Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
17 Enganos e desenganos
Notas iniciais
No capítulo anterior ...
– Eu acho que você se enganou no quarto. – Disse, começando a fechar a porta, mas impedido pela minha mão que a travou. Ele franziu o cenho me percorrendo com o olhar de cima a baixo.
– E eu acho que nós temos muito que conversar Mr. Cassidy. – Respondi, retirando os óculos escuros do rosto.
*** *** ***
– Oi? – Ele ergueu a sobrancelha mostrando uma cara tremenda de confusão.
– Vai mesmo se fazer de desentendido? – Revidei fletindo a testa com um rasgo de escárnio num sorriso raivoso que se desenhava pelos meus lábios pintados em tom escarlate. – Vai fingir que não sabe quem eu sou? – Avancei contra ele bruscamente, empurrando o seu peito com a mão, fazendo ele se afastar do meu caminho, me dando passagem para dentro do quarto.
Escutei a porta se fechando nas minhas costas, e seu corpo demasiado perto do meu, atrás.
– Claro que não. – A sua voz soava meio enrolada, como se ele tivesse um leve problema de dicção. – A famosa Regina Mills. – Seu tom era de troça. Me virei abruptamente para encará-lo.
– Ah … — Murmurei irónica. – É tudo um jogo seu não é? Voltar … depois desse tempo todo? – Me aproximei do seu rosto, cheia de desprezo. – Me diga a verdade Mr. Cassidy … — Fiz uma pausa tentando avaliar a sua expressão facial agora séria e inexpressiva. – O que pretende afinal?
Ele coçou o rosto no lugar da barba com uma cara de cachorro sem dono como se fosse uma vítima injustiçada.
– Miss Mills, eu sei que tudo isso não é do seu agrado, mas …
– O que não é do meu agrado? – Cortei, o fuzilando cheia de raiva. – Sua presença? – Questionei com ironia. – Sim, você está certo. Eu preferia um verme rastejante e nojento a você na minha frente. Se bem que não é assim tão diferente uma coisa da outra. – Quase cuspi a última parte, fora de mim, mas ainda assim com a voz controlada.
– Se minha presença é assim tão repugnante como diz, me responda então … — E ele surpreendentemente esboçou um sorriso vitorioso antes de completar. – Porque se deu ao trabalho de vir até aqui no encontro que eu marquei com Emma?
E agora sim, ele me havia puxado o tapete metafórico do meu chão, porque tive de fazer um enorme esforço para não deixar minhas pernas fraquejarem.
– Como se atreve? – Rugi, e num ímpeto de cólera levantei a mão para o esbofetear, mas ele foi mais rápido, me segurando o braço com força. – Emma é minha mulher! – Exclamei, tentando soltar o meu braço.
Ele riu na minha cara como se o que eu tivesse acabado de falar fosse uma insanidade.
– Você já se escutou? – Perguntou com um sorriso trocista. – O máximo que Emma pode ser é sua amiga, mas do que ela gosta mesmo é de homem.
– Me solta! – Exigi, tentando menosprezar as palavras dele e toda a insegurança absurda que elas me provocavam. Ele largou o meu braço no lugar do pulso e eu esfreguei o local. – Você não sabe de nada Mr. Cassidy. – Respondi me recompondo minimamente. – Para você entender o que eu e Emma temos, você precisaria nascer de novo. – Revidei com desdém, tentando ao mesmo tempo não me deixar afectar por todas as coisas que ele dissera ou insinuara.
– Muito bem. – Disse, se afastando até à mesinha de cabeceira ao lado da cama e pegando no celular. – Me explique então o porquê desse encontro? – Ele ficou mexendo no aparelho, provavelmente percorrendo a lista, (seria uma lista?), de mensagens trocadas com Emma.
