosso menino. Aquela cena era impagável, mais uma nos entretantos, da nossa vida em família. Pensar que tudo aquilo poderia estar prestes a mudar me sufocava o peito em aflição.
– Toma o seu. – Ela me disse, me fazendo virar na sua direção para pegar o meu sorvete. – Quero ver você não deixar ele derreter. – Ela provocou, sabendo bem que eu nunca conseguia tomar todo o sorvete tão rápido como eles.
– Você está mais calma? – Perguntei a ela, buscando pela sua mão livre.
Ela assentiu com a cabeça com um pequeno sorriso nos lábios bem delineados.
– Eu não sei viver mais sem você ao meu lado Regina. – Ela falou, trazendo a mão que eu segurava até aos lábios deixando nas costas da minha mão um beijo breve.
Sorri, me segurando para não afogá-la em beijos bem ali no meio da sorveteria. Em vez disso, puxei-a mais para mim, à medida que caminhava com ela para a mesa onde Henry estava sentado.
– E eu não poderia amar mais vocês. – Confessei, olhando para o nosso filho praticamente acabando com todo e qualquer vestígio de sorvete na sua taça. Escutei a risada dela ao meu lado, provavelmente por estar olhando precisamente para o que eu olhava: Henry.
Girei discretamente nos calcanhares antes de sentar, e encarei-a em silêncio, contemplando-a por momentos.
– O que foi? – Sussurrou ainda sorrindo.
– Eu te amo tanto que chega a doer. – Declarei sinceramente, e talvez, até com um pouco de pesar.
Ela abriu a boca com intenção de falar algo, mas acabou por fechá-la após alguns segundos. Nos olhámos então apenas. Mas naquele apenas estava condensado o tudo que eu não sei até hoje como nomear. Era só um, e ainda assim, um apenas. Daqueles que são redundantes de tão significativos que se tornam. Um apenas que surge pela calada, secreto, despercebido e sem pesar, até que quando você se dá conta, ele é o apenas que fará toda a diferença na sua vida. Então, permanecemos apenas nos olhando.
– Acho melhor pedir dois canudinhos pra vocês tomarem o sorvete. – A voz de Henry fez com que aquele apenas se intervalasse, ao nos fazer olhar para os nossos sorvetes líquidos nas taças de ambas completamente derretidos.
Troquei um olhar com Emma, e acabámos por cair na risada logo depois.
– Quem precisa de canudos? – Ela atirou mostrando a língua para Henry feito uma criança, e de seguida bebendo o líquido que formara o sorvete momentos antes. – Bem mais gostoso assim!
– Emma! – Dei um empurrãozinho nela com o ombro, em jeito de reprovação. – Isso lá são modos! – Revirei os olhos, me esforçando para não rir. Por outro lado, Henry não conseguiu evitar cair na gargalhada, e para piorar ainda me roubou a minha taça e imitou a mãe bebendo todo o líquido que antes compunha o meu sorvete.
– Você tem razão mãe! – Ele concordou, com os cantos da boca todos melados de sorvete. – Bem mais gostoso assim!
– Mas agora vocês viraram duas crianças pequenas foi? – Perguntei em desaprovação, mas era inútil, já que até eu estava cedendo à vontade de rir.
– Mãe, vamos, admite que foi engraçado. – Henry me disse, com um sorriso tão largo que quase não deixava nenhum dente escondido. – Esse até pode ser nosso novo ritual pra tomar sorvete! Quem precisa de canudos? – Ele completou rindo, e ainda exagerando mais, só para me provocar igual à mãe dele, ficou passando a língua na taça para a deixar limpa de qualquer resto de sorvete.
– Grande exemplo querida. – Eu disse ao lado de Emma, mas ao mesmo tempo sem conseguir esconder o sorriso descontraído que aquele momento nos tinha proporcionado.
– Você adora. – Ela me apertou a coxa com a mão por debaixo da mesa. – Nem adianta disfarçar.
– Qual das coisas? – Ergui a sobrancelha de forma sugestiva para ela, prendendo o lábio inferior entre os dentes.
Seu sorriso se redesenhou nos contornos dos seus lábios adquirindo um tom mais malicioso, e ela retirou a mão da minha coxa apressadamente.
– Então o que me queriam contar? – Henry perguntou repentinamente nos trazendo de volta à real situação.
Senti Emma enrijecendo ao meu lado, e toda a tensão se apoderando também de mim.
– Garoto .. – Escutei-a começar, com a voz séria, totalmente diferente de minutos antes. – Tem a ver com uma pessoa que você não chegou a conhecer, mas que de algum modo é responsável por você estar aqui hoje.
A cara de Henry era comparável, figurativamente, à imagem de um ponto de interrogação, pois o menino apenas franziu o cenho para Emma com o semblante completamente confuso.
– Querido, o que a sua mãe quis dizer foi que uma pessoa do passado dela voltou. – Me meti, tentando clarificar tudo, mas tentando que isso fosse feito da forma mais natural e calma para a situação. Se é que isso era possível.
