Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
16 Encontro
Notas iniciais
Havia marcado às 19h com o Outro, naquele motel em Brooklyn. Não sabia efectivamente se tinha havido uma confirmação da parte dele, já que não estava mais na posse do celular de Emma, e eu só esperava que nesse entretanto ele não tivesse mandado alguma mensagem a ela a respeito do nosso encontro. De qualquer forma, mesmo que isso acontecesse, até seria bom, pois assim pegaria os dois em flagrante. E embora só a simples hipótese disso vir a acontecer me fizesse sentir o estômago às voltas, tudo era melhor do que continuar vivendo naquela incerteza que estava me consumindo aos poucos.
Giorgio concordara em me acompanhar prontamente, e talvez eu fosse mesmo precisar já que tenho a impressão que se eu confirmar as minhas suspeitas, eu certamente precisarei ser carregada no colo para casa. Teria de me mentalizar do pior, sim, era isso, assim seria mais fácil quando eu descobrisse a verdade. Inspirei fundo, olhando as horas no computador. Cinco da tarde.
Peguei no telefone, marcando o número da extensão de Katia.
– Katia, você desmarcou a reunião das seis como eu pedi? – Ela confirmou do outro lado. – Ótimo. Se quiser ir embora mais cedo pode ir. Tenho exigido demais de você ... pensando nisso pedi ao departamento dos Recursos Humanos pra preparar toda a papelada sobre a sua promoção. – Ela agradeceu, muito satisfeita por finalmente as minhas palavras acerca do seu aumento irem se concretizar. – Entretanto, meu amigo Gior deve tar chegando. Peço apenas que o mande entrar antes de ir embora tá bom? – Ela concordou, se despedindo. – Um bom fim-de-semana pra você também. Nos vemos na segunda.
Tornei a olhar as horas: 17h 05. Me levantei da cadeira, e não era como se eu não tivesse coisas para fazer, mas minha cabeça estava doendo de novo, e minha concentração era quase nula. Me dirigi à mesinha ao lado do sofá com duas garrafas de bebida. Escolhi a sidra para me adoçar o gosto ruim que não sei porquê sentia na boca. Enchi o copo, dei um gole grande, e tornei a pousar o copo na mesinha. Peguei a minha pasta, tombada sobre o sofá, e retirei de lá o velho diário que Gior me devolvera, e me sentei, folheando as páginas meio amareladas.
Meus olhos percorreram aleatoriamente algumas linhas escritas com a letra perfeitamente desenhada e arredondada dos meus dezasseis anos, sem parar contudo a atenção em nenhuma em específico. Achava graça às vezes, esboçando um sorriso pequeno com a forma como eu descrevia as intrigas e inimizades criadas com algumas das meninas do colégio. Os namoros e dúvidas de âmbito amoroso também estavam expressas em algumas passagens, e toda aquela pureza e ingenuidade de pensamento me fez rir baixinho. Abanei a cabeça, esticando o braço e pegando no copo de sidra para dar mais um gole. Fechei os olhos, deixando o líquido descer, como se pudesse ser ele o responsável por amenizar o peso irracional contido dentro da minha caixa torácica. Voltei a pousar o copo, abrindo os olhos.
Virei mais umas quantas páginas do diário, até parar numa que claramente havia sido manchada por um líquido qualquer. Aquilo me fez ler aquela passagem na íntegra:
5 de Novembro, 1995
Faz hoje um ano que mamãe morreu. 12 meses, 365 dias. É suficiente certo? Minha cabeça me diz que sim, mas aqui dentro do peito, meu coração não diz o mesmo. Meu coração se sente apático e em choque da mesma forma que se sentiu há um ano atrás. Continua se sentindo incrédulo, como se tudo não passasse de um sonho mau, e eu pudesse acordar, correr para o seu banheiro enorme, onde ela adorava perder horas se arrumando, e voltar a inventar um jeito de pedir emprestado alguma joia dela sem que ela desse conta. Mas agora, que eu não preciso mais tentar pegar alguma coisa dela às escondidas, perdeu a graça. Suas coisas continuam lá … eu pedi para o papai as manter lá, porque eu iria usar. Mas … ela não está mais lá para me ralhar e dizer com aquele ar sério “Regina, não seja abusada!” ou então “Para usar uma joia como essa, primeiro você tem de a merecer.” … E sabe … eu sei que ela dizia essas coisas, eu lembro das frases que ela usava, mas …
Deixei cair uma lágrima sobre a folha, borrando mais ainda o “mas…” do texto, exatamente no mesmo lugar que já tinha um borrão, me fazendo ter agora a certeza que aquelas manchas haviam sido das lágrimas derramadas na altura da escrita, há dezanove anos atrás.