– Eu marquei esse encontro. – Estufei o peito e confessei, com a minha voz totalmente controlada e firme. Não daria parte fraca, não na frente dele. – E provavelmente ela nem sabe da existência dele. A questão aqui, Mr. Cassidy, é a razão que o faz entrar em contato com Emma depois de todos esses anos. – Dei um passo na sua direção, me aproximando mais do que eu gostaria, mas com a necessidade extrema de me impor mais do que nunca perante ele. – O que você quer afinal? – Ergui a sobrancelha com ar inquisidor.
– Mas não é óbvio? – Retorquiu. – Minha família de volta. – Revelou com a maior naturalidade do mundo.
Aquilo me fez rir com sarcasmo.
– Sua família? – Meu sangue ferveu, e eu cravei o salto alto do meu sapato com força no chão, caso contrário, eu não me responsabilizaria mais por qualquer coisa que eu fizesse com ele. – Você perdeu qualquer direito no dia que abandonou Emma, sozinha, uma menina praticamente! Com um bebé nos braços! – E ali sim, meu tom de voz alterou, porque recordar toda a dor de Emma me doía na alma.
Henry tinha acabado de adormecer no colo de Emma, pouco depois do nosso jantar. O menino não havia parado um só segundo, e jantar com ele fazendo perguntas, com a ajuda de Gior incentivando ainda por cima as bagunças, podia se já adivinhar que logo ele iria cair num sono profundo, e foi o que aconteceu.
Gior estava sentado ao meu lado no sofá da sala de Emma, bebericando do licor caseiro de menta que ela havia oferecido. Ela se mantinha sentada numa das cadeiras da mesa de jantar, com o menino adormecido sobre ela.
– Você não deve estar muito confortável. – Falei para ela, enquanto olhava aquela cena tão terna. – Melhor a gente ir e deixar você deitar o menino. – Continuei, me preparando para levantar.
– Imagina. – Ela abanou a cabeça esboçando um sorriso cansado, mas lindo. – A conversa tem sido tão agradável. Eu vou só deitar Henry, e aí você pode me contar mais sobre o seu trabalho. – Ela direcionou de repente o olhar para Giorgio, como se só agora se tivesse dado conta que ele também continuava ali. – Os vossos trabalhos, aliás. – Ela emendou, sem graça.
– Você realmente ainda não reconheceu Regina, non è vero? – Gior lançou divertido, e eu me virei para ele fazendo-lhe sinal para se calar, mas claro que era inútil. – Regina Mills, ragazza! – Ele exclamou, exagerando. – Amore … Visionaire, Vogue, Love … não diz nada a você? – Ele tomou o resto de licor do seu cálice. – Hmm … já trabalhou como barista? Nossa, esse licor é divino! – Ele elogiou, lambendo os lábios, completamente alienado do resto. Eu revirei os olhos, ganhando coragem para encarar Emma que me fitava com ar espantado.
– Você é aquela famosa das revistas de moda? – Ela perguntou incrédula. Eu ergui as mãos no ar, como que me declarando culpada.
– Isso não é nada. – Tentei desvalorizar o assunto, sorrindo, até porque já me tinha apercebido durante o jantar que Emma não admirava nada esse mundo, pelo contrário, quase o menosprezava. – Uma capa de vez em quando, é sobrevalorizado na verdade.
– Eu não tou muito por dentro, mas sei que não é uma capa só de vez em quando … — Ela respondeu, e sua maneira de se dirigir a mim mudara instantaneamente, como se eu passara a ser uma ameaça. – Bem, eu vou deitar Henry, com licença. – E ela simplesmente se levantou com o filho no colo e saiu, nos deixando na sala sozinhos.
– Seu idiota! – Dei um tapa no braço de Gior, o recriminando num cochicho. – Porque você foi falar isso pra ela?
– O que eu fiz agora? – Ele franziu o cenho, confuso. – Ai Regina, você tá parecendo una bambina com seu primeiro amor. – Ele bufou, levantando e pegando na garrafa de licor sobre a mesa para encher o seu cálice de novo.
