Espelho

2 Capítulo 2


Len Kagamine, ou eu, estava sonhando.

Sabia tão bem disso quanto tinha noção de que não se machucaria. Sonhos, apesar de intensamente deliciosos e realistas, são nada mais que um reflexo tolo da realidade. E, tendo isso em mente, observou com uma cautela fingida o ambiente ao seu redor.

Era um mundo estranho.

--

Ante a confusões, vamos explicar, coisa que Len Kagamine, ou eu, adora.

Len Kagamine, ou eu, sempre sabe quando está sonhando. Não importa se é um pesadelo, onde, segundo sua mente, tem que correr se não quiser morrer, ou se é um lindo sonho, onde os instintos lhe dizem para pegar todas aquelas garotas e fazer o que bem entender com elas.

E com “bem entender”, Len Kagamine, ou eu, quer dizer literalmente tudo o que desejar. E, normalmente, os desejos de Len Kagamine, ou eu, são bem... Como dizer?

Picantes.

Porém, tendo este estranho dom de saber distinguir fantasia da realidade, Len Kagamine, ou eu, infelizmente não consegue aproveitar muito seu horário de sono. E é realmente frustrante acordar depois de sonhar com milhares de mulheres semi-nuas e ter apenas duas ao seu lado.

Ou, ao menos, essa é a opinião de Len Kagamine, ou eu.

Depois, Len Kagamine, ou eu, sempre tem um personagem em seus sonhos. Não é exatamente o tipo que observa tudo de cima, esperando a ação começar. Len Kagamine, ou eu, realiza a ação e aguarda os aplausos.

Normalmente, o personagem que representa é a si próprio.

Tendo isso em vista, podemos deduzir que toda a narração de sonhos é do ponto de vista de seu personagem, o que pode tirar um pouco a poesia da história.

Ante o exposto, podemos continuar de onde paramos.

--

Preto. Branco. As belas cores que se refugiavam, aonde quer que olhasse.

Era meu mundo. Meu mundo real, em preto e branco.

Ali estava o parque, com o lago de um branco cristalino e as folhas das árvores em um belo tom de cinza. Uma rua, tingida por preto, entre casas acinzentadas. Um céu branco, tal qual marfim, em uma claridade insana, a ponto de fazer os olhos doerem. Sem sol. Atrás de mim, nada havia.

Era um mundo desenhado.

E então, do ar, uma bela cantiga de ninar começou a ecoar. Entre os fios que a música tecia, rangidos metálicos se enroscavam.

“Lu li la lu li la”

A voz que a cantava era feminina.

Meu eu do sonho olhou em volta, procurando a autora da canção. Algo estava errado, sentia isso em meu âmago.

“Lu L- Laaa Li L- -i”

Os sons metálicos se tornaram predominantes. E o som antes belo se transformou em uma canção de ninar, cantada por engrenagens, que se enroscavam cada vez mais.

“Lu -- -a -- -i –“

Um rangido alto, prologado e sofrido. A música cessou.

O mundo se inverteu.

Céu estava em terra, terra estava em céu. E eu estava exatamente no meio, um intermediário entre esses locais distantes.

Flutuava em uma nuvem de restos de grafite.

E a mesma voz feminina, agora sem rangidos, falou em um tom irônico:

“Bem vindo a este mundo monocromático.”

Rachaduras cortaram o céu e a terra, e aquele mundo despedaçou-se, lentamente, entre seus sombrios cacos de vidro.

--

Acordei.

De fato, perdão ao decepcionar-lhe, leitor, mas não acordei gritando. Qual não seria o mal deste ato, uma vez que eu sempre, ou quase sempre, acordava com uma mulher a meu lado? Que haveria ela de pensar ao ouvir seu violador a gritar como uma menina?

Apesar de que isso contribuiria ainda mais para minha reputação de shota. Porém, ainda não estou exatamente receptivo a esse tipo de reação.

Assim, então, apenas acordei. Num abrir de olhos casto e inocente, que normalmente faria as garotas ao meu lado se deliciarem.

--

Len Kagamine, ou eu, gostaria de deixar explícito algumas coisas.

É fato que, Len Kagamine, ou eu, ficou relativamente perturbado com o sonho que acabou, acabara ou acaba de ter. E ficou mais perturbado ainda ao perceber que jamais tivera um sonho que o deixasse perturbado. Ficando assim ainda mais perturbado por perceber que estava se perturbando por este tipo de coisa.

Depois, Len Kagamine, ou eu, teve uma reação estranha e curiosa ao ouvir a canção de ninar de seu sonho. Primeiro, em seu mais profundo pensamento, se instalava a dúvida de que diabos estaria uma cantiga de ninar a fazer num sonho. Cantigas de ninar foram feitas para fazer adormecer, e não teriam utilidade alguma uma vez que já se estivesse sonhando. Após isso, questionou-se de onde seu cérebro havia tirado tal música, uma vez que sonhos são um reflexo dos últimos pensamentos que tivemos antes de adormecer. E ficando mais uma vez perturbado, ao sentir que conhecia a melodia, mesmo aparentemente só tendo escutado-a naquele sonho tenebroso.

