Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro

33 Contratos, negociações e afins


Notas iniciais
Olá a todos! =) Para quem não me conhece, eu posso dizer que sou bastante cabeça dura às vezes. Mas trata-se de uma teimosia que se encobre toda ela de rectidão excessiva, ou seja, não se quer descomprometer daquilo que ditou em primeira instância, e por isso, se for preciso se afunda em nome da palavra dada. Acontece que os pensamentos, ideias ou ideais tendem com o tempo a mudar, então no caso das palavras não acompanharem esta mudança tudo pode ficar a perder, estagnado, apodrecido … enfim, é necessário permitir correcções, cedências, ajustes, reestruturação. Caso contrário não há evolução em nada, ciclo da vida. Ponto final. xD Para Viane e todas as outras pessoas que tantas vezes colocaram a pergunta: “Mas que raios se passa na cabeça dessa Emma?” Boa leitura meus lindos!

Prestes a desconectar da conta de correio electrónico, eis que um novo e-mail chega. Não ligaria ao sucedido não fosse o remetente indicar em letras maiúsculas o nome presunçoso “Gold”. Pisquei os olhos por momentos, na dúvida se estaria enxergando direito. Não; era mesmo um e-mail de Mr. Gold para mim. Cliquei para abrir na ansia de descobrir o que aquele homem queria comigo, já que ele nunca mencionara para Regina qualquer intenção de me envolver na tal entrevista que ela daria para a Companhia Gold:

Caríssima Miss Swan,

Antes de mais, e na esperança que a senhorita e a sua família se encontrem bem, apresento-lhe os meus melhores cumprimentos.

Posto isto, calculo que deva ter recebido este e-mail com alguma surpresa, e que por isso, deva estar se perguntando o motivo para tal contacto. Pois bem, serei directo: venho propor-lhe um negócio.

Como é do seu conhecimento, a sua futura esposa, Regina, concordou em dar uma entrevista exclusiva para um dos meus canais televisivos. Contudo, existe uma parte do nosso acordo que acredito que a senhorita desconheça, não por culpa de Miss Mills, mas porque eu exigi uma declaração de confidencialidade dela. Nesse acordo, eu me comprometi a reunir todos os esforços para regenerar a imagem pública de Regina Mills, contribuindo assim para que todos os vossos problemas familiares chegassem a um término, nomeadamente no que diz respeito à chegada de Neal Cassidy no vosso núcleo familiar.

Acontece que fui contactado há pouco por Mr. Cassidy e foi com desagradável surpresa que me vi numa posição deveras comprometedora. Mr. Cassidy alega ter arrombado o cofre onde a sua mulher detinha o contrato negocial que eu e ela assinámos. Ora, julgo que deve entender que o ocorrido, caso se prove verdadeiro, é altamente prejudicial tanto para Miss Mills como para mim. Mr. Cassidy está me chantageando com a ameaça de tornar público o conteúdo do contrato caso eu não o deixe dar também uma entrevista com o seu lado da história. Escusado será dizer que eu não vou admitir que o meu bom nome seja envolvido em um escândalo dessas proporções, por isso, sendo assim, e porque tenho enorme apreço por Regina, proponho que a senhorita entre em contacto com Mr. Cassidy a fim de descobrir se o mesmo está na posse do contrato como alegou.

Espero que compreenda que já estou fazendo cedências demais ao colocá-la ocorrente do contrato confidencial que fiz com Miss Mills, tanto que se não fosse pela pessoa em questão, eu simplesmente estaria, e perdoe-me a expressão corriqueira, “nas tintas” para a situação da outra parte. Assim, vou-lhe deixar o endereço onde se encontra instalado Mr. Cassidy para que possa pessoalmente averiguar a veracidade do ocorrido, e caso este se confirme, possa igualmente recuperar o contrato.

353 38th Street

Motel 6 Brooklyn, quarto 2

P.S. – Lembre-se que este e-mail é confidencial também, sem qualquer excepção, nem mesmo para a sua adorada família.

Atenciosamente,

Robert Gold

Companhia Gold

Meus olhos correram apressados as últimas linhas. Logo de seguida olhei as horas na barra do ecrã: 21:05.

Eu sabia que esse negócio de entrevista ia dar problema, porquê Regina não me escutara? Pensei para comigo enquanto decidia o que fazer.

Ir até Brooklyn aquela hora? O que poderia dizer a Regina? Cocei a nuca, frustrada.

