Espelho
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Levantei-me. Cansado, os ossos doíam, a cabeça girava. Meu corpo não me obedecia. Meus olhos estavam fatigados de tanto olhar para a tela noite passada. Tinha zerado alguns jogos, e não me lembrava quais.
Espere, eu bebi também?
Irritado, baguncei meus fios loiros com a mão. “Maravilha”, pensei.
Meu quarto estava um caos.
Mangás ecchi ou algo a mais se misturavam entre postêrs e jogos. A cama totalmente bagunçada, roupas jogadas pelo chão, uma garota em minha cama, garrafas de saquê, vidro quebrado, meu mangá amassado...
Espera. O QUE?
Quem foi o baka que amassou meu mangá? QUEM FOI? VAI SOFRER EM MINHAS MÃOS, AH SE- espera, tem uma garota na minha cama?
Ok, sério, o que eu fiz noite passada?
–-
Len Kagamine, 14 anos.
Essas eram as informações que tinham sobre mim. E lá estava eu, segurando uma placa com um número, num maravilhoso uniforme branco e preto.
Atrás de grades.
A cadeia sempre me parecera um local interessante. Quanto se estava fora da cela, é claro.
E lá estavam, deliquentes, encrenqueiros, pessoas sem autorização para dirigir, bagunceiros, perturbadores da paz, “fazedores de festas”... E eu.
Gostaria de saber em qual categoria me encaixava.
– Kagamine? – disse uma voz ríspida, me chamando a atenção.
– Hai?
– Você nega seu ato? – perguntou-me um homem de cabelos escuros e olhos claros. Em seu olhar cristalino, era fácil identificar ódio.
– Perdão seu juiz, mas se é um julgamento, gostaria de um advogado. – zombei. Tarde demais, percebi que não estava em condições de fazer brincadeiras.
Ao olhar novamente a face do meu interrogador, encontrei-o rangendo os dentes e com os olhos faiscando.
– Temos lugares pra engraçadinhos como você. – sorriu em satisfação própria.
– O engraçadinho gostaria de saber por qual razão está aqui.
E seu sorriso se expandiu ainda mais. Os dentes brancos reluziam a luz fúnebre que vinha de minha cela.
Minha cela. Ainda parecia meio insano.
– Estava bem bêbado, hein?
– Talvez. – resmunguei. Tinham sido só uns goles, ou ao menos fora o que parecera.
– Então vou gostar de lhe dar a boa nova.
–-
Antes de continuarmos, talvez seja melhor entender um pouco mais sobre Len Kagamine, o vosso narrador.
Primeiramente, Len Kagamine, ou eu, no momento encontra-se num intenso torpor, tentando saborear alguma memória. Então, seja qual fosse a narrativa que esperavam, ela seria de qualquer maneira interrompida por devaneios e filosofias. Portanto, ante a entediá-los, pretendo dar-lhes um resumo do que se passou até o momento.
Len Kagamine, ou eu, teve, tinha, tem e possivelmente terá uma boa vida. Digamos, talvez seja um pouco fissurado em cultura japonesa (segundo seus pais), assim como talvez seja exagero gastar fortunas em mangás (novamente opinião paterna). Porém, o fato é que Len Kagamine, ou eu, era, foi, é e possivelmente não será feliz. Tinha amizades, ou imaginava que tinha. Era amado, ou era o que as palavras que saíam de muitas bocas diziam. E assim vivia, em seu mundo real, ou falso, isto muito a depender de vossas opiniões.
Tinha seus pais. Ora, é certo que sua bela mãe de cabelos verde claros e seu pai de cabelos azuis escuros eram relativamente suspeitos, afinal, aqueles cabelos coloridos em nada tinham a ver com os fios loiros que no momento se encontram na cabeça do jovem Len Kagamine, ou eu. Mas estava tudo bem, afinal, Len Kagamine, ou eu, não se importava.
