Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
5 Equívocos
Notas iniciais
Trim … Trim … Trim
– Desliga isso. – Resmunguei afundando mais o rosto no pescoço de Emma.
Trim … Trim … Trim
Ela bocejou ao meu lado.
– Mas você não vai trabalhar? – Perguntou.
Trimm … – ela deve ter esticado o braço para desligar o despertador porque logo o som irritante parou.
– Infelizmente. – Falei já me levantado. – Mas ainda tenho temp … Emma! – Fiquei completamente desperta e em stress com as horas indicadas no visor do relógio.
– O que foi?
– As horas! Você mexeu no alarme? – Perguntei apressada, procurando imediatamente pelo meu celular na mesinha de cabeceira do meu lado. – Merda!
Eram 10h 30 e eu tinha acabado de perder uma reunião importante, e uma série de chamadas perdidas no celular por ter tirado o som ao aparelho quando cheguei a casa na noite passada.
– Eu não sei o que pode ter acontecido, só se foi ontem quando o quadro elétrico disparou e eu fui acertar a hora do alarme. – Ela disse, esfregando os olhos com ar ensonado. – Desculpe. – Ela me olhou com ar culpado.
– Preciso ir pra empresa. – Corri para o banheiro e me enfiei no duche, mas logo me lembrei de algo muito importante, e retornei enrolada na toalha para olhar para Emma. – Oh meu Deus! Emma!! Henry não tinha aula hoje de manhã?
– Ups. – Ela me lançou o mesmo olhar culpado de antes. – Mas ele nunca perde a hora, só se o despertador dele endoidou também … eu vou lá!
Ela saiu do quarto apressada, e eu imediatamente voltei para o duche. Mas que irresponsabilidade a minha! Como pude me desmazelar daquela forma? Perder a hora daquela maneira.
O duche não foi nada relaxante, pelo contrário, todo o relaxamento atingindo na noite anterior com Emma, estava completamente perdido, pois logo uma nova tensão se acumulava a partir dos meus ombros se espalhando por toda as minhas costas até me alfinetar na lombar.
Quando desci, encontrei os dois na cozinha: Henry quase engolindo os cereais, e Emma agarrada ao laptop em cima da mesa.
– Acho que já nem vale a pena ir pra escola hoje. – Henry disse com a boca cheia, o que geralmente não passaria sem uma censura minha, mas devido à pressa, nem me dei ao trabalho de o fazer.
– Nem tente garoto que nós sabemos que ainda dá pra pegar a aula das onze. – Emma respondeu, sem desviar os olhos do laptop. – E você tem aula de inglês de tarde que eu sei. – Ela avisou.
– Você o leva na escola? – Perguntei a ela, folheando alguns relatórios que precisavam ser assinados e entregues hoje, e que eu ainda nem tinha terminado de ler.
– Não posso, estou atrasada para encontrar com o cara que marcou comigo ontem. – Ela se desculpou fazendo uma careta. – Você dispensou Edward?
– Ele me pediu dois dias de folga, mas deixa ver … — Pousei os relatórios na mesa, e marquei o número pessoal dele no celular. Não tive de esperar muito porque ele logo me atendeu. – Edward como está? Fala Regina. Eu peço desculpas, sei que lhe dei o dia de folga, mas consegue excecionalmente vir apenas pra levar Henry na escola? – Ele disse que ainda tinha de tratar de uns assuntos da mulher, mas não se mostrou indisponível. – Ótimo … Obrigada. Você será recompensado. Consegue chegar em 10 minutos? – Ele confirmou. – Ok, Henry o estará esperando. Adeus.
– Sempre vem? – Emma perguntou, fechando o laptop e vestindo a jaqueta de couro castanha.
– Sim, sorte ele estar a dois quarteirões daqui. – Respondi, chegando junto de Henry para lhe dar um beijo na bochecha. – Vê se não come mais porcarias. – Avisei séria. – E esteja pronto quando Edward chegar.
– Mas mãe .. eu não quero ir de motorista pra escola. – Ele resmungou, limpando a boca ao guardanapo. – Vão ficar me chamando de mauricinho.
Olhei para Emma que me lançou discretamente um olhar que dizia que Henry tinha razão e todo aquele blá blá que eu às vezes ficava cansada de tanto escutar.
– Vocês dois têm de aprender a lidar com isso! – Eu atirei stressada para os dois sem nem pensar direito, mas assim que vi a expressão magoada com que Emma ficou vi que tinha dito a coisa errada. – Emma … eu não quis di ..
– Não, você tem razão. – Ela me interrompeu com uma ponta de desdém na voz que me atingiu igual a um coice no peito. – Nós dois que temos de aprender a lidar com a sua vida. — E ela pegou na mochila que Henry tinha pendurado na cadeira, e fez sinal a ele para a seguir. – Vamos, eu te deixo na escola, já estou atrasada mesmo.
