Eu, Ela, Nosso Filho e o Outro
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Notas iniciais
O clima entre mim e Emma estava dos piores depois de mais um desentendimento como seria de esperar. Como se não bastasse, Gior também estava lidando comigo de forma demasiado cordial e distante, como se receasse que eu fosse explodir a qualquer momento. De qualquer das formas, isso não fez com que o planejado para aquela viagem se modificasse. Emma tinha vindo me acompanhar à clínica para uma primeira consulta enquanto Henry ficara com Giuseppina em casa de Gior.
A viagem de carro, conduzida por Edward, o nosso motorista, decorreu no silêncio mais incomodativo e mórbido de que eu me lembro ter passado em décadas. Emma apenas me dirigia a palavra quando extremamente necessário, e no carro, enquanto estávamos indo para a clínica, ela teve o cuidado de manter as distâncias sem sequer ter encostado em mim uma única vez. E ok … estava doendo. Essa porra de distância não faz diminuir mesmo o sofrimento. Suspirei tristemente, encarando a rua pelo vidro do carro.
– Senhoritas … chegámos. – Edward informou assim que senti o carro parando.
– Obrigada Ed. – Respondeu Emma, logo destrancando a porta e saindo pelo seu lado. Estava tão absorta na minha enorme culpa e infelicidade que nem notei que ela tinha dado a volta ao carro para me abrir a porta.
– Vem. – Ela me estendeu a mão, pela primeira vez criando a possibilidade do toque entre nós. – Quanto mais depressa entrarmos, menos risco há de alguém nos ver. – Disse séria, mas não havia qualquer demonstração de emoção nem no seu tom de voz nem na sua expressão facial.
Concordei com a cabeça em silêncio e aceitei a sua mão, saindo do carro. Vislumbrei brevemente a fachada do edifício alto e sorri de canto ao ler “Emily's Medical Clinic” em letras coloridas, nas cores do arco-íris, por cima das portas de entrada em vidro fosco da clínica.
Assim que pisamos lá dentro, os saltos em madeira das minhas botas Coque Terra, a primeira marca de calçado português que havia adquirido nos últimos meses, entoaram no chão flutuante me surpreendendo por nunca ter visto uma instituição médica com aquele tipo de chão. Não parecia estarmos entrando num espaço para aqueles fins, mas sim numa sala de estar ou mesmo num quartinho de visitas. As paredes não eram brancas, apenas aquelas que ficavam por trás dos vários guichés de atendimento, o que fazia com que se destacassem em relação aos outros espaços, facilitando assim o mais intuitivo reconhecimento por partes dos utentes. Por outro lado, cada um dos espaços, designados para as várias especialidades, tinha uma cor diferente, com quadros pendurados nas paredes. Algumas salas pareciam ter dispendiosas obras de arte como decoração, outras, pelo contrário, tinham a arte mais pura e valiosa de todas penduradas nas paredes de tom colorido: desenhos feitos por crianças.
Definitivamente não era um lugar onde um doente se sentiria doente. Era como um género de centro de artes e lazer complementado numa clínica médica, mas parecendo ao primeiro olhar que esta última era a menos relevante.
– Vai querer que eu entre com você? – A voz de Emma soou ao meu lado, me despertando do meu estado de contemplação ao local. – Estão te chamando já. – Apontou com a cabeça para uma moça com traços orientais que me chamava com um sorriso no rosto.
– Não, querida. – Respondi, esboçando um sorriso pequeno. – Entro sozinha desta vez, obrigada. – Ela assentiu em silêncio e se inclinou para me beijar o rosto. E foi aquele simples toque, dos seus lábios macios, num contato muito mais breve do que uma brisa de verão, que me fez sentir com a capacidade de enfrentar tudo o que viesse pela frente a partir daquele momento.
Continuei sorrindo para ela, na esperança de ter um sorriso de volta, e ele veio, finalmente, enfeitando seu rosto tão mais delicado quando um sorriso cruzava os seus lábios rosados. Sem que eu esperasse, ela então me lançou uma piscada rápida, e de forma discreta gesticulou com os lábios um “estou aqui” que com certeza me deu a força que faltava para avançar na direção da moça que me esperava para a consulta.
