Estrela-do-Mar
9 A mãe de Dalila
Notas iniciais
Dalila repetia na mente seus últimos momentos com Pietra e tudo aquilo que aconteceu somente entre elas era sufocante, ela jogara perdera uma amizade, tudo culpa de seus sentimentos, assim ela julgava. Mas as pessoas sempre vão embora, mesmo depois de saberem que são amadas.
A sensação de porre ainda não passara totalmente ou seria uma reação por abstinência à Pietra? De qualquer forma, ela tinha que levantar, a guria até que saía de seu quarto, ia até a sala, ligava a TV e esperava que algum programa interessante começasse só porque ela queria, mas isso nunca acontecia. A situação com seus pais começava a ficar pior, pois ela já não se atentava para as tarefas domésticas e isso os estava irritados. “Por que não lavou a louça?; Por que essa comida está mal feita?”. Mas sua mente, que não parava de pensar em Pietra, nem se incomodava com as inúmeras reclamações. Dia após dia seus pais iam ficando mais chatos, pois haviam se acostumado a tratar a filha como uma empregada dentro de casam talvez eles não soubessem mais nem como se faz café, mas ela não queria mais servi-los. Tudo o que ela queria era ficar bem, mas como? O que tinha que fazer? O que é o tal do “toca a vida” e como se faz isso? São essas as questões que ela está lidando pela primeira vez e não sabe por onde começar. Ela estava razoavelmente bem antes de conhecer Pietra, porque não consegue voltar aquele estado anterior de espírito? As perguntas são tantas, mas a resposta não vem do além.
Em um domingo, ainda em sua melancolia, Dalila passa a tarde deitada no tapete da sala, encarando as coisas de forma vazia. A mãe dela que fizera o almoço e passou o dia a observar a menina, estava impaciente com o estado dela. Sua filha podia simplesmente voltar ao que ela era antes para que a rotina de todo mundo voltasse ao normal. Ao invés disso, Dalila permanece introvertida e faz com que ela faça o almoço e nem a ajuda, o que ela achou absurdo demais, porém, Helena decide conversar com a filha mais tarde. Se Dalila que vivia enfrentando ela não está mais nem com vontade de lhe responder, imagina ela, que nunca fora de lidar com conflitos. Helena preferia que sua filha simplesmente passasse o dia reclamando, do que ter de ir ao encontro dela para conversarem, isso era um desafio grande demais para ela.
Após o almoço, Helena, ao lado de seu marido distraído, percebe que a filha mal tocara no almoço, que tiveram que comprar, já que a falta de prática acabara por queimar quase tudo...
E agora, lá estava Dalila, deitada no chão, remexendo os dedinhos no meio dos pelinhos do tapete. Helena se senta no sofá, de frente para a filha, para observá-la de perto. Impaciente consigo mesma, por não saber como abordá-la, ela cruza os braços e espera por um milagre. Depois de um silêncio colossal, a mãe se ajoelha de frente para a filha, ainda com seu olhar impaciente, esperando que a menina simplesmente comece a se explicar.
Dalila já estava sacando o que ela queria, sabia que a mãe nunca tinha iniciativa para falar com ela quando fosse um assunto que provavelmente as levaria a terem uma briga. Mas mesmo assim, alguma coisa tinha que acontecer, então ela levanta a sua cabeça para olhá-la, mas acaba se assustando com o quão perto estava de si. Ela conseguia até ver, claramente as sardas em seu rosto, os olhos azuis brilhantes, que são bem mais claros que os seus, o rosto fino e conservado como se ainda tivesse 16 anos. Sua mãe era exageradamente vaidosa e linda, se ela não fosse sua mãe, diria que são ao menos irmãs. Seus lábios estavam pintados de vermelho, os óculos dedicadamente limpos, e seu cabelo volumoso cheirosos e hidratados, e ela ainda por cima, estava vestida em casa como se fosse sair para algum lugar. Apesar de serem muito semelhantes fisicamente, em comportamento elas eram muito diferentes. Dalila jamais permaneceria desse jeito estando em casa. Apenas uma camisa qualquer e um short servem.
— O que foi, mãe?
— É isso o que eu espero que você diga. – Depois de um breve momento para tomar fôlego, vendo que a filha não estava interessada em conversar, Helena se senta e ameniza o olhar tenso. – Você está diferente e eu não posso simplesmente ignorar isso. O que aconteceu?
