Esperança

3 Gregório e Eduarda, cap. 3


Narradora: Eduarda

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(tempos atuais, uma semana após a morte de Francis)

Que estranho, hoje Greg veio à escola sozinho. Desde que passei a estudar com ele na sexta série/sétimo ano nunca vi isso acontecer. Sempre que Emília falta Greg também falta e vice-versa. Agora ele está sentado num banco, sozinho. Ele passa tanto tempo focado em Emília que acabou ficando sem nenhum outro amigo. Me sinto incomodada com isso. Entendo que o que ele faz por Emília é bonito, mas ninguém deveria ficar preso a outra pessoa dessa maneira, ainda mais um adolescente. Não consigo me imaginar dando comida na boca de alguém, muito menos levando alguém ao banheiro. Falando nisso, será que Emília usa fraldas? Não dá para saber porque ela está sempre de saia longa, se bem que talvez ela vista isso justamente para esconder o volume na região. Mas se ela não usa então significa que Greg tem que limpá-la sempre que a leva ao banheiro. Nojento. E olha que nesses cinco anos em que estudo com eles já o vi levando-a para lá ao menos várias vezes. Queria saber por que ele se sujeita a esse tipo de coisa. Alguém no estado de Emília deveria no mínimo ter aulas particulares especiais. Aliás, já sei o que vou fazer, vou aproveitar que a aula ainda demora um pouco para começar e irei perguntar a ele por que cuida tanto dela. Apesar de não costumarmos nos falar, eu já o conheço há bastante tempo e não tenho vergonha dele como o resto da turma, que o conheceu apenas no ano passado.

– Oi, Greg. Como vai?

Sentei-me ao lado dele no banco.

– Eu tô bem.

Muitas pessoas têm o costume de por educação perguntar “E você?” após dizerem que estão bem, mas a falta de hábito de conversar do Greg deixou-o bastante deficiente na matéria de relações sociais. Agora ele está olhando para o chão como se eu nem estivesse aqui. Já ia me preparando para dizer algo quando Greg levantou a cabeça para minha direção.

– O seu corte melhorou?

Semana passada me atrapalhei com uma tesoura e me machuquei, Greg ficou preocupado e fez questão de limpar meu braço com água e sabão. Foi desnecessário porque apesar de grande o corte não era nada profundo e nem estava doendo tanto, mas ele fez questão de limpá-lo dizendo que poderia infeccionar.

Olhei para o meu braço e vi uma cicatriz bem sutil que provavelmente só ficou porque não resisti em tirar a casquinha do machucado.

– Sim, obrigada. Mas aquilo não foi nada.

Ele apenas olhou para o meu braço, inexpressivamente.

– Ei, Greg, por que a Emília não veio hoje?

– Ela está gripada.

– Ah, eu tinha estranhado porque geralmente vocês não vêm à escola sem um ao outro.

– Ela queria que eu viesse para entregar o nosso trabalho de história à professora.

– Entendi.

O trabalho de história... me esqueci completamente dele. Bem, acho que um trabalho não feito a mais não fará muita diferença. Eu nunca entrego essas coisas, então os professores já não devem mais sequer esperar que eu os faça.

Greg continuava inexpressivo. Eu falei:

– Posso te perguntar uma coisa? Faz tempo que tenho essa curiosidade. Por que você fica cuidando da Emília o tempo todo? Você já fazia isso até quando éramos crianças, na sexta série.

– Ela é minha amiga.

– Mas você não se sente incomodado em ter que ficar com ela o a toda hora?

Greg pareceu começar a prestar mais atenção em mim.

– Não é verdade, Emi também passa muito tempo em casa com os pais.

Inclinei a cabeça para o lado. Mesmo que Greg não ficasse com Emília 100% do tempo, ele dedicava-se por inteiro a ela. Ele até deixa de ir ao pátio aos intervalos só para ficar sentado com Emília na sala. Por que ele faz tudo isso por ela?

– Por que você faz tanto pela Emília, Greg?

– Eu prometi a ela quando nos conhecemos.

– Por quê?

Greg me encarou por um momento e virou-se de novo para o chão rachado. É triste dizer isto, mas ele não é um rapaz que eu consideraria bonito. Seu cabelo é raso, estilo militar, parece ser loiro, seus olhos são de um azul fosco e seu corpo, embora não seja nem muito magro e nem muito gordo, não aparenta força. Seu tom de pele exageradamente claro chega a lhe dar um aspecto doentio.

– Ela precisava de alguém e eu me ofereci.

– Conta direito essa história. Como vocês se conheceram?

Pude ouvi-lo respirando fundo.

– Depois que terminei a quarta série me mudei para a nossa escola antiga e Emi estava lá.

– Então vocês se conheceram só um ano antes de eu os conhecer? Já pareciam muito próximos na sexta série.

– Não foi nem um ano antes. Quando passei a ficar com ela já estávamos na segunda metade do ano.