Limpei o rosto com as costas da mão, e tomei mais um gole da sidra. Inspirei fundo, e voltei a ler de onde tinha parado:
… mas eu simplesmente estou começando a me esquecer do timbre da sua voz. É como se eu aos poucos já não conseguisse mais reproduzir a sua voz dentro da minha cabeça. Isso me deixa triste, e culpada. Meu coração continua apático e em choque, mas minha cabeça está se esquecendo. Minha cabeça está enterrando a minha mãe. E eu tenho medo, porque um dia, meu coração vai se continuar sentindo vazio, mas já nem vai saber o porquê. E eu tenho a certeza que nunca vou conseguir deixar alguém entrar dentro dele com a mesma força que ela permanece nele, embora, ele mesmo assim continue vazio.
Afastei os olhos da leitura, e inclinei a cabeça para trás, fechando os olhos mais uma vez. Tentei reproduzir o som da voz dela em silêncio dentro da minha cabeça, mas não consegui. Derramei mais lágrimas, desta vez senti-as escorrendo pela minha face, mais grossas, descendo pelo meu pescoço. E não sei porquê, dei por mim sem mais nem menos tentando reproduzir a voz de Emma dentro da minha cabeça também. Foi instantâneo, escutei-a como se ela estivesse ao meu lado. Aquilo me fez sorrir por entre a cascata de lágrimas que escorriam dos meus olhos.
– Mio bene, eu estava pensand … Regina! – Gior surgiu repentinamente pela porta, e mesmo antes de eu me conseguir recompor, já estava ele do meu lado, me olhando com ar assustado. – O que aconteceu?
Abanei a cabeça, limpando as lágrimas com ambas as mãos e olhei para ele.
– Não foi nada querido. – Apontei o diário sobre o meu colo. – Faz vinte anos que minha mãe morreu. – Disse simplesmente, como se afinal já não fosse nada demais. – Mas parece que foi ontem. – Sorri com nostalgia para ele. – Você ainda lembra dela?
Ele não respondeu logo, desviando por breves instantes o olhar para o diário. Depois, ele sorriu, e tornou a olhar para mim, fixando as suas orbes azuis nas minhas castanhas.
– Eu lembro do olhar dela. Era um olhar por cima sabe? – Ele riu levando a mão aos cabelos, os assentando mais na parte da nuca. – Mas não chegava a ser arrogante. Era um olhar de Regina. – Ele levou a mão ao meu queixo, me elevando ainda mais o olhar. – E sempre que eu olho para o seu olhar, eu lembro do dela, mas com uma diferença. – Enruguei a testa, surpresa.
– Qual?
– O seu é mais dolce. – Ele sorriu, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. – E toda essa dolcezza só aumentou desde que Emma entrou na sua vida. Não perca isso mio bene. – Ele pegou no diário aberto sobre o meu colo e o fechou. – Quer que eu o leve de volta?
– Não. – Eu sorri, negando com a cabeça ao mesmo tempo. – Não quero que leve nada de volta. – Tirei o diário das mãos dele, e o voltei a guardar na pasta. Depois olhei para as horas no relógio de pulso, e bebi o resto da sidra que estava no copo ao meu lado, na mesinha. – Sidra de maçã ou o Johnnie Walker continua sendo seu melhor amigo? – Perguntei a ele, brincando, me referindo à outra garrafa que era de whisky.
– Tá pensando que eu troco minha eterna Regina assim pelo primeiro Johnnie que me aparece pela frente é? – Ele brincou, me puxando para ele, e me apertando contra o seu tronco. – Eu fico com você cara mia. – Me beijou a cabeça rapidamente, afrouxando depois o aperto. – Alguém deve tar sóbrio per guidare, non è vero? E vamos no meu carro. Não acho bom você se expor dessa forma, ainda mais tão perto do matrimonio.
– Você tá acreditando mais do que eu nesse… — Fiz uma careta desanimada. – … matrimonio.
– Ah Regina! Deixa disso! – Ele me empurrou com o braço de leve. – Eu não comprei um presente stupendo pra nada!
Ergui a sobrancelha em indignação com a tamanha cara de pau dele.
– Mas você não comprou o meu diário, você me coagiu a dá-lo a você há quase vinte anos atrás!
