Espadas de Prata
1 Capítulo 1 Os mesmos olhos, o mesmo olhar
Eu tinha 9 anos e chovia naquele dia. A avenida, por onde eu passava todos os dias voltando da escola, estava bem movimentada apesar da chuva. Uma avenida de 3 faixas, no centro da cidade, cheia de lojas e cafés lotados de pessoas que fugiam da chuva.Parei no meio do quarteirão. Sabia que tinha de atravessar na faixa, mas estava com pressa e não queria ter de voltar meio quarteirão depois. Olhei para o lado e vi o caminhão. "Vai dar tempo", pensei. Corri. Foi tão rápido que paralizei na ultima faixa, terceira. Um carro, em alta velocidade, ultrapassou o caminhão pela direita. Pela terceira faixa. Vi seus faróis e a expressão de espanto do motorista. A chuva me embaçava a vista, então fechei os olhos e os cobri com os braços.
"Vou morrer!", pensei.Foi durante esse meu pensamento, que uma rajada de vento muito forte me atingiu, vindo de onde eu tinha atravessado. Quase perdi o equilíbrio. Senti braços fortes passarem por meu corpo, na altura da cintura, prendendo meus braços num abraço que me ergueu do chão. Vi asas aparecerem entre eu e o carro. Asas brancas e grandes, do tamanho de um humano adulto. Senti um cheiro de cravo, um odor doce e enebriante que vinha das mechas escuras e onduladas de cabelo que caiam em meu rosto. Senti o choque do carro nas asas delicadas, mas fortes. Os dois corpos sendo jogados longe e o impacto de meu corpo sobre a "pessoa" quando atingimos o que deveria ser um poste de iluminação. Os braços ao meu redor ainda me seguravam e as asas já não me cobriam mais ,deixando a agua fria da chuva bater em meu rosto.Tudo isso aconteceu em fraçoes de segundos.Quando abri os olhos, e olhei para os lados, vi um aglomerado de pessoas ao nosso redor, inclusive o motorista do carro.Olhei para cima e vi o rosto jovem e bonito do que, no principio, achei que fosse uma mulher. As longas e negras mechas de cabelo, molhadas, caíam e grudavam naquele rosto perfeito. Os olhos acinzentados, da cor das nuvens daquele dia chuvoso, me encaravam. Frios e penetrantes, debaixo de cílios exageradamente femininos. A boca fina e grande, mas bem delineada, estava entreaberta, num quase sorriso. E antes que eu pudesse ouvir sua voz ou mesmo dizer algo, fechei meus olhos, larguei minha cabeça em seu peito forte e másculo e desmaiei. Quase 10 anos depois, com 19 anos, já tinha saído do Sanatório. Meus pais me internaram quando completei 11 anos, pois achavam que eu sofria de esquizofrenia e alucinações. Eu dizia que via mortos, o que não era mentira. Sempre fui muito sensitivo, sensível a essas coisas. Eu via vultos e as vezes conseguia ouvi-los e até ver claramente seus rostos. Os deformados me assustavam, e os belos me encantavam. E sempre que eu via esses rostos belos, o que não era com frequencia, lembrava daquele dia aos meus 9 anos. Tinha certeza que aquilo que eu vi, aquilo que me salvou do acidente, era um Anjo. Nunca esqueci seu rosto belo e aqueles olhos tão...enigmáticos.No jornal daquela noite saiu imagens do que aconteceu. Uma garota filmou com o celular quando a rajada de vento me atingiu, e o que seria um rapaz, simplesmente apareceu atrás de mim e se jogou para o lado, me carregando. Mas o que me deixou mais intrigado foi o fato de não ter aparecido asas, nem nada parecido nas filmagens.Sempre que podia, durante as aulas da faculdade, rabiscava seu rosto numa folha de papel aleatória do meu caderno. E num dia, sentado na mesinha de um Café que costumava frequentar, naquela mesma avenida, a garçonete veio me perguntar se queria algo mais. Ergui minha cabeça para olha-la, deixando o desenho a mostra. - Que desenho lindo! — Ela disse sorrindo. Sorri de volta e por costume, ou até