Espelho Quebrado

13 Blood Orange


Era quase 10:00 da noite quando Chris entrou no quarto com Taylor depois de tomarem banho. Elas estavam rindo e conversando. Chis pula e senta ao meu lado na cama, depois tira o celular da minha mão. Papai havia enviado uma mensagem pedindo que eu lhe ligasse quando pudesse e eu já ia fazer isso.

–Temos uma novidade — diz animada.

–Diga e me devolva o celular — tento pega-lo, mas ela o joga para Taylor.

–Primeiro, me deixe falar. Segundo, não viemos para o Rio só pra que você fique no celular o dia inteiro. Terceiro, você já tomou banho? — ela se aproxima e me cheira que nem um cachorro.

–Já tomei banho, pare com isso — empurro sua cabeça — fala logo.

–Adivinha quem vai tocar em um clube perto daqui essa noite...

–Eu que não sou — levanto da cama.

–Uma das suas bandas favoritas — é Taylor quem fala quando vou pegar meu celular.

–Tenho muitas bandas favoritas...

–"Procurei em sonhos inspirações, tristes canções me fazem lembrar..." — Chris canta.

–Você tá de brincadeira — digo surpresa e ela apenas sorrir.

Fake Number era realmente uma das minhas bandas favoritas. A cantora é um tesão e fã do paramore. As musicas são tudo o que eu quero dizer e sempre se encaixavam em algum momento da minha vida.

Taylor me mostra o folheto que imprimiu da internet que dizia o local e o horário do show. Tiro o papel de suas mãos e olho sorrindo.

–Nós vamos — digo.

–Já está tudo no esquema — Chris mostra a chave reserva da pensão.

–Como conseguiu isso? — pergunto.

–Foi Taylor quem conseguiu. Só não sei como.

Seria a noite ideal para por meus planos em andamento.

o/

Descemos para o andar debaixo assim que todos foram dormir. O local estava totalmente escuro e em silêncio. Só se ouvia os sons de alguns automóveis que passavam na rua e das nossas risadas quando eu esbarrava em algo. Passamos pela cozinha, sairíamos pela porta dos fundos, seria menos arriscado.

A porta já estava aberta e uma brisa fria invadia o cômodo. Do lado de fora ainda tinha uma pequena varanda com duas cadeiras e alguns degraus para o jardim.

–Onde as crianças pensam que estão indo? — uma voz próxima dali nos paralisou. Olhamos para a direção ao mesmo tempo.

Algumas luzes do jardim ficavam acessas. Uma silhueta feminina se mostrou. Podia ser qualquer garota, mas tinha que ser logo Bea? Que merda.

–Não interessa aonde vamos — digo.

As meninas ainda não a reconheciam, mas eu saberia que aquele corpo era dela em qualquer lugar. Bea se aproxima e uma das lâmpadas ilumina seu rosto.

–Me deixem ir com vocês — diz, não pede.

–Não, você vai estragar nossa noite — Chris fala.

–Seria uma pena se eu subisse e falasse para um dos professores onde as queridinhas estão indo — ela fumava um cigarro. Eca!

–Então venha. Mas eu não quero ouvir você reclamando de nada, ok? — falo de uma vez e saiu em rumo ao táxi que parou onde combinamos mais cedo.

Só deu pra ouvir a bufada de Chris e a risadinha de Bea.

Pobre Taylor, estava no meio -literalmente- do fogo de combate. Eu estava no banco da frente e as três foram no banco detrás. Peço desculpas a Taylor silenciosamente por tê-la deixando naquela situação, ela apenas me dá um pequeno sorriso como se aquela discussão das duas não lhe afetasse.

Por gloria ao Senhor, chegamos antes de acontecer um assassinato dentro do táxi. O lugar parecia bem tranquilo, mas a fila estava enorme.

Bea sai em rumo dos seguranças e fala algo com eles. Minutos depois ela vira e nos chama. Entramos sem pegar fila, nem pagar ingressos.

–Eu vou dar uma volta. Se precisarem de mim é só mandar uma mensagem ou me ligar — Chris se despede e sai.

