Esperança
2 Emi, cap. 2
Narradora: Emília
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(9 anos atrás)
O meu nome é Emília. Tenho sete anos. Não consigo enxergar. Mas essa palavra é um pouco difícil. Se você não sabe o que é “enxergar”, deixe que eu explique: é uma coisa que a maioria das pessoas consegue fazer. Não sei exatamente como funciona, mas as pessoas que enxergam têm a habilidade de saber onde estão os obstáculos e onde estão os objetos desejados sem que para isso tenham que apalpar tudo. Mais do que isso, eles conseguem saber onde há obstáculos e objetos desejados desde a muitos metros de distância. Ops, acabei usando outra palavra difícil. O “metro” é uma coisa que eles chamam de “medida de espaço”. Sei que sempre que andamos um pouquinho podemos dizer que andamos um metro. Só para completar, se você não sabe o que é espaço, minha mãe disse que é uma coisa imensa e cheia de estrelas e planetas. Não sei o que é “imensa” e nem o que são estrelas e planetas, mas se eles dizem que o metro é “medida de espaço”, então acho que as estrelas e os planetas são os obstáculos e os objetos desejados que todo o mundo consegue saber onde está sem ter que apalpar e a “imensa” é o lugar onde a gente anda. Na verdade eu não me importava muito em saber o significado das palavras difíceis, mas quando eu disse isso ao papai ele falou que eu preciso saber o significado de todas as palavras porque eu vou aprender a enxergar através delas. Aliás, não tinha notado essa palavra quando ele falou, mas agora me pergunto o que será que é “através”? Mais tarde eu vou perguntar ao papai ou à mamãe. Agora eu estou ocupada.
Hoje é um dia especial porque é a primeira noite que meu irmão Lúcio passará aqui em casa. Não sei de onde ele veio e nem quem é ele, mas papai e mamãe o trouxeram e disseram que ele vai fazer parte da nossa família a partir de agora. Quando eu perguntei para mamãe se ele consegue enxergar ela disse que sim. Fiquei um pouco triste porque a escola é cheia de crianças que enxergam e é muito difícil brincar com elas, então quando ele ficar grande vai ser difícil brincar com ele também. Mas está tudo bem porque eu o amo. Mamãe disse que agora que eu sou irmã mais velha eu me tornei uma espécie de segunda mãe do Lúcio, então tenho que amá-lo e protegê-lo. É isso o que estou fazendo agora: o protegendo. Lúcio está dormindo e eu estou aqui do seu lado, aí quando ele chorar eu vou chamar a mamãe. Ele chora baixinho, então ela não consegue ouvi-lo de longe. O único problema é que é entediante ficar aqui parada sem fazer nada.
(tempos atuais)
Escola. É hora do intervalo. Como sempre, ao invés de ir ao pátio, eu fiquei aqui na sala de aula com Greg. O Greg é um menino que eu conheci quando era criança, na mesma época que meu irmão Lúcio morreu e eu perdi meus braços. Ele deve estar bastante preocupado comigo, já que consigo sentir seu braço envolto ao meu corpo. Mas é minha culpa. Ontem perdi o controle quando a diretora disse que Francis morreu. Ele até dormiu lá em casa hoje porque não queria me deixar sozinha. Acontece que eu não suporto mortes desde que meu irmão se foi. É claro que eu entendo que as pessoas existem visualmente, mas para mim elas sempre foram apenas vozes. Por isso, quando alguém morre, não significa apenas que nunca mais poderei me encontrar com a pessoa: significa que nunca mais poderei me recordar dela. Entende o que isso quer dizer? Não consigo ver fotos e não tenho nenhuma gravação de áudio do professor Francis. Deitei minha cabeça no ombro de Greg. Quero falar com ele.
– Greg.
– Sim, Emi?
– Para onde você acha que o professor Francis foi?
Greg não respondeu imediatamente, provavelmente estava pensando numa resposta que não fosse me fazer chorar de novo.
– Ele deve ter ido para o céu.
– Você acha que a voz dele também foi pra lá?
Senti seu outro braço se envolver em mim. Ele me beijou na cabeça. Ao responder a sua voz estava mais baixa que o normal.
– Sim, a voz dele também foi para lá, Emília.
É verdade que eu amo Gregório e tenho vontade de ficar com ele para sempre, como namorada e esposa, mas não tenho coragem de pedir isso. E também, ele jamais seria feliz tendo a mim como mulher. Greg deve gostar da Eduarda e tem vergonha de dizer isso.
(2 anos após Lúcio nascer)
Hoje é um dia especial porque papai vai levar Lúcio e eu para tomarmos sorvete na Branca de Neve. A mamãe também deveria vir, eu acho, mas ela precisava ir ao trabalho. Ela é enfermeira no hospital da cidade. Enfermeiros são pessoas que trabalham cuidando dos doentes. Já estamos todos no carro, papai vai dar a partida.
– O Lúcio está quietinho aí atrás, Emília?
