Eternidade — Um Conto da Terra-Média
2 Capítulo 1 — Os Istari
Notas iniciais
O Oeste, alguns milênios atrás
Nossos olhares subitamente se movem para ocasião muito distante da que vos narrei a princípio. Afastamo-nos não só no espaço — das pradarias de Rhûn, no Leste, para as proximidades do Reino de Gondor —, mas também no tempo: o momento que cá teus olhos contemplam está situado milênios antes da marcha do solitário Alatar — cuja única companhia seria o espírito de seu velho amigo.
Os intérpretes desta cena de nossa trama, entretanto, não são tão distintos. Estamos, afinal, em criptas ocultas não muito distantes de Isengard — cujas muradas negras ainda não se tornaram o lar daquele que, entre os homens, seria conhecido como Saruman. Estas catacumbas, no entanto, acolhem as reuniões de seu conselho desde que os Cinco Magos chegaram a este mundo.
Elas estão situadas em um lugar vívido, cercado pelo verde abundante dos bosques e afortunado pela presença próxima de cursos d’água que descem das montanhas ao lago; se as compararmos ao Leste desolado, é fácil presumir que estas terras receberam uma maior atenção do Criador — embora, é claro, isto possa ser apenas uma recompensa ao caráter de seus homens.
Nestes salões de pedra erigidos pela magia dos Cinco, apenas a luz das tochas alocadas nas paredes pode iluminar seus semblantes graves e envelhecidos. A escavação é irregular, e a olhos desatentos poderia soar grosseira: um bom Anão veria naquelas estruturas uma verdadeira heresia às tradições de seus antepassados, metidos em túneis há quase tanto tempo quanto os Elfos vivem sob este céu. Em contrapartida, no entanto, a mesa situada ao centro — que recebe suas figuras trajadas em robes de cores diversas — é bela e polida, feita da mais pura obsidiana. Seu brilho negro exibe o reflexo das faces dos interlocutores, cujos olhos parecem ainda mais cansados quando banhados por tais matizes.
— Meus irmãos — enuncia o sujeito vestido de branco, com o olhar austero percorrendo a mesa. Dono de barba e cabelos longos, guardava a mão emagrecida sobre um comprido cajado escuro apoiado no chão. Sua postura denuncia sua autoridade e seu orgulho. — Peço que não atribuam a este conclave importância maior do que a necessária. Convoco-os não por emergência, mas para que iniciemos nossa missão com o rumo adequado.
Do outro lado da mesa, nosso já conhecido Alatar, de barba grisalha e baixa estatura — mas imensa coragem —, sorri. Seu robe azul recai sobre uma postura que, então, era ainda impecável; sua mão repousa, no colo, sobre um cajado levemente mais claro, dono de detalhes em prata e coroado por um orbe das cores do céu. Ao contrário dos demais, é uma figura um tanto irreverente e de humor instável.
— Nossas missões já possuem a necessária retitude, Curumo — rebate. — Não entendo o motivo de perturbar-nos com uma última reunião. Tua atitude atrasa nossos rumos e nos mantém longe dos verdadeiros afazeres.
Pallando, vestido em cores similares, mas muito mais alto, observa o amigo com reprovação. Seu respeito pelo Mago Branco é profundo, mas não ousa tomar a palavra.
— Acalma-te, filho de Oromë — a voz que retumba agora é a de um homem de semblante calmo e sábios olhos glaucos. Seu robe é cinzento e seu cajado simples, de madeira retorcida. Sua barba longa e grisalha chega ao peito. — Estou certo de que há uma boa razão para que estejamos aqui; mesmo que se decepcione com ela, o desrespeito não convém a este Conselho.
Curumo, o líder, observa o autor destas últimas palavras com um estranho tom de reprovação — mesmo que seja por elas favorecido.
— De fato, há um motivo para que estejamos aqui — afirma, resoluto. — Cada um de nós aportou nestas sofridas terras sob a direção de um único propósito: impedir o retorno do Senhor do Escuro, e, portanto, guiar estas criaturas rumo à Luz. O faremos, é claro, de maneiras distintas: cada um de nós recebeu d’O Um dons singulares, e estes dons devem ser utilizados com prudência para que conquistemos a vitória diante das potestades das Trevas. A mim recai a liderança e a articulação com os reinos dos homens; Olórin será feito peregrino; Aiwendil será o mensageiro e batedor, responsável por ouvir as vozes desta terra e notificar-nos.
A quinta figura, de aparência desleixada e robe marrom, parece despertar para os rumos do colóquio apenas ao ouvir o próprio nome. Seus dedos tremem sobre um cajado de tom rústico, feito de estranha e retorcida madeira: entre seus nodos rasteja uma pequena larva.
— Perfeito, perfeito — diz, como se forçasse seus lábios a emitir alguma contribuição ao raciocínio de seus pares.
Os olhos do Branco demonstram desprezo pela atitude do Marrom; e então recaem sobre Alatar, que ousou desafiá-lo.
— Quanto a vós, Alatar, rumará ao Leste, terras tão malditas pela ação de seus homens. E Pallando será seu companheiro. Estou certo de que teus olhos estão acostumados a tais habitações, posto que Oromë por lá vagou por milênios ininterruptos. O dom da caça há de abençoá-los, e serão capazes da mais traiçoeira e arriscada das tarefas: atacar o Senhor do Escuro pela retaguarda, em seu próprio território, e assim diminuir as forças do Leste para que jamais superem a aliança que reuniremos.
