Espelho Quebrado
14 Que Vadia
Notas iniciais
Que vadia.
Ela fez aquilo pra me provocar, eu tenho certeza. E estava funcionando. Eu quase bufava de raiva.
Bea beijava a garota e mantinha os olhos em mim. Que doença é essa, ruiva? Podia ter um pouco mais de consideração.
Taylor chega com as bebida e um sorriso no rosto. Eu passo a olhá-la, era uma visão bem melhor do que aquela a frente.
–A banda vai entrar em cinco minutos. A moça no bar me falou — me entrega a bebida vermelho.
O som aumenta um pouco e começa a tocar Ignorance-Paramore.
–Caralho, eu amo essa musica — grito.
–Eu sei — ela grita de volta.
Canto alto, praticamente grito.
A pista encheu ainda mais. Eu e Taylor estávamos sendo esmagadas. Seguro sua cintura impedindo-a de cair e derramar sua bebida. A minha já tinha ido embora na metade da musica.
–Não precisa ficar aqui. Se quiser ir para um lugar melhor, pode ir — falo no seu ouvido com o seu corpo colado ao meu.
Sentia sua respiração no meu pescoço e suas mãos em meus ombros. Não parecia estar desconfortável naquela posição.
–Prefiro ficar aqui, posso? — afasta o tronco, mas continua grudada a mim. O seu rosto a centímetros do meu me dá uma certa confusão. Ela é extremamente adorável.
–Você tudo o que quiser — digo sem pensar e toco o seu rosto.
–Tudo mesmo?
Sem esperar resposta ela avança em meus lábios. Se beijar Bea era uma calmaria. Beijar Taylor era uma confusão. Ninguém se importaria em ver mais um beijo entre duas garotas, eu já tinha visto 5 essa noite.
Sua língua pede passagem e eu lhe dou. De anjo aquela garota só tinha cara, aquele beijo me fez perder toda a consciência. Eu estava prestes a levá-la dali e fazê-la minha. A excitação subia por todo o meu corpo e Taylor sabia exatamente onde me tocar.
Sinto uma mão puxar o meu ombro e o beijo para bruscamente. O que diabos estava acontecendo? Bea.
Ela estava para entre mim e Taylor com um olhar desamparado e eu sem saber o que fazer.
–Você disse que me amava, vadia mentirosa — grita pra mim.
–Não vem com essa de cobrança pra cima de mim. Eu não te devo satisfações... E só pra você saber, dizer que te amava foi o maior erro da minha vida. Você não sabe dar valor as coisas que não tem preço.
Ela se aproxima de mim e aqueles olhos estavam tão magoados, ela parecia mil vezes mais frágil. Meu coração parou de bater por alguns segundos quando uma lagrima escorreu de seus olhos.
–Você é minha — diz com uma voz mansa e segura as minhas mãos.
–Até quando? Até você me ter e cansar de novo? — meus olhos umedecem e as lagrimas caem — nós já passamos por isso muitas vezes Bea. Eu fui sua, mas você nunca foi minha. As coisas não funcionam assim.
Solto suas mãos e saiu da pista sem olhar pra trás. Ainda ouvi meu nome sendo chamado algumas vezes, mas ignorei e sai porta a fora.
A noite era fria em comparação ao calor dentro do clube. Eu nem fazia idéia de onde estava, ou como voltaria para a pensão. Isso não importava agora. Ando por algumas ruas e encontro uma pracinha meio desestruturada, mas pelo menos havia onde sentar.
A todo custo eu tentava parar essas lagrimas estúpidas que insistem em cair. Já não era o suficiente ela ter quebrado o meu coração? Agora ela iria me impedir de viver outra vez?
Esses pedaços idiotas em meu peito teimavam em amar aquela ruiva maluca.
Quando a dor cessava imagens dela voltavam com força na minha cabeça e me obrigavam a chorar novamente.
O enterro de Alice.
Meu aniversario na semana seguinte.
A volta as aulas depois do incidente.
O julgamento.
Em todos esses momentos importantes ela esteve presente. Com a mesma insanidade de me fazer bem e mal. O que de fato me irritava era que aquele sentimento que ela me fez ter na época, me distraiu da dor maior que foi perder a minha irmã. Sempre me perguntei se ela tinha consciência de tudo aquilo, ou só foi mero acaso.
No dia em que nos conhecemos eu quase ri do seu jeito arrogante e esnobe ao lado de seu pai e Jason. No restaurante em que estávamos ela pedia a comida mais difícil de pronunciar e fez questão de acompanhar com um belo vinho, mesmo sendo menor de idade. Quando Jason foi ao banheiro e seu pai atender uma ligação fora da mesa, nos deixando sozinha, a garota de segundos atrás havia sumido, surgia agora uma "nova" Beatrice. Ela me fez perguntas bobas, como "qual minha sobremesa favorita" e "qual faculdade eu queria cursar". Foi aquele sorriso bobo e moleque que me fez remexer um sentimento oculto dentro de mim.
Naquela mesma noite comemos a sobremesa sozinha, o seu pai teve um caso importante de ultima hora e Jason havia esquecido que marcara um trabalho com alguns amigos da aula de francês.
A todo custo ela tentava roubar o meu sorvete de amora e se reclamava que o dela não era tão bom quanto meu. Rendi-me e dei um pouco da minha sobremesa a ela Quando pus a colher em uma boca e os seus olhos me encararam com um semblante divertido eu me segurei para não agarrá-la. Dando-me conta do que estava preste a fazer ruborizei e ela aperta minha bochecha dizendo que eu fico fofa assim corada.
Meu celular toca e me trás de volta ao mundo real.
"Cris" — era o nome que brilhava na tela.
–Oi — digo sem vontade.
–Onde você tá? — sua voz estava a um passo do desespero — a Bea esta aqui completamente louca, daqui a pouco ela mata qualquer um que chegar perto dela.
–O que aconteceu? — pergunto já de pé e a caminho do clube.
–Não sei, mas Taylor também não está bem. Ela e Bea estavam brigando e Taylor machucou o rosto.
–Estou indo — desligo o celular e corro.
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