— Não pode ignorar a minha mudança de comportamento porque queimou a comida sem mim? – Dalila dispara, em um tom arrogante.
— Também. Mas se alguma coisa grave aconteceu com a minha filha ao ponto de fazê-la mudar e parar de me ajudar... Não acha que uma mãe ficaria curiosa para saber o que é?
— Não aconteceu nada de grave. Pronto.
— Ótimo, então levante e limpe a cozinha.
Dalila dá um suspiro desinteressado e volta se encolher no chão.
— Viu, você não consegue. É algo tão intenso que você não pode retornar a rotina. O que aprontastes enquanto estávamos fora? Deixa eu ver.... Na sua idade... As pessoas conhecem outras pessoas e acabam sendo usadas por elas e de diversas formas que não pretendo mencionar.
— Mãe. Para de fingir que está preocupada comigo. Se quisesse mesmo o meu bem, me incentivava a buscar os meus sonhos.
— Queridinha, quando foi que eu te desmotivei?
— Nunca... Nunca permitiu que eu os seguisse, quando eu falava que precisava sair de casa para estudar “lá”, vocês viraram as coisas para mim! – Desesperada, exasperada e um pouco mais de sentimentos confusos, Dalila desabafa de uma só vez e acaba caindo em um choro muito controlado, ficando até com o rosto vermelho.
Helena suspira, pretendia gritar logo em seguida com a filha, mas acaba pensando duas vezes e lhe responde, de maneira um pouco fria.
— E como você acha que eu e seu pai simplesmente deixaríamos a nossa única filha viver longe da gente, sem nem mesmo ser uma adulta?
Dito isso, ela imediatamente se retira, deixando Dalila imersa em um monte de novos pensamentos para acumular na mente.
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De tardinha, Pietra decide fazer uma visita a sua amiga Dalila e como sempre, ela vai entrando sem ao menos bater na porta. Ela às vezes esquece que a menina tem família e assim que ela entra, ela dá de encontro com o pai da amiga, que estava na cozinha, ele a olha da cabeça aos pés por cima dos óculos. Pietra fica embasbacada, era a primeira vez que o via de perto, um homem alto, magro, de cabelos bem curtos, espessos e bagunçados e sua postura era torta, talvez ficasse muito tempo de frente a um computador? Ele fica esperando que ela se justifique pela invasão e ela acaba ficando muda por não esperar encontra-lo na visita a sua amiga. É isso, Dalila. Ela se lembra que fora visitar uma pessoa querida.
— Desculpa entrar desse jeito, é que a Dalila está me esperando.
Ele nada responde, ao invés disso, faz um gesto com a cabeça, como uma guinada para cima. Claro, ela não entende, então muda a sua postura, decidida ela fecha a porta e sai andando com passos firmes até o terceiro cômodo do segundo andar e em nenhum momento ele a chamou, o que ela achou ótimo.
Já na porta do quarto, Pietra fica apreensiva, lá dentro estava tudo escuro e silencioso e não era possível que Dalila já estivesse dormindo, ela não ia dormir assim tão cedo. Cautelosa, ela entra de vagar, notando a janela coberta pelas cortinas, impedindo que os últimos raios de sol entrassem no quarto. Pietra entra às cegas, consegue alcançar a cortina e abre apenas uma banda e depois que se vira na direção da cama, dá de encontro com uma bagunça, mas debaixo de tantos cobertores, existia uma pessoa ali e estava olhando para ela com olhos semicerrados. Dalila estava acordada, mas não parecia bem, pois seus olhos estavam vermelhos e escuros ao redor. Preocupada, Pietra tira as mantas de cima da menina, mostrando um pouco mais de seu rosto amassado. Pietra a puxa para o seu colo facilmente.
— Ei, benzinho. O que foi?
Dalila já tinha passado o dia confusa demais, agora ela não queria simplesmente contar para ela seus motivos, ainda mais por estar tudo embaralhado demais. Ela apenas respira fundo e torce para não cair no choro. E Pietra reconhece todo o seu esforço para continuar “inteira”, ela percebe o medo da amiga de se despedaçar caso desabafe.
— Tudo bem...
