Eternidade — Um Conto da Terra-Média
3 Capítulo 2 — Ouvidos Moucos
Notas iniciais
O cavalo segue sob a égide de um entardecer sombrio, adentrando os meandros de uma cidade de pedra e barro. Encurvado sobre a montaria, Alatar permanece atento, conforme seus olhos azuis recaem sobre os distintos moradores daquele lugar maldito.
Os edifícios são antigos, o marrom de suas paredes puído pelo tempo. Sua arquitetura é rústica e muito particular. Olhos desatentos poderiam não fazer diferença entre o material das construções e o próprio solo: tudo parece compartilhar uma única cor, dando a impressão de que toda a urbe foi escavada do chão, e não erigida sobre ele. Não há telhados em parte alguma, vez que a chuva não os assola; por outro lado, é comum que os edifícios se aloquem uns sobre os outros, cada vez mais altos e precários — como audaciosas Torres de Babel —, de modo que as escadas de mão são até mais numerosas que as ruas. No geral, tudo passa a percepção de que se trata de um imenso formigueiro humano, com seus inumeráveis cidadãos vagando por todos os lados — e para cima e para baixo.
Estes cidadãos não são amistosos com nosso amigo Alatar — tampouco trazem a mais agradável das visões.
Antes vos disse que o Leste era assolado por maldições diversas: o clima hostil, as guerras, a fome, a natureza ímpia dos homens. Isto, é claro, se reflete em suas sociedades. Aqui as pessoas não costumam confiar umas nas outras, e todos tentam levar vantagem sempre. A riqueza e o poder são mantidos com avareza, jamais dispostos com benevolência: os mandatários do lugar veem os que pedem ajuda como parasitas incapazes de alcançar a grandeza por esforço próprio. Assim, provocam nos outros nada melhor do que a inveja — inveja que, por vezes, se expressa nos roubos, nos assassinatos e em outras expressões de rebeldia. A escassez de recursos faz com que todos deem valor demasiado aos próprios bens, e até mesmo o vizinho de anos é encarado com desconfiança: todos podem querer roubar o que é teu.
Alatar visita este e muitos outros lugares similares há séculos. Já é velho conhecido deste povo, mas isso não se traduz em amizade: a maioria o encara com desprezo ou medo. Conforme ele segue pelas ruas, há quem cuspa em seu caminho e há quem se esconda de seus olhos.
— Rato de Gondor — explica uma mulher a um jovem rapaz, mesmo que ele já tenha ouvido as mesmas palavras muitas vezes. — Veio pra mentir, pra nos dividir. Tudo pra fazer com que nos dominem mais fácil. Quer nos afastar de nossos aliados e de nossos libertadores para proteger seu amado povo em suas malditas muralhas brancas... acha que nos engana com sua língua de cobra!
O mago desmonta e caminha lentamente a uma taverna, ignorando a placa de “FECHADO”. A sineta toca quando ele abre a porta. Do outro lado de um salão sujo, um anão o encara de trás do balcão.
— Ora, se não é o conspirador do Oeste! — diz, um sorriso irônico no rosto. — Ainda interessado em me levar à falência, Mago? Já disse que não quero ser visto com tipos como o seu. Saia daqui antes que os outros voltem a me evitar.
Alatar ignora as palavras do sujeito e, apoiado em seu cajado, caminha até o balcão, tomando um assento.
— É bom te ver de novo também, Mîm. Gostaria de hidromel e fumo, se não for pedir demais.
O anão o olha com antipatia, meneando a cabeça.
— Pedir demais... como se já não estivesse acabando com o meu negócio... — Apesar de praguejar, ele obedece, servindo uma caneca de bebida e buscando na despensa erva de fumo.
Alatar começa a beber enquanto analisa o lugar.
— Fechado a essa hora... é atípico, até mesmo para você. Não diga que a idade enfim o alcançou.
— Bem que você gostaria, não é? — responde o Anão, ainda revirando suas prateleiras. — Anões são fortes e robustos, e minha linhagem não é tão frágil quanto daqueles outros que você deve ter conhecido no Oeste. Não espere ver fios brancos na minha barba antes de meu ducentésimo aniversário. — Ele enfim traz a erva, jogando-a sobre o balcão. — Você, ao contrário, está cada dia mais parecido com um cadáver.
Alatar termina de beber, puxando o cachimbo de um dos bolsos e começando a encher de fumo.
— Acho que já era hora, não é? Começo a sentir que já vivi mais do que deveria. — Suas palavras são verdadeiras, embora guardem muito mais do que um mero anão poderia imaginar. — Mas ainda tenho deveres a cumprir.
Mîm meneia a cabeça novamente, mostrando indignação.
— Ainda insiste em suas maluquices, uh? Nunca vi alguém tão cabeça dura em toda minha vida.
— Ideais verdadeiros sobrevivem ao tempo e às chacotas dos homens, meu caro. Talvez devesse experimentá-los algum dia.
— E acompanhá-lo em suas pregações alucinadas sobre a volta das sombras, os sinais dos céus e o veneno no vinho dos homens do Sul? Agradeço o conselho, mas estou bem como estou.
O mago aperta os olhos.