– Meu nome é Mieko Sato. – A moça se apresentou sem deixar de exibir o seu sorriso branco e amável. Ela estava com uma prancheta no braço que espiou antes de se voltar a dirigir a mim. – Regina Mills, certo? – Assenti com a cabeça. – Por favor me acompanhe. Dr. Ferraz está a esperando.
– Gior? – Indaguei em voz baixa, mais para mim do que para ela, que ao que parecia, não me tinha escutado. Mas não fazia ideia que era Giorgio que iria-me consultar. Sem saber muito bem porquê, me senti na mesma hora demasiado ansiosa.
– É aqui. – Ela parou a poucos centímetros de uma porta alaranjada com letras talhadas de forma rústica na madeira onde se podia ler “Dr. Giorgio Ferraz – Neurologia”. – Eu trabalho diretamente com o Dr. Ferraz, então caso precise de alguma coisa, é só falar. – Informou, gentil. Bateu à porta, logo a abrindo numa fresta anunciando a minha chegada.
Mieko Sato me deu passagem e se despediu, me deixando entrar.
– Seja bem-vinda ao meu consultório. – Ele sorriu, sem se levantar de onde estava, atrás da sua mesa. – Per favore, siediti. – Pediu e eu fiz o que ele me disse, me sentando na cadeira incrivelmente confortável à sua frente. – Então … conheceu a minha assistente? Molto bella, non è vero? – Perguntou, desviando o olhar para algumas fichas sobre a mesa. Notei que ele não me encarava por mais de três segundos seguidos, e pude comprovar que não era somente eu que estava ansiosa.
– Sim, é uma mulher muito bonita. – Confirmei e acrescentei tentando quebrar aquele clima meio estranho que havia-se instalado entre nós desde a revelação dele sobre o meu pai. – Aposto que é requisito seu … ser bonito para poder trabalhar com você.
Ele subiu o olhar até ao meu e riu. Um riso verdadeiro e melodioso.
– Come stai mio amore? – Perguntou sorrindo, deixando as fichas de lado.
– Não muito bem. – Fui sincera, já era hora de deixar as aparências de lado. – Me desculpa Gior … eu não sei …
– Va tutto bene. Eu também não tinha o direito de esconder … — Ele pigarreou, deixando o assunto morrer repentinamente nos seus lábios finos. – Não vamos falar sobre isso agora, può essere?
Concordei com a cabeça, e acho que naquela hora, os dois selámos esse acordo em silêncio, o de só tocar naquele assunto novamente quando eu estivesse pronta.
– Trouxe os seus exames antigos como eu pedi? – Ele perguntou, assumindo ali a postura firme e impessoal de médico que era necessária.
Em vez de lhe responder, retirei um envelope em tom crepe da pasta que trazia comigo e entreguei na sua mão. Vi ele passar a vista rapidamente por cada um deles, apenas exames de rotina anteriores: sangue, urina, electrocardiograma, mamografia, e uma ou outra ecografia pedida em algum momento passado para eliminar possíveis suspeitas de algo mais grave.
– Vou pedir novas colheitas de sangue e urina. – Informou calmamente, deixando os exames de lado, e começando a escrever no computador. – Um novo electrocardiograma apenas porque esse que me trouxe já tem mais de cinco anos. – Continuou falando pausadamente sem desviar a atenção do computador. – Vou pedir um exame de EEG e …
– Gior …
– Um eletroencefalograma. – Esclareceu, desviando o olhar para mim. – Não se preocupe, o procedimento é indolor. É um exame para vermos como estão as suas ondas cerebrais. – Ele sorriu de forma tranquilizadora e continuou com a sua voz calma. – Vou pedir que te dêem apenas algumas indicações sobre os cuidados de preparação antes de fazer o exame.
A minha cara devia estar muito cómica ou estranha porque ele soltou um riso curto e balançou a cabeça levemente, pegando depois na minha mão sobre a mesa.
– Mio bene, não faça essa cara. É o procedimento habitual. Couro cabeludo limpo, sem lacas, cremes, essas coisas …. E non tou insinuando que você tenha a cabeça suja! – Ele tentou brincar, mas eu sei bem que aquilo que estava prestes a acontecer não era de forma alguma uma brincadeira. Engoli em seco e acenei positivamente com a cabeça. Ele apertou a minha mão e a soltou para continuar escrevendo no computador.