Len Kagamine, ou eu, também teve outra reação curiosa quando constatou que o mundo era desenhado. Aquilo lhe dava a impressão de ser algo falso. E não poderia ser falso. Apenas sentia que não.

E, finalizando, Len Kagamine, ou eu, ficou mais perturbado do que nunca ao perceber que o mundo se quebrou em cacos, tal qual os espelhos pelos quais tinha suas opiniões contrárias.

--

Preciso me lembrar de evitar garotas como SeeU. Mulheres assim dão muita dor de cabeça.

Olhando pros lados, e me certificando de que não havia nenhuma jovem comigo (“Eis a razão para meus pesadelos. Estou me reprimindo”), me espreguicei normalmente, sem todo o drama de fazê-lo “femininamente” ou, como as mulheres diriam, “shotamente”.

Levantei-me e fui ao banheiro. Me sentia, com o perdão da palavra e da ironia, um caco. E minha aparência tem que fazer jus a minha reputação, e jamais me perdoaria se meu rosto não me fosse digno.

Abri a porta e fui direto para a torneira, sem olhar pra mais nada.

Água. Finalmente. Peguei um pouco e joguei no rosto, me preparando para o longo ritual que era arrumar meu cabelo.

Olhei no espelho.

Tu-dum.

--

Len Kagamine, ou eu, gostaria de deixar algumas coisas bem claras.

Como, por exemplo, o fato de que Len Kagamine, ou eu, se descontrola facilmente.

Como, por exemplo, o fato de que Len Kagamine, ou eu, dará um dos berros que ele acha tão irritantes, e que tantas mulheres amam e adoram, berro que quase partirá suas cordas vocais.

Como, por exemplo, o fato de que Len Kagamine, ou eu, está neste exato momento duvidando de sua sanidade mental.

--

Minha mão estava gelada. Eu estava gelado.

Feche os olhos. Abra.

A mesma coisa.

Lentamente, com um temor tangível, aproximei meus dedos frios da superfície lisa do espelho.

A imagem refletida se manteve parada.

Alguém de minha idade se encontrava do outro lado. Tinha os cabelos loiros, do comprimento que os meus ficariam quando soltos, e nos fios repousava até mesmo a mesma mecha levemente mais escura que meu penteado também carregava. Tinha olhos vívidos, num claro azul esverdeado. Olhos que se encontravam úmidos. Uma boca fina, tal qual a minha. Traços femininos e delicados, uma pele branca, pálida feito marfim. Um nariz pequenino e arrebitado. Na cabeça, amarrado firmemente, se encontrava um laço branco.

Meu cérebro estava prestes a explodir.

Pois a nostalgia, a saudades, o amor que eu sentia por espelhos, tudo se intensificava ao ver aquela imagem refletida.

A imagem da garota me sorriu.

Pisquei. Mais uma vez. Continuava ali.

Arregalava meus olhos cada vez mais. De minha garganta, um som tentava sair, sem sucesso.

E a garota abriu a boca, e dela saiu uma voz suave e familiar:

- Você não se esqueceu de mim, esqueceu?

Notas finais
Ook, vamos lá:
Primeiro: Vocês tem uma autora SUPER LEGAL, ok? Digo, REALMENTE legal, a ponto de um dia antes de viajar resolver escrever porque "Não posso deixar meus pobres leitores na mão!"
Agora, as músicas que inspiraram o capítulo:
Eu fiz um ciclo louco com Dream-Eating Monochrome Baku, Alice Human Sacrifice, Caprishio Farce e a boa e velha Hot Cocoa. Claro que tem um monte de Clockwork Lullaby aí, assim como talvez um pouco de Adolescence.
E agora, um fato que talvez vocês não tenham notado muito, mas anyway: Na parte do se espreguiçar normalmente, ACALMEM-SE, ACALMEM-SE, O LEN NÃO É UM FALSO SHOTA. Piko is a trap, mas o Len se mantém shota e por mim assim vai ficar por toda a vida. O fato é só que ele não fez o que (em minha mente) normalmente faria, que seria algo como...
Coçar os olhinhos, bocejar em um tom levemente mais fino, se espreguiçar, abrir os olhos e falar com voz sonolenta: "Orrayô, Hime-sama"
E eu tive nosebleeds imaginando isso, mil perdões.
E por falar em perdões, eu talvez deva muitos, já que escrevi isso no meio da madruga e deve estar com um tom de "sono, sono, sono"
Eu teria terminado mais cedo, mas o fato é que o sono me impede de prestar atenção em algo que não seja música. Por isso eu fiquei umas duas horas ouvindo Caprishio Farce até me convencer a escrever.
Espero que tenham gostado, qualquer erro, dúvida, sugestão e entre outros, me avisem.
E sim, está menor do que o anterior porque eu não aguentava mais de sono. Alias, ainda não aguento de sono, então vou terminar logo as notas finais antes que vocês me batam.