Peguei o celular em cima da mesa chegando à conclusão que era melhor mandar uma mensagem inventando alguma desculpa, mas depois apenas fiquei encarando o ecrã do celular sem digitar coisa alguma. Isso era tão errado … o clima estava cada vez mais tenso entre nós duas e eu simplesmente já não sabia o que fazer para reverter a situação. Amava aquela mulher como nunca amara ninguém, mas mais parecia que ultimamente andávamos trilhando os caminhos de um labirinto, nos perdendo uma da outra com cada vez maior frequência.

Resolvi digitar simplesmente “Não tenho hora pra chegar.”

Fiquei encarando aquela frase por alguns segundos, mas depois apaguei tudo, concluindo que só a deixaria mais preocupada. Outra tentativa com “Preciso ficar até tarde trabalhando. Não me espere.”, depois de mais uns segundos analisando o tom distante, resolvi acrescentar no final um “te amo” para deixar tudo mais normal. Normal? Balancei a cabeça, chateada. Apaguei tudo, quase num estado enraivecido.

Maldito Neal! Maldito Gold! Larguei o celular e me levantei de rompante, indo até a uma pequena estante de livros. Afastando um volume pesado, tirei uma garrafa de whisky e procurei o copo que deixara ali na sala algures. Encontrando-o, enchi-o com o líquido até metade e tomei um gole generoso. Olhei a escrevaninha, me aproximando até que meus olhos foram fisgados por um porta-retratos que exibia uma foto de nós duas, sorridentes.

Recordo aquele dia, — Milão — a primeira grande viagem que fizemos para acompanhar a semana da moda. O tonto do Gior havia ido com a gente, se intrometendo com suas gracinhas e me fazendo ficar super sem graça, mas foi uma viagem tão inesquecível que acho que até ele teve o seu mérito por ajudar a que eu e Regina ficássemos mais à vontade com todo o negócio da fama, fotos, e tal.

– Gior, vira essa lente pra lá. Já chega. – Regina disse, colocando a mão à frente da câmara fotográfica apontada a mim. – Já chega todos esses paparazzi.

– Isso tudo é ciúme meu? – brinquei com ela, fazendo pose para Gior mais uma vez. Ele me piscou o olho, divertido.

Ela desviou a atenção da festa e sorriu para mim. Nossa, como ela me desnorteava com aquele seu ar majestoso!

– Claro que é ciúme. – proferiu, muito perto da minha boca. – Já viu a quantidade de fotos que te tiraram hoje? – sua voz era segura, baixa e levemente enrouquecida. – E os convites para trabalhar como modelo que te fizeram? Não sei amor – ela baixou o olhar até à minha boca, exibindo um ar indeciso. – , acho que vou fazer um contrato de exclusividade pra que você apenas desfile pra mim.

– É mesmo? – sussurrei, mordiscando o próprio sorriso com os dentes em meu lábio.

– Hm hm. Aliás, cubro qualquer oferta. – anuiu. E não querendo ser presunçosa, seus olhos gritavam desejo.

– Eu continuato qui, senhoritas! – Giorgio exclamou, rindo. – Andiamo Lorenzo! – puxou pelo ombro o moreno forte que o acompanhava, e se afastou.

Espiei ele indo embora, e só depois tornei a encarar com toda a minha atenção Regina.

– Me diz … — mantive os olhos nos dela, que tais como os meus se mantinham ansiosos. – … o que você vai me dar se eu começar o desfile particular agora mesmo, pra você, lá na suite?

Vi a surpresa se evidenciar por alguns segundos nas íris escuras, e após isso, toda a fome afigurada tomando conta do seu olhar. Mas Regina era sempre tão elegante que eu praticamente adivinhei as palavras seguintes dela:

– Mas a festa está tão maravilhosa, querida. Certeza que quer abandoná-la tão cedo?

– Você é maravilhosa. – proferi com sinceridade. – E eu quero sim abandonar a festa. – afirmei. – Quero muito estar com você. – confessei num tom de voz mais baixo.

Seus olhos percorreram discretamente o meu corpo, me fazendo sentir arrepios e um leve fraquejar nas pernas. Quando ela me olhava assim, eu juro que era complicado me conter e não cair em seus braços imediatamente.

– Eu também quero muito. – respondeu no mesmo tom, ao mesmo tempo que entrelaçava os dedos da sua mão nos meus.

Pressionei os olhos, desta vez encarando as memórias através da transparência do líquido no copo. Tomei um último gole. Peguei no celular, pousei o copo vazio, peguei a carteira e por fim as chaves da moto. Saí do escritório com destino a Brooklyn. Não iria deixar ninguém, muito menos o meu ex acabar com a minha felicidade.

