Estrela-do-Mar

4 Uma deusa, uma louca ou uma feiticeira?


Notas iniciais
Bem vindos, humanos, :3 Eis que o nome desse capítulo é de livre ah... livre.... Interpretação ;) Tomo como louca, deusa e feiticeira uma personagem aí, mas com o decorrer da leitura, você pode acabar por interpretar ser a outra, então por isso, se sintam livres para julgar quem é o quê. Então vamos conferir.

— E aí estrela, tudo bem? Ah, desculpa. Esqueci seu nome, espera... Tinha te relacionado a alguém chamado...

— Sansão?

— Nossa, não. Por quê?

— Sansão e Dalila, por que será, né Pietra.

— Nossa! É mesmo, seu nome é bíblico. Mas quando você disse Sansão acabei pensando na Turma da Mônica... – Pietra se cala e abre um enorme sorriso de dentes e aos olhos de Dalila, eles pareciam emanar um brilho, que nem em desenhos animados. – Então quer dizer que, além de você se lembrar do meu nome, ainda por cima mora na mesma vila que eu. Correto? Você mora aqui né?

— Sim, perto do portão.

— Oh, que privilégio, morar perto do portão. Entra e sai sem que ninguém note.

Dalila ainda estava envolvida nos braços de Pietra e ela a observava em silêncio, parecia que, pelo menos às vezes, que Pietra nem estava ali, no mesmo mundo que ela, pois quando falava, olhava para algum lugar vago, evitando seu olhar, mas Dalila ainda nem sentia vontade de sair de seu abraço, de tão incrível que era estar perto dela..

De repente, depois de calar a boca, Pietra vaga seus olhos pela rua e depois de ter dado uma boa olhada ao redor, ela começa a fitar os olhos escuros da outra. Dalila toma um choque (ou o famoso tiro), seu coração começa a bater com muita intensidade e seus olhos demonstram certa surpresa. Pietra não imaginava o que estava se passando com ela, mas sentia que a menina estava sentindo algo, ela se arrisca a pensar que seja medo ou surpresa, pois os olhos da moça em seus braços estão um pouco espantados. Como técnica pessoal, ela estende um singelo sorriso, como quem diz “relaxa, está tudo bem”. E nesse momento, o coração Dalila palpita forte e seu corpo fica esquisitamente mole, fazendo-a escorregar dentro do abraço.

— Opa! O que foi isso? Está tudo bem? Vamos, te acompanho até a sua casa.

Pietra toma a sua mão, e ambas andam lado-a-lado em sossego. Dalila em seu sinistro silêncio, pois seus olhos espantados a deixam assustadora e Pietra, toda sorriso para todos os lados, e ainda ia abalançando os braços de forma descontraída.

Blog Mania Adolescente*

Leis adolescentes que ninguém conhece. Primeira: não se apaixone à primeira vista. Segunda: não se apaixone pelo “jeitinho” do outro e terceira: não se apaixone. Mas ninguém conhece essas leis, certo? É por isso que são chamadas de LEIS ADOLESCENTES QUE NINGUÉM CONHECE. Frisa adolescente. Por quê? Por que o mundo adolescente é a fase mais louca de todas as idades. E com louca eu quis dizer confusa.

Assim que chegam a casa, Pietra fica esperando ser convidada para entrar, mas Dalila ainda estava em seu estado assombrado, então ela mesma se convida.

As duas nem pareiam estar na mesma dimensão, pois Dalila parecia fantasmagórica, enquanto Pietra estava bem à vontade no mundo material. Percebendo o estado estranho em que Dalila estava, Pietra vasculha a cozinha em busca de alguma coisa para mastigar e observa que a fantasminha havia se sentado à mesa. Ela encontra uma garrafa de café e a sacode, opa, tem alguma coisa. Ela escolhe uma xícara bem chique e coloca o café, que está lá desde de manhã, na xícara. Ela toma um gole e se arrepia. Uuui, está frio! Em seguida ela oferece essa mesma xícara para Dalila, que aceita sem realmente perceber. Enquanto Pietra aprontava, Dalila permanecia em um constante pensamento interno, estava tentando se entender, estava confusa com seus próprios sentimentos pela primeira vez. O que estava acontecendo? Tinha a ver com Pietra?

Como um tique nervoso, Dalila começa a beliscar as próprias unhas das mãos, de forma aleatória e de vez em quando colocava na boca para mastigar a pontinha dos dedos, sem realmente se machucar.

