Esperança

1 Greg e Emi, cap. 1


Narrador: Gregório.

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(tempos atuais)

Emília com a cabeça contra o meu peito. O vaso exalando cheiro de vômito. Nunca havia a visto tão abalada assim. Ela não ficou desse jeito nem mesmo depois daquele estranho incidente, quando perdeu seus dois braços. E embora não tivesse tido a mesma reação de pânico, eu não estava menos surpreso que ela. A diretora havia informado à turma sobre a morte de Francis poucos minutos atrás. Ela disse que o nosso agora ex-professor de filosofia havia sido morto por assaltantes na noite passada. Ao que parece testemunhas disseram que ele tentara proteger uma senhora idosa que estava rendida pelos ladrões, mas fora atingido antes de poder negociar com eles. Emi agora estava aos prantos.

– Por que ele tinha que morrer, Greg? Por que ele morreu? Por que ele morreu?

Eu não pude responder, apenas continuei a afagar seus cabelos. Também não sabia por que Francis tinha que morrer. De todas as pessoas do mundo, por que logo ele? Por que logo o nosso professor? A pergunta de Emi fazia sentido. Eu apertava seu corpo contra o meu com o máximo de força que podia fazer sem machucá-la. Não gosto desses momentos em que não consigo protegê-la.

A escola toda tinha sido chamada à quadra para que recebêssemos um comunicado importante. Emi começou a gritar desesperada na hora que a diretora disse da morte de nosso professor. Ela estava sentada no meu colo. É comum ela sentar-se em mim porque Emi é cega e não possui braços, então sempre precisa de alguém ao seu lado. É verdade que mesmo com essas condições físicas uma pessoa normal deveria ter aprendido a se virar mais ou menos sozinha após viver assim durante tantos anos, porém Emi depende de mim e de seus pais para tudo. Sua autoestima abaixou muito quando perdeu os braços aos nove anos de idade. Já fora diagnosticada com depressão e costuma passar a maior parte das noites em claro por causa da insônia. Mas nunca entrava em desespero como agora, por isso fiquei assustado. Quando vi que ela estava dando sinais de vômito eu me levantei com ela no colo e a levei correndo até o banheiro feminino (não sou um rapaz forte, mas Emi é pequena e leve como uma pena), ninguém tentou me impedir. Chegando lá eu a ajoelhei e inclinei sua cabeça em direção à privada. Senti um aperto no coração quando ela começou a colocar para fora tudo o que havia comido. Tranquei a porta do cubículo e me agachei ao lado dela para ficar acariciando suas costas enquanto ela vomitava. Sempre que ela parecia ter acabado aquele meio líquido meio granulado voltava a sair de sua boca. Quando finalmente terminou, nós nos levantamos e ela se jogou contra mim para pôr-se a chorar. Às lágrimas, ela não parava de perguntar:

– Por que ele tinha que morrer, Greg? Por que ele morreu? Por que ele morreu?

Ficamos assim durante algum tempo antes de alguém bater na porta do cubículo e perguntar acanhadamente se estávamos bem. A voz da pessoa que perguntou era de Eduarda, uma antiga colega que sempre quer cuidar de quem chora na escola independentemente das circunstâncias. Agradeci pela preocupação depois de responder que estava tudo bem e que não havia nada com o que se preocupar. Eu não sabia se não havia mesmo nada com o que se preocupar, mas a tristeza de Emi não diminuiria com a ajuda de Eduarda. Achei que ela iria ir embora, mas ao invés disso continuou falando.

– Ela não está bem e você sabe disso, Greg. Eu vou ficar aqui até vocês saírem.

– Só espere um pouco, tá?

Emi realmente não parecia estar bem. Geralmente ela é quieta e fica parada como uma estátua até que alguma pessoa a guie para onde ela deve ir, nunca se joga contra o corpo de alguém daquela maneira. E também não costuma mostrar suas emoções de maneira tão explícita como ela estava fazendo agora. A morte do professor de filosofia foi com certeza algo horrível, mas ela estava com medo de algo a mais. Depois de algum tempo ela se acalmou e eu pude pegá-la no colo para sairmos dali. Eduarda devia estar nos esperando logo atrás da porta, era melhor irmos logo. Mas quando abri a porta do cubículo não vi ninguém. Era melhor assim, de qualquer forma, não havia por que ela ficar ali só para dizer coisas do tipo “Não chore, Deus sabe o que faz”.

Ao não vê-la pensei que Eduarda estaria na quadra com o resto da escola, mas logo notei que ela estava de costas a alguns metros da porta do lado de fora do banheiro. Só que tinha algo de errado... Aquilo no braço dela era um pouco de sangue?

– Eduarda? – eu disse.

Ela se virou rapidamente e veio apressadamente em minha direção. Sua boca estava aberta e seus dentes molhados de sangue. Já assisti filmes de zumbi e sabia o que aquilo significava. Segurei Emília com força. O que eu devia fazer? Tentar correr? Eu não iria longe carregando Emi. Devia me defender? Não tinha nada que pudesse usar como arma. Mas não podia desistir enquanto aquela garota nos meus braços dependesse de mim para viver. Coloquei-a de pé no chão (ela sabia ficar de pé, apenas não sabia andar muito bem) e entrei em uma posição de combate inventada. Ela chegou bem próxima de mim e me preparei para dar um soco em sua cabeça (era sempre preciso acertar a cabeça). Mas antes que pudesse lançar o golpe ela falou:

– Ai, Greg. Me ajuda! Consegui me cortar aqui – ela segurava uma tesoura de ponta nas mãos. – Eu a encontrei no chão. Joguei ela aberta para cima e tentei pegá-la enquanto caía, não deu certo.

– Anh?... ah, uma tesoura. Por que sua boca está suja de sangue?

– Eu tentei chupar o machucado, tenho uma amiga que vive falando que o gosto de sangue é bom, mas parece que não é verdade.

Palavras não descreveriam o alívio que eu senti. Mas, também, olha só na bobeira que eu fui pensar só porque vi um pouquinho de sangue. Zumbis jamais existiriam no mundo real. Após limpar a ferida dela com água e sabão que havia no banheiro nós três voltamos à quadra. Muitos olharam para nós, mas ninguém falou nada. Eduarda foi para junto de suas amigas. Após me sentar com Emi no meu colo, ela escondeu o rosto no meu pescoço e ficou assim até sermos dispensados, então a levei para sua casa.

Notas finais
Curiosidade: foi preciso escrever este capítulo todo duas vezes (!!!). Na primeira tentativa eu digitei a história no próprio site, aí quando fui postá-la ocorreu um erro e acabei PERDENDO TUDO. Não preciso nem dizer que foi uma péssima primeira experiência como usuário daqui, né? Felizmente, após ler algumas obras de outros usuários consegui estímulos para começar tudo de novo. Tive que varar a noite reescrevendo (desta vez no Word!), mas finalmente consegui terminar e sinto que valeu a pena. Aliás, eu não terminei nada. Este foi apenas o primeiro capítulo!