Eternidade — Um Conto da Terra-Média

8 Primeiro Interlúdio: O Mensageiro (Parte 1)


Notas iniciais
Seguimos com nosso capítulo semanal, dessa vez levemente atrasado. Por outro lado, dessa vez temos um "gosto" diferente. Espero que os agrade!

Livro Negro do Mensageiro — Primeira parte

i

Que as forças ocultas que vagam sobre este mundo e governam a nossa realidade trazendo luz e sabedoria aos homens mortais arrebatam dos céus todo aquele que, em torpor intrometido, ousar ler estas páginas sem estar imerso em verdadeiro e puro propósito. Que a tinta com que redijo estas palavras seja o teu veneno, ó inimigo, e que a tua prole seja amaldiçoada pela força que imponho sobre vós em nome de Rómestámo, o Libertador, por sete vezes sete gerações. Que jamais aquilo que teus olhos contemplarem aqui corroa teu âmago ou seja utilizado para causar o mal a mim, ao Ancião ou à Ordem do Crescente.

Assim proclama Mohrmûl, o Mensageiro Vermelho.

Encerrados os rituais de purificação que herdamos do Profeta Que Se Foi — transmitidos a mim graças à sabedoria de nosso Ancião —, dou início ao que será o grande compêndio de nossos feitos, o registro de nossa odisseia em busca da libertação do Leste diante das forças malditas que há milênios esmagam a nossa vontade.

Mohrmûl, autor destas páginas, cognominado “o Mensageiro Vermelho” e “o Flagelo”, é servo pessoal, aprendiz e escudeiro de nosso vetusto senhor, cuja sabedoria nos guia entre os meandros da confusão e da perfídia há mais de três séculos. Filho de um artesão e de uma lavadeira — ambos mortais e fadados ao eterno sono —, foi agraciado pela presença do Ancião por ocasião de sua trigésima nona primavera, quando renasceu para a verdadeira vida.

Tais eventos se sucederam sessenta e cinco primaveras atrás, ainda no Segundo Século (marcado após o início da Jornada Para o Leste). Naqueles tempos, as profecias ainda haviam chegado a pouquíssimos ouvidos crédulos, motivo pelo qual minha precoce presença nestas fileiras rendeu-me papel de suma importância nos eventos que se sucedem hoje. Sou, assim, o mais apto a narrar tais fatos de modo a relatá-los para as futuras gerações.

Encerradas as apresentações sobre o Mensageiro Vermelho, é hora de dizer mais sobre Nós.

ii

É dito que, nos dias de antanho, as forças da liberdade enfrentaram um grande mal. Que, uma vez vencedoras, suas armas já não tinham uso; e que seus generais então voltaram seus olhos para os próprios irmãos. Que então mergulharam em guerras fratricidas; que o sangue dos inocentes banhou a terra, e que ainda hoje seus espíritos atormentam os herdeiros de seus algozes.

As terras do Leste, particularmente assoladas por estes males, foram abençoadas então com uma dupla de profetas azuis. Eram eles Rómestámo, mais tarde cognominado “O Profeta Que Se Foi”; e Morinehtar, ulteriormente tornado “O Profeta Que Desistiu”. Artífices das artes místicas e mestres dos segredos do oculto, estes homens vieram aos nossos desertos para pregar e ensinar aos escassos eleitos que cá vagavam. Tomaram, cada um, trinta e poucos discípulos, e a eles legaram dons e sabedorias inimagináveis aos leigos. Exigiam somente um compromisso: a promessa de levar seus esforços às últimas consequências para dar fim aos conflitos que assolavam os homens.

Caiu sobre os Discípulos, entretanto, uma força obscura. A traição maculou sua união e os levou à catástrofe. Embora poderosos nas artes místicas, sucumbiram um a um. Dentre as seis ou sete dezenas, somente o Ancião havia concluído sua jornada de iluminação, e por isso foi o único que permaneceu — ainda que ferido.

Rómestámo então tomou seu cavalo e partiu, cavalgando nos céus em direção ao nascente; noutro sentido, o Profeta restante — profundamente ferido pelos traidores — se encerrou em uma caverna em meio ao deserto, onde permanece até os dias que hoje vivemos.

Último bastião daqueles que buscavam a iluminação e a sabedoria, o Ancião iniciou então sua longa peregrinação: abdicando dos prazeres do mundo, passou a vagar pelo Leste e pelo deserto, tomando para si as dores alheias e solucionando os problemas que encontrou diante de si. Curou os enfermos e ergueu os feridos; venceu guerras e salvou donzelas. Encontraria então o Orbe, e por meio dele teria acesso às parcas sabedorias que ainda lhe faltavam. Seus poderes atingiram então os mais elevados patamares, e então — percebendo suas parcas limitações (poderoso que fosse, lhe faltava onipresença) — tomou para si seus primeiros aprendizes, dando início ao que hoje conhecemos por “Ordem do Crescente”.

Educou então os eleitos e os alinhou nos mais variados postos, conforme seu plano. E iniciou assim sua sinfonia.

iii

A história que aqui resumo lhes será narrada em maiores detalhes nas partes posteriores destes escritos. Basta que saibam, entretanto, que nossa jornada busca lançar luz sobre os povos deste mundo e dar fim às guerras fratricidas que destroem os homens e os prendem à escravidão.

Aos que lêem estas linhas, rogo aos Profetas para que, por ocasião dos teus tempos, nossa luta tenha alcançado o triunfo.

Caso o Tempo ainda não tenha chegado, entretanto… ajoelha-te perante os eleitos e oferece tua força à causa de Libertação. Pois mesmo que o teu corpo seja destruído, encontrará tua recompensa no outro mundo: quando alcançarmos a Vitória, mesmo a tua carne retornará, e então alcançaremos a perpétua glória.

Enquanto escrevo estas linhas, cavalgo em companhia de minha pequena comitiva para o Oeste. Sob determinação do Ancião, o velho e cansado Mohrmûl guia seus iniciados em uma tentativa de romper os grilhões que ainda aprisionam os corações dos povos deste mundo.

Sigo, neste exato instante, para a companhia do velho governador Ulfang, velho aliado de nossas causas — um homem honrado, mas ainda muito bruto e ignorante. Obtivemos a informação de que aprisionou arautos de falsos profetas e os lançou às masmorras para que fossem interrogados — missão, claro, que compete a mim. Mais do que isso, entretanto, é chegada a hora de fazer com que erga seus estandartes e os leve à Última Guerra — cada vez mais próxima, e cujos rumos darão fim a todos os conflitos que ainda maculam os povos deste mundo.

Assim disse o Mensageiro Vermelho, Flagelo da Ordem do Crescente.

Notas finais
Obrigado pela leitura!