Espelho
3 A culpa é minha?
Notas iniciais
Hoje eu acordei cedo, vesti um vestido florido, escovei os dentes e sai correndo pela casa.
Estou muito feliz porque hoje é o dia da mudança, finalmente terei um quarto só pra mim. *pensei*
Sempre morei de aluguel e precisei dividir quarto com minha irmã, porque um tio nosso morava conosco.
Passamos o dia empacotando caixas e colocando no caminhão de mudanças.
Depois de um longo dia finalmente arrumamos tudo na nova casa.
Me joguei na minha cama e logo dormi.
—Filha acorda, já está na hora
—Só mais cinco minutos. *disse me virando pra outro lado*
Depois de um tempo eu finalmente criei coragem de levantar, tomei banho, escovei os dentes, vesti um vestido rosa, desci as escadas e fui tomar café
—Filha, a partir de hoje eu vou começar a trabalhar.
—Por que? *eu tenho 8 anos e nunca vi minha mãe trabalhar pensei*
—Por que eu gosto de costurar e uma amiga minha me chamou pra trabalhar com ela, eu pensei sobre isso e resolvi aceitar.
Meu pai sempre trabalhou sozinho e minha mãe cuidou da casa.
Como será a experiência de passar o dia longe da minha mãe, desde que nasci ela sempre cuidou de mim, sou uma filha bem mimada e apegada com meus pais.
—Eu contratei uma babá pra cuidar de você e seu tio também vai ajudar. *ela disse bagunçando meu cabelo de forma afetuosa*
Meu tio é irmão da minha mãe, ele mora conosco faz três anos, eu gosto muito dele, é como se ele fosse meu segundo pai e meus pais confiam muito nele.
Depois do café subi pro meu quarto e fui brincar.
Eu amava brincar, correr pela casa, cantar e dançar, meu sonho era ser bailarina e cantora, eu era uma criança cheia de energia, brincalhona, muito carinho, demonstrava isso através do brilho no meu olhar.
Sempre gostei de brincar com meus primos, vivia indo pra casa deles jogar.
Sempre me dei bem com garotos e até gostava mais deles, achava a amizade mais sincera.
Tinha uma vida ótima.
Alguns dias se passaram, minha mãe começou trabalhar.
Eu estudo de tarde e minha irmã de manhã, eu fico com a babá e meu tio e a tarde minha mãe já está em casa.
—Filha você vai ter que ficar uns dias só com o seu tio
—Por que? mais uma babá foi embora?
—Sim, não sei o que está acontecendo, mas todas as babás que eu contratei nas últimas semanas não quiseram ficar e eu não estou achando mais nenhuma que queira trabalhar aqui.
Subi pro meu quarto, deitei na minha cama e comecei pensar no que minha mãe havia dito.
Eu sempre vejo meu tio querendo namorar com as moças que vem trabalhar aqui, mas isso não deve ter nada a ver.
Acordei cedo no dia seguinte, estava bem animada pra brincar.
—Let? *disse meu tio entrando no meu quarto*
—Sim
—Venha cá, tenho uma coisa pra te mostrar
—O que é? *perguntei toda animada*
—Vem comigo
O segui até seu quarto.
Entrei e logo em seguida ele entrou fechando a porta.
—Você gosta da barbie não é minha querida?!
—Sim eu gosto muito. * disse demonstrados entusiasmo*
—Eu comprei uns jogos bem legais pra você
—Sério?! que legal, deixa eu jogar
Ele puxou uma cadeira pra perto do computador e se sentou.
—Venha, sente-se aqui no meu colo
Concordei com a cabeça e sentei.
Ele colocou o joguinho e eu comecei jogar
Ele estava segurando minha cintura e sua mão começou descer, passou pelos meus quadris e parou na minha coxa.
Meu coração começou bater de uma forma estranha, senti uma espécie de medo, misturado com constrangimento.
Tentei ignorar a situação e continuar jogando, mas suas mãos não paravam de passear pelas minhas coxas.
Não consegui continuar jogando tranquila.
—Eu não quero mais jogar, vou pro meu quarto. *falei um pouco baixo, tentando sair do do seu colo*
—Calma, fica mais um pouco, eu comprei esse jogo especialmente pra você, porque você é minha sobrinha preferida.
Tentei ignorar o sentimento estranho que estava sentindo e continuei jogando.
As mãos que passeavam pelas minhas coxas começaram a entrar por baixo da minha blusa e foram descendo até o coiz da minha saia.
O sentimento estranho continuava e eu não sabia o que fazer.
Senti suas mãos entrarem por dentro da minha saia e tocar minha calcinha, ele começou a passar a mão. Comecei chorar e ele parou de passar a mão no meu corpo.
Abri a porta do quarto e fui correndo pro meu, tranquei a porta e fiquei lá morrendo de vergonha.