Henry continuou nos olhando sem entender, até que eu troquei um olhar conivente com Emma, e inspirando fundo, revelei de uma só vez sem aguentar prolongar aquele sufoco:
– Seu pai apareceu meu amor.
Sorri, embora aquela notícia fosse a pior que eu pudesse dar a ele. Logicamente que Henry sabia que tinha um pai, que eu não era a mãe biológica dele, que embora meu coração o reclamasse como filho, não havia qualquer laço sanguíneo ou genético entre nós. Até porque ele tinha recordações por mais remotas que fossem de me conhecer … do antes na vida dele também, em que eu não existia. E do como, quando e quanto, ele se apaixonou por mim do mesmo modo que eu me apaixonei por ele à medida que aprendia mais dele, num tempo passado em que ele me ensinou a maior verdade sobre mim me revelando um lado meu que eu nunca o conheceria se não fosse ele e a consequente experiência destinada a mim por causa disso: a maternidade.
– Porque você não fica? – Um Henry com uma vozinha bem mais aguda e sorridente me perguntava, levemente ensonado, com a cabeça no meu colo, enquanto eu passava uma mão pelos seus cabelos.
– Ficar? – Perguntei sem entender. – O que você quer dizer querido? – Olhava para a carinha dele, suas pálpebras cada vez mais pesadas, o fazendo quase fechar completamente os olhos, provavelmente também incentivado pelo carinho que eu fazia nele.
– Sim … — Ele murmurou com a voz embolada. – Você podia … — Ele bocejou longamente. – … ficar … com a gente. – Ele completou, já de olhos cerrados.
Eu sorri feito uma boba para a figurinha dele, tão terna, todo enroscado no sofá, com a cabeça pousada em meu regaço. Henry era um menino adorável. Fiquei olhando para as linhas expressivas do seu rosto, de forma inconsciente acabei contornando todas essas linhas com a ponta dos dedos, decorando cada uma delas e descobrindo sem grande dificuldade quais delas pertenciam a Emma.
– Eu gostava … — Ele balbuciou no meio do sono, abrindo os olhos num rasgar de tempo, só para os tornar a fechar no rasgo seguinte.
– Gostava que eu ficasse aqui hoje? – Eu indaguei, mais para mim do que para ele, porque a criança estava entrando claramente num sono profundo e relaxado.
– Não .. – Me surpreendi por escutar a sua vozinha infantil respondendo, ao mesmo tempo que ele enrugava adoravelmente a testa mantendo os olhos fechados ainda assim.
– Não? – Acabei rindo, já vendo que ele devia estar dormindo e começando a dizer coisas sem nexo.
– Para sempre. – Foi a minha vez de franzir a testa sem entender a resposta dele, mas nada disse. – Eu queria que você ficasse pra sempre. – Ele concluiu pesadamente com um largar mais pesado de respiração.
Depois, ele simplesmente sorriu durante o sono com uma satisfação tão visível na sua expressão facial que se alastrou a mim, porque quando dei por isso, eu mesma sorria abertamente, embevecida, enquanto o namorava no que deve ter sido uma das primeiras laçadas tão íntimas e especiais que mais tarde fechariam o laço mais apertado da minha vida. O maternal.
– Você fica? – Me assustei com a súbita pergunta e rapidamente levantei a cabeça que antes estava tombada na direção do menino para olhar para a dona da pergunta.
– Emma … nem te vi aí. – Sorri para ela.
Ela sorriu de volta e avançou até ao sofá onde eu estava com Henry adormecido.
– Eu reparei, você estava … — Ela se sentou ao meu lado colocando uma das mãos sobre a minha que estava pousada na cabeça do filho dela. – … ocupada sendo mãe.
– Oh … — Eu me surpreendi com a declaração dela, e rapidamente tomei consciência que talvez estivesse transpondo os limites que me eram destinados. – Eu não tive intenção de …
– De amar o meu filho como você já ama? – Ela me cortou com o semblante sério.
– Emma, eu ..
– Você fica? – Me cortou de novo.
Encarei-a em silêncio, confesso que um pouco incerta do que ela queria dizer, mas assim que entendi o completo significado da sua pergunta, acabei sorrindo e apertando a mão dela.
– Não. – Mordi o lábio nervosamente. A minha resposta no mesmo momento fez com que ela baixasse o olhar, se fixando no menino moreno no meu colo.
– Eu entendo … — Ela disse, um sussurro tremido apenas.
– Vou fazer melhor. – Voltei a falar, fazendo com que ela voltasse a me encarar na expectativa. – Vou levar vocês comigo. – Lancei convicta.
– Como? – A confusão era evidente nela.
– Eu quero que vocês se mudem pra minha casa em Nova Iorque.
