Estrela-do-Mar
7 A tal festa, com o tal sentimento, resulta em tal desastre.
Notas iniciais
Para expor toda a lindeza que Pietra acha que Dalila é e tem, ela escolhe roupas para a menina que destaquem seus olhos e sua cor de pele. Para os olhos, ela lhe deu umas pinceladas básicas, sem exageros de sombras bem claras, e nos cílios uma máscara azul feita de forma superficial, apenas nos cantinhos dos olhos. Para o seu corpo, uma camisa regata de gola, cobrindo até a metade do pescoço, de cor cinza-claro e um shortinho preto; nos pés, Dalila mesma escolhe sua sapatilha de cor rosa pastel, com bordas pretas, aliás, a única que ela tinha.
Em contraste com suas roupas claras, Pietra usa delineador preto nos olhos; batom vinho; calça preta até os joelhos; camiseta branca com uma jaqueta jeans com tons de luz escura, que vai até a metade das costas e tênis pretos.
Mikael estava presente enquanto Pietra escolhia as roupas de Dalila e durante todo o tempo dele ali, os dois trocavam olhares cumplices. Mikael queria que Dalila decidisse por se confessar a Pietra e assim descobrir se ela sente o mesmo pela menina, mas Dalila decidira guardar segredo, mesmo que isso lhe consuma.
Durante o dia todo que passara com Mikael e suas palavras, seus sentimentos revelados para si mesma, não saiam de sua cabeça. Durante a festa, Dalila se sentia como se estivesse se afogando, não como se andasse submersa. Mas sim porque agora ela pode até entender melhor os seus anseios, porém, isso não significa que ela saiba o que fazer com eles, esse é o novo sentimento que a perturba. E tudo ao seu redor se torna banal, na festa, Pietra a apresentava para todo mundo, como se não bastasse, algumas pessoas sem noção ficaram perguntando para a menina se ela não tinha medo de palhaços ou se ela gostava mais do gordinho ou do gago. Momento ruim em que Pietra tivera a ideia de cortar o cabelo dela até a metade da nuca, num corte bagunçado.
Muitas luzes coloridas, rostos jovens, barulho de festa e músicas esquisitas, nada disso fazia algum impacto em Dalila, ela já não estava muito interessada em festa, porém, inevitavelmente ela estava chamando atenção por sua fofura e semelhança com a atriz do filme “it” e agitada como Pietra é, ela acabava deixando a menina de lado para ir abraçar algum amigo querido.
Não estavam nem há 20 minutos na festa quando Dalila já estava tonta de tanta gente “tonta”. Num dado momento, ela coloca sua delicadeza de lado, sai de dentro de uma panelinha que havia a engolido e sai com passos largos e pesados em busca de Pietra, a encontra fazendo uma “muralha” com seus outros amigos altos, sem se importar com ética, moral ou sei lá o que, Dalila atravessa a todos até chegar na amiga e a abraça, engatando seus braços ao redor de sua cintura, ficando ali. Só o que lhe importava era a sua “príncipa” de armadura brilahnte, no caso a armadura dela são os dentes. Depois de ter feito isso, elas conseguem não se desgrudar mais, Pietra já havia dito oi para quem precisava dizer e como ela não vai à festa para conversar, ela puxa sua “estrelinha” para dançar. Fora o momento mais divertido da festa, Pietra tentando colocar a Sr.ª Dalila Desengonçada para dançar.
De frente uma para a outra, Pietra ia dançando e incentivando que Dalila também remexesse e quando ela não o fazia, a moça a pegava pelas duas mãos e a mexia como uma boneca de pano. Apesar de estar sendo forçada a fazer uma coisa da qual normalmente Dalila se sente constrangida em fazer, ela acaba se divertindo na companhia da amiga.
Por um momento, já cansadas, Pietra permanece um pouco abraçada à menina, por trás, apoiando seu queixo no ombro dela. Dalila olha de soslaio, para encontrar uma pessoa “brilhante”, era sempre muito bom ficarem na companhia uma da outra, mesmo sem dizerem nada. No embalo do momento, sem ensaios ou script, Pietra simplesmente inclina sua cabeça para mais próximo da cabeça de Dalila, ela estava tão perto, era possível sentir calor vindo de sua boca.
É um momento estranho e hipnotizante, o barulho e as luzes ao redor já nem fazem mais diferença, existe um foco, os toques de Pietra. A mão dela estava tocando em seu maxilar, orientando o seu ângulo para que se encaixasse no seu. Mas algo radicalmente brusco acontece e tudo o que Dalila consegue entender é que seus olhos estão fixados de frente para o chão e mais uma vez a sua barriga dói estranhamente. Ela se levanta sozinha e se vira para entender o que havia acontecido. Por acaso, mais um amigo querido de Pietra havia chegado empurrando, mas em sua desculpa, disse não as ter notado. Mais uma vez, como uma criança birrenta, Dalila incha as bochechas e vai embora em passos pesados, ela se aproxima dos amigos muralhas de Pietra e toma deles o copo de vinho que protegiam.
