Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
38 Contrato Revelado
Notas iniciais
Giorgio me ligou no final da manhã, pedindo que eu fosse imediatamente ter com ele no hotel onde estava hospedado. Isso só podia significar uma coisa: ele tinha encontrado o contrato.
— Vim o mais rápido que consegui! – disse, assim que ele abriu a porta.
— Vieni dentro! – praticamente me puxou para dentro. – Volete qualcosa da bere?
— O quê? – perguntei, sem apanhar uma única palavra do italiano, mas também não foi necessário já que ele sem esperar uma resposta minha foi logo colocando um drink na minha mão. – O que descobriu é tão grave que vou precisar disto? – indaguei, me referindo à bebida.
— Il contratto si estingue hoje à tarde.
— Como assim, o contrato se extingue?
— Vai acontecer in intervista di hoje. Depois tudo acaba. – respondeu, me passando uma série de folhas rubricadas por Regina.
Passei os olhos rapidamente pelas cláusulas contratuais, inclusive pelo anexo sob o título Acordo N.C. que vinha referido no contrato.
Cláusula Terceira
No seguimento do presente contrato, a primeira contraente concorda em colaborar em regime de sigilo e confidencialidade com a segunda contraente no Acordo N.C. assinado na data constante à assinatura do presente contrato que vigorará até que o êxito daquele Acordo seja atingido e de natureza irrefutável. Mais se acrescenta que no sentido da boa delegação do Acordo, a primeira contraente fica obrigada:
A não informar a ninguém acerca do conteúdo existente no Acordo N.C.
Nem, de fato, da existência deste Acordo, apensado ao presente contrato.
Cláusula Quarta
Não obstante a autorização para exploração da imagem pública da primeira contraente, fica ainda estabelecida autorização à segunda contraente para solicitar à primeira contraente, quando aquela assim entender, cooperação com o plano confidencial acordado no Acordo N.C., referido na cláusula anterior.
— Gior … — me ouvi murmurar, chocada com o que lia. – N.C. …
— Sì, è vero. Neal Cassidy ...
— Será morto hoje. – cortei-o, completando. – Mas como é que ela concordou com isto? – indaguei, percorrendo as linhas do que compunham um autêntico roteiro do que iria acontecer na entrevista de hoje.
O Acordo anexado não passava de um roteiro da entrevista que Gold conduziria em que se previa a invasão do estúdio por Neal descontrolado na tentativa tresloucada de atingir Regina. Era essa a tal explosão de audiência a que Gold se referira. É descrito um momento de tensão e descontrolo no estúdio até que um dos seguranças abate Neal antes que ele seja capaz de magoar alguém.
— Se isto acontecer, Regina será ...
— Complice dell'omicidio. – desta vez foi Gior quem completou a minha frase.
— Não posso acreditar que foi Neal quem matou a filha do Gold. – minha cabeça estava às voltas com aquilo. – Mas mesmo que tenha sido, nada justifica esta .... esta coisa.
— Te l'ho detto já em Seattle. Regina non sta bene....
— É claro que não está bem! – elevei a voz, dando um gole enorme na bebida logo depois. – Ela está mais desequilibrada do que eu pensava.
— Você precisa evitare questo. Regina non pode ser complice di uno assassinato!
— Eu não vou deixar que isso aconteça. – revidei, olhando as horas. – Gior, me faz um favor? – ele assentiu. – Vá buscar Henry na escola e se encontre comigo na mansão.
— Va bene.
*** *** ***
Tentei ligar para Regina, mas o celular só caía na caixa postal. Liguei para a empresa, mas Katia me disse que ela já tinha saído há duas horas atrás. Acelerei com o moto em direção a casa, mas quando estava prestes a chegar, Gior me ligou de novo.
— Scusi, Emma, ma non posso ir buscar a Henry.— senti a tensão na sua voz.
— Que aconteceu?
— Christine mi ha chiamato dicendo che sta em New York. Veio pra parlar di Emily. – falou rápido, agitado. – Non a vedo a duas semana ...— acrescentou, como se sentisse necessidade de justificar.