*** *** ***

– Satisfeito? – atirei com ar ríspido assim que ele abriu a porta do quarto.

– Emma? – mostrou surpresa, como se não me esperasse ali. – Mas que bela surpresa meu amor. Por favor, entra.

– Eu deixei de ser o seu amor há muitos anos. – ripostei com maus modos. – E eu vou entrar sim, porque você me deve muitas explicações. – fui entrando, chocando o ombro com ele sem qualquer preocupação em ser educada.

Ele fechou a porta, e a seguir me fitou com aquele ar de menino inocente que faz asneira, mas que não tem qualquer consciência da gravidade dos seus actos.

– Sabe – ouvi-o começar, coçando a barba semicerrada enquanto esboçava o mesmo sorriso de garoto travesso com que eu tive há tempos tão bem familiarizada. –, eu sempre gostei dessa sua faceta durona … lembra? Daquela vez que a gente pegou aquele fusca amarelo e você me empurrou pros bancos detrás, nossa! Eu ainda lembro da sua boca no …

– Cala a boca, Neal. – cortei, fazendo os possíveis para afastar aquelas recordações do meu pensamento. – Você continua o mesmo ordinário de sempre, não?

– Vai me dizer que não sentiu saudades? Não acredito. – desdenhou, se sentando na beirada da cama de frente pra mim.

– Eu fiz muita burrada naquele tempo, mas olha que a maior delas ainda foi ter andando com você. – arremessei bruscamente. – Mas chega de conversa fiada, eu não vim aqui pra isso.

Ele riu, penteando os cabelos com as mãos. Estavam mais longos, bagunçados, de um jeito desleixado que me trazia lembranças do tempo em que eu me perdera de amores por ele. De um tempo em que ambos não passávamos de dois adolescentes perdidos nesse mundo repleto de injustiças.

Vendo que eu não falava nada, cruzou os braços à frente do peito, e ficou me encarando com um olhar curioso.

– Eu quero o contrato. – exigi de modo vago, esperando para ver se a sua reação o denunciaria.

Ele pareceu desiludido. Descruzou os braços e se levantou, se dirigindo a mim:

– Você só veio mesmo por ela? – perguntou a dois palmos de distância de mim.

– Por quem mais eu viria? – repliquei quase em simultâneo. – Ela é minha mulher, meu amor, meu tudo. Junto com o meu filho, eles são a minha família. É claro que eu estou aqui por eles. – clarifiquei para que não houvesse sombra de dúvida sobre as minhas reais intenções. – Agora, se você tem o contrato, me dê de uma vez pra eu poder ir embora.

Ele baixou o olhar por momentos, parecendo entristecido. Mas antes de eu pensar no meu próximo passo, ele tornou a me encarar com uma nova chama em seu olhar:

– O garoto também é meu filho.

Não queria acreditar no que estava ouvindo. Atordoada, recuei um passo.

– Neal … já falámos sobre isto …

Achei melhor combinar o encontro com ele no meu pequeno escritório em Nova Iorque para não gerar qualquer tipo de mal interpretações. Indiquei-lhe a cadeira à minha frente e ele se sentou em silêncio.

– Contei a Regina sobre você. – fui a primeira a cortar o silêncio. Aquilo pareceu animá-lo, mas só entendi o porquê depois de ele falar:

– Quer dizer que você se deu conta que ainda sente algo por …

– Hein hein! – exclamei, fazendo sinal com ambas as mãos para que ele parasse. – Não misture as coisas. Você disse que me procurou por causa de Henry … ou estou errada? – ele começou por assentir com a cabeça, mas antes que ele pudesse me interromper, eu continuei: – Então, foi sobre isso que eu falei com a minha mulher.

Ele deixou escapar uma risada de deboche, o que me fez erguer a sobrancelha com ar confuso.

– Você já se escutou? Que mulher Emma? – vi-o se levantar e contornar a mesa até chegar a mim, pegando em uma das minhas mãos. – Eu quero assumir as minhas responsabilidades. Sei que não agi certo com você, mas ainda dá tempo. Você não precisa mais se refugiar sobre a proteção dessa mulher, agora eu …

– Agora sou eu que te pergunto: você já se escutou direito? – atirei, completamente perplexa com a atitude dele. Puxei a minha mão de volta e me levantei, fazendo com que ele se afastasse. – Você me ofende desse jeito. Que parte de eu ter refeito a minha vida que você não entendeu? Eu tou de casamento marcado, cara!