– Larga isso! – Eu me levantei atrás dele, impedindo-o de encher o cálice com a bebida. – Não seja abusado! Você não viu como ela ficou desconfortável?
– Que exagero mio bene. Você precisa se acalmar. – Ele pousou o cálice na mesa e se tornou a sentar no sofá. – Porque você não vai ter com ela no quarto do menino? – Sugeriu.
– Você não pode tar falando sério! Não acha que já são revelações bombásticas demais para uma noite só? – Arremessei meio desesperada, completamente fora de caráter para mim. – Primeiro você diz pra ela que eu não gosto de homens. – Eu gesticulava nervosamente, tentando manter o tom de voz baixo. – Depois você diz que eu sou uma celebridade, depois de ela afirmar durante o jantar com todas as letras que odiava os famosos e toda a exposição e mexericos que envolviam esse mundo. O que falta mais acontecer? Você tirou a noite pra me ferrar Giorgio? – Levei as mãos aos cabelos, os alisando de forma agitada.
Vi ele acompanhar com o olhar os meus movimentos, sem falar nada, parecendo refletir, ou simplesmente não dando a mínima para mim, quando ele finalmente solta um som que mais pareceu um grunhido e sorri feito um idiota embevecido.
– Não adianta mais negar. – Disse, me fazendo fixá-lo sem entender. – Vá ter com ela no quarto e fale a verdade.
– Que verdade? – Cruzei os braços, começando a ficar brava.
– Que ela é a mulher da sua vida. – Pronunciou como se anunciasse uma profecia.
Suspirei consternada, e simplesmente dei-lhe as costas, indo ao encontro de Emma, no quarto do menino, para tentar me desculpar por tudo.
O apartamento dela não era muito grande, pelo contrário, então depressa me deparei com o quarto. A porta estava entreaberta, e eu me aproximei, espreitando para dentro. Henry estava já deitado na sua caminha, com uma expressão serena no rosto. Emma o olhava, mas eu não conseguia ver bem a sua expressão. Fiquei durante uns segundos num impasse, ponderando se deveria entrar ou não, mas me resolvi, não suportando lidar com a forma como ela tinha deixado o clima entre nós. Não sei o que deu na minha cabeça, e embora ela fosse uma mulher bonita, a verdade é que ela não passava de uma estranha, e eu não deveria me deixar atingir assim por uma pessoa que eu nem conhecia. Mas não sei porquê, algo dentro de mim, me empurrava na sua direção, como se eu precisasse de a conhecer.
– Emma. – Foi quase um sussurro, à entrada do quarto, mas ela me escutou porque virou a cabeça para mim como em um reflexo. – Podemos conversar? – Perguntei baixo.
Ela assentiu com a cabeça em silêncio, se baixou para depositar um beijo na testa do filho, e veio até mim.
– Vamos para o meu quarto. – Ela disse simplesmente, começando a andar assumindo que eu iria acompanhá-la. E ela estava certa, eu assim o fiz.
Ela fechou a porta do quarto assim que eu entrei, e me encarou com ar apreensivo.
– Me desculpe … eu sei que deveria ter falado algo quando você me perguntou do meu trabalho, mas … — Mordi o lábio e agitei levemente a cabeça. – Eu só não queria que você me ..
– Julgasse … – Ela completou o que eu ia dizer. – … sem te conhecer. – Concluiu, me deixando sem palavras.
Eu esbocei um sorriso fraco assentindo com a cabeça apenas.
– Me desculpe você. – Ela tornou a falar, se aproximando do móvel que havia de frente para a cama. – Eu não deveria assumir coisas, nem colocar tudo dentro do mesmo saco. – Vi ela retirar um porta-retrato da gaveta do móvel e olhar demoradamente para a fotografia nele. – Desde que tive Henry, ganhei esse vício de ficar sempre com o pé atrás à mínima mentira ou deslize que eu apanhe de uma pessoa. – Ela levantou o olhar de novo, me fitando com atenção. – E eu não tenho esse direito com você, acabamos de nos conhecer, não somos nada uma da outra. Não tem porquê me contar da sua vida … mas com o passar dos últimos anos se tornou instintivo. Me perdoe. – Ela baixou o olhar de novo para a foto.