— Oh Gior, claro que sim! Seja o que for que tenha dado naquele teste, ela é sua filha! Nada vai mudar isso. Vá ter com Christine! Talvez ela queira entrar num acordo com você. – incentivei-o, até porque ele praticamente abandonou os seus problemas para vir me ajudar com os meus; era o mínimo que eu podia dizer.
— E Henry?
— Eu vou buscá-lo, não se preocupe. Vá!
— Grazie, bella!
Estava parada com a moto a alguns metros de distância da mansão e já conseguia ver a movimentação em torno dos portões, do lado de fora. Uma série de carrinhas com o símbolo da Companhia Gold estava estacionada no local e uma afluência cada vez maior de transeuntes parava para olhar o que se passava. Alguns repórteres também cercavam os portões. Inverti o sentido da marcha e dirigi até à escola. Como ainda não estava na hora de Henry sair procurei a sala onde ele estava tendo aula para pedir que o liberassem. Se a directora daquela escola já não suportava nem a Regina nem a mim, provavelmente agora não iria nem se dar ao trabalho de disfarçar, mas era uma questão de vida ou de morte. Literalmente.
Assim que me indicaram a sala, corri para lá, bati à porta, me desculpando que era uma emergência familiar, o que não deixava de ser verdade, e saí com Henry pela mão, assustado.
— Aconteceu alguma coisa com a mãe? – perguntou, assim que saímos pelos portões.
— Não filho, foi só uma desculpa. – respondi, tranquilizando-o. – E saiba que não se deve mentir, hein? – ele assentiu nervoso. – Olha, vim te buscar mais cedo porque sua mãe vai dar aquela grande entrevista e eu tenho de impedir. – fui falando à medida que me inclinava para lhe colocar o capacete sobressalente que tinha da moto. – Não fica preocupado, meu amor. – pedi, reparando que ele mantinha o ar de assustado. – Está tudo bem, só que eu não podia te deixar esperando na escola quando batesse o sinal, não é?
— Porque tem de impedir a entrevista? A mãe vive falando que vai ser bom pra nós, que todas as coisas ruins que têm falado da nossa família vão acabar graças a essa entrevista. – seu semblante demonstrava confusão e ansiedade.
— É complicado. – me endireitei, colocando o meu capacete. – Mas tenho razões pra acreditar que aquele homem, sabe? Mr. Gold. – assentiu, atento. – Pois é, acredito que ele a está enganando. Confia em mim, garoto. Vamos!
Ele concordou, não fazendo mais perguntas, e me deixando ajudá-lo a montar comigo na moto. Assim que foi possível arranquei, com cuidado, e me dirigi devagar para casa. Por alguns segundos foi inevitável não recordar Regina naquele momento.
“Tinha chegado cedo a casa naquele dia, entusiasmada como uma autêntica criança com o seu brinquedo novo. Minha felicidade ficou completa ao ver o Mercedes no pátio, indicando que Regina também já tinha chegado.
— Uma moto!! – escutei o grito empolgado vindo do alto. Olhando para cima vi Henry na janela do seu quarto acenando com um enorme sorriso no rosto sardento. – É sua, mamãe?! Eu quero andar com você!
Ele desapareceu da janela no minuto seguinte. Instantes depois reapareceu vindo da porta, correndo na minha direção. Eu sorri para ele, o abraçando, não o tempo que eu gostaria já que ele se soltou demasiado rápido para ficar admirando a moto. Logo depois vi Regina, maravilhosa num dos seus fatos de treino que marcavam a sua silhueta de maneira perfeita, me dando a entender que ela devia estar malhando.
— Miss Swan! – exclamou, autoritária, caminhando na minha direção. – Me diz que isso não é o que eu tou vendo.
— Tá bom. – mordi o interior da bochecha feito molequa que apronta. – Não é o que você tá vendo.
— Você comprou uma moto?! – apontou para a Harley-Davidson modelo street novinha em folha.