É verdade que sentia um vazio no peito, como se algo lhe faltasse. É verdade que, em seus devaneios, pensava ouvir uma voz, em um choro contido e entre tristeza profunda, a cantar melodias suaves. É verdade que, em seus quase quinze anos, tinha lido muitos mangás, visto muitos animes, e a luxúria talvez já estivesse presente em sua mente. É verdade que seus amigos eram totalmente diferentes de si mesmo, apesar de serem igualmente parecidos, com os mesmos gostos, mesmas ideias e ideais.
É verdade que Len Kagamine, ou eu, tinha algo diferente.
Mas não ligava, nem se importava. Afinal, todos tinham algo anormal. Por exemplo Gumi, ela não era intensamente irritadiça? Não é certo que Miku era meio preguiçosa? Eram apenas qualidades, nada de especial.
E esse Len Kagamine, ou eu, vivia sua vida, muito bem, obrigado, até aproximadamente um ano atrás desta data.
Neste dia fatídico, que Len Kagamine, ou eu, só descobriria ser fatídico um bom tempo depois, nada demais aconteceu. Realmente, nada, mesmo.
A não ser pelo fato de que as mãos desastradas de Len Kagamine, ou eu, tinham quebrado um espelho.
Foi um momento estranho. Recebeu um choque espantoso, e ficou parado na frente dos cacos até que lhe chamassem atenção. Não soube dizer o que havia acontecido, a não ser, é claro, que havia quebrado algo. Seu reflexo estava espalhado em cacos pelo chão.
Desde esse dia, um sentimento de vazio o invadiu.
E Len Kagamine, ou eu, procurava desesperadamente fechar este vazio.
Talvez fosse esta a razão pela qual havia uma garota em sua cama, naquele belo dia com o qual nossa história se iniciou.
Modéstia a parte, Len Kagamine, ou eu, tinha capacidade para levar para sua cama quantas garotas quisesse. É verdade que dependia um pouco do álcool pra isso, mas nada preocupante. O fato era que, mesmo que isso o irritasse um pouco, Len Kagamine, ou eu, era realmente, segundo suas amigas, “shota”.
E ele sabia se aproveitar disso.
A garota do dia com o qual nossa história começou se chamava, chamou, chama e talvez tenha mudado de nome, SeeU. Era três anos mais velha e o suficiente para saciar um pouco Len Kagamine, ou eu.
Afinal, aqueles cabelos loiros lhe traziam uma sensação de nostalgia e saudades. E preenchiam, mesmo que pouco, o vazio em seu peito.
Agora que Len Kagamine, ou eu, já se recuperou de seu momento filosófico, podemos retomar a história do ponto onde paramos. Porém, antes, uma pequena observação:
Len Kagamine, ou eu, adora falar de si mesmo na terceira pessoa.
–-
– Vidro.
Essas palavras saíram da boca faiscante do homem em minha frente. E, repentinamente, eu arregalei meus olhos, enquanto meu coração batia fortemente. Aquilo significava algo, sim, significava alguma coisa realmente importante.
O de cabelos escuros e olhos claros colocou a mão dentro da calça, de onde tirou um pequeno frasco, onde jaziam pedaços de um espelho ensanguentado.
– Você confirma o fato de quase ter matado a garota chamada SeeU?
Baque. Escuridão.
–-
Ao acordar, estava em meu quarto. O cenário era o mesmo de antes, exceto pelo fato de que a loira não estava em minha cama.
Fora real?
Levantei do colchão e coloquei os pés no chão frio. Lentamente, abrindo caminho por entre mangás, pôsters e buttons, cheguei a porta.
Respire, expire.
Click.
Meus pais estavam na porta.
Aterrorizado e trêmulo, olhei para eles e perguntei, lentamente, enquanto minha mão repousava firme na maçaneta.
– Eu fiz isso?
Minha mãe olhou para o lado, lágrimas saltavam de seus olhos. Meu pai carregava um olhar desamparado.
– Diga-nos... – e um soluço abafado. Minha mãe falava baixo, como que com medo – Diga-nos você.
Tu-dum. Um coração bate forte na escuridão.
–-
Pedimos perdão pela interrupção, logo voltaremos a programação normal. Len Kagamine, ou eu, gostaria de esclarecer umas coisas.