Não sabia que falar, mas minhas pernas pareciam saber muito bem o que fazer, porque quando me dei conta já tinha avançado até ela, parando ao seu lado, podendo ver a fotografia do porta-retrato que ela continuava contemplando.
– É o pai de Henry? – Arrisquei perguntar. Ela fez que sim com um maneio de cabeça. – Imagino o quanto deve sentir a falta dele. – Disse, observando o sorriso jovial no rosto do homem da foto.
– Sabe que não? – Ela me surpreendeu com aquela resposta, me fazendo olhar para ela curiosa. – Faz seis anos que ele me deixou sem qualquer explicação. Me deixou um bilhete, você acredita? – Ela me olhou, rindo tristemente com a lembrança. – Dizendo um monte de coisas sem sentido, que não estava preparado, que só ia atrapalhar ainda mais a minha vida com os problemas dele … e sabe … — Ela fez uma pausa, voltando a guardar o porta-retrato na gaveta, e depois regressando com o olhar no meu. – … ele tinha razão. O mais certo era ele atrapalhar mais do que ajudar. – Ela sorriu, mas o seu sorriso não era completamente sincero. Era como uma armadura com que ela se tinha voltado a armar para não se sentir demasiado vulnerável. Me identifiquei um pouco com aquela atitude e sorri de volta.
– Eu sinto muito. – Foi a única coisa que fui capaz de lhe dizer, e fora totalmente verdadeiro.
– Não sinta. – Ela revidou calmamente. – Porque eu estou começando a aprender a não sentir também.
– Isso é passado! – Neal se defendia das minhas acusações. – Emma sabe muito bem que eu era imaturo, um garoto cheio de complicações, metido em negócios ilegais e outras merdas! – Ele se alterou também, aumentando o tom de voz. – Eu fiz um favor a ela!
Eu não queria acreditar na cara de pau daquele sujeito! Como ele poderia se desculpar daquela forma? Se desresponsabilizar daquela maneira e agora, ao fim de praticamente doze anos, querer voltar e pegar Emma e Henry como se fossem uma mercadoria dele?
– Você se esquece que as coisas mudam! Não foram meia dúzia de dias que você andou por aí, sabe-se lá Deus onde, perdido no mundo! – Atirei já aos berros também. – Os sentimentos mudam Mr. Cassidy. – Suspirei, baixando a voz de novo.
– Você até pode ter razão nisso. – Ele baixou também a voz da mesma forma que eu tinha feito. – Mas preferência sexual não muda! E logo você … Toda estudada e famosa desse jeito, atualizada das coisas, vem me dizer que Emma mudou por você! Não seja absurda! – Ele voltou a rir com deboche.
– Eu nem vou discutir esse assunto com você, até porque já vi que é perda de tempo. – Respondi séria, concentrada no que era importante ali. – Então eu vou-lhe dar um aviso. – Me aproximei de novo, um pouco mais dele, francamente em jeito de ameaça. – Se afaste de Emma.
– Ou o quê? – Retribuiu me enfrentando, se aproximando mais ainda. – Sabe qual deve ser o seu verdadeiro problema? – Atirou com um indício de novo sorriso no canto dos lábios. – Aposto que .. – E seu tom baixou mais ainda, mais perto ainda do meu rosto, seu hálito esquentando a minha pele. – … nunca houve um homem que te tivesse pegado direito. – E senti ele me pegando pela cintura com brusquidão, sem que eu conseguisse impedir.
– Seu cafajeste! Me larga seu animal! – Me debati como pude, mas ele me apertou com mais força, roçando a barba pelo meu rosto de um jeito imundo que me deu vontade de vomitar.
