Eternidade — Um Conto da Terra-Média

9 Primeiro Interlúdio: O Mensageiro (Parte 2)


Notas iniciais
Olá! Seguimos com nosso capítulo semanal, que continua no teor da semana passada, mostrando algo um pouco diferente dos primeiros seis capítulos. Garanto, entretanto, que logo voltaremos à normalidade! Espero que gostem.

Livro Negro do Mensageiro: Segunda Parte

i

Que as forças do bem impeçam que olhares curiosos recaiam sobre estas linhas.

As profundezas das masmorras dos homens fedem como os estábulos que temos no Templo.

Cavalgar até aqui, à frente da Coluna, foi certamente exaustivo, mas a administração dos elixires permitiu que seguíssemos adiante sem maior impedimento. E então, já sob o abrigo da fortaleza de Ulfang, recebi do próprio Governador as informações necessárias sobre os prisioneiros.

As histórias dizem que um suposto Mago visitou estas terras sucessivas vezes, apregoando suas teorias sobre o retorno de um Senhor do Escuro e conclamando os povos à guerra contra suas forças malditas. Aproveitando-se do terror gerado entre o populacho pelos constantes ataques dos Uruks Negros, lançou mão de discursos absurdos e de mentiras das mais descaradas para unir sob sua bandeira toda sorte de sujeito: de um lado, os inocentes, capazes de ouvir suas lorotas e acreditar em sua veracidade; de outro, os aproveitadores, desejosos de uma desculpa para se levantar contra a ordem estabelecida e sabotar os esforços de união levados a cabo com tanto esforço por nós.

Acreditamos, entretanto, que além desses dois tipos de marionete, haja também um terceiro: o dos homens que servem ativamente ao falso profeta, recebendo suas ordens e atuando em seu favor para instaurar o caos e atacar as próprias bases da cidade.

Desconhecemos ainda seus intentos com tal operação subversiva, mas é meu dever interrogar os prisioneiros e me certificar da separação correta dessas três espécies.

Os calabouços abrigam hoje sete homens adultos, quatro velhos — um deles com sua senhora — e uma jovem donzela. Há também um pequeno, ainda impúbere. Todos de traços orientais e agudos, os cabelos escuros e longos descendo em longas tranças por suas costas. De maneira um tanto singular, é justamente a mulher que parece mais traiçoeira, com seus olhos aquilinos e seu jeito de raposa.

Impaciente diante dos crimes a mim enunciados, percebo ainda a urgência da situação. Novas rebeliões a esta altura poderiam arruinar o esforço de décadas para unir o Leste sob uma única bandeira. O caso exige de mim a mais absoluta força de caráter, a maior das fidelidades ao Ancião e ao transcendente. Somente meu apego à causa da iluminação permitirá que arranque de meu seio a compaixão que ainda o assombra, para que assim possa fazer o que é necessário. Não posso permitir que a doença se alastre.

Afinal, as almas amedrontadas jamais escaparão do círculo de eterna purificação.

Inflexível, não me dirijo de imediato aos adultos. Ao contrário, ordeno que me tragam primeiro a criança — filho de nossa prisioneira. Aos berros de espanto da mãe, mostro a todos que não haverá misericórdia: arranco-lhe logo três dedos da mão direita, e alerto que os outros dois os seguirão se não obtiver as respostas de que preciso.

ii

Nos dias de outrora, o Ancião encontrou-se sozinho. Seus mestres partiram, seus irmãos pereceram. Já não havia laço de amizade ou de família que o prendesse a este mundo.

Ainda assim, desejoso de compreender o erro de seus velhos senhores, partiu em peregrinação. E cruzou então todos os cantos de Arda, que é o mundo, e viu os problemas dos homens, das mulheres e dos pequenos. Resolveu-os então um a um, curando os enfermos, enriquecendo os pobres, apoderando os injustiçados. Vasculhou a natureza dos homens, dos elfos, dos anões e de outros povos que já não constam nas histórias do Leste, e também dos Uruk, dos Trolls e mesmo aos dragões conheceu como nenhum homem antes havia conhecido. Porém em todo lugar partia como havia chegado, desvanecendo sem que percebessem.

Foi então que, ao conhecer uma estranha serpente, soube das lendas sobre o que se havia perdido no Norte distante. “O tesouro ainda está lá, enterrado sob a neve”, disse-lhe a criatura. Cavalgou então o Ancião por trinta dias e trinta noites, até chegar a Forochel, onde o gelo nunca derrete e o inverno é perpétuo. Com a ajuda dos estranhos homens conhecidos como “lossoth”, dirigiu-se ao lago e, após dez dias e dez noites de tentativas fadadas ao fracasso, pensou que havia sido enganado.

Viu então a aurora boreal, e uma voz desceu dos céus e o disse para que não desistisse. Retornou então no décimo primeiro amanhecer, e no décimo segundo, e no décimo terceiro; mas sua luta parecia-lhe estéril.

Soube então que um pequeno dragão havia arrasado um povoado próximo. Chamou-lhe um dos nortenhos: “Mestre, uma chuva de fogo e sangue cai em Sûri-kylä e arrasa nossas casas e nossas colheitas; ajuda-nos, pois sei que és o enviado para guiar-nos pelo caminho."

Dirigiu-se o Ancião ao vilarejo, e lançou sua magia sobre o dragão. O gelo e as águas aprisionaram a besta, e então ele se aproximou de sua cabeça e disse: “Tu que fostes feito para lançar as chamas sobre o mundo, ajuda-me a arrancar do gelo o tesouro que procuro. Obedece-me e eu o tornarei livre novamente.”

O dragão concordou, e o Ancião o soltou e o guiou ao lago congelado. E a criatura soprou seu fogo sobre as águas, e o gelo derreteu e uma densa neblina se apoderou de toda Forochel.

Desceu então o homem às profundezas das águas, que ainda ferviam; e, lançando suas mãos sobre o navio naufragado, arrancou de suas entranhas o tesouro que procurava. Exultante, emergiu com a pedra sobre a cabeça e gritou em glória aos céus por três vezes.

O dragão então perguntou-lhe: “Sou agora livre, mestre?”, ao que respondeu: “Digo que és livre, e o chamo agora Calendel, o Terror de Esmeralda; e digo para que te lances ao Leste, onde encontrarás casa e abrigo nas montanhas que abrigam os injustos senhores dos anões, imersos em sua ganância. Tu os colocará a teus pés e os mostrará a ira dos céus por terem se negado a escutar minha mensagem, e os punirá por terem castigado os Profetas.”

Pois os anões o tinham renegado, e o expulsaram aos apedrejos.

Calendel o obedeceu, se lançando aos céus e voando na direção do Sol Nascente. E o Ancião então retornou à caverna que tomara como lar, e lançou seus olhos sobre a Pedra de Annúminas, que é um dos Oito, a que chamam no Oeste palantíri.

E quando olhou, um outro olhou de volta, e o contou sobre o que havia forjado nos dias de outrora.

Notas finais
Por hoje é só! Espero que tenha gostado. Se tiver algo a dizer, por favor, comente!