— Não é linda? – perguntei, passando a mão por aquela maravilha. Henry já tinha tratado de pegar o capacete atrás e o colocado na cabeça para desespero de Regina.
— O que você pensa que está fazendo, mocinho? Tire imediatamente isso da cabeça! – ordenou, acabando com a nossa festa. – Onde você tinha a cabeça, Emma? Uma moto?! Por amor de Deus!
— O que tem demais? Dá o maior jeito no trânsito. – justifiquei, tirando o capacete e o pousando no assento. – Além disso mal posso esperar pra te ver montando nela. – confessei em voz baixa junto ao seu ouvido.
— Não pense que isso vai me convencer. – estava inflexível, toda séria, cruzando os braços. – Não posso fazer nada a respeito de você andar nisso, mas pode ter a certeza que nem eu, nem Henry vamos chegar sequer perto dessa coisa!
— Mãe! – reclamou imediatamente o nosso garoto. – Eu queria dar uma volta com a mamãe. – choramingou.
— É perigoso, nem pensar. – revidou, conclusiva. – E quanto a você, senhorita, — virou-se para mim, perigosamente perto, antes de murmurar: – eu pensaria muito seriamente em qual das duas «lindas» você prefere montar!
— Regina! – exclamei, chocada. – Não pode tar falando sério! – contestei, mas ela já tinha virado costas, levando Henry pelo braço, contrariado.”
Acabei sorrindo com a recordação, mais uma de entre tantas outras que me deixavam com um sentimento enorme de saudade. Saudade do jeito de mandona, da postura altiva, por vezes com aquele nariz bem delineado quase tão empinado quanto aquela bunda deliciosa. Saudade da gente resolver aquelas pequenas rusgas sem importância debaixo dos lençóis. Saudades do nosso núcleo familiar, da coesão e da cumplicidade que nos unia de forma extraordinária cada vez que nos reencontrávamos após mais um dia da mesma rotina. Meu peito explodia de tanta saudade de uma vida que eu julguei que estava assegurada. Pois a verdade é que nada está. Talvez o meu erro foi achar que as rusgas do dia-a-dia, as quezílias de ora a ora e os contratempos pudessem se dissipar por completo depois de uma noite de amor. Talvez o meu erro tenha sido precisamente esse ... achar que o amor era interveniente a solo numa banda em que o vocalista se acha autosuficiente sem, contudo, perceber que faz parte de um conjunto para que a música se perpetue no tempo.
*** *** ***
Depois de me esquivar dos repórteres como pude, entrei com Henry pelos fundos. Subi com ele até ao quarto e pedi para ele ficar ali, o que não foi nada fácil, não fosse ele meu filho. De seguida revistei a casa numa busca desenfreada por Regina, não a encontrando em lado nenhum. Tentei o celular novamente, mas continuava desligado. Fui até ao nosso quarto pela terceira vez e com surpresa vi-a de relance entrando no banheiro.
— Regina. – chamei, fechando com cuidado a porta do quarto. Logo depois ela reapareceu na entrada do banheiro.
— Você sempre veio. – um sorriso ansioso desenhou-se sobre os seus lábios vermelhos. Ela veio ao meu encontro em passos curtos, mas rápidos e simétricos, e quando finalmente chegou ao pé de mim inclinou o peito ligeiramente e me abraçou. O abraço me apanhou de surpresa, mas como um reflexo os meus braços simplesmente rodearam o seu tronco abraçando-a de volta.
— Você não pode dar essa entrevista. – assim que estas palavras sairam da minha boca senti o seu corpo enrijecer e ela cortando o contacto.
— Não comece, Emma! – afastou-se, voltando a sua atenção para o espelho da cómoda. – Já falámos sobre isso.
— Não, não falámos, — cortei, olhando o seu reflexo no espelho. – até porque isso é uma coisa que a gente não faz há tempos.
— Você veio aqui pra brigar? – girou nos calcanhares me enfrentando com a cara fechada. – Porque se veio pra isso eu prefiro que se retire.
