Eternidade — Um Conto da Terra-Média

10 Capítulo 7: Os Dias de Outrora


Notas iniciais
Olá! Graças ao bloqueio das rodovias, nosso capítulo semanal chega um pouco atrasado. (Mentira, eu voltei exausto do trabalho e desmaiei mesmo.) Seja como for, iniciamos aqui o segundo arco de nossa jornada. Espero que seja do agrado de todos!

— Que pode me dizer sobre o outro lado do Mar, senhor Mago?

A voz do homem ecoou pelo vale, espantando alguns poucos corvos que repousavam sobre uma árvore seca.

Hador e Alatar seguiam a caminhada já há algumas horas, se afastando do lar da besta Calendel. A terra vermelha já era, pouco a pouco, substituída por areia de mesmo tom; o vento os castigava ao seguir em sentido contrário, forçando-os a prosseguir com passos difíceis. Mesmo Huan parecia já um tanto cansado, mas o Mago insistia em ganhar tantas léguas quanto fosse possível antes que a noite caísse. A pergunta de seu companheiro o perturbou por um momento.

— O que eu disse a Calendel não deveria ter chegado aos teus ouvidos, meu jovem — afirma. Cessa então seu caminhar e olha em volta, avistando algumas pedras escuras que se erguiam da areia. Devagar, caminha naquela direção e, acendendo o cachimbo, se senta. — Mas imagino que seja, já, tarde demais para voltar atrás. Ouvistes mais do que era adequado, mas agora que sabes tanto, é bom que saiba de tudo: caso falhe na minha missão, será adequado que possas voltar e falar abertamente a Gandalf sobre o que aconteceu.

A resposta de Alatar não era exatamente honesta. Ele certamente não deveria revelar tal informação a um homem que conhecera há pouco tempo, mas já estava cansado e Hador era a primeira companhia amistosa em décadas. Coração endurecido, aprendia a questionar as orientações que havia seguido como dogmas por tantos milênios. A verdade é que precisava conversar sobre aquilo.

— De “tudo”, senhor? O que quer dizer?

Com um sorriso cansado, Alatar se volta para o poente — para o Oeste — e suspira.

— Tudo, rapaz. Desde o início de nosso problema aqui. Sugiro que se sente: isso levará algum tempo, e não seguiremos a jornada por hoje.

***

Prosseguirei contando a você, caro leitor, a história que Alatar revelou a Hador, fazendo com que compreenda seu trágico passado e a jornada que separa nosso primeiro capítulo — e a reunião dos Istari — do cenário onde o reencontramos, solitário e ranzinza, pregando para ouvidos moucos em um deserto de areias vermelhas.

Retornamos, assim, aos idos de outrora, vários milênios atrás, muito antes mesmo dos tempos do referido primeiro capítulo. Retornamos para antes mesmo dos dias dos homens, quando as terras do Leste ainda não haviam sequer visto os elfos — pois eles ainda não haviam despertado. Nenhum dos Filhos de Eru vagava sobre este mundo — estamos, portanto, antes mesmo da Primeira Era, ainda nos Anos das Árvores. Ao leitor desatento ou leigo, esclareço: os Anos do Sol tiveram início sete mil anos atrás, e estamos ainda antes disso — antes do Sol ou da Lua, quando as estrelas eram jovens. Chega a ser difícil explicar exatamente em que momento nossa narrativa toma forma, mas, por enquanto, basta que saibam o que vos disse.

Se os elfos ainda não caminhavam sobre as terras que tu conheces como “Terra-Média”, já havia os animais, as árvores, os bosques, os rios. E havia também as criaturas caídas, corrompidas pelo poder do Inimigo.

Mas, se há caça, deve haver também caçador. E para isso existia Oromë, uma das maiores criaturas de toda a Existência, abaixo apenas de uns poucos de sua raça e do próprio Criador.

Diferente de seus irmãos — ainda reclusos em seus castelos além do Mar —, o Senhor da Caça vagava justamente por essas terras que hoje conhecemos genericamente como “O Leste”, cavalgando sobre Nahar e com o cão Huan — não o que conhecemos nos capítulos anteriores, mas aquele ao qual Alatar homenageou ao nomeá-lo — a seu lado. Suas flechas abatiam mesmo a mais veloz das criaturas, e sua ira era temida até mesmo pelo pior dos demônios; pois sua natureza era, de certa forma, divina, superior à dos elfos, dos homens, dos anões ou de qualquer outra criatura orgânica que viria a existir. Estava acordado, assim como seus irmãos e companheiros, desde antes mesmo de a Criação tomar forma: Oromë era mais velho do que o próprio mundo.

Com ele, vagavam pelo Leste também duas figuras, cujos nomes não seriam lembrados pelas lendas e poemas — ao menos, não sobre aqueles que foram escritos em honra a estes dias. Com vestes azuladas, esses dois amigos eram também hábeis caçadores e fiéis discípulos daquele senhor. Eram, também, seres de natureza semelhante à dele, mas muito menores em poder e importância.

O primeiro era justamente o nosso Alatar, já acompanhado de seu cão, que era ainda um filhote; o segundo era Pallando, encimado por seu gavião. Eram desde então, e em verdade desde antes, amigos e companheiros não só um do outro, mas também de seu mestre.

— A hora derradeira se aproxima, senhor — afirma Pallando, observando os arredores. — Suspeito que já tenha chegado.

Oromë meneia a cabeça.

— O despertar não será senão o início dessa canção.

Eles seguem a jornada na direção de um bosque próximo. As luzes dos vagalumes se erguem na escuridão para guiá-los pelos meandros das árvores. É o gavião que parte à frente, e depois retorna ao braço de Pallando para avisá-los do que encontrou.