Vi ela passar por mim sem nem me olhar direito na cara, logo seguida por Henry que me lançou um olhar solidário e me deu um abraço apressado, e logo continuou indo atrás de Emma sem dizer mais nada.
Escutei a porta bater. Suspirei, e levei uma mão à minha nuca, apertando mais abaixo na zona das omoplatas. Sentia meu corpo inteiro enrijecido, mas não podia fazer nada naquele momento. Anotei apenas mentalmente que teria de tomar um longo banho de banheira à noite quando voltasse a casa, porque agora teria de ir trabalhar. De resto, tudo se resolveria, falaria com Emma depois, e tudo ficaria bem. Com esse pensamento em mente, saí da cozinha para pegar o carro e correr para a empresa.
Saindo da garagem, encontrei Edward pelo caminho que chegava naquele preciso instante. Baixei o vidro do carro e pedi mil desculpas, prometendo-lhe uma gratificação pelo transtorno causado, e dispensei-o novamente, continuando a dirigir o meu carro.
A hora de pior trânsito já havia passado, então depressa cheguei ao meu destino. O letreiro com a frase Keep Unique Keep "U" acima da entrada principal do edifício me chamou a atenção por momentos, devido à abreviação “U”estar torta na estrutura de ferro. Esbocei uma careta, porque minha mania das coisas perfeitas às vezes me tirava do sério, mas entrei com o carro para o piso subterrâneo sem esquecer mais aquela nota mental: mandar alguém consertar a posição da letra.
Subi até ao piso do meu escritório, e cumprimentei com um aceno rápido de cabeça alguns dos meus funcionários que se cruzaram comigo. Achei estranho alguns sorrisos despropositados na minha direção, e parecia que havia no ar uma onda de cochichos quando pensavam que eu não estava prestando atenção. Apesar disso, continuei o caminho até à minha sala porque não podia perder mais tempo com equívocos, já que parte do meu dia já tinha sido desperdiçada com chatices nada produtivas.
– Katia me traga um café bem forte por favor. – Falei para a moça sentada na mesa do lado de fora da sala do meu escritório.
Nem esperei ela me responder e entrei. Comecei checando a série de chamadas perdidas no celular, e retomando aquelas que eu suspeitava serem mais importantes.
A maioria das ligações, como eu desconfiava, pertenciam a Katia, então já deduzia que muita coisa devia estar enrolada na empresa. Terminei a conversa telefónica com a gerência de uma das minhas filiais no Canadá ao mesmo tempo que Katia entrava com o meu café.
– Sim Katia, nem precisa dizer … — Eu comecei sem a deixar falar, esticando o braço para pegar o café da mão dela. — … perdi a reunião com o pessoal da Gucci. Não se preocupe, eu resolvo.
– Sim … — Ela confirmou vagamente, e só aí eu notei que ela estava pálida.
– O que foi?- Perguntei depois de dar um gole no café.
Ela não respondeu. Em vez disso, esticou para mim o tablet que ela segurava nas mãos. Eu agarrei no dispositivo para poder ver melhor o visor e o que ela poderia querer me dizer com isso, já que parecia um pouco nervosa. Não foi preciso muito tempo, porque assim que vi aquela foto com as letras garrafais em cima, eu tive de me sentar na cadeira para não cair com a queda de pressão que deve ter me atingido.
Traição às vésperas do casamento?
Regina Mills troca companhia da noiva por acompanhante de luxo
– Eu vou buscar uma água com açúcar! – Escutei a voz de Katia exclamando ao longe.
– Espera … fica. – Consegui pará-la, porque ela ficou feito uma estátua parada no lugar sem parecer saber o que fazer, apenas me olhando com um ar apreensivo.
Tornei a olhar para o visor do tablet ainda em choque. A fotografia que ilustrava a notícia fora tirada ontem sem que eu me tivesse dado conta, provavelmente por um paparazzo cretino que devia estar ganhando uma nota para estragar a minha vida. Por mero acaso, ou melhor, com certeza o abutre de plantão escolheu o momento mais propício, na foto Mr. Johnson não aparecia, e o que dava a entender era que eu jantava com uma mulher linda e insinuante com os seus grandes seios esbarrando em mim e a sua mão bem posicionada por debaixo da mesa. E o pior …. O imbecilóide que tirou a foto me pegou sorrindo!! Mas eu não lembro de sorrir para aquela mulher …
Percorri rapidamente o texto da notícia com os olhos, perplexa com a leviandade com que descreviam o meu comportamento.
“A empresária de moda Regina Mills foi vista esta quarta-feira jantando na companhia de uma mulher misteriosa no restaurante Jean Georges. Fontes seguras afirmam que a nova companhia da empresária é na realidade uma acompanhante de luxo contratada de uma das agências mais caras do meio. Às vésperas do casamento com a caçadora de recompensas Emma Swan, a proprietária da Keep Unique Keep “U”, ironicamente, parece decidida a deixar a sua “U” e de forma irreverente apelar para a unicidade dos comportamentos chocantes e mediáticos, tão criticados no passado pela própria empresária. Será caso para dizer que pela boca morre o peixe? (…) ”
Tive de parar de ler, porque estava ficando agoniada.