Alatar meneia a cabeça, impaciente.
— Não tome as palavras dos Valar para fingir que as ordens do Abençoado são tuas, Curumo. Tais tarefas nos foram dadas antes que partíssemos de Valinor.
— Sim, mas estou certo de que teu fado não foi dito aos demais; isto vale também para Olórin e Aiwendil. É necessário, entretanto, que tu saibas do destino deles, e eles do teu, vez que os milênios se assomarão sobre nós, e um dia um de vós poderá retornar em busca de auxílio.
Os demais fazem um instante de silêncio.
— Está bem — Pallando finalmente ergue sua própria voz. — E o que mais tem para nos dizer?
O Branco suspira, erguendo as mãos como se reconhecesse que já era hora de revelar suas intenções.
— Preciso tratar sobre os Anéis. — Suas palavras são o suficiente para atrair toda a atenção dos demais. — Acredito que todos conheçam a história. A lenda sobre os Anéis do Poder nos conta sobre vinte deles: três para os Elfos, sete aos Anões, nove sob o poder dos homens e um para o Senhor do Escuro.
— Em seu escuro trono — complementa Aiwendil, intrometido.
— Que seja. Fato é que, dos vinte, os Nove caíram sob o poder de Mordor e Três pertencem às forças da Luz. Restam oito: os Sete e o que pertenceu ao próprio Sauron. — Curumo coloca as mãos sobre a mesa, observando a face de cada um dos presentes com cuidado. — A missão a mim legada por nossos senhores inclui, além do que pontuei antes, o estudo sobre o feitio dos Anéis e seus segredos obscuros. Por este exato motivo, em adição ao que foi atribuído a cada um de vós, peço que busquem localizá-los... antes que seja tarde.
Alatar aperta os olhos, desconfiado.
— E o que pretende fazer com eles, Curumo? — Sua pergunta é direta como um golpe de espada. — Compreende o poder dessas coisas? A forma como corrompem mentes e almas? O destino cruel que acompanha cada um de seus portadores? O que pensa que aconteceria se um de nós se tornasse aliado das Trevas?
Curumo fecha os olhos, respirando fundo e buscando em seu íntimo a fleuma que parece faltar.
— Suas perguntas são... razoáveis, Alatar. No entanto, por mais que suas ressalvas sejam dignas de atenção, não podemos arriscar que os anéis retornem ao poder de Sauron... ou de algo como ele.
Pallando franze o cenho ao ouvir tais dizeres, e se aproxima da mesa com olhar desconfiado.
— Algo como ele? O que quer dizer?
— Não somos os únicos de nossa espécie a vagar pela Terra-Média, Pallando. — As palavras do Mago Branco são graves. — Meu senhor disse-me estar certo de que as bestas flamejantes de Morgoth ainda vagam, escondidas nas profundezas e nos mais sombrios dos recantos deste mundo. Embora não reconheçam a autoridade do Senhor do Escuro, sua ameaça adormecida é também digna de nosso temor e cuidado. Devo avisá-los que seria tolice enfrentar sozinho uma dessas criaturas: as que restaram não serão abatidas com a facilidade de outrora.
Um silêncio sombrio se ergue entre a Ordem. A inquietude paira sob a percepção de que tais figuras não estariam extintas — mas, como o próprio Sauron, aguardariam nas profundezas, caladas e adormecidas, esperando o momento de lançar suas sombras sobre os reinos dos homens.
— Os mais sombrios recantos deste mundo, você diz? — Alatar novamente ergue a voz. — Imagino que se refira...
— Dentre outros lugares, ao Leste, sim — confirma Curumo. — Para onde partirei com vocês.
Os Magos Azuis se entreolham por um breve instante.
— Pensei que tua tarefa fosse outra — interpõe Pallando.
— O é. Mas terei milênios para que a desempenhe com perfeição, e isto exige atenção imediata. — Sua voz exibe a firmeza inflexível de decisões que não são reconsideradas. — A questão dos Balrogs muito me aflige. Seria sábio não os despertar, mas a ideia de que Sauron o faça e os traga para seu lado... penso que o correto seria caçá-los enquanto é tempo, enquanto ainda se escondem e temos números e tempo para fazê-lo. Três de nós devem ser o suficiente.
Mais uma dose de silêncio toma a reunião. Eles não haviam sido enviados para lutar diretamente contra as forças das trevas; as considerações do Mago Branco, no entanto, pareciam irrefutáveis. Permitir que os Balrogs se unissem a Sauron seria um movimento suicida; além disso, homens, anões e elfos não poderiam matá-los — ao menos não os que sobreviveram aos dias antigos.
— Está certo de que quer correr este risco, Curumo? És o mais importante dentre nós. Talvez fosse mais sábio enviar um dos demais. — A voz de Pallando soa cuidadosa, como se evitasse dar a suas palavras ares de insulto.
O Mago Branco sorri, estimando os esforços daquele que via como subordinado.
— Estou certo, meu amigo. Do contrário, os estaria enviando como porcos para o abate.
Os Istari — seres enviados a este mundo para guiar as criaturas mortais desta terra — se encaram, e sua reunião segue para um inevitável fim: é a primeira e última vez que estarão reunidos desta forma. Suas missões irão guiá-los para rumos distintos, e quatro jamais retornarão ao lar. Afinal, como dizem as histórias de nossos tempos, somente um deles sobreviveria para concluir sua tarefa.
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