— Ainda não compreendo, senhor — diz Alatar. — Qual seria nosso papel em tudo isso?

Conforme os três seguem a ave, a escuridão se acentua. Tudo o que podiam ouvir era o riacho correndo, e o uivo distante dos lobos. O brilho dos vaga-lumes se confunde com o das estrelas, e o canto dos pássaros se une à sinfonia dos rios. Não demora, entretanto, para que algumas vozes se ergam do escuro.

Do cimo de uma colina, caro leitor, digo Oromë, Alatar e Pallando vislumbram uma dúzia de casais de longos cabelos e peles alvas, tão perfeitos quanto a sua mente é capaz de imaginar. Altos e delgados, tinham vestes claras e simples, e suas feições eram ainda doces e inocentes. Riam e cantavam à beira do lago, tão felizes e belos quanto anjos. Borboletas pousam entre seus dedos e animais dóceis se aproximam com curiosidade, procurando em seu cheiro pista do que sejam.

O caçador sorri e olha para seus aprendizes com satisfação.

— Nosso papel nisso tudo, meu amigo, é guiá-los e lutar contra as trevas até o último dos dias deste mundo. É tudo o que o Um, e também eu, pedimos de vós.

***

Em simultâneo, ocorria outra cena do outro lado do mar. Este relato em específico Alatar ouviu de Pallando, e Pallando ouviu de Curumo ainda nos dias de outrora.

Tratamos aqui justamente daquele que um dia se tornaria o Mago Branco conhecido entre os homens como Saruman. Era ainda, então, um ser de natureza muito semelhante à de nossos dois amigos. Seu mestre, entretanto, não era o bravo Oromë — senhor da caça, cuja fúria era temida mesmo por Morgoth, que era então o maior dos demônios —, mas sim Aulë, o grande ferreiro, que havia criado os anões (embora, como os elfos e os homens, eles ainda aguardassem o momento de seu despertar).

Curumo aprendia com seu mestre os segredos das chamas e dos metais. Seus martelos, entretanto, hoje batiam com certa displicência. Seus olhares eram agora fugidios, e o caminhar pelas forjas era apressado e instável. Trocavam poucas palavras monossilábicas e alguns poucos gestos. Aquilo se estenderia ainda por horas a fio, conforme espadas e armaduras eram erigidas da massa amorfa. O mestre, entretanto, parecia se dedicar a um trabalho especial, no qual não clamava pelo auxílio do aprendiz — que apenas observava, com atenção curiosa e fugaz, seus movimentos.

Finalmente, Curumo tomaria coragem para abordar a questão que os assolava:

— Senhor, quanto a Mairon… — afirma, cessando os movimentos de seu martelo. — Espero que saiba que não houve, da sua parte, falta ou culpa alguma no destino que ele escolheu para si.

O ferreiro continuou seus golpes contra um pequeno e estranho objeto circular, o observando com olhos atentos. Permaneceu em silêncio por longos minutos antes de responder o aprendiz, e mesmo quando o fez não o encarou de frente.

— Não busco consolo em palavras amigas, Curumo. Posso ser incapaz de guiar os pensamentos e as vontades daqueles que servem sob a minha proteção, mas não deves diminuir minhas falhas para aplacar minha mágoa. Eu errei ao não observar com atenção os vícios e as palavras do teu amigo, e assim o deixei vulnerável às mentiras das trevas.

Curumo se aproxima.

— Mesmo que o senhor se atentasse a tudo isso, mesmo que buscasse recuperá-lo antes… ele poderia sucumbir igualmente. O Um não falhou com Melkor, e ainda assim…

— Ainda que o destino fosse inescapável, minha falha não seria redimida. É nosso dever realizar todos os feitos que estiverem a nosso alcance para combater o mal, mesmo que fracassemos. A virtude não existe apenas na vitória.

O discípulo assentiu, mas a dúvida ainda pairava. As palavras do professor ecoaram em sua mente.

— Eu… compreendo. Mas não devo permitir que se assole tão profundamente! É necessário que permaneçamos unidos, meu senhor, vez que agora temos ainda mais um adversário a enfrentar.

Aulë meneou a cabeça, lançando um último golpe de seu martelo ao pequeno objeto que criava.

— Paciência, Curumo. Os ânimos hão de arrefecer, e então compreenderemos o que o destino nos guarda. Por hora, é justo que te concentres em não falhar como ele falhou. Deixe-me a sós com as forjas, e elas consolarão meus sentimentos e permitirão que compreenda o que devo fazer.

O discípulo, mais uma vez, assentiu com obediência. E, embora jamais tenha contado a Pallando, naquele momento soube que a semente da desconfiança havia sido plantada no coração de seu senhor. Que a traição de Mairon jamais permitiria que contasse todos os seus segredos a um de seus aprendizes novamente, e que por isso escondia o assunto de seu ininterrupto trabalho neste dia. Assim, frustrado, se recolheu, ainda pensando nas palavras que havia ouvido.

Afinal, Mairon havia caído diante das mentiras do demônio Morgoth, se tornando seu aprendiz; um dia, seria seu sucessor. Seu pecado fora o fascínio pela perfeição que o conduziu à negação do livre-arbítrio dos Filhos de Eru. Todos deveriam se curvar perante a sua vontade.

Mairon, com a prisão de seu novo mestre, se tornaria Eras mais tarde o novo Senhor do Escuro. E seu nome seria então Sauron.

Notas finais
Espero que tenha gostado! Os próximos capítulos prosseguirão com alguns flashbacks. Será a chance de conhecer o Curumo e o Pallando um pouco melhor. Caso tenha algo a dizer, deixe seu comentário. Até quinta!