Ainda em silêncio, Pietra começa a vasculhar o armário da casa, encontra logo de cara um biscoito light, o abre e começa a comer enquanto vigia a jovem moça cheia de sardas estupefata a sua frente. O silêncio é tamanho, que dá para ouvir os dentes de Pietra estraçalhando o biscoito. Finalmente, atraída pelo barulho, Dalila vira seus olhos, lentamente, para a invasora de sua propriedade.

Ambas ficam se encarando, a fantasminha se perguntando porque da outra estar comendo a sua “ração” e a invasora achando tudo muito divertido. Ela continha um riso dentro de si, por achar aquela mocinha pequena muito fofa e lindinha, além de achar a expressão estupefata dela muito engraçada.

— Sabe, você é fofa. – Comenta Pietra, interessada na próxima expressão que poderá sair.

Dalila abre mais ainda seus olhos, fica levemente rubra e inclina a cabeça para o lado, como quem pergunta “como é que é?”. Mas todos os seus movimentos pareciam estar em câmera lenta, tamanha era a lentidão de seus movimentos.

— Ei, está comendo meu biscoito. – Ela diz, com um tom cortante, tentando parecer uma pessoa braba.

— Isso mesmo, você quer um? – Pietra retira um biscoito da embalagem e o oferece de bom grado.

Dalila abre a boca, mas a fecha em seguida e só agora percebe uma xícara de café diante de si e ela arqueia uma sobrancelha.

— Aqui está muito agradável, não acha? – Pietra arqueia uma sobrancelha duas vezes, provocando. – Estou curiosa para saber como é o seu quarto. E abre um sorriso malicioso, abaixando sua cabeça, fazendo sombra nos olhos, lhe dando uma impressão de ser uma pessoa pervertida.

Vendo que Dalila nem se moveu, Pietra se apruma e vai andando até a escadaria com passos firmes e longos, sendo seguida pelos olhos de Dalila que em seguida se levanta e vai seguindo ela. Ao passar por um quarto, Pietra aponta para ele como quem pergunta “é esse aqui?”, Dalila balança a cabeça em negativa e segue direto para o próximo quarto, abre a porta e espera a sua “convidada” entrar.

Que garota abusada – Dalila pensa consigo. – Mas gosto dela.

— Imagino que seu quarto reflete na sua personalidade. – Comenta, Pietra. – E para ser sincera, espero ser surpreendida. – Ela dá uma piscadela.

Assim que Pietra adentra o quarto, Dalila entra em seguida posicionando sua mão próxima ao interruptor, mesmo com a janela aberta, ainda assim o quarto se fazia muito escuro e com a cortina a esvoaçar, dá a sensação de um suspense fantasmagórico. Dalila liga a luz e imediatamente essa sensação se vai, dando espaço para uma surpresa sem medidas, Pietra fica instantaneamente encantada. Sem palavras, ela virava seu corpo sem saber para onde olhar, abria e fechava a boca sem saber o que dizer.

— Mas... É obra sua? Eu... Nem sei o que dizer.

Dalila fica feliz com a reação da moça, ela é a única, sem ser da família, que conhece as suas obras.

— Foi. Gostou?

— Se gostei? Não tenho nem palavras, Dalila! Nossa...

Com o torpor amenizando, Pietra consegue sair de seu lugar, se desviando da cômoda do quarto; ela se aproxima da parede mais próxima; desliza seus dedos sobre os traços, contornando os desenhos feitos à mão de peixes de diferentes espécies, tão delicadamente desenhados, com cada detalhe de seu corpo escamoso bem definido e para lembrar o recife, feito com aspecto sem foco e traços grosseiros, para dar a dimensão de que o recife está como um cenário bem atrás dos peixes. Como se tivesse tirado uma foto com uma câmera que focou nos detalhes dos peixes, desfocando o fundo.

— Quanto tempo levou? – Sem olhar para Dalila, Pietra continuava contemplando as pinturas, fascinada pelos detalhes delicados de cada animal, o mais impressionante era a riqueza de luzes e sombras, a tartaruga, vista de um ângulo de baixo, num espaço mais alto do quarto, quase chegando ao teto, ainda com detalhes da superfície do mar, lhe dava a impressão de realmente estarem nadando no mar e tão escuro era a cor azul, que lhe dava a impressão de Dalila ter feito a representação da noite...

— Levou muito, muito tempo. Quanto mais alto, mais difícil, por causa do limite da parede, ficava com dor no pescoço e você nem imagina o quanto que dá cansaço nos braços.. E... Bem, se você olhar mais para cima ainda vai ter surpresas.