Ótima amiga, me deixa numa saia justa daquelas. De certa forma ela nem sabia disso, eu nunca contei sobre minha sexualidade, muito menos sobre Bea.

–Vamos ao bar — lidero e saiu com elas me seguindo.

O clube era um lugar aberto. Tinha uma piscina que no momento estava fechada. A área coberta é onde ficava o pequeno palco. O bar vazio, mas as mesas cheias, não tinha muitos lugares para sentar.

Três dos quatro bancos no balcão são ocupados por nós.

–O que vão querer meninas? — uma bartender repleta de tatuagens pergunta.

–Você tem aquela bebida azul? Droga, esqueci o nome — bato com a mão na cabeça e ela dá uma leve risada.

–Temos sim, se chama Lagoa Azul. E vocês? -pergunta as outras.

–O mesmo que ela — Taylor.

–Me traga uma garrafa da sua melhor vodka — Bea pede.

A moça sai para buscar os pedidos.

– Bea, não quero levar você bêbada para a pensão. Pega leve com a bebida...

–Não enche garota.

Dou uma pequena risada. A bipolaridade daquela garota era incrível.

Viro para Taylor, hora de começa.

–Tay — pelo nos seus cabelos para que me olhe — a ideia de vim ao show foi sua? — pergunto.

–Foi — diz sorrindo — vi no facebook que você curtia a banda e fui escutar. Foi assim que descobri sobre o show.

–Então você estava stalkeando meu face? — ela fica vermelha.

–Nãão... É que... — era engraçado vê-la gaguejando.

–Tá tudo bem — beijo o seu rosto e ela fica ainda mais corada — obrigada.

A moça tatuada chega com nossas bebidas e Bea sai logo que paga a sua vodka. Pago a minha e a de Taylor e lhe puxo para a pista.

A banda de abertura anunciava a sua ultima musica para que logo depois Fake Number entrasse. Não seria um show cover se não tocasse Legião, é quase uma lei.
Estávamos bem próximas ao palco, a banda que estava no palco era formada apenas por garotos.
Bea aparece com uma garota na nossa frente. Bem em frente mesmo. Se eu esticasse o braço seria possível tocá-la. Viro a bebida de uma vez só e seguro a mão de Taylor.

"Tire suas mãos de mim/ Eu não pertenço a você/ Não é me dominando assim/ Que você vai me entender/ Eu posso estar sozinho/ Mas eu sei muito bem onde estou/ Você pode até duvidar/ Acho que não é amor".

Aquela musica começou a fazer sentido. Renato Russo, você é um gênio.

"Será só imaginação?/ Será que nada vai acontecer?/ Será que é tudo isso em vão?/ Será que vamos conseguir vencer?".

Dancei e pulei durante o refrão. Taylor me acompanhava quanto podia, mas ainda tinha bebida em seu copo e tomava cuidado para não derramar em ninguém.

"Brigar pra quê/ Se é sem querer/ Quem é que vai nos proteger? / Será que vamos ter/ Que responder/ Pelos erros a mais/ Eu e você?"

Quando a musica acabou gritos, assobios e aplausos encheram o clube. O vocalista da D-Lux, agradeceu e se despediu.
Uma leve musica eletrônica começa, enquanto o palco é organizado para a entrada da banda principal.

–Quer outra bebida? — Taylor pergunta.

–Não quero perder o lugar aqui na frente.

–Eu vou buscar. A mesma bebida azul?

–Não, peça a ela Blood Orange.

–Você conhece bem as bebidas em? — diz rindo.

–Não pense mal sobre mim. Às vezes eu ajudava Jó no bar e ele me ensinou algumas coisas.

–Tudo bem. Eu vou indo...

Tinha muita gente na pista. Alguns casais se abraçavam, grupos de amigos riam e pulavam com Clarity do Zedd Feat. Foxes. Mas os meus olhos sempre desviavam para Bea e a tal garota. As duas falavam perto uma da outra, às vezes a loira ria de alguma coisa que a Beatrice falava e tocava seu braço.

Em um momento Bea vira-se e me ver. Eu lhe encarava descaradamente. Era visível que a loira era mais nova do que eu e estava super afim de ficar com ela. E foi isso que ela fez... Beijou a garota.