— Regina, me escuta dois minutos! – pedi, tentando por tudo ter paciência. Ela olhou o relógio, me pressionando. – Eu sei que algo de muito errado vai acontecer hoje, eu sei do que se trata esse contrato. – vi-a empalidecer em segundos. – Por isso te peço, ainda dá tempo ...
— Você continua preocupada com ele? – atirou, sem aviso, me deixando confusa.
— Do que tá falando?
— Cassidy. – cuspiu. – Ele é um assassino. Não vê que a culpa de tudo isto é dele? – abanei a cabeça, impressionada com a cegueira dela.
— Regina, — me aproximei, segurando-a pelos braços. – amor, pensa comigo. – o nome carinhoso pareceu desarmá-la por instantes porque o seu olhar amaciou. – Se ele matou mesmo a filha de Gold porquê armar esse circo todo? Fazer você parte disso? Gold não precisa de você pra vingar a morte de ninguém. Além disso ele me disse que você foi a culpada pela morte da filha dele, — suas pupilas ampliaram visivelmente pela revelação. – o que quer dizer que algo não bate certo nessa história. São demasiadas pontas soltas, não acha?
— O que está dizendo? Isso ... – enrugou a testa, confusa. – ... isso não faz sentido nenhum. Eu nunca sequer conheci a filha dele.
— Exato! Por não fazer sentido é que você tem de parar com isto. – reforcei, deslizando as mãos pelos seus braços. – Cancela isso. Gold, onde ele tá?
Ela recuou, apreensiva. Logo depois ouvimos uma batida na porta seguido de uma voz chamando Regina. Seus olhos se fixaram nos meus antes de ela responder com extrema convicção.
— Desço em 5 minutos.
— Não faz isso. – murmurei, quase numa súplica. – Não sabemos o que pode acontecer se você der essa entrevista.
— Eu vou desmascarar esse traste na frente das próprias cameras dele! – foi ela quem se aproximou de mim desta vez, me segurando as mãos. – Não vou fugir feito uma menina assustada. E pode acreditar que se o objetivo dele é me prejudicar então ele vai ter de prestar contas com os meus advogados na justiça!
— Mas você tá de cúmplice nesse plano de homicídio! – tentei chamá-la à razão mais uma vez.
— Fui coagida, oras! – esboçou um sorriso triufante. – Emma, querida, não se preocupe. Eu sei o que tou fazendo. Isso acaba hoje. – sem me deixar falar novamente, pegou a bolsa e saiu rapidamente do quarto.
— Não ... – fui atrás dela, vendo-a descendo as escadas. – ... teimosa de um raio! – no entanto antes que pudesse apanhá-la, escutei a voz de Henry logo atrás.
— Mãe! O que tá acontecendo?
— Volta pro quarto Henry.
— Não, eu vou com você. – respondeu, descendo atrás de mim.
— Hey hey! – parei à sua frente não o deixando avançar mais. – Vá lá, garoto. Não piora as coisas. – Peguei nele contra a sua vontade, o que foi difícil porque ele não parava de se debater e subi novamente até ao quarto dele. – Promete que fica aqui.
— Não prometo nada. – cruzou os braços, bravo. – Tou farto que me tratem como um bebé. Eu quero ajudar!
— Seu cabeça-dura, como pode ser tão parecido com Regina?! – desabafei, nervosa. Passei as mãos pelos cabelos, tentando raciocinar. Contudo, antes de pensar em alguma coisa o meu celular tocou. – Gior? – atendi, reconhecendo o nome do italiano no visor. – O quê? Fala mais devagar, não tou entendendo nada. Regina o quê?
— Regina morirà! Ele vai matá-la!— escutei-o aos solavancos, em pânico, do outro lado da linha. A chamada pareceu cair, restando apenas o sinal da linha e o som da minha voz desesperada no vazio:
— Gior?!! Gior?
Nada, apenas o vazio, o vácuo. Quase dava para sentir o odor da morte. Corri.
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