– Regina … eu, eu não sei … — Ela vacilou, desviando o olhar de mim para o filho. – Me desculpa … eu não devia ter falado nada, você tem a sua vida de … — Ela retirou a sua mão da minha, começando a gesticular nervosamente, sem conseguir parar o olhar no meu por mais de dois segundos. – … você é uma mulher importante, eu … não quero que você pense que eu sugeri alguma coisa por …
– Hey! Eu não pensei isso. – Me apressei a dizer, buscando novamente pela sua mão. – Emma, querida … — Fixei o meu olhar nela, e sorri calmamente, embora eu própria estivesse nervosa por dentro. – … Mulher importante eu quero ser pra você … — Desviei brevemente o olhar para Henry. – Pra vocês.
– E você já é. – Ela esboçou um pequeno sorriso. – Eu não gosto disso. – Ergui a minha sobrancelha sem entender, então ela continuou, soltando um suspiro sonoro. – Dessa exposição toda. Você sabe … se não fosse seu amigo Gior falar daquela vez, eu nem sequer te tinha reconhecido.
– Oh Emma … — Sorri mais. – Como você está errada querida. – E meu sorriso era ainda maior agora, porque meu peito estava tão acelerado pela emoção que a simples presença dela, tão real e única, me despertava, que era acima de tudo com ela que eu me sentia diferente de tudo e de todos, e mais importante do que qualquer capa de revista em que eu me destacasse. – Você, meu amor, foi a pessoa que mais me reconheceu até hoje nesta vida.
– Você não sabe o que diz. – Ela abanou a cabeça, incrédula do que eu dizia. – Você pode ter a vida que você quiser … quem você quiser.
– Pelos vistos eu não posso. – Respondi tristemente. – Está tarde Emma, acho melhor eu ir andando. – Fiz menção de me mexer de modo a não perturbar o sono do menino no meu colo, mas ela me agarrou no braço, me parando.
– Fica. – Pediu.
Meu coração apertou desmesuravelmente.
– Eu preciso estar em Nova Iorque amanhã cedo. – Informei com tristeza.
Seus olhos se encheram do brilho iminente das lágrimas e da dor que implicava a despedida.
– Regina. – Sua voz saiu reprimida em choro, e aquilo simplesmente me dilacerava por dentro. – Dorme comigo hoje.
– Eu não sei se isso será uma boa ideia querida. – E realmente estava sendo sincera, até porque prolongar aquele sofrimento não iria ajudar nenhuma das duas.
– Por favor … — A voz entrecortada, presa na garganta, mas paradoxalmente, um sorriso resplandecente se redesenhava pelos seus lábios fatalmente apetecíveis. – Faz amor comigo hoje.
– Emma ..
– Faz amor comigo hoje. – Ela repetiu, me cortando. – E vem buscar a mim e ao nosso filho na próxima semana.
Ela me silenciou completamente com aquelas palavras, e quase instantaneamente em que a ameaça das lágrimas toldavam a minha visão, um sorriso enorme se implantava no meu rosto.
– Eu não quero conhecê-lo! – Henry exclamava desorientado na sorveteria, sem saber como nos encarar direito. – Eu não tenho pai!
– Henry por favor, não fica assim filho. – Emma tentou pegar na mão dele sobre a mesa, mas ele não deixou, afastando-a dela. – Você não tem de fazer nada que não queira.
– Ainda bem. – Ele cruzou os braços na defensiva. – Porque eu não preciso de pai nenhum.
– Meu amor … — Intervim, tentando ajudar à situação delicada. – É certo que não vamos obrigar você a fazer algo que não queira, mas de cabeça quente você sabe que não tomamos as melhores decisões. – Eu expliquei, e só Deus poderia saber o quanto aquilo estava me custando. Por minha vontade, ou melhor dizendo, por egoísmo meu, certamente o outro não entraria na vida de Henry, mas eu não podia negar-lhe isso, até porque talvez um dia ele fosse procurar por esse homem. – Porque não vamos pra casa, fazer os deveres, tratar do jantar e depois continuamos essa conversa? – Sugeri com um sorriso no rosto.
– Sim garoto … aí você pode perguntar o que quiser saber, qualquer dúvida que você tenha … — Emma continuou ao meu lado, também tentando manter a calma.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, parecendo refletir.
– Tudo bem. – Respondeu. – Mas acho que vou continuar sem querer saber dele. – Ele foi direto, sem esconder a sua opinião. – Vocês são as minhas mães … — Ele falou como se estivesse pensando em voz alta, fixando a taça vazia de sorvete, e depois voltando a olhar para nós duas. – O que eu faço com um pai agora?
Fiquei sem reação, até porque ele literalmente verbalizou a pergunta que estava de forma egoísta martelando no meu cérebro. Suspirei, e troquei um olhar com Emma, que ironicamente tinha o mesmo ponto de interrogação de forma figurativa estatelado na testa. Foi aí que eu me apercebi de uma coisa muito importante, e fundamental naquela equação: as duas expressões existentes que compunham a igualdade já existiam. Eu e Ela. Então, Henry além de ser um filho maravilhoso e a igualdade da nossa afirmação, ainda era um génio na matemática, porque afinal, nessa equação,
Onde cabia o Outro?
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