Na hora de ir pra escola eu tomei banho e fui procurar uma roupa pra vestir, só tinha saias e vestidos.
Fui no quarto da minha irmã e peguei uma calça dela, nunca gostei de vestir calça ou short, mas por algum motivo não me sentia mais bem de saia ou vestido.
Terminei de me arrumar peguei a mochila e desci.
—Já vai pra escola?
—S-sim. *respondi de cabeça baixa*
—Não vai almoçar?
—N-não
—Olha...sobre hoje...não conte pra ninguém, prometo que não farei mais isso...
—T-tudo bem...
Sai de casa e fui pra escola, não consegui me concentrar na aula. Passei o dia pensando no ocorrido de mais cedo.
No intervalo fiquei quieta no meu canto, a professora estranhou meu comportamento, nunca fui uma garota quieta.
Depois da aula fui direto pro meu quarto, sem falar com ninguém.
Antes de dormir comi um pouco só pra não morrer de fome.
No outro dia acordei sem ânimo pra nada.
—Let?
—Sim, eu te trouxe um presente
—Presente?
—Sim, pra me desculpar por ontem...
No fundo ele não é uma má pessoa, vou esquecer o ocorrido de ontem e tudo voltará ao normal. *pensei*
—Vem comigo
O segui até seu quarto.
Ele me mostrou vários filmes, todos os meus preferidos.
Fiquei bem alegre e escolhi um pra assistir.
Ele colocou o filme e me fez deitar em sua cama e deitou do meu lado.
Algum tempo depois senti novamente sua mão passear pelo meu corpo.
Fiquei tão constrangida que nem consegui dizer nada.
Quando o filme acabou fui pro meu quarto.
E assim os dias se passaram, eu indo pra escola sem vontade, brigando com meus amigos e me afastando de um por um até ficar sozinha.
Todo dia meu tio me pedia desculpa e dizia que não ia mais fazer aquilo comigo e eu ingenuamente acreditava.
Parei de contar sobre o meu dia prós meus pais, me afastei da minha família e me isolei no meu quarto.
Minha mãe foi chamada na escola porque eu bati num garoto e por causa das minhas notas que caíram muito.
—Faz um tempo que sua filha anda bem estranha, ela não brinca mais, não faz os deveres, não conversa com nenhum colega e ela chegou até a agredir um colega, não entendo o motivo, ela sempre se deu bem com os meninos
—Aconteceu algo estranho com ela em casa?
—Não, não sei porque ela tá assim, deve ser uma fase...
Depois disso resolvi parar de ouvir atrás da porta.
Um tempo depois minha mãe chegou, levei a maior bronca da minha vida e descobri que ia reprovar.
E assim minha vida foi seguindo.
Os dias foram se passando e eu cada dia que passava sofria mais ainda na escola, os garotos me batiam, me xingavam, pegavam minhas coisas e jogavam pela janela.
Minha vida perfeita virou um inferno e eu cansei disso.
Já nem sei mais quem eu sou, não brinco mais, não canto, não danço, não demonstro mais sentimentos, me afastei do meu pai, nem falo mais com ele direito, sempre que um garoto tenta se aproximar de mim ele acaba apanhando ou eu o trata mal.
Perdi o brilho no meu olhar e dei lugar pro ódio, eu me odeio, odeio meu corpo, sinto vergonha dele...
Hoje acordei um pouco, tarde, troquei de roupa e desci pra tomar café.
Peguei uns biscoitos e um iorgute.
—Acordou tarde hoje dorminhoca
—Me deixa
—Por que? tá com raiva de mim?...eu vim pedir desculpa...eu não sei o que aconteceu comigo, é sério, eu não vou mais fazer aquilo.* ele disse segurando meu braço*
—Me larga, se você encostar um dedo em mim você vai se arrepender
—Calma não precisa ficar com raiva...
—E olha eu vim aqui numa boa pedir desculpa, mas você não colabora
—Presta atenção que eu só vou dizer uma vez...não conte pra ninguém sobre isso, e além do mais a culpa é sua, é você que deixa...e também ninguém vai acreditar em você, ninguém acredita em crianças. * disse ele com uma cara assustadora *
Faz sentido, faz todo sentido, a culpa é minha, todo minha...eu deveria ter impedido....
Aquele pensamento me enlouqueceu, eu não conseguia parar de ouvir aquelas palavras dentro da minha cabeça.
Me levantei e sai correndo, corri sem direção e parei em um parque abandonado.
Me sentei em um canto escuro perto de uma árvore grande e comecei chorar como nunca havia chorado antes.
—O-oi, tá tudo bem com você? v-você se machucou? se perdeu?
Ouvi uma doce voz masculina que eu nunca tinha ouvido antes.