– Quem falou em diário? – Ele riu, se levantando e me estendendo a mão. – Vamos mia Regina. Você não vai querer deixar sua linda mulher esperando sozinha tempo demais em casa. – Ele esboçou um sorrisinho repleto de insinuações implícitas.
Abanei a cabeça rindo, e aceitei a sua mão, pegando-a e me levantando.
– Supondo que ela tá em casa e não no motel em Brooklyn. – Fiz uma careta desgostosa, o que me fez ganhar um revirar de olhos de Gior.
– Andiamo! – Ele exclamou impaciente me puxando para fora da sala.
Resolvi concordar em ir no carro de Gior, até porque não estava com cabeça para conduzir, e talvez até o copo cheio de sidra que eu havia bebido sem quase nada no estômago não tivesse sido a melhor opção caso se desse a necessidade de uma paragem repentina na estrada.
Pelas minhas contas, devido ao trânsito aquela hora, talvez fossemos demorar um pouco mais do que meia hora até Brooklyn. Olhei as horas, 18h 20. Expulsei o ar mais retido dentro dos pulmões, e inspirei fundo.
Não conseguia falar nada, fechei os olhos, encostando a cabeça ao banco. Tentava não pensar em nada, mas quanto mais eu tentava, mais cenas me vinham à mente, tais como Emma com aquele homem andando de mãos dadas na rua felizes e com Henry correndo à frente; uma Emma sorridente, mas em que o seu sorriso não era mais dirigido a mim; Emma nua, seu corpo suado em êxtase por debaixo dos lençóis, e o fantasma, aquele homem que eu nunca havia visto pessoalmente, descendo a boca pelo seu corpo devorando tudo ao seu alcance, e descendo mais, Emma gemendo aquele nome, e a boca dele descendo mais, mordendo e chupando cada pedaço da pele branca dela, deixando-a toda vermelha, continuando sempre sem parar até ao …
– Em que tá pensando mio bene? – A voz mansa de Giorgio ao meu lado me fez abrir os olhos lentamente, me fazendo perder, felizmente, todas aquelas imagens horríveis que me assaltavam o cérebro em repugnância.
– No meu pior pesadelo. – Disse fracamente, mordendo o lábio, nervosa.
Ele tirou a mão do volante por segundos, apertando a minha mão com firmeza, para logo depois a largar.
– Trate de pensar nos seus sonhos então. – Respondeu, desvalorizando o que eu dissera. – Os preparativos para o matrimonio como vão? Precisa de ajuda com alguma coisa?
– Você acha que ela pode sentir falta de um homem? – Minha pergunta automaticamente fez ele virar o rosto para me encarar com ar surpreso. – Eu digo … de estar com um homem … intimamente ….
– Sentir falta de um pénis você diz? – Ele perguntou com uma ponta de sarcasmo. – Per Dio Regina! Donde veio essa stupidità agora?
– Não é estupidez. – Revidei na defensiva. – Mas você sabe que eu fui a primeira e única mulher com quem Emma esteve.
– E allora? Eu também fui seu primeiro pénis … — Eu revirei os olhos, fazendo uma careta de reprovação pela forma como ele colocava as coisas. – E espero que o único também. – Ele sorriu levemente, em jeito de brincadeira, mas que não conseguiu arrancar um único sorriso meu.
– Onde você quer chegar afinal? – Atirei começando a ficar irritada.
– Não quero chegar a lugar nenhum mio bene. – Ele suspirou fechando o sorriso. – Se o problema fosse Emma sentir falta de um homem como você receia … — Ele fez uma pausa, verificando no GPS do carro o caminho. – … non creio que ela te continuasse olhando com o desejo que eu presenciei hoje durante o nosso almoço.
Me calei com a resposta dele, sem saber como argumentar, até porque realmente Emma não me havia deixado de procurar sexualmente. Mas sei lá, ela me dissera há anos, quando a gente ainda se estava conhecendo, o quanto aquele homem havia sido importante e que era o homem da vida dela. E ok, tudo bem, eu também não era tão imatura ao ponto de não conseguir distinguir as coisas, e consequentemente, a importância que o Outro sempre iria ter na vida de Emma, mas as mensagens que ele enviara para o celular dela, claramente demonstravam as suas reais intenções, e que não eram, de forma alguma, com interesse apenas na amizade dela, ou mesmo, em estabelecer laços com o filho.
– Continuo escutando você pensar daqui. – Gior tornou a falar, me fazendo encará-lo. – Se você tá tão cismada com a questão do pénis, e como não me parece apropriado eu te oferecer o meu, o mais que eu posso fazer é parar na sexshop mais próxima e comprar …
– Cretino!! – Dei um soco bem forte no ombro dele, o que fez com que ele tivesse de fazer uma manobra com o volante mais perigosa para não correr o risco de bater o carro. – Você é completamente nojento.