– Me fale mais dos sintomas. – Perguntou, parando por um segundo de escrever para me olhar. – Dores de cabeça difíceis de suportar que levam ao desmaio. Que mais Regina?
– Tonturas. – Respondi e só aí me dei conta que a minha voz estava levemente trémula. Ele fingiu não notar e desviou a atenção de novo para o computador. – Houve uma vez que senti perda de visão … — Confessei em voz baixa, e ele continuou escrevendo sem dizer nada. – A comida às vezes também parece que não tem paladar, mas acho que deve ser falta de apetite mesmo … você sabe, o trabalho, o stress lá na empresa pode ser extremamente alto.
Ele olhou para mim e esboçou um sorriso pequeno, murmurando um baixo “hm hm” e continuou escrevendo. Confesso que o som dos dedos dele batendo contra o teclado já estava entoando forte na minha cabeça.
– Molto bene. – Parou com aquele som irritante do teclado e me encarou. – Você tá tomando alguma coisa?
– Às vezes tomo uns comprimidos para a dor de cabeça. – Vi ele enrugar a testa num rasgo de segundo e logo depois me pedir o nome do medicamento. Não sabia o nome de cor, então tirei as pílulas da bolsa e lhe entreguei uma caixa delas. Ele não disse nada, apenas pareceu anotar o nome do medicamento juntamente com as outras coisas que havia escrito.
– Com que regularidade anda tomando isso?
– Ah Gior, eu sei lá! Às vezes. – Dei de ombros, já cansada daquilo.
– A partir de agora não vai tomar mais. Vou prescrever um outro medicamento mais indicado para você que vai ajudar com as dores de cabeça. – Ele fez qualquer coisa no computador e logo depois uma receita saiu impressa da impressora. Me entregou o papel para levantamento do medicamento, e eu agradeci, guardando-o na bolsa.
– Vou pedir que faça também uma TAC e uma ressonância magnética para espiarmos esse seu cérebro chato. – Acrescentou, tornando a digitar no computador.
– Eu não vou fazer isso tudo agora, certo? – Perguntei, reprimindo a vontade de esfregar a têmpora que quase parecia estalar com a ondulação da dor no meu cérebro chato como ele mesmo apelidara.
– Claro que não, mio bene. – Ele riu. – Amanhã. Você precisa estar em jejum para os exames de sangue e era bom que tivesse uma noite tranquila antes de passar por tudo isso. Entretanto se puder se segurar no consumo de cafeína era ótimo. – Ele me passou uma série de folhas com a indicação de preparação para cada exame.
– Você vai mesmo me arrumar uma doença com tanto exame não vai? – Perguntei com ironia folhenado as páginas com as indicações de praxe.
– Regina. – Sua voz adquiriu uma seriedade que era difícil reconhecer nele, pelo menos quando se tratava do seu lado pessoal. – Não brigue tanto com quem só quer o seu bem, ok? — Ele sorriu com meiguice, me fazendo apenas ter de concordar com a cabeça.
O som de alguém batendo na porta fez com que a nossa atenção fosse desviada.
– Dr. Ferraz … — Era Mieko, a moça simpática com ascendência oriental que me recebera tão gentilmente. – Sua ex-mulher está aqui.
– O que ela quer agora? – Gior ficou claramente alterado e nervoso. – Já não é o suficiente ficar fazendo essa vita di perua às minhas custas? Diga a ela pra voltar outra hora e que eu vou pegar a mia figlia hoje mesmo para passar il resto da semana con me.
– Sim, mas é que … — Mieko Sato ficou um pouco sem jeito, provavelmente sem saber se deveria continuar falando na minha frente. Gior franziu o cenho, gesticulando com a mão para que ela falasse de uma vez. – Ela tá arrumando um barraco na receção com um dos seus pacientes do programa de carenciados exigindo que a consulta seja cobrada … – Revelou em voz baixa.