Levei minha mão à cadeirinha de Lúcio ao meu lado e senti sua barriguinha, sua cabecinha e seu narizinho. A barriguinha é grande, nem cabe na minha mão. A cabecinha fica um pouco acima, é redonda mas tem um monte de altos e baixos relevos. Um dos altos relevos, o mais interessante de apalpar, é o narizinho. Ele serve para respirar. Aprendi tudo isso com mamãe. Lúcio estava quietinho.
– Está sim, papai.
– Então vamos lá.
Senti o carro ligando. Sempre achei curiosa a maneira como o carro trabalha: você entra nele, alguém o liga, o carro começa a tremer e um tempo depois ele para e quando você sai dele está em um lugar diferente. Quando noutro dia perguntei a papai como aquilo funcionava, ele me disse que a tremedeira do carro é ele andando pela rua. Usamos o carro para chegar rápido a lugares distantes. Senti o carro parando de tremer. Escutei a porta se abrindo e alguém levando Lúcio para fora. A porta fechou-se. Segundos depois outra porta abriu-se, papai pegou a minha mão, saí do carro. Eu carregava a minha bengala em uma das mãos. É importante para mim usá-la pois com ela eu consigo sentir os obstáculos que estão no chão sem ter que tropeçar neles. Pela outra mão papai me segurava. Que sabor de sorvete eu vou querer?
– Que sabor de sorvete vocês vai querer, Emi? Lúcio e eu vamos tomar de chocolate.
– Eu quero de morango!
(tempos atuais)
– Eu quero de morango, por favor.
Greg e eu estamos em uma sorveteria chamada Doce Iceberg. Ele disse que vou me sentir melhor se tomar um copo de milkshake, e eu gostei da ideia. Sei que nada irá trazer Francis de volta, mas qualquer desculpa para passar um tempo a mais com Greg me agrada. Ele é tão gentil que sempre toma o cuidado de não me levar para a Branca de Neve.
(2 anos após Lúcio nascer)
– Fiquem sentados aí, tá? O papai vai ir buscar os sorvetes e já volta.
Oba! Eu adoro sorvete! E aposto que Lúcio também. É uma pena que mamãe não tenha vindo conosco, mas sorvete é sorvete eu eu sempre o adoro. Não há nada comparado a sentir aquela massa doce e gelada derreter em sua boca. Pode ser de creme, doce de leite, chocolate, uva... ah, as opções são infinitas. O meu eternamente favorito é o de morango. Uma vez na escola ouvi uns meninos dizendo que não gostavam de sorvete de morango porque a cor dele é de menina. Quando em casa eu perguntei à mamãe o que é “cor”, ela disse que é uma coisa que todos os objetos têm mas que é impossível explicar como é uma cor. Uma cor de menina deve ser a coisa mais linda de todas, já que as meninas são mais legais que os meninos. Deve ser por isso que o sorvete de morango tem essa cor: porque é o mais saboroso de todos.
(tempos atuais)
Eu não tomo sorvete desde os 9 anos de idade. Lembro bem que a última vez que tentei tomar foi na Branca de Neve, bem no pior dia da minha vida. Desde então peço apenas milkshake quando veio à sorveteria. Na verdade eu morro de vontade de tomar sorvete, só que tenho vergonha de pedir para Greg me dar na boca. O pior é que sempre que ele se oferecia para fazer isso eu dizia que preferia milkshake, então com o tempo Greg acabou presumindo que eu gosto mais de beber pelo canudo e hoje em dia ele nem me pergunta mais se eu quero sorvete. Eu também não posso pedir sorvete aos meus pais porque papai tem trauma disso e mamãe por ser supersticiosa diz que dá azar, então quando venho ao Doce Iceberg com Greg é meio que clandestinamente.
(7 anos atrás)
– Me perdoe, Emi!
Um homem gritou isso enquanto papai ia buscar os sorvetes. Quem é essa Emi? Meu nome é Emília, se parece com Emi. Mas por que ele está gritando isso? O grito se seguiu de muito alvoroço. Parecia com a hora do recreio na escola, só que este era na sorveteria e mais assustador. Escutei um estalo muito alto. Lúcio deve estar com medo. Mas quando o apalpei vi que ele estava quietinho e fiquei mais calma.
– Não! Não! Não!
Papai gritava, eu não entendia o porquê. Ele estava bravo. Eu não entendia sobre o que os adultos estavam falando. Outro estalo. Onde está meu sorvete? Levei minha mão à cadeira de Lúcio, mas ele não estava lá.
– Lúcio?
Eu usava os dois braços para procurar Lúcio. Onde ele está? De repente algo acontece. Dor, dor, dor. Não consigo mais apalpar a cadeira de meu irmão. Aonde ele foi? Dor, dor, dor. Dói demais. Começo a perder minhas forças. Estou cansada. Ouvi o som de meu corpo caindo no chão. Acho que não vou tomar sorvete hoje.
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