E daquele momento em diante, elas ficaram juntas, em completo silêncio. E depois de muitas horas se passarem, elas descem e fazem um lanche. Dalila parecia muito mais à vontade em não precisar contar sobre seus sentimentos, já estava até sorrindo. Mas as duas ficaram na sala assistindo filmes, seu pai aparecera por ali, ficou para verificar que filme era, depois de pegar um pouco de pipoca, que elas fizeram para acompanhar o filme de terror, ele sobe para o quarto dele, sem dizer nenhuma palavra. As duas acabam dando um risinho e Pietra se lembra de quando havia chegado ali sem bater na porta.
— Acredita que quando eu vim, fui entrando como se fosse de casa e dei de cara com ele?
— Sua idiota. Sorte sua que ele já te conhecia.
— Sério? Como isso?
— Ah, tu já deve tê-lo visto por aí, certo? Então... Ele já nos viu juntas e chegou a comentar sobre você uma vez. Aí falei de você. E lembra que a gente foi no bosque? Deixei o número da sua família com ele.
— Eita, nem sabia disso.
— Foi a primeira vez que fui dormir fora, ele nem queria deixar que eu fosse. Mas cedeu.
Depois de terminar o filme, as duas vão para a cozinha lavar a louça, a presença de Helena é ignorada por Dalila e ao pedido dela, Pietra age apenas de forma indiferente. Assim que elas terminam e retornam para o quarto, Dalila já ficara com uma cara distante, novamente parecia triste. Pietra apenas se posiciona na frente dela, cruza os braços e pergunta o que foi.
Dalila acaba relembrando da conversa que tivera com a mãe, ainda não sabia dizer como se sentia em relação aquilo, seus pais não lhe dando apoio por ela ser filha única? Todo esse tempo eles estavam lhe privando oportunidades por não aceitarem a sua ida? Isso ainda era complicado para ela entender e aceitar, ainda era um conflito dentro dela. Como ela agiria se fosse com ela? Dalila levanta seus olhos para a amiga e lá estava ela, esperando que ela lhe falasse algo, mas nesse momento a sua garganta aperta e as lágrimas são inevitáveis. Pietra a abraça sem pensar duas vezes, tão aconchegante era estar em seus braços, Dalila acaba ficando dividida entre feliz e triste e acaba falando sem pensar.
— Que injusto! – Exclama ela, entre choros, e aperta a amiga em seus braços.
Pietra não estava compreendendo esse seu momento, por ela não ter-lhe confessado nada, e acaba pensando que tivesse a ver com seus sentimentos por ela, então ela vai extrapolando.
— O que é injusto? Que de todas as pessoas que te conhecem, eu ser a que está aqui, ao teu lado, te cuidado?
Ouvindo isso, Dalila acaba tendo um outro pensamento. Seus pais estão diariamente presentes em sua vida, mas é Pietra quem vem lhe dar carinho, de fato, de todas as pessoas que ela conhece, a que ela não tem o amor correspondido é quem vem lhe acalentar. Então mais um pensamento lhe vem, afinal, o que é amor?
Dalila acaba por se deixar levar pelas lágrimas, já estava com muita coisa na cabeça, muitos sentimentos e sem ideia do que fazer com todos eles, eles precisavam fluir, certo? Mas naquele momento a força de suas lágrimas eram as mais fortes ali, nenhuma palavra para o momento. Pietra que ainda estava sã, começa a conversar com ela, sem esperar que a amiga respondesse alguma coisa.
— Algumas pessoas vão machucar as outras e vão dizer que fizeram isso por amor. – Começa a Pietra, enquanto acariciava as costas da amiga. – E sabe, amor não tem nada a ver com controlar o outro, tem a ver com deixa-lo livre para ir e vir. Tem gente que vai matar o outro e vai dizer que o fez por amar demais, novamente eu digo, amor não é prisão. Quando eu mesma penso em amor, imagino que ele é um pássaro, que ele será sempre mais feliz quando estiver convivendo dentro da sua própria natureza. E não preso numa jaula sendo controlado por algum idiota. Isso não é amor. – Dito isso, ela abaixa a cabeça e dá de encontro com o olhar choroso de Dalila, que a segurava pela blusa. – Des-desculpa, eu não sabia o que dizer, mas o que você sente?
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