Primeiro, Len Kagamine, ou eu, gostava de mangás e animes sangrentos.
Segundo, Len Kagamine, ou eu, tinha uma opinião indefinida e curiosa sobre espelhos.
Terceiro, Len Kagamine, ou eu, as vezes se descontrolava.
Agora que deixamos estes fatos a mostra, que claramente incriminam Len Kagamine, ou eu, podemos voltar para a normalidade.
–-
– Ela disse que viu alguém de cabelos loiros quebrar-lhe o espelho na cabeça.
As palavras saíram da boca de meu pai.
– Porém, ela não tem certeza. Apenas e por esta razão você está dentro de seu quarto, e não dentro de uma cela, sendo interrogado.
Olhei para ambos. Um olhar desconfiado.
Fechei a porta do quarto de supetão.
Precisava ligar pra SeeU.
–-
Voltamos com breves explicações.
Len Kagamine, ou eu, era loiro, de olhos azuis esverdeados, altura mediana, rosto com traços femininos e cabelo sempre preso em um rabo de cavalo.
SeeU, a garota, após ofegar um pouco e se descontrolar, disse uma descrição levemente diferente.
Segundo a loira, viu alguém de cabelos claros, altura mediana e olhos azuis esverdeados, rosto de traços femininos. E cabelo solto.
Por essa, e apenas por essa razão, a garota decretou que não fora, ou ao menos não aparentemente, Len Kagamine, ou eu, que lhe quebrara impiedosamente um espelho na cabeça.
Agradecemos pela paciência.
–-
O celular não atendia. Ela provavelmente estava no hospital.
Hipóteses me rondavam a cabeça. Sim? Não? SeeU, apesar de ficar comigo apenas o suficiente para algumas rodadas, soube de alguns hábitos meus.
Como, por exemplo, jamais tirar o rabo de cavalo (coisa descoberta após suas mãos tolas tentarem encostar em meu rosto durante meu ato) e obsessão por espelhos.
Obsessão? Era esta a palavra certa?
Ou seria melhor simplesmente dizer repulsa, adoração, nervosismo, amor, nostalgia e saudades?
Me joguei na cama, tentando relaxar. E então, surgiu, tolamente, a hipótese de que a história não havia começado no belo dia em que acordei com SeeU ao meu lado, e sim há muito, muito tempo atrás.
Virei-me para o espelho, fechei os olhos e deslizei a mão pela superfície lisa.
Intensamente.... Nostálgico.
Notas finais
Primeiro, muita gente aí deve ter notado que a mãe do (meu) Len é obviamente a Miku, mas depois ela aparece como amiga dele. Como isso? Pelo simples fato de que eu estava ouvindo Evil Kingdom quando escrevi isso, e pra quem já ouviu (meio indispensável pra fã de Vocaloid) sabe que a Miku e o Kaito representam (láá pelo Moonlit bear até Chrono Story) mãe e pai "falsos" do Len e da Rin. É uma longa história e é mais fácil ouvir a música. Também, quando coloquei que a Gumi é irritadinha e a Miku preguiçosa, foi em referência as músicas dos sete pecados (cujo da Ira ainda não saiu ToT). Então, como a Miku faz, na saga, dois papéis (Margarita e mãe-criadora-dos-pecados), foi mais ou menos a mesma coisa aí também. Imaginem pessoas indefinidas como mãe e pai do Len, porque pretendo colocar o adorador de sorvete -Kaito- na história também, ohohoho (^~^)
Tive que ouvir Hot Cocoa um milhão de vezes pra me convencer a escrever a história. Então, talvez no início tenha aquele jeitinho meio alegre e tipo "Vamos fazer isso-ah não..." etc etc.
Imagem da capa eu achei por aí (Google seu lindo) e inverti. Por isso tá meio fail, a Rin mais destacada que o Len. Mas o fato é que eu não sei mexer nessas coisas, e se alguém pudesse fazer isso por mim, eu ficaria agradecida *folgada*
Enfim. Acho que é isso, espero que gostem.
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