– Porque você não pergunta a Emma hein? – Ele dizia com a boca roçando no meu ouvido, me fazendo paralisar e temer o pior. – Pergunta pra ela vai … ela vai te contar como ela sentia falta dos meus beijos que sempre a deixaram louca.
– Cala a boca! – Gritei, nunca desejando mais nada com tanta força na vida como calar a sujeira que ele dizia.
– Custa escutar a verdade é? – Ele continuou, enquanto fungava na base do meu pescoço como um cachorro sarnento. – Que Emma gosta mesmo é de um pau duro dentro dela. Tem ideia do que é isso Vossa Celebridade? – Ele praticamente salivou na minha pele enquanto me puxou uma das mãos e a levou para cima da frente da sua calça, me fazendo sentir o volume que pulsava ali. – Isso … sinta e entenda o quanto isso a fez feliz mais uma vez depois de tantos anos se contentando com simples brinquedos.
Foi a gota de água, eu não consegui enxergar mais nada na minha frente, tomada pela raiva, pelo nojo, pelo sentimento de impotência perante as coisas que ele dizia, eu iria acabar com ele. Ceguei completamente, e naquela roda vida de emoções, eu levantei reflexivamente o joelho e o acertei bem entre as pernas, fazendo na mesma hora ele me largar reclamando da dor e me chamando de todos os nomes possíveis e imagináveis.
– Eu vou acabar com você! – Gritei, fora de mim, investindo contra ele de todas as formas ao meu alcance, decidida a matá-lo se fosse preciso.
Curiosamente, ele não me atacou mais, se limitando a se defender da minha agressão. Aquilo me fez ficar ainda com mais raiva, me fazendo acertar bem no seu olho com um soco certeiro.
– Sua desequilibrada! – Ele exclamou, levando as mãos ao rosto, ainda meio cambaleante.
Meu acesso de fúria pareceu cessar repentinamente quando vi aquela cena. Quando voltei em mim, em choque, fiquei perplexa com a minha própria atitude. Nunca na minha vida adulta havia descido o nível daquela maneira, e ver aquele homem gemendo de dor, mesmo que tivesse sido merecido, por minha causa, me fez recuar até à porta desorientada.
– Regina! – Foi tudo tão rápido. Gior entrando disparado pela porta, me fazendo virar para encará-lo com um olhar perdido, e eu sem saber o que fazer, e ele correndo até mim, me alcançando a mão e me puxando para ele. – Tá tutto cheio de jornalistas lá em baixo! Você precisa sair daqui, andiamo! – E mesmo antes de eu conseguir assimilar o que ele dissera, já estava sendo arrastada para fora do quarto, sendo o sorriso distorcido e triunfante de Neal a última coisa que conseguira ver, segundos antes de me sentir desfalecer nos braços de Giorgio.
*** *** ***
Senti minha testa fria, com algo húmido sendo passado pela minha pele. Lentamente abri os olhos, tentando perceber o que havia acontecido. A imagem de Gior me encarando seriamente foi-se tornando cada vez mais nítida.
– Gior …
– Shiuu … tutto va bene … — Ele sussurrou gentilmente, tentando não me alarmar, enquanto retirava o pano húmido da minha testa, e só aí, eu olhei vagarosamente ao meu redor percebendo estar deitada no sofá do escritório da minha casa.
– O que aconteceu? – Perguntei com a minha cabeça latejando de dor. – Neal … ele … Oh meu Deus! – Me sentei abruptamente no sofá como se tivesse sido atingida por um choque. E tinha, um choque quase mortal de recordações do que tinha acontecido. – O que eu fiz Giorgio?! – Baixei a cabeça, afundando o rosto nas mãos, consternada.