Levantei a cabeça um pouco assustada e vi um garoto de óculos, cabelo castanho e olhos azuis num tom de verde.
—Quem é você? como você chegou aqui? não chegue perto de mim. *falei assustada*
—Calma, não vou te machucar...meu nome é Maycon, tenho 11 anos, eu moro aqui perto e eu sempre venho aqui quando quero passar um tempo sozinho.
—Posso me sentar do seu lado?
Não respondi, mas mesmo assim ele se sentou do meu lado.
Ficamos um bom tempo assim, sem falar nada
De alguma forma a presença dele me acalmou.
—Me chamo Scarllet , tenho 9 anos e não sei como vim parar aqui. *falei quebrando o silêncio*
Ele passou um tempo falando sobre coisas aleatórias e eu só ouvi.
—Acho que já tá na hora de ir pra casa. *falei me levantando*
—Eu te acompanho
—Não precisa, eu vou sozinha
—Já tá escurecendo, não é bom ficar andando sozinha.
Caminhamos um tempo e logo chegamos na minha rua.
De longe já vi minha mãe e minha irmã vindo ao meu encontro.
—Onde você tava? você quer me matar do coração, seu tio disse que você saiu cedo sem dizer onde ia
—O que é que está acontecendo com você garota? você nunca foi assim.
Minha mãe estava brava e preocupada
Ela parou de falar por um tempo e reparou no garoto ao meu lado.
—Quem é você?
—Ele é um amigo...
—Você tava com ele?
—S-sim...
—Okay, vamos pra casa, lá a gente conversa
—Tchau garoto, obrigado por trazer ela aqui.
Chegando em casa eu levei a maior bronca.
Minha mãe acha que eu tô gostando daquele garoto e é por isso que venho agindo de forma estranha, melhor assim.
Tentei dormi, mas não consegui.
Aquelas palavras realmente mexeram comigo.
Comecei a pensar naquele garoto.
Ele parece legal, mas não sei se devo confiar nele.
Todos os dias eu acordava cedo pra ir naquele parque, ficava lá até a hora de ir pra escola, o Maycon sempre ia pra lá também, ele falava sobre vários assuntos aleatórios e me fazia várias perguntas.
Com o tempo foi nascendo uma amizade entre nós. No começo eu fiquei com receio de confiar nele, mas com o tempo fui perdendo um pouco do medo.
Acordei cedo, vesti um short, uma blusa longa, uma sapatilha, tomei café da manhã.
—Pra onde você vai? você anda saindo muito esses dias
—Não é da sua conta
—É sim, eu sou seu tio. *falou fechando a porta pra mim não sair*
Não parece. *pensei*
—Me deixa sair
—Não
Ficamos discutindo um bom tempo, até que ele me pegou e me jogou no ombro, me levou até o meu quarto, saiu e trancou a porta.
Fiquei chorando, gritando e batendo na porta.
—Qual é o seu problema?! da pra calar a boca?! *meu tio gritou abrindo a porta e entrando no meu quarto*
—EU QUERO SAIR E VOCÊ NÃO MANDA EM MIM
—Cala essa boca, já mandei você ficar quieta. *falou enquanto segurava forte o meu braço*
Tentei me soltar e acabei caindo no chão.
Sai correndo, desci as escadas e quando estava quase chegando na porta senti alguém me puxar pela cintura. Tentei me soltar até que consegui, mas acabei caindo e batendo as costas na estante
—Você tá bem? se machucou?
—Não chega perto de mim a culpa é sua, todo sua e eu vou...*parei de falar ao ouvir o som de um soco na parede um pouco a cima da minha cabeça*
O impacto fez com que um vaso da estante caísse bem na minha frente. Levei um susto, levantei e acabei pisando nos cacos de vidro.
Aproveitei que ele pareceu preocupado e sai correndo de casa sem se importar com a dor.
Fui parar no parque e Maycon já estava lá.
—O-oque aconteceu?
—M-me machuquei...
—Vamos pra minha casa, minha mãe tá lá...ela pode te ajudar
—Não...
—Olha eu não sei quem fez oque com você, mas eu não sou essa pessoa, eu não vou te machucar de nenhuma forma.
Acabei concordando, mesmo com receio.
Caminhamos um pouco e logo chegamos lá.
A mãe dele cuidou dos meus ferimento e me emprestou uma sandália.
Fiquei um pouco lá conversando com ela e depois ele foi me levar em casa.
Cheguei em casa tomei banho me arrumei e fui pra escola.
Desde de que conheci o mayc minha vida tem cido um pouco melhor, não preciso mais ficar em casa sozinha.
E assim foram se passado os meses.
Hoje eu já sou uma garota de 12 anos, minha irmã sempre estudo de manhã e eu a tarde. É melhor, assim não corre o risco de acontecer com ela o que aconteceu comigo.