– E tu sei incosciente! Sua maluca! – Ele esfregou o ombro com a mão com cara de dor. – Você quer matar a gente?
– Cala a boca e dirige. – Mandei, virando a cara para o vidro.
Ele murmurou um breve e irónico “sì, signora”, e eu me remeti ao silêncio de novo. E como não podia deixar de ser, meus pensamentos mais uma vez tomaram conta de mim, embora desta vez fossem lembranças de um tempo passado, mas que não deixava de ser feliz.
– Você tem certeza que não tem problema em deixar Gior aqui com Henry? – Emma me perguntava preocupada na sala da sua casa em Boston. – Não sei se fico descansada … e se acontece alguma coisa?
– Fique tranquila querida. – Segurei em uma das suas mãos, sorrindo. – Gior pode parecer meio cabeça no ar, mas ele é responsável. Ele sabe o quanto vocês são importantes pra mim pra deixar que algo aconteça.
– Somos? – Ela perguntou mordiscando o lábio com um sorriso de canto. Só depois entendi ao que ela se referia, e então assenti com a cabeça de forma tímida, porque admitir o quanto tudo aquilo estava mexendo comigo não era muito fácil para mim. – Você também tá se tornando cada vez mais importante pra nós. – Confessou, me beijando os lábios sem que eu impedisse.
Permanecemos nos beijando daquela forma durante algum tempo, sentadas no sofá da sala. Seus beijos tinham esse poder inebriante em mim, o de me deixar numa mistura entre o excitada e o apreensiva. Ao mesmo tempo que não suportava pensar na possibilidade de me afastar dela, também temia esse envolvimento tão intenso que estava começando a me deixar completamente sem saída, como nunca outra mulher me havia deixado antes. Acabei soltando um gemido sem querer, e quando me apercebi, me afastei um pouco dela.
– Desculpe. – Disse, pateticamente. – É melhor a gente …
– Fazer isso em outro lugar, eu concordo. – Ela me interrompeu, rindo. – Sabe … Regina … — Ela começou num tom de voz mais baixo, e que me soou extremamente sexy. – Eu não sentia tanto tesão assim há muito tempo. – Ela prendeu o lábio rosado entre os dentes, e desceu o olhar rapidamente pelo meu corpo, o subindo depois de novo, parando na minha boca. – Eu olho pra sua boca e eu não consigo mais não ter vontade de te beijar. – E ela me beijou, e eu permiti, me deixando levar por todo o fogo que eu sentia queimando nela também. – E tá ficando cada vez mais difícil … — Ela continuou, desta vez percorrendo os lábios pela minha face, chegando perto do meu ouvido, onde ela parou com a boca. – … tá cada vez mais difícil olhar o seu corpo com essas roupas e não ter vontade de te ver sem elas. – Fechei os olhos, sentindo meu centro pulsar, me deixando extremamente desconfortável com a provocação dela.
– Emma … — Afastei-a de mim com delicadeza e sorri. – Você tem certeza disso?
Ela enrugou a testa confusa, e se endireitou mais no sofá.
– Eu não tou deslumbrada se é isso que você tá pensando. – Respondeu séria. – Ou melhor … — E ela abriu aquele sorriso transparente e lindo. – … é impossível não ficar deslumbrada por você, mas isso que eu tou sentindo … é real, Regina.
Esbocei um sorriso sincero, radiante pela firmeza com que ela dissera aquilo.
– Mas vocês ainda estão aí? – Gior surgiu na porta da sala, cruzando os braços à frente do peito. – Il ragazzo adormeceu, podem ir descansadas que eu não coloco fogo à casa. – Ele completou sarcasticamente.
– Obrigada Gior! – Emma se levantou rindo, me puxando com ela. – Se comporte hein?
Ele ergueu a sobrancelha com ar superior e com uma cara imensa de deboche.
– Vem aqui per favore. – Ele fez sinal com o dedo para Emma se aproximar, e como se eu não estivesse ali ao pé deles, ele falou para ela. – Quanto a você signorina, veja se não se comporta, porque se depender dessa daí… — E ele apontou para mim, fingindo uma discrição que não existia porque ele estava falando bem na minha frente. – … é bem capaz de ficar na secura pelos próximos mil anos.
– Você realmente é um idiota não? Tá aprendendo com Christina é? – Lancei irritada.
