Estrela-do-Mar
2 Dê-me um emprego!
Notas iniciais
Dalila, cabelo castanho claro e rebeldes, olhos azuis bem escuros (parecem até negros) e cheia de sardas, com mais intensidade nos ombros. Apaixonada, desde criança, pelos animais marinhos, um afeto que não se esvaiu com o tempo.
Ela passa 90% do seu tempo excluída do mundo, por opção e se pudesse, aumentaria essa porcentagem em mais alguns números, chateada com a decisão de seus pais de não a deixar ir para outra cidade estudar, ela os evita emocionalmente.
Ao conhecer uma biblioteca pública, num bairro não muito distante de sua residência, ali ela encontra um refúgio, sinônimo de paz. A cada linha percorrida pelos olhos, ávidos por conhecimento, seu corpo absorve e expande para todas as suas extremidades, uma alegria que ela não consegue explicar, mas cada final de dia lhe trás uma estrada escura, para qual ela tem que voltar para casa e encarar seus pais na janta. Por tradição e insistência, eles fazem questão e enfatizam que precisam ficar juntos na janta e no café da manhã.
Na “cabana”, seu quarto e segundo refúgio, ela tem a felicidade de se encontrar com sua amante mais fiel, a cama, que sempre está ali a sua espera, para qualquer situação, seja quando ela está de bom humor, chateada, explosiva ou entediada, a cama sempre está lá para ela. Assim como a casa toda, pois ela também não vai a lugar nenhum...
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— Mãe, tem certeza que essa marca de leite não tem formol? – Vinha Dalila da geladeira, analisando uma caixa de leite que nunca vira antes. – Uma coisa que parece inofensiva pode vir a trazer grandes estragos.
— O que filha? Aham, pode beber. – Responde a mãe, entretida no jornal.
— Pai! Cuidado, não exagera no açúcar, o mal é silencioso e ataca quando a gente menos espera!
— Obrigado filho, eu sei. – Responde seu pai, focado no celular enquanto mexia a colherzinha na sua xícara de café.
Dalila já sabia que seus pais reagiriam assim, eles reagem assim quando estão distraídos. Então ela os aborda apenas por diversão.
Após seus pais saírem para o trabalho, Dalila coloca as roupas deles na máquina “monstruosa” de lavar roupa. Ela se recorda toda vez que, quando era criança, morria de medo da máquina por fazer barulhos aterrorizantes e ter um design que lhe lembrava um monstro. Lendo o jornal que sua mãe deixara na mesa, ela encontra um anúncio de “contratando”. Em sua cabeça fica a vontade de trabalhar, ir lá fora e conhecer o desconhecido, ou seja, tudo! E também perdura o desanimo, pois a vaga exige experiência comprovada e acaba pensando consigo “desse jeito, nunca vou conseguir nada nessa vida”.
— Se eu nunca tentar, é aí que nunca saberei se irei fracassar ou não!
Finalmente, é hoje que Dalila não irá para a biblioteca, nem para o aquário ou jardim botânico. Decidira que fará o que precisa ser feito, com seus pais a impedindo ou não. Ela sai correndo para o banheiro, toma um banho e procura vestir as roupas sociais de sua mãe. Uma coisa ela sabe, boa aparência influência bons resultados.
O medo é grande e o nervosismo maior ainda. Nunca fez isso antes e não sabe por onde deve começar, mas ela vai assim mesmo para a rua, com a “cara e a coragem”, ela pega e se dirige para a empresa do anúncio.
— Dê-me um emprego!— Ela gritou, pois ao chegar no balcão de recepções, sua garganta havia trancado a passagem do ar de tanto nervosismo e ao forçar botar a frase para fora, dá nisso. Mas depois que conseguiu falar, parece que um prédio havia sido tirado de suas costas, mas agora ela estava vermelha de vergonha por ter gritado assim.
Seu coração acelerado parecia estar correndo uma maratona. Ela estava prestes a desmaiar, a balconista percebe e a toma pela mão antes que ela caia ali mesmo.
— Fique calma. Venha para cá e sente-se. Vou te trazer uma água.
A gentil recepcionista a deixa sentada junto com os outros clientes do laboratório e ao retornar com um copinho de água ela encontra Dalila ainda em seu estado de choque.
— Tome, beba. Agora me diz, você fugiu de casa? Onde estão seus pais? Sua escolinha fica aqui perto?
Dalila quase cospe água na cara da moça, sente-se humilhada depois de ter feito um esforço tão grande para parecer madura e no final acaba sendo confundida assim, por que raios as pessoas eram tão altas e ela tão pequena? Ela estava sendo confundida com uma criança, como sempre, não só por seu tamanho mas seus “olhos inocentes”, como algumas pessoas já haviam dito a ela, davam a impressão que ela era bem mais novinha. Agora seu humor muda totalmente. Ela se levanta, se recompõem e diz:
— Apostei com meus coleguinhas que conseguiria fazer essa brincadeira. Já estou indo. Obrigada.
DÚÚÚÚÚÚÚ (Buzina de ônibus)
— Quer morrer Caral...?
DÚDÚDÚDÚ (Buzina de ônibus)
— Menina, o que você está fazendo?
Dalila acorda de repente de seu devaneio com um puxão no braço, desorientada, ela tenta entender porque o motorista gritava com ela e sua tia a puxava para a calçada.
— O que foi? – Ela pergunta a tia, ainda tentando juntar os pedaços.
— Tu atravessaste a rua com o sinal aberto ta ficando maluca?
— Fiz isso mesmo?
Dalila olha para trás e observa o sinal de transito agora no vermelho.
— É mesmo! Eu podia ter morrido!
E agora juntava os pedaços, ainda nem havia chegado ao laboratório pedir emprego, estava a caminho quando imaginou uma situação e acabou se distraindo demais...
— Menina, toma juízo, anda, vamos tomar um café.
A tia, dona Rosângela, arrasta a menina para a sua casa, Dalila ainda estava tão desorientada que, nem pestaneja o convite da tia, que estava praticamente a arrastando. A jovem vai recordando sobre seu devaneio para pedir um emprego e se sente constrangida com a memória, ela começa a rir como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo. Dona Rosa não gostou de ter presenciado essa cena, e gora ela acha que sua sobrinha está realmente ficando maluca. Mas é uma risada de nervoso e não de piada.
— Anda, toma um pouco de café.
Na sala de jantar, Dona Rosa encaminha a menina para uma cadeira e lhe serve um café, depois volta para a cozinha para pegar um bolo de fubá.
Dalila assoprava dentro de sua xícara de café, nunca fora fã dessa bebida, para conseguir beber algo que ela acha tão amargo, ela adiciona uma colherada de creme (mas gostaria mesmo era de tacar açúcar dentro, do mesmo jeito como seu pai faz). Algumas horas se passam e a menina explicava para a tia o que estava fazendo na rua, disse-lhe que estava indo para o laboratório que, havia feito um anúncio de emprego, sem esperança de realmente o conseguir, mas uma coisa leva a outra e quem sabe que oportunidades a rua pode trazer?
De chofre, o portão faz um barulho, alguém havia chegado.
— Ah, a minha filha chegou.
Dona Rosa se levanta e vai buscar outra xícara para servir a filha que ainda nem chegara na cozinha. Pelos sons que a recém-chegada vai fazendo, deu a entender que ela entrou no quarto e foi direto para o chuveiro. Quando Dalila já estava de saída ela dá de encontro com a prima.
— Ei, você! – Dalila a aborda, surpresa até demais, pois pretendia sair sem ser vista por mais ninguém da família da tia.
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