Estrela Polaris
6 Minha capitã
— Polaris..... — escuto alguém me chamar tentando me tirar do meu sono, murmuro reclamando em resposta — Vamos, não deveríamos dormir até tão tarde
Abro uma pequena fresta do olho esquerdo, Lena estava na minha frente, o cabelo bagunçado sob o travesseiro, uma roupa leve que ela deveria estar usando como pijama, passei bastante tempo sem entender o que estava acontecendo, até finalmente percebi que ela estava deitada ao meu lado na cama.
— O que eu estou fazendo aqui?! — pergunto assustada me sentando na cama
— Bom dia pra você também
— Que roupas são essas?! — olho para as roupas em mim, não era o vestido de eu usará antes, eu usava apenas a roupa de baixo e uma camiseta longa
— Não queria que você amassasse o vestido e você começou a vomitar depois de um tempo
— Ok, mas..... quem colocou essas roupas em mim
— Eu, é claro. — eu a encaro e abraço meu corpo — Você preferiria que fosse uma dos homens da tripulação?
— Não, obrigada
Ela ri e se senta ficando mais perto de mim.
— Consegue se lembrar de alguma coisa de ontem?
— Eu tenho medo dessa pergunta
— É apenas uma pergunta normal
— Só lembro até a parte que chegamos até o navio
— Quer saber o que aconteceu depois? — se aproxima um pouco e olho acidentalmente para seu decote, desviando rapidamente o olhar para o lado
— Também tenho medo dessa pergunta
— Você começou a passar mal e eu fiquei à noite inteira te ajudando a não vomitar no navio inteiro, eu te ajudei a tomar banho e....
— Espera, você me deu um banho?
— Não, isso seria estranho. — ela ri — Nos tomamos banho juntas
— Não entendo como isso pode ser melhor
— Troquei suas roupas e te deitei na cama pra você dormir
— Pelo menos não foi tão ruim
— Consegue se levantar?
— Acho que sim. — tento por os pés para fora da cama e me impulsiono para frente, as pernas um tanto quanto bambas tremem e me fazem cai de volta a cama
— Acho melhor você ficar aqui hoje
— Quem é você e o que fez com a minha capitã? — pergunto olhando para ela por cima do ombro
— Não se preocupe. — Lena joga seus braços por cima dos meus ombros e descansa seu queixo na minha cabeça
— Quando você melhorar vai limpar até o casco do navio
— Obrigada pela gentileza, carrasco
— Você dormiu até bem tarde, eu vou buscar algo pra você comer
Lena sai do quarto e me deixa sozinha em sua cabine, olho em volta, nunca havia estado ali antes. Havia uma mesa de madeira e uma cadeira no centro com uma janela atrás, uma estante de livros, algumas anotações encima da mesa, alguns mapas.
Fico encarando o teto esperando que ela voltasse, não conseguia entender se ela era extremamente bipolar ou se fazia esse tipo de coisa pra me fazer odiar e gostar dela ao mesmo tempo, era gentil muitas vezes e se mostrava preocupada, mas tão comum quanto esses momentos eram os que ela me fazia trabalhar até cansar, discutia e provocava.
— Voltei. — ela cantarola abrindo a porta — Bem, eu trouxe...... o gosto é melhor que a aparência — me mostra um caldo de um peixe estranho, havia uma grande cabeça estranha do animal no meio da tigela — Você pegou a cabeça, sortuda
— Eu não chamaria isso de sorte. — digo encarando o prato
— Calma, o gosto não é terrível. — mergulha a colher no caldo a enchendo e a encosta em sua boca — Ao menos não está gelado, quando eu comi eu queimei a língua. — leva a colher até perto da minha boca
— Eu posso comer sozinha
— Apenas diga “ahhh” e eu deixo o resto com você
— Você é estranha. — abro a boca e tomo o caldo, estava morno e era realmente bom
— Ok, pegue. — me entrega a tigela
— Obrigada
— Eu tenho que resolver uma coisas na minha mesa, mas se precisar de alguma coisa apenas me diga. — se levantar vai em direção a cadeira
— Por que está fazendo isso?
— Hm? — senta e olha para mim
— Sabe, cuidando de mim
— Por que você é velha demais pro chefe se preocupar em cuidar direito de você e a tripulação não liga pra isso
— Não foi isso que eu quiz dizer, é que.... você se importa de um jeito engraçado
— Prefere que eu pare de cuidar de você? — fico quieta pensando nisso por um momento
— Acho que não... — falo baixo continuando a tomar aquele caldo estranho
Minha cabeça estava latejando, talvez eu melhore se dormir mais um pouco.
— Você pretende dormir o dia inteiro? — abro os olhos e Lena estava sentada no chão perto do meu rosto
— Que horas são?
— 23:47
— Mesmo? — me sento — Eu me sinto morta
— Não devia ter bebido tanto
— Vou me lembrar disso na próxima
— Próxima?
— Ah, bem, caso tenha uma próxima. — ela ri
— Eu adoraria
— Pra onde estamos indo agora?
— Quase chegando no planeta do homenzinho Dalua
— Quantas paradas até lá
— Talvez só uma, tem um planeta nessa rota que eu gostaria de visitar
— À trabalho?
— Não
— Alguém lá te deve dinheiro?
— Não
— Tem algum item raro necessário lá?
— Por que você só pensa em mim fazendo algo cruel?
— Por que será, carrasco?
— É um belo planeta, você vai ver quando chegarmos
— Belo como?
— É surpresa. — sorri — Voce não deveria comer alguma coisa? Seu irmão deve estar preocupado com você
— Tem razão. — me arrasto para fora da cama, já conseguia fizer de pé e andar direito agora, caminho em direção a porta
— Polaris....
— Oi? — me viro para olhá-la, ela abre a boca mas hesita por um momento
— Se não conseguir dormir você pode voltar
— Ok. — sorrio e fecho a porta
O chefe e Gabe ficaram felizes em me ver, ambos ficaram preocupados, comi o resto que sobrou do jantar e me deitei na rede fazendo Gabe dormir, ele se agarrou na minha cintura e ficou ali encolhido enquanto dormia. Não sei quanto tempo fiquei olhando para o teto, eu não estava nem um pouco cansada
Fiquei pensando no que Lena disse antes de ir embora, talvez ela ainda estivesse acordada, mas não sabia se eu iria incomodar de aparecer lá a essa hora. Afasto Gabe para o lado e acaricio sua cabeça antes de ir.
— Eu volto logo. — sussurro para ele
Ando silenciosamente até a cabine da capitã e fico parada na porta pensando se eu deveria bater ou não, dou dois toques baixos apenas para saber se ela estava acordada.
— Entre. — escuto sua voz falar calmamente através da porta, nervosamente ponho a mão na maçaneta e a giro
Lena estava sentada na cadeira de costas pra a porta, a fraca luz da vela em sua mesa iluminava o ambiente com uma luz amarelada, enquanto ela descansava um livro no colo e olhava a janela, seu cabelo estava todo por cima de um dos ombros deixando o outro exposto me distraindo com a imagem de seu pescoço. Ela se vira se empurrando com o pé na cadeira giratória e olha para mim com um sorriso.
— Bem vinda de volta
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