– Não mio bene. – Ele fechou a cara. – É de nascença mesmo. E é Christine.
– Ok ok, vamos embora! – Emma se meteu, me arrastando com ela para o hall de entrada em direção à porta. – Não voltamos tarde!
– Sim, espero que voltem bem cedo. – Ele disse, agora com a cara de deboche de novo. – Esta manhã seria ótimo. E me tragam o café da manhã quando voltarem. – Ele me piscou o olho depois, gesticulando com os lábios um rápido “ti amo” antes de fechar a porta na nossa cara.
Uma vez fora do apartamento, Emma e eu nos olhámos, eu abanei a cabeça, e ela disse divertida:
– Viu só? Eu tenho a bênção do seu amigo. – Estalou um beijo no meu rosto. – Acho que isso é real mesmo. – Ela riu, e eu acabei rindo junto.
– É … acho que é real mesmo querida. – Sussurrei perto do ouvido dela, antes de entrarmos no elevador para irmos jantar fora.
– Chegámos Regina. – A voz de Gior me trouxe de volta a realidade. – É aqui, Motel 6 Brooklyn. – Olhei para onde ele dirigia o olhar, a fachada de um prédio de 5 pisos, bege e laranja. A placa de “Motel 6” fixa no alto. Engoli em seco.
– E se ela estiver lá? – Perguntei, mas a voz não parecia mais a minha de tão distante que soou.
– Quer ir embora?
– Não. – Respondi quase sem respirar. – Eu preciso saber.
– Eu vou com você. – Ele disse, se soltando do cinto de segurança, e se preparando para sair.
– Eu prefiro que fique me esperando aqui. – Peguei na bolsa, coloquei os óculos de sol no rosto, e me preparei para sair, mas antes que o pudesse fazer, ele me segurou pelo braço.
– Se você não voltar dentro de meia hora, eu vou entrar. – Seu semblante estava sério, preocupado.
Assenti com a cabeça, esboçando um sorriso pequeno numa espécie de agradecimento silencioso.
A receção era praticamente do tamanho do meu banheiro, e se podia logo ver as escadas com o vão em metal que davam para os quartos nos pisos superiores. Olhei para o minúsculo balcão em madeira, onde um homem de meia-idade, com um bigode mal aparado, atendia as pessoas que chegavam. Me dirigi a ele, sem tirar os óculos do rosto.
– Por favor, Mr. Cassidy deve estar me esperando no quarto 2. – Disse sem qualquer expressão.
O homem olhou por momentos para o que deviam ser as fichas de registo de pessoas hospedadas ali, e tornou a olhar para mim, com um sorriso composto por dentes amarelados e com péssimo aspecto.
– Ah sim, ele disse pra quando uma mulher bonita chegasse pra deixar subir. É logo no primeiro andar. – Respondeu sorrindo largamente de um jeito que me causou nojo. Soltei um curto e inexpressivo “obrigada”, e me dirigi às escadas, pisando o primeiro degrau, sentindo logo o frio do metal do vão da escada ao percorrê-lo com a palma da mão à medida que subia cada lance de degraus.
Parei ao chegar naquele piso. Haviam apenas três portas, a de frente tinha o número 2 fixo, e então caminhei até lá, apesar de sentir minhas pernas cada vez mais bambas. De qualquer forma, poderia ficar segura quanto a Emma, ela não estava lá, caso contrário o homem da receção não me deixaria subir. Ou isso, ou Emma estaria atrasada. Abanei a cabeça, me desfazendo de tal pensamento. Iria finalmente encarar aquele homem de frente de uma vez por todas. E ele seria obrigado a responder a todas as minhas perguntas daquela história muito mal contada por sinal.
Bati duas vezes na porta. Inspirei fundo e ergui a cabeça bem alto. Senti passos do outro lado, e rapidamente a porta se abriu, o revelando para mim. Um homem moreno, não muito alto, olhos castanhos, bigode e cavanhaque desenhados no rosto de forma descuidada. Ele tinha tomado duche, porque seus cabelos pareciam húmidos, e bagunçados. O sorriso que ele exibira ao abrir a porta, desvanecido por completo pela surpresa ao me ver ali em vez de Emma.
– Eu acho que você se enganou no quarto. – Disse, começando a fechar a porta, mas impedido pela minha mão que a travou. Ele franziu o cenho me percorrendo com o olhar de cima a baixo.
– E eu acho que nós temos muito que conversar Mr. Cassidy. – Respondi, retirando os óculos escuros do rosto.
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