distração, olhei pelo vidro do Café que dava para a rua, abrindo a boca para falar. Nesse momento senti como se meus braços tivessem congelado, minhas pernas sumido e meu coração queria saltar por entre minha boca aberta. Entre todas as pessoas, homens bem vestidos em ternos e mocinhas de salto alto e mendigos e crianças em seus uniformes de escola, pude jurar que o vi.Estava vestindo uma camisa social, não me recordo a cor, pois fixei meu olhar no seu rosto. Os cílios, a boca, o nariz e até os cabelos ondulados e negros estavam intactos, no mesmo comprimento.Levantei da mesa num salto, levando meu material. A garçonete até se assustou, afastando-se e dando um gritinho. Enfiei na mão dela algumas notas, nem me dei conta de quanto e sai sob os olhares assustados e confusos das outras pessoas.Parei na calçada, olhando para o lado que o vi caminhar. O avistei de relance, poucas pessoas entre ele e eu. Me apressei naquela direção empurrando, mesmo que sem educação, quem eu conseguia.Conforme me aproximava, indo contra o vento, sentia aquele mesmo cheiro adocicado de cravo. Algumas pessoas me olhavam estranho, outras com raiva, quando eu passava por elas pedindo licença e as empurrava antes mesmo da resposta.Cheguei bem perto, a um palmo de distância. Quase podia sentir os fios de seu cabelo tocarem meus rosto quando o vento batia.
Queria chama-lo. Tocar naquele cabelo, nos ombros largos. Queria olhar naqueles olhos acizentados que tanto me perseguiram durante 10 anos de sono inquieto e sonhos iguais, e dizer somente uma palavra: Obrigado.Não.Na verdade, lá no fundo, eu queria dizer muito mais do que um simples "obrigado". Queria vê-lo fazer o mesmo que fez naquele fim de tarde. Queria ver aquelas asas longas e delicadas de novo. Queria provar para todos aqueles que duvidaram de mim no passado, que mesmo parecendo absurdo, eu havia encontrado um Anjo.Mas o que eu poderia fazer? Alí, no meio de tantas pessoas na rua? Eu nem sequer sabia seu nome.Iria puxa-lo e dizer: "olá, sou Christian, o menino que você salvou a 10 anos atrás, lembra?" ?Logicamente que não. Havia passado mais de 8 anos em um Sanatório, e sabia como era fácil ser chamado de louco.Continuei seguindo-o até chegarmos em um bairro estritamente residencial, bem perto do centro e da avenida. Ele atravessou uma rua e eu fiquei atrás de um grupo de pessoas que esperavam o onibus no ponto. Fiquei entre elas e o vi entrar em um pequeno prédio, de 4 andares somente. Gravei o caminho e a imagem do prédio na minha mente. Passava em frente aquele prédio toda manhã, e entre algumas, cheguei a ve-lo sair ou entrar. As vezes passava o horário livre de almoço do meu serviço sentado naquele ponto de onibus, esperando. Fiz isso durante duas semanas, até que um dia ele me descobriu.Eu estava sentado naquele ponto fazia 15 minutos, quando o vi sair. Esperei que atravessasse a rua e me levantei para segui-lo. Não sabia porque o seguia. Sabia que não conseguiria chegar nele e dizer algo que ele entenderia. Ele poderia muito bem me achar um louco desvairado e psicótico que o perseguia a semanas. Ou talvez não.O segui pela rua até que ele virou em um beco. Achei estranho mas o segui mesmo assim. Entrei no beco, estava um pouco escuro e cheirava a lixo. Vi sua sombra passar por detrás de uma grade e dei dois passos em sua direção.Meu coração quase saltou por meu peito e minhas costas doeram quando bateram nos tijolos do muro. Os braços fortes dele prendiam meus ombros na parede e eu podia sentir sua respiração em minha testa. Abri os olhos e olhei nos dele. Acinzentados, frios e penetrantes, como se pudessem ler meus pensamentos.Os mesmos olhos, o mesmo olhar.
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