— Os Orcs marcham novamente sobre Mordor. As figuras de outrora voltaram a vagar, no Leste ou no Oeste. Os Elfos fogem pelo mar. Um suposto Necromante foi visto em Dol Guldur e cada criatura desta terra está mostrando medo, percebendo a instabilidade do clima ou armazenando provisões. É impossível que nada disso tenha chegado aos teus ouvidos, Mîm. Os sinais são ainda mais fáceis de enxergar aqui, tão perto de onde as sombras se deitam. — Suas palavras são graves, e ele estuda o rosto de seu interlocutor com cuidado. — Me pergunto se você é cego ou se simpatiza com os ideais das trevas... o que, de certo, seria uma decepção para seus ancestrais, que jamais se enganaram com Sauron.
— Ah, sim, sim. O terrível Sauron e seu exército de orcs, que irão nos escravizar e fazer ensopado com nossas crianças. E só você, o grande mágico, está enxergando e avisando a todos sobre a ameaça que nos ronda. — Mîm diz suas palavras com ares teatrais e exagerados. — Os seus truques de ilusionismo não me impressionam, Alatar. Já vi muitos homens hábeis com magia; nada disso vai me encantar ou me convencer das tuas habilidades como profeta. Milhares de vozes se erguem dizendo o contrário do que dizes, mas quer que eu acredite no único louco que anuncia o fim dos tempos?
— Não quero que acredite em ninguém, mas que use seus próprios olhos e enxergue o que se passa ao teu redor. Só espero que não tenha se esquecido de como usá-los.
Um momento de silêncio e reflexão se impõe entre eles, seguido por um movimento brusco do taverneiro, que se volta para a limpeza da caneca.
— Enfim... não diga que veio ao meu encontro apenas para me importunar sobre isso. O que quer?
O mago acende seu cachimbo e leva longos segundos para responder à pergunta. Após tragar, expele a fumaça fazendo anéis brincalhões. Os hobbits estavam certos em chamar aquilo de “arte”.
— Não. Há dois motivos para que eu traga a falência ao seu negócio... além, é claro, da sua grata e sempre alegre companhia — afirma. — O primeiro deles é o seu bom relacionamento com o governador Ulfang, com quem gostaria de me encontrar.
O anão bate as mãos sobre o balcão.
— Enlouqueceu? — A irritação é clara em sua voz. Seus olhos arregalados encaram Alatar, abaixo de suas espessas sobrancelhas. — O governador não quer ouvir suas palavras. Na verdade, meramente repeti-las já pode causar problemas a homens desatentos.
— Isso quer dizer que há quem as ouça.
— É claro que há quem as ouça, seu idiota. Se um Mago ou cavaleiro aparecer amanhã dizendo que viu borboletas virarem unicórnios enquanto caminhava sob o poente, haverá quem acredite. Ainda mais se o sujeito tiver a sua insistência desleal. Mas a maioria não fala muito a respeito; eles sabem que muitos o odeiam, e são covardes demais para enfrentar multidões, mesmo que sejam atacados apenas com palavras. Além disso, alguns que ousaram comentar demais sobre os teus agouros foram levados às masmorras... e quer saber? Digo que foi justo.
O mago ergue uma sobrancelha.
— Presos? Não vejo guardas atrás de mim que sou o profeta. Por que perseguiriam meros curiosos?
— Nem mesmo Ulfang é estúpido o bastante para mandar prender um mago. Mesmo que fosse possível, não conhecemos seus amigos e não sabemos do que são capazes. Mas os crédulos podem muito bem ser presos e espancados se ousarem falar demais. Até porque muitos deles insinuaram besteiras sobre o próprio governador.
— Agora preciso vê-lo ainda mais.
Mîm meneia a cabeça, levantando as mãos.
— Não conseguirá nada comigo. Perdão, Alatar, mas já estou arriscando demais só de tê-lo aqui.
— Mudará de ideia após ouvir a segunda questão — afirma, colocando as mãos sobre o balcão e se aproximando. O tom repentinamente muda: é evidente que o que será dito agora se trata de um segredo, e mesmo antes que ele seja dito, um laço é criado entre quem conta e quem ouve. A voz do mago agora é sussurrante: — Eu posso recuperar o tesouro dos Pés-de-pedra.
O taverneiro derruba a caneca, que se espatifa no chão.
— Está blefando. Ele desapareceu há eras.
— Se digo que posso, é porque posso, meu caro anão. Afinal, Thorin Escudo-de-Carvalho não foi capaz de retornar à Montanha Solitária e reclamar seu tesouro? Tudo o que ele fez foi sob a tutela de um Mago como eu; não azul, mas cinzento.
— Eu ouvi as histórias. Mesmo assim, o seu Mago cinzento precisou de uma dúzia de anões, um hobbit e muita ajuda para conquistar o que conquistou.
— Era um tesouro maior e um dragão maior — afirma. — Estamos falando só do anel, afinal de contas. Imagino que você o deseje.
— Todo Pé-de-pedra o deseja, mas não sabemos sequer onde está.
Alatar, mais uma vez, aperta os olhos. Sua mão direita se move discretamente em um estranho gesto conforme as pupilas do anão se dilatam.
— Eu acho que você sabe onde está, ou ao menos tem uma boa ideia. Acho que você o quer e que vai me revelar o que sabe, e eu lhe trarei o anel em troca de uma reunião com seu governador. O que me diz?
Há algum tempo de hesitação, durante o qual Mîm cerra o punho com raiva.
— Ah, está bem... que seja, Mago. Eu lhe direi o que sei. Mas com uma condição: você cumpre sua parte do trato primeiro.
Nosso herói sorri. Com vigor renovado, bate seu cajado no chão e se levanta.
— Considere feito, meu pequeno amigo.
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