Estrela-do-Mar
3 Perdida em Marte
Notas iniciais
Uma pessoa que se sente perdida precisa, essencialmente, de alguém que acredite nele, que ele é capaz de mudar e vencer. Mais do que tudo, precisa de uma orientação amiga, racional e sem pré-julgamentos.
— Olha quem está aqui! – Comenta a prima ao encontrar Dalila. – Que fazes por aqui, mocinha?
Dalila vai até o encontro de uma criaturinha que estava no colo de sua prima, a filha dela, da qual tem apenas três anos. A bebê estava com cara de sono e ao primeiro contato com uma prima que ela nem se lembra que existe, ela dá as costas.
— Kayla não te conhece. Por isso ela não vai te receber.
— Vanessa, filha. – Dona Rosa a convida para se sentar à mesa apenas apontando o lugar e continua. – Acredita que essa aqui foi atravessando a rua com o sinal aberto? Um ônibus passou raspando por ela. Já pensou no acidente que teria sido?
— Eras Dalila, mas por quê?
— Ela disse que estava sonhando acordada e não percebeu, está é louca!
Sem se defender, Dalila apenas revira os olhos e deixa a coisa como está e sinaliza com a mão que já vai partir, mas a prima faz mais uma pergunta e ela fica para descobrir o que a tia irá responder em seu lugar.
— E aí, Dan, o que tens feito?
— Está procurando um emprego. – Responde a tia por ela.
— Espera aí que a gente vai já conversar, deixa eu tomar um cafezinho.
Depois do café, as três: Vanessa, Kayla e Dalila vão para o quarto, enquanto Dalila explicava o seu caso, Vanessa procura na TV algum entretenimento para a sua filha.
— Acho que todos já sabem o que tenho passado, – Começa Dalila, sentindo-se um pouco acanhada em ter que se abrir. – Em nossa família, meus primos e tios... Bem, parece que eles nasceram perfeitos. Meus poucos primos homens, todos se alistaram no exército e mantém essa profissão, enquanto que meus outros tios e primas seguem profissões de enfermagem e licenciatura... E todas essas coisas encontraram nessa mesma cidade... – Dalila faz uma pausa, pondera o que pretende falar e respira fundo para continuar. – O que estou tentando dizer, é que mesmo aqueles que já não moram mais por aqui, começaram devagar e por aqui mesmo, mas eu sou um caso à parte, pois o que desejo para mim não é algo que está aqui, é algo que está lá. E eles cresceram dentro de uma mesma profissão, que é o que quero para mim, também. Crescer dentro da profissão que mais irei amar em ser. Está me entendendo? Mas eu já fiz uma pesquisa, por aqui as profissões mais solicitadas são licenciatura, educação geral, não-sei-o-quê-social... Eu tenho medo dessa vida. – Dalila finaliza seu desabafo bufando e encarando o chão.
Vanessa ouvia a tudo atentamente, sem fazer nenhum interrupção. E mesmo depois de Dalila ter finalizado sua fala, ela não começa a dizer o que a prima deve ou não começa a fazer, ela analisa a situação para poder lhe dar uma resposta confortável.
— Dalila, o que você tem que entender, é que, assim como todos os nossos parentes, sejam eles tios ou primos, mas enxergue, todos começaram com o que têm, foram construindo aos poucos, capturando seus desejos com o que iam conquistando. Se não está bom como está, o correto é procurar melhorar.
Dalila coça a sobrancelha e parece que algo dentro de si começa a ser maquinado, só não entende ainda o que é.
— Cresça aqui. – Vanessa finaliza.
— O que eu faço? Pode me ajudar?
— Claro que posso e para a sua sorte, está pedindo ajuda para uma pessoa que realmente pode te impulsionar, ao menos um pouco, para esse futuro que você tanto almeja.
Dalila começa a se emocionar, pois estava feliz em ter ouvido essa resposta positiva.
— Eu trabalho numa escola de cursos profissionalizantes, é em outro bairro, mas não é longe. Estamos em julho, né? As inscrições começam em outubro... Você pode e deve ir lá e garantir a sua vaga. É uma academia católica, então precisa passar por uma avaliação que é uma entrevista e depois precisa fazer uma prova. Se passar, em janeiro já poderá começar seus estudos. Pode deixar que eu te acompanho nessa. – Vanessa dá uma piscadela. Vanessa vira a tempo de ver uma expressão chateada vindo de sua prima e tenta sustentar a sua ideia, ela pega na mão da menina e lhe diz com a voz mais mansa. – Dan, eu sei que essas coisas não é o que você quer, mas se você não tem para onde ir quando se foca em biologia, o jeito é fazer outros caminhos, mesmo mais longos, para se alcançar o que você quer. Ou você se esqueceu de uma prima nossa que estudou pedagogia para que, com a profissão de pedagoga ela pudesse pagar o curso que ela realmente queria, que era... Ah... Medicina!
Dalila fica surpresa, pois havia se esquecido disso e fica triste de novo, pois sonhos não são tão fáceis de alcançar, nem deveria se chamar de “sonho”, deveria ser chamado de maratona rumo ao esquecimento. Pois ela temia ser desviada para sempre dos seus sonhos, por causa de outros cursos e profissões.
— Entendo, é realmente complicado. Obrigada por tudo, deixa eu ir agora, ta ficando tarde.
***********
Na rua, algumas pessoas já se recolheram e outros apreciavam a noite estrelada deixando a pirralhada correr pela rua. Dalila olhava contente para todos os lados, de forma aleatória, afinal, estava feliz e triste ao mesmo tempo. Estava “Felizte”. Feliz por que ela sente que tem alguém com quem pode contar e triste só de pensar nos tantos de anos que ela estudará diversas coisas, menos biologia marinha.
Ela olha entediada para o céu, meio que procurava seu cantinho entre as estrelas, todas elas tão brilhantes e distantes, incríveis...
— Opa! Cuidado moça. Ainda há vida na Terra.
Dalila tropeça em uma criança e quase ia caindo de cara no chão, mas é amparada por uma pessoa, que por sinal, é bem forte, pois a segura com firmeza tanto ela, por uma mão, quanto a criança que atravessou seu caminho correndo sem olhar para frente.
— Se não fosse por mim, vocês dois iam se machucar.
Os olhos de Dalila fitavam assombrados o chão escuro, sentia uma dor na barriga, alguém a agarrara de mal jeito, mas se não fosse por essa mão, estaria com o nariz sangrando. Aos poucos ela tenta se levantar e se equilibra como pode, em seguida aprumando também o menininho.
— Obrigado! A tia é bem forte, segurou eu e a menina, obrigadão!
— O-obrigada... – Dalila tropeça novamente e quase cai, bem na hora em que ia se virar de frente para a pessoa que lhe acudiu, mas novamente é aparada por esse ser humaninho.
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