– Sanguisuga disgustosa! – Praguejou Giorgio se levantando apressado quase espumando de raiva. – Me desculpa Regina, eu já volto. – Disse, saindo atrás de Mieko.
Fiquei sozinha no consultório, e só nesse momento me dei conta do quanto estava tensa. Esfreguei os ombros com a mão, tentando desfazer um dos nós no ínico da coluna que a mantinha dura. Girei um pouco a cabeça, de um lado para o outro, e encostei-a pesadamente ao encosto da robusta cadeira. Inspirei fundo e meu olhar atravessou por breves instantes a extremidade da mesa, no lado oposto onde estava o computador, reconhecendo algumas fichas possivelmente de outros pacientes, dispostas umas sobre as outras. Espiei a porta por uns segundos, e retomei a atenção para as fichas, mordendo o lábio, na tentação de bisbilhotar o historial de doenças que outros pacientes que Gior tratava poderiam ter. Será que algum teria uma doença terminal? Será que os sintomas eram semelhantes aos meus? Será que algum deles teria já falecido? Olhei de novo na direção da porta, e me levantei, contornando a mesa até ao lado da cadeira de Giorgio. Peguei na pasta fina em cima de todas as outras, em cor marrom, e assim que meus olhos percorreram as primeiras palavras escritas em uma caligrafia meio apagada, meu sangue gelou e eu tive de me sentar na cadeira onde antes Gior havia estado sentado.
Paciente: Cora Isabel Ledford Mills
Não queria acreditar naquilo, pousei a pasta no colo e vi que minhas mãos tremiam. Como é que Gior havia conseguido a ficha clínica da minha mãe? Mas se ele havia arrumado um jeito de pegar a ficha dela, com certeza era a confirmação das minhas suspeitas: ele achava que eu podia ter a doença dela. Olhei a data quase apagada por baixo do seu nome – “1993/94” – e fechei os olhos com a lembrança daqueles anos que acabaram por ser os últimos dela. Inspirei fundo, e não, eu não ia sucumbir ao choro, em vez disso, abriria os olhos e veria pela primeira vez o que levara exatamente à sua morte. Era uma coisa no cérebro, provavelmente um tumor qualquer, faltava descobrir qual. Com os exames que eu iria fazer se fosse confirmado que era o mesmo que minha mãe tivera, então eu não teria mais dúvidas, eu iria acabar por morrer nos próximos meses.
Abri a pasta e olhei a ficha amarelada de papel lá dentro, percorrendo os olhos por cada palavra escrita em letra de médico. Claramente Giorgio não seguira essa mania que médico tem de escrever rabiscos praticamente ilegíveis. Apertei os olhos e tentei descodificar as coisas que estavam escritas pelo médico que acompanhara a minha mãe.
Data de nascimento: 16/10/1956
Historial clínico: Alterações de comportamento e descoordenação progressivas (início de convulsões em Julho/93), com várias semanas de duração. Massa dentro do crânio, região posterior, compressão no cerebelo e no tronco encefálico c/ expansão p/ canal vertebral da C1 obtida através da realização de TAC em Nov/93. Imagem tomográfica compatível com um meningioma (> 4cm) de difícil acesso, apresentando comportamento maligno.
Tratamento: retirada parcial do meningioma, incorporação de terapia hormonal e realização de RM a cada 3 meses.
– Oh meu Deus … — Fechei a pasta, limpando o rosto amaldiçoadamente já molhado pelas lágrimas insistentes que pareciam agora fazer parte da minha vida. – Deus! Eu não quero morrer. – Rapidamente parecia que os tremores antes não tão intensos haviam-se apoderado totalmente de mim, porque deixei de conseguir segurar aquela simples e leve pasta nas mãos, deixando-a cair sobre a mesa com aflição.
– Regina, perdonami. Eu tava vendo que ia ser preciso um guindaste pra tirá-la daqui. – Era Gior entrando de repente, o que me fez saltar no lugar com o susto. – Mio bene …
– Eu tenho o mesmo que ela, é isso? – Perguntei, me levantando e indo até ele num misto de raiva e tristeza. – Aquela coisa! – Segurei na pasta com a mão ainda tremendo, jogando contra o peito dele. – O menioma ou que raios era aquilo que a matou! Eu vou morrer também igual a ela? Vou deixar Emma … e … — Estava cada vez mais difícil conseguir falar porque a minha voz toda embolou igual a um novelo de lã ensopado. – … e vou … Henry … igual ela fez comigo!