Por que ele não parava de dar respostas pela metade?

– Aí você simplesmente foi lá e disse que cuidaria dela?

Greg sorriu levemente.

– Falando assim parece idiota, mas foi praticamente isso o que aconteceu. Éramos os únicos da turma sem amigos, tanto é que na hora do intervalo nós ficávamos sozinhos na sala de aula porque não tínhamos o que fazer lá fora. Durante vários meses passamos o recreio juntos, mas nunca conversamos, nós dois estávamos sempre em silêncio. Um dia, porém, ela começou a cantar uma música sobre escuridão e não poder tocar as coisas. De mansinho me aproximei dela para escutar melhor a música, mas acabei fazendo barulho e ela parou de cantar na hora e perguntou quem estava lá. Quando ela perguntou isso percebi que Emi havia passado todos aqueles meses sem se dar conta de que não ficava sozinha nas horas do intervalo. Após eu responder, ela se desculpou por ter cantado e assustada disse que não iria mais fazer aquilo. Acabei sentindo pena dela e desde então passamos a maior parte do tempo juntos. No começo ela ficava tensa com a minha presença, mas não demorou muito para ela passar a confiar em mim.

Então Gregório já não tinha amigos mesmo antes de conhecer Emília. No fundo eu esperava que os dois tivessem se encontrar numa situação mais intensa, aventuresca, mas a história dele já era boa o suficiente.

– Eduarda.

Greg olhava para mim.

– O quê?

– Você se importa em não contar essa história a ninguém?

– Claro que não, mas por quê?

– Não quero chamar atenção dos outros.

Ele está certo. Seu eu contasse a alguém não demoraria muito para essa história repercutir pela escola toda.

Greg completou:

– Na verdade, só contei a você porque nos conhecemos há bastante tempo e achei que tinha o direito de saber.

Greg também sente consideração por mim por causa do tempo que estudamos juntos. É legal como duas pessoas podem passar a gostar uma da outra pelo simples fato de conviverem há bastante tempo, mesmo que quase nunca conversem entre si. Eu também gosto de Emi pelo mesmo motivo. Tenho certeza que ela também gosta de mim.

– Eduarda, agora é sua vez de me contar sobre seu passado.

Encontrei-me surpresa com a pergunta e nervosa com a expressão de Gregório. Ele apoiava o cotovelo no encosto do banco e a cabeça no punho cerrado contra a bochecha. Sua face apresentava um raro sorriso torto e seus olhos opacos me fitavam. Greg não parecia ter más intenções, mas concluí que ter uma cega como única amiga não é algo que contribui muito ao refinamento do conhecimento sobre sua própria imagem.

– Eu não tenho nenhuma história interessante. Minha infância foi normal. — Falei.

– Da maneira como você diz parece até que a minha história foi extraordinária.

– Mas não é? Quantas pessoas cuidam de um cego aleijado?

Ele sorriu mais e disse com uma risadinha:

– Há no mínimo uma pessoa para cada cego aleijado no mundo.

Sorri e balancei a cabeça. Ele estava certo. Falei:

– Está bem, você venceu. A coisa mais diferente para te contar sobre o meu passado foi ter testemunhado a morte de meu avô. Eu havia ido levar o jantar dele em seu leito encontrei-o respirando com dificuldade. Ele disse a palavra “comprimido” e morreu logo depois, na minha frente. Provavelmente queria seu remédio para dor, mas nem isso teria o salvo. Eu devia ter uns treze aos na época.

– Isso é horrível. Sinto muito.

– Está tudo bem, ele já estava bem velho e eu nem era tão próxima dele.

– Mesmo assim deve ter sido traumatizante. Emília vive dizendo que a morte é a pior coisa que existe.

A maneira como ele dizia o nome Emília deixava claro o quanto ela significava para ele.

– Gregório, você se importaria se eu me aproximasse de Emília e de você? Acho que já passamos tempo demais estudando juntos para continuarmos fingindo que não nos conhecemos.

Ele ponderou por alguns instantes, tentando entender a minha proposta. Então respondeu:

– Claro. Vai ser ótimo para Emi ter uma amiga menina. De vez em quando ela até diz que quer ser sua amiga.

– Sério? Ela sabe que eu existo?

Achei que por ser cega Emília não tinha noção de quem eram seus colegas na escola. Gregório estava sorrindo. Finalmente percebo que devia ter vindo falar com ele há muito tempo.

– Sabe sim, e ela gosta de você.

– Fico feliz em saber disso. Então está combinado, serei a mais nova amiga de vocês.

O sinal tocou, anunciando o início da primeira aula. Greg e eu fomos juntos para a sala.

Notas finais
Levou bastante tempo, mas enfim ficou pronto o terceiro capítulo. Está sendo-me difícil, mas sinto que melhoro um pouco mais a cada palavra que escrevo. Espero poder ter um nível de escrita decente dentro de alguns anos.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.