Passei a ficar sempre com o mayc no parque ou na casa dele não precisei mais ficar sozinha com o meu tio e mesmo ele tentando me impedir de sair eu acabo fugindo de algum jeito.
Em casa tenho que lidar com assédios verbais partidos dele e broncas da minha mãe porque eu não respeito ele.
—Onde você pensa que vai?
—Não enche.
—Hoje você não vai ver aquele garoto, nem que eu tenha que te amarrar aqui
—Ha ha, muito engraçado, piada boa
—Eu não estou brincando, eu já perdi a paciência com você garota
—Você é doente, só pode
—Sou mesmo. *ele disse me puxando pela cintura e me levando pro quarto*
—Você não pode comigo, eu sou mais forte. *falou me jogando na cama e trancando a porta*
Senti um medo enorme e meu coração começou a bater forte.
Ele segurou meus braços e tentou me beijar, virei meu rosto vários vezes.
—Ue tentando se fazer de difícil agora é?! tenho certeza que você já beijou aquele garoto. Vocês andam pra cima e pra baixo juntos se não tiver acontecido nada é porque ele é gay
—Não fala assim dele, ele não é você, ele é meu amigo e ele me respeita, diferente de você. *gritei com raiva*
—Diferente? ele é homem, todo homem é igual, espera só pra ver.
—Me solta, me solta, socorro * comecei a gritar desesperada*
Ele me soltou e eu sai correndo, abri a porta e fugi.
Comecei a andar pela rua sem rumo, pensando no que ele havia me dito.
Não suportarei ser traída por mais ninguém, não quero confiar em mais ninguém.
Comecei a pensar em tudo que vinha me acontecendo nos últimos anos e no quanto eu odiava minha vida, meu corpo.
Lembrei de cada um dos abusos, cada assédio, tudo que eu tinha sofrido na escola, todas as palavras cruéis que eu tinha ouvido.
A culpa tomou conta de mim, comecei a me sentir um lixo e tomei uma decisão...
Eu não quero mais viver, não suporto mais essa vida e eu vou dar um fim nisso.
Me dirigi até uma pista bem movimenta, avistei um carro de longe e fui em direção a ele, fechei os olhos e comecei a contar 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4...*ouvi o barulho do carro se aproximando cada vez mais, uma freada brusca e eu cai no chão*
Não me machuquei, abri os olhos assustada e vi um garoto aparentemente da minha idade, de cabelos pretos e olhos cor de mel, estava nos braços dele, ele me puxou pra calçada segundos antes de ser atropelada, olhei no fundo dos olhos dele e comecei a chorar.
Ele me ajudou a levantar, perguntou se eu tava bem, disse o nome dele mais eu não me lembro, apaguei naquele instante e acordei no hospital.
Minha família ficou muito preocupada.
O médico disse que era estresse e eu logo estaria bem, só precisava descansar um pouco.
Resolvi tirar aquele monstro da minha casa, comecei a causar intriga entre ele e meu pai e acabou que ele teve que se mudar, me senti livre.
Mas não durou muito, ele arrumou uma namorada, engravidou ela e precisou da ajuda da minha mãe novamente.
Quando ele voltou pra minha casa a paz foi embora, eu voltei a brigar com ele e receber bronca da minha mãe.
Um dia quando estávamos sozinhos em casa ele tentou me tocar novamente, mas bem na hora o Maycon chegou.
Eu corri e abracei ele bem forte, chorei bastante.
Ele me levou pro parque, pra gente conversar melhor.
—Olha desde que eu te conheci eu sei que alguma coisa acontece com você, mas eu nunca ensisti muito pra você me contar porque eu sei que deve ser algo bem difícil, mas agora não dá mais, você não pode lutar sozinha, você precisa de ajuda.
Acabei contando tudo pra ele, foi bem difícil, mas eu consegui.
Senti um pouco de alívio por não ser mais a única a saber disso.
Ele me abraçou bem forte, com aquele abraço que só ele tinha, aquele abraço que fazia eu me sentir protegida.
Ele me levou até em casa e chamou minha mãe.
Contamos tudo pra ela, foi a coisa mais difícil da minha vida, ver minha mãe chorar, se sentir culpada.
Esse foi o maior choque que minha família já recebeu.
Minha mãe chamou ele pra conversar e ele, não disse nada, nem negou e nem demonstrau arrependimento.
Eu queria que ele fosse preso, mas como ele era irmão da minha mãe e os pais dela iam sofrer muito com isso e ele ia ter um filho logo logo, ele só foi embora pro interior com a mulher dele, foi morar com meus avôs.
Comecei a fazer tratamento psicológico e melhorei um pouco, mas ainda tenho várias coisas pra superar.
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