– Uma chance, Emma! É tudo que eu te peço. – tornou a pegar na minha mão com ar de desespero. – Uma chance pra eu te provar que eu mudei, que agora tou preparado pra te amar direito.

Fiquei ali o encarando quase com ar de tonta tamanho era o disparate que ele propunha. Parecia surreal! Ele esperava mesmo que ao fim desses anos todos, com meu filho criado, uma pessoa maravilhosa ao meu lado, eu fosse querer retomar algum tipo de romance com ele?

– Neal, é sério … isso não faz sentido nenhum. – desci os olhos para as nossas mãos, e suspirei pesadamente. – Se os verdadeiros motivos que te levaram a me procurar foram esses, então a gente não tem mais nada pra falar.

– Emma …

– Não! – esbravejei, puxando mais uma vez a minha mão. – Eu tou feliz, ok? Henry é feliz … tudo que ele menos precisa é de ser feito de joguete nesse seu jogo tardio de arrependimento. – me aproximei do seu rosto com o que estou certa ter sido um ar ameaçador. – Eu não deixo que ninguém o machuque, entendeu bem? Ninguém!

– Mas eu sou o pai dele. – ainda o escutei dizer, antes de ser agarrada contra a vontade e de sentir a boca dele contra a minha. Não reagi tão depressa como seria da minha vontade, mas assim que recuperei a consciência do que estava acontecendo, empurrei-o para longe.

– Eu disse ninguém. – cuspi com desprezo. – Nem pai, nem mãe, nem o escambau. Saia daqui, por favor. – apontei a porta.

– Emma, você entendeu tudo errado. Sabe como eu sou às vezes … é claro que eu quero fazer parte da vida do meu filho. – levou a mão ao pescoço, de olhar cabisbaixo; parecia envergonhado. – Eu … só … Emma … por favor me dá uma oportunidade …

– Neal …

– Por Henry, o nosso garotinho. – e tive de fechar os olhos, porque doía demais escutar o pronome possessivo referente ao menino que crescera sendo chamado de nosso, mas não daquele homem, e sim um “nosso” meu e de Regina. – Não me nega isso, eu te peço. Me deixa fazer parte da vida dele.

Senti os olhos marejados, mas não deixei de o encarar, em vez disso assenti:

– Tudo bem … mas eu dito as regras. Outro dia, está bem? Prometo que conversamos a respeito. – tornei a indicar a porta. – Agora …

Ele ergueu as mãos em sinal de rendição, agradeceu com um sorriso pequeno, e saiu finalmente.

– Você disse que conversaríamos sobre eu ter contato com o menino. – ele respondeu, me deixando encurralada. – Você não cumpriu a palavra.

– As coisas não são assim … é uma criança! Ele anda assustado, você acha mesmo que ele quer estar com você depois de tudo que tem acontecido? – revidei, começando a ficar agitada. – E tem Regina … o menino tem paixão por ela, você acha mesmo que ele vai correr pros seus braços assim?

De repente, como se algo tivesse iluminado na cabeça dele, respondeu simplesmente:

– Ok.

– Ok? – repeti, sem entender.

– Sim. – respondeu, sereno. Havia um brilho perverso no seu olhar que me fez sentir um calafrio. – Eu não vou insistir mais com isso.

– Não vai?

– Não vou, se … – lançou um sorriso sugestivo.

– Se o quê?

– Emma, já que você veio aqui buscar um contrato, eu vou fazer a minha contraproposta desse negócio. – disse, ao mesmo tempo que se dirigia novamente à cama para se sentar.

– Do que você tá falando?

– Eu entrego a você o contrato pra que a sua mulherzinha continue imaculada. E mais … – fez uma pausa, como se tentasse criar um maior impacto com as suas palavras. – eu não vou mover um único dedo pra ficar com o garoto, eu esqueço essa história toda, deixo vocês em paz pra sempre.

– Muito bem. – respirei fundo, começando a compreender onde aquilo ia levar. – O que quer em troca?

Um sorriso asqueroso se estendeu pelos seus lábios rosa. Inclusive me deu a impressão de ter notado uma risada sendo contida. Ele se aproximou de novo de mim: três palmos … dois palmos … um palmo, antes de sibilar com satisfação:

– Você. – minha respiração travou. – Eu quero você.

Notas finais
OBS: Eu tendo a descurar mais do português brasileiro quando escrevo algo num tom mais formal, então se houver qualquer expressão que não entendam, me perguntem que terei todo o gosto em esclarecer. Obrigada, queridos! Espero que tenham gostado do capítulo.