– Você precisa se acalmar Regina. – Ele pediu, me puxando com delicadeza pelos ombros, tentando me endireitar. – Essas suas indisposições não são normais, amor mio. – Ele completou, me fazendo encará-lo sem entender.
– Onde está Emma? Eu preciso falar com ela! – Me levantei de rompante, mas senti um desequilíbrio e só não cai porque Gior me segurou por trás.
– Hey hey! Você primeiro precisa comer algo, se fortalecer, se acalmar. – Ele me fez sentar de novo no sofá. – Mio bene … fidati di me.* — Ele me acariciou a lateral do meu rosto. – Emma ainda não chegou, deve tar presa no trânsito. Escuta … — Ele começou, vendo que eu ia falar novamente, e não deixando. – … você agora precisa descansar, tutto vai ficar bem.
– O que você tá escondendo de mim? – Perguntei, desconfiada. – Você me arrancou às pressas do motel … alguém me viu é isso? – Tentava fazer com que algo fizesse sentido dentro da minha cabeça, mas sinceramente tudo continuava meio confuso. – Oh meu Deus! A imprensa! Me fotografaram? Gior! O que eu vou fazer agora? Já tem algo na internet?
Ele tentou não demonstrar nada, mas estava estampado nos seus olhos o desassossego que ele devia estar sentindo. Ele não respondeu nada, apenas o vi buscar pelo celular no bolso do casaco e acessar algo no aparelho e virá-lo para mim para que eu pudesse ver. A primeira coisa que me chamou a atenção foi o título que deram para o vídeo: Regina Mills agride pai do filho da própria noiva.
Depois, o pior, impossível não levar as mãos à boca completamente abismada com o conteúdo daquele vídeo.
– Gior … — Minha voz sumiu, em choque com as imagens que passavam na minha frente. – Ele … Giorgio … — Olhei para o meu amigo, desviando os olhos daquela cena horrenda que me tinha a mim própria como protagonista.
– Era tutta una trappola.* — Ele disse tristemente, enquanto a gravação continuava e eu me via a mim mesma com Neal, brigando, o socando e agindo feito uma lunática desequilibrada no quarto de motel em Brooklyn.
– Como ele pode fazer isto? – Perguntei desesperada, já sem conseguir evitar que as lágrimas escorressem sem reservas pelo meu rosto. – A essa hora Emma já deve ter visto isso! E Henry? Onde está Henry?
– Ele tá no quarto. Se acalma … ele ainda não viu nada. – Assegurou, mas sem muito efeito porque eu abanei a cabeça incrédula. – Ele ficou assustado, porque me viu chegando com você desacordada, mas eu falei com o motorista na frente dele. Va tutto bene. Il bambino se acalmou um pouco e eu disse que assim que você acordasse, eu o chamaria.
– Henry é um menino esperto e atualizado como todas as crianças da idade dele. – Respondi, sentindo todo o meu corpo tremer. – Se ele não viu ainda, algum torpedo já deve ter recibo de algum amiguinho da escola contando. – Conclui com pesar.
– Não importa mio bene. – Ele me segurou pelas mãos, as apertando, tentando mostrar apoio. – Tudo vai-se resolver. Você vai poder explicar que tudo isso não passou de um mal-entendido.
E eu por momentos acreditei que ele pudesse ter razão, acenando positivamente com a cabeça, tentando me acalmar e pensar num jeito de desfazer esse escândalo, possivelmente o maior de todos os tempos envolvendo a minha pessoa. Mas pior, também as pessoas ao meu redor. Mordi o lábio ansiosa, mas acabei por esboçar um meio sorriso para Gior, que terminou muito antes de se expandir pelos meus lábios com a chegada da pessoa que eu mais temia enfrentar naquele momento, mas também com quem eu mais precisava esclarecer as coisas.
– Como foi capaz? – Foi tudo que saiu da boca de Emma, que se manteve parada como uma estátua à entrada do escritório, me olhando com uma expressão de pura desilusão nos seus olhos esmeralda.
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