– Regina, per favore … vamos conversar. Não faz bem você ficar assim.
– Chega de mentiras! – Gritei, tentando impedir que ele me segurasse, mas sem êxito já que ele era mais forte do que eu, e eu estava completamente desabando. – Gior … — Derramei mais lágrimas, desta vez na camisa dele, molhando-a toda. – … eu não quero morrer. – Choraminguei, e tenho uma consciência absurda que deveria estar parecendo uma criança de cinco anos.
– Hey hey! – Exclamou me segurando a nuca como se eu fosse um bebezinho em seu colo que ele precisasse ninar. – Quem falou que você vai morrer? Se acalma mia Regina. Viene, senta aqui. – Ele me levou até ao divan em pele do outro lado da sala.
– Me fala a verdade. – Pedi, parando de chorar, esfregando a cara. – Eu tenho o mesmo que matou a minha mãe?
– Mio amore, veja bem, eu non tou mentindo. – Ele puxou uma cadeira e se sentou de frente para mim. – É impossível saber o que você tem antes do resultado dos exames.
– Mas você pediu pra ter acesso ao caso dela, então … — Me acalmei, tentando racionalizar. – … isso quer dizer que você acha que é a mesma coisa não é?
Ele passou as mãos pelo meu rosto, colocando algumas mechas dos meus cabelos atrás das minhas orelhas e me encarou com atenção sem desviar os olhos de mim.
– La verità é que eu não sei. – Disse sério, de forma firme. – Não estou mentindo pra você. Eu pedi pra consultar o caso clínico da sua mãe porque quero estar preparado pro que for. Assim como eu consulto diariamente todos os outros casos a fim de aprender e melhorar a minha intervenção na área dos procedimentos neurológicos e da neurocirurgia. – Ele deixou cair as mãos do meu rosto e me segurou pelas mãos, as apertando com força. – Eu não quero errar. Eu não vou errar com você, Regina. – Seus olhos brilhavam ardentemente enquanto ele falava. – Eu não vou errar, perché ti amo demais pra permitir que sua felicidade acabe tão cedo. Você fica …
– Gior …
– Promete.
– O quê? – Abanei a cabeça sem entender afinal o que ele queria que eu prometesse.
– Promete que virá amanhã fazer os exames. Que fará tutto direitinho. – Ele não baixou o olhar uma só vez dos meus olhos, e era quase doloroso ver o quanto ele tentava se segurar para não derramar uma só lágrima. – Não vai-se opor aos cuidados das pessoas que gostam de você. Que non si oppone ao trattamento se necessario. Promete.
Abanei a cabeça de cima para baixo, mordendo o lábio inferior, tentando também não tornar a chorar. Ele tinha razão, eu só tinha razões para seguir em frente, com pessoas tão maravilhosas como eu tinha ao meu lado para me apoiar. Eu só precisava cooperar.
– Eu prometo. – Sussurrei com a voz estremecida. Ele sorriu, e uma lágrima silenciosa, apenas uma, escorreu para fora dos seus olhos azuís luminosos. Ele me beijou os lábios com ternura e eu pude sentir o sal daquela lágrima solitária que desaguou junto aos nossos lábios selados.
Ele se afastou ligeiramente, passou novamente a mão pelo meu rosto, numa carícia leve como uma brisa quente de verão, e sorriu abertamente.
– Emma veio me perguntar se era indicado ter uma notte speciale com você hoje. – Arqueei a sobrancelha, surpreendida pela mudança brusca de assunto. – Então, se ela te convidar pra um jantar especial faça un favore a nós dois e aceite. – Ele me piscou o olho e se levantou. – Eu cuido de Henry, hm?!
Acabei rindo, e de forma inexplicável acabei também por me sentir mais leve. O riso cessou, mas eu continuei sorrindo para ele.
– Tá certo. Obrigada, querido. – Disse enfim, me levantando e beijando-lhe o rosto, antes de sair da sua sala completamente restabelecida.
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