– Emma vai me matar. – Eu murmurei, olhando para Katia com cara de desespero.
Ela se aproximou de mim nervosa, e rapidamente tirou a droga do aparelho das minhas mãos. Colocou uma mão no meu braço como se quisesse me consolar.
– Não ligue para isso … — Ela começou falando, tentando me acalmar. — … ninguém está nem aí para esse tipo de notícia. É sensacionalismo barato. – Ela esboçou um pequeno sorriso para mim.
– Você não entende. – Eu revidei já me levantando exaltada, fazendo com que ela se afastasse de mim. – Emma não vai perdoar mais essa! Mesmo que ela saiba que é fofoca, mediatização da mídia, mentiras …. Ela .. – Sentei no sofá que havia no canto da minha sala, e me servi do whisky na mesa ao lado. — … ela não vai me perdoar!
– Eu acho … — Ela falou insegura, parando o olhar no copo que eu me preparava para levar aos lábios. — … que você não devia beber a essa hora.
– O quê?? – Eu gritei descontrolada. – Eu aqui falando uma coisa séria pra você e você … — Eu parei, me dando conta do tom da minha voz. O que eu estava fazendo? Gritando com minha secretária no meio do meu escritório feito uma louca?
– Eu … me desculpe. – Ela se encolheu. – Só queria ajudar.
– Não, me desculpe você. – Eu suspirei, pousando o copo de novo na mesa. – Eu é que não estou bem … não devia estar descontando meus problemas em você. – Enterrei o rosto na mão e fechei os olhos, tentando me acalmar.
– Regina … — Pela primeira vez escutei o meu nome saindo da sua boca sem que eu tivesse de lhe falar para o dizer. Levantei o rosto e vi que ela se havia sentado ao meu lado. — … Emma te ama, eu sei disso. Aliás, todo mundo que já viu vocês juntas sabe disso. Você sabe que eu procuro não me meter mais do que cabe às minhas funções, mas me permita dar um conselho a você … — Ela parou, esperando a permissão para continuar. Eu olhei para ela com curiosidade, nunca havíamos trocado confidências dessa forma, porque eu sempre fiz questão de deixar muito claro os limites entre nós, apesar de sempre ser afável e cordial com ela, mas dadas as circunstâncias eu fiz-lhe sinal para que continuasse. — … não permita que fatores externos a vocês interfiram. Eu sei que a vida não é um ato isolado, ainda mais a sua vida que está sempre sendo alvo de tanta atenção devido ao cargo e posição que ocupa, mas isso é o de menos, isso vocês consertam, agora o resto …
– O que tem o resto? – Interrompi ansiosa, encarando-a com atenção.
– O resto é isso … — Eu não entendi, e ela pegou na minha mão, e só aí eu me dei conta que estava tremendo. — … essa ansiedade em que você anda. Não é bom, se continuar assim vai ter um esgotamento. E por muito que Emma ame você, ela não vai entender o real motivo de tudo desmoronar até que você fale com ela.
– Eu estou bem. – Puxei a minha mão, me libertando da mão dela que me segurava.
– Então não se negue ajuda. — Eu simplesmente não conseguia escutar aquilo. Quem aquela garota pensava que era para achar que podia me analisar daquela forma?
Me levantei e tornei a me sentar na cadeira atrás da mesa onde tinha o computador e as minhas coisas.
– O que está fazendo ainda aí parada? – Lancei bruscamente para Katia. – Saia e vá fazer o seu trabalho. – Ela não respondeu, apenas assentiu com a cabeça de leve, e se virou para sair, mas antes eu tornei a falar por causa da dor repentina na minha cabeça. – Apenas me traga uma aspirina e uma água fresca.
– Não prefere que eu marque uma consulta no seu médico? – Ela ousou perguntar com aquela coragem que normalmente me causava admiração, mas que agora apenas me tirava mais do sério, fazendo com que eu me sentisse atacada.
– Tenha cuidado Miss Roberts. – Fiz questão de pontuar o sobrenome dela com gravidade, como um aviso. Senti uma pontada no peito com o meu próprio comportamento, mas depressa me desfiz dessa sensação, e prossegui em jeito de ameaça. – Para quem sempre faz questão de não se meter mais do que cabe às suas funções, você pode estar trilhando um novo caminho a fim de descobrir novas funções em um outro lugar.
Senti todo o meu rosto contorcido em tensão, embora eu tenha a certeza que um sorriso cínico se desenhou nos meus lábios ao ver a expressão de choque que ela não conseguiu esconder ao assimilar o significado das minhas palavras.
– Perdão. – Ela se recompôs e parecia recuar para fora da sala, mas não sem antes me enfrentar novamente com um aceno de cabeça e soltar um seco “Miss Mills” antes de sair e fechar a porta atrás de si, me deixando com um sentimento estranho de tristeza e perda dentro de mim.
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