Por conta da luz fraca da lâmpada, Pietra não havia notado que também há maravilhas no teto, a lâmpada estava “dentro” de um desenho de uma lua, da qual dava para notar, com traços fracos, as crateras dela. Era como se a lua estivesse representando o sol, pois ao seu redor estava o sistema solar. A moça fica um tempo a pensar de o porquê da menina ter feito a lua e não o sol e os planetas, também estavam com traços fracos de lápis, não foram pintados... Mas haviam pontinhos de tinta em todos os lugares, mas por algum motivo, quase não dava para nota-los de tão fraca que eram suas cores.

— É tudo muito bonito. – Ela diz, por fim. – Maravilhoso, sem palavras mesmo.

— Obrigada. Você é a única que acha isso, meus pais me chamam de louca.

— Ah, que isso? Seus pais são loucos, isso sim. Você é maravilhosa.

Pietra se aproxima depressa até Dalila, que não tem muito tempo de fugir, e a abraça com força, segurando a menina em seus braços, firme e com cuidado.

— Você é maravilhosa e eu quero muito ser sua amiga.

A moça acaba atingindo a menina de uma forma agressiva, de repente Dalila começa a se sentir inexplicavelmente frágil e vinha para fora uma vontade de chorar, mas como forma de disfarce, Dalila se vira de costas, e faz uma pose com uma mão na cintura e a outra no queixo, como quem está pensando em algo, quando na verdade está tomando um tempo para se organizar. E para mudar ainda mais o rumo, ela joga.

— Quer ver uma coisa?

— Comanda aí, gatinha.

Dalila desliga a luz comum e troca por outra, uma de cor atípica, de cor negra, em seguida fecha todas as cortinas e por fim a porta.

— Está preparada?

Se sentindo desafiada pelo novo ambiente, Pietra aceita a situação com chamas nos olhos.

— Vai em frente.

Preparada, Dalila somente desliza sua mão para baixo para que a luz ligue e um mundo completamente diferente acorde. Pois agora as paredes brilhavam com diversas cores luminosas. Todos os desenhos dão a impressão de terem tomado uma cor diferente da que estava antes e algumas partes dos traços, que pareciam pequenas falhas, mostram que na verdade foram coisas propositais, pois são preenchidos com traços e cores fantasiosas que a luz negra agora mostra alguns poucos em tribais, maori e os mais arriscados, os cardumes, foram feitos de aquarela, a maioria fazendo danças com as cores como grandes véus. Os menores e de pouca quantidade (como um peixe para cada espécie, sem ser cardumes) somente ganharam relevo nas linhas, fazendo formatos fantasiosos, enquanto que os grandes, como tartarugas, estrelas-do-mar, tubarões, os corais... Mantiveram seus traços originais, sem alterações fantasiosas, apenas recebeu da “tinta mágica” relevo nas bordas e foram preenchidos nas “falhas”. Trazendo para eles pinturas em maori, como no caso da tartaruga do ângulo de baixo e a arraia acima da cabeceira da cama. Enquanto os tubarões (um para cada espécie até acabar o espaço do quarto para desenhar) ficaram com traços tribais e pinturas e linhas mais grosseiras, dando um ar mais radical/selvagem para eles.

Depois de tantas surpresas, Pietra já não tinha mais palavras para nada, nem para dizer ou pensar. E fica ainda mais sem palavras quando olha para cima e vê que a lua rabiscada de lápis se torna um sol de tentáculos laranjas que parecem querer abraçar os planetas ao redor, que também ganharam brilhos, rabiscados feitos com preguiça e pressa.

Pietra dá uma última olhada em tudo, para o sistema solar, os traços em maori preenchendo a tartaruga, uma estrela-do-mar e a arraia, os cardumes fantasmagóricos e as tentativas de reflexos das curvas da superfície do mar e nesse momento ela se lembra de como se conheceram, estavam à sombra de um tanque onde no fundo tinha umas estrelas-do-mar e arraias "flutuando" mais acima, e os reflexos da água faziam passeios sobre ela e Dalila. Pietra rir, um pouco sem graça, olhando para o chão, estava começando a sentir vergonha e não sabia bem o que dizer.

— Se lembra de quando nos conhecemos? — Dalila pergunta.

Pietra não responde logo à pergunta, em vez disso ela tira do pescoço, um cordão de potinho com pedrinhas e uma conchinha dentro e o coloca em volto do pescoço da amiga.

— Como eu poderia esquecer?