Dalila imagina que, como aconteceu com todos os outros amigos que Pi reencontrou, ela vai precisar de pelo menos uns cinco minutos para abraçar esse também. Só que, de repente, todo mundo começa a gritar em coro “AEeeeeEEE”, aumentando e diminuindo o volume, estranhando, ela se vira para olhar na direção onde todos da muralha olhavam, e ela vê, o que não queria ter visto e nem queria acreditar que estava acontecendo naquela mesma dimensão. A Pietra e o rapaz haviam acabado de se beijarem, ela se virou na hora em que Pi dá um tapinha no rapaz, mas ainda assim os dois permaneceram agarradinhos. Vê-la nos braços dele fora um pior pesadelo do que ter visto o beijo, aquela intimidade era dilacerante para a sua mente. Tremendo com um frio repentino, ela sai andando vagamente entre as pessoas da festa, sem rumo, ela vai aceitando qualquer “proposta” que vai pulando em seu caminho.
— Ei, Bev. – Um rapaz magrelo a chama – Está a fim de um cigarro?
Mas Dalila o ignora porque seu nome não é Bev. Um segundo rapaz aparece em seu caminho, vestido todo de preto e com bastante gel no cabelo oferece seu refrigerante batizado e ela aceita. Ao perceber o ânimo dela com a bebida, ele a puxa para junto de seus amigos e cada um começa a lhe oferecer a sua própria bebida e ela vai provando cada uma. Umas ela gosta mais e consequentemente o repete. Outras ela gosta menos e prefere nem ver de novo.
Ainda sentindo seu coração partido, ela arrisca olhar para trás em busca de Pietra, mas ela já não estava mais a vista, além de ter muita gente, a maioria das pessoas era mais altas que ela. Cansada de estar ali com aqueles estranhos, ela toma um último copo de bebida e decide ir embora, sozinha. Mas ela não consegue sair sem antes ser assediada pelo mesmo cara esquisito vestido todo de preto, ela lhe dá um tapa no rosto, que foi o equivalente a um carinho de bebê. Furiosa com a ousadia, ela sai marchando em passos pesados. Na porta, ela é barrada mais uma vez, um cara tenta puxar ela de volta para dentro da casa e arriscar beijá-la, mas ela consegue desviar e sai correndo para a rua. Depois disso, não foi mais seguida, ou era o que ela pensava. Pois tantas bebidas e emoções lhe trouxeram agora novas sensações. Andando na rua, Dalila sentia tontura, sua vista estava confusa e do nada vinha uma sensação gostosa de querer rir e ela realmente se deixava rir, caindo para os lados, hora olhando para o céu, falando oi para as portas das casas. Ela estava um caos.
Não aguentando mais o seu próprio peso, muitas vezes ela se sentou na calçada e dizia para si mesma que precisava urgentemente dormir e que, somente dormir iria fazer ela melhorar “Preciso dormir, preciso dormir...”. Mas óbvio que não podia dormir ali, por isso, arrumava forças e se levantava de novo. Ela já estava na metade do caminho até a vila quando percebe que alguém estava a espreitando, só percebeu depois de ter atravessado a rua no sinal vermelho e teve a impressão de que uma pessoa tentou fazer o mesmo, porém, fora barrada por algum carro. Depois que ela chega na calçada do outro lado, ela olha para trás e lá estava a pessoa, a encarando. Mas sua vista estava ficando muito borrada e ela não conseguiu identificar a pessoa. A pessoa continuava lá, esperando para atravessar a rua, Dalila decide se apressar e começa a andar pelas sombras, mas acaba piorando a situação, por algum motivo, agora a sua vista estava completamente terrível, nem as casas ao seu lado ela enxergava direito, tudo ficara borrado demais, ela conseguia enxergar apenas alguns flashes de luzes, tipo a luz que o personagem da liga da justiça deixa quando corre muito rápido.
Era a hora, a pessoa do outro lado atravessa a rua e vem correndo em sua direção. Dalila consegue perceber a pessoa e sente medo, pois a pessoa corria parecendo um touro, ela tenta se levantar para sair correndo, ao invés disso, ela tomba de lado na calçado dura, o seu corpo parecia estar paralisado por um peso descomunal que não era seu e nem dor ela sentiu, de chofre, algo a puxa para cima, ela somente percebe um incomodo na axila, ela nem vira alguém na frente dela, e com a mesma brutalidade a pessoa que a segurou a solta e Dalila cai com tudo no chão, mas cai sentada, ainda lutando para ver quem era, ela via sombras, movimentos e de vez em quando luzes, mas nada tinha formas.
Seu corpo não a obedecia; sua visão estava inútil e quando ela decide dizer alguma coisa, apenas um grunhido sai de sua garganta, perdera também a habilidade de falar! Dalila percebe a pessoa se abaixar na sua frente, ela tenta se mover, mas a sua tentativa caba provocando seu desequilíbrio e seu corpo pende para trás, agora enxergava alguma coisa... Pareciam estrelas, estaria ela olhando para cima? Por que olhava para cima quando queria olhar para a pessoa que estava em cima dela? Mais uma vez ela tenta se mover, ela quer olhar no rosto desse alguém, mas ao invés de seus olhos virarem, toda a sua cabeça pende para o lado, agora percebia o chão na sua frente, alguém acendera a luz? E mais uma dúvida, o que estava acontecendo?
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