Espadas de Prata
2 Capítulo 2 Lembranças
Pressionei seus ombros contra os tijolos, não com muita força, somente o suficiente para que ele não conseguisse mover os braços. Olhei em seus olhos e respirei lento e fundo, mas não senti cheiro algum vindo dele, somente o cheiro de seu perfume e de seus cabelos, provavelmente lavados naquele dia. Ele me encarava, bem em meus olhos. Me incomodei com o modo que me olhava e desviei o olhar, soltando seus ombros.- Por que me segues? — perguntei, de costas para ele.Ele ficou quieto. Podia sentir seu olhar nos meus ombros. Virei-me de volta para ele e o encarei, nos olhos.- Perguntei por que me segues.Ele piscou, como se saisse de um transe e se afastou da parede, vindo em minha direção. Vi o brilho nos olhos dele, o que, confesso, me assustou um pouco. Me afastei.
- Não chegues mais perto. — disse firme. Ele parou, me fitando daquele mesmo jeito.- Não...sei se voce não vai se lembrar...mas... — ele engoliu seco, e eu continuei a uma distancia razoavel — Lembra-se daquele garotinho...na avenida...a 10 anos atrás?Não entendia o que ele queria dizer com aquilo e acho que ele percebeu isso.- Chovia e o garotinho foi atravessar a rua e um carro quase o atropelou? Ele me olhava de um jeito, que nem mesmo eu consigo explicar e quando mencionou o carro, flashes de memória passaram em minha mente e me lembrei. Pisquei várias vezes e o encarei.- Sim. — respondi.Ele sorriu, mas de um modo tão sincero que quis abraça-lo alí, sem mesmo saber o que queria e quem era. Maldito seja o coração humano.- Desde aquele dia, eu nunca mais esqueci seu rosto! Ele disse quase gritando, eu continuei onde estava, a mesma expressão. E ele continuou com seus "quase gritos".- Sabia que algumdia ia encontra-lo de novo! Sabia que voce era um Anjo! Vi suas asas...Cheguei perto dele, tapando sua boca com minha mão e o pressionando contra a parede novamente. Encostei meus lábios ao pé de sua orelha, e sussurrei.- Nunca mais mencione isso em voz alta. Nunca mais sequer pense nisso. Me esqueça.Soltei sua boca e me afastei, dessa vez nem tanto, o suficiente para que eu pudesse olhar em seus olhos e ele nos meus. Podia sentir sua respiração em meu peito. O céu começava a ficar cinzento, ia chover. Ele ainda me olhava, mas sem aquele sorriso sincero de antes, agora com uma expressão assustada com aquela sombra de desapontamento. Percebi que ele segurava as lágrimas, senti uma pontada de arrependimento mas me segurei. Não estava alí, na Terra, para me aproximar de humanos, e sim o contrário. Tinha de afasta-los dos seres como eu. Eu não existia para os humanos, e esse era meu papel no meio deles: passar despercebido.- Eu queria...queria agradecer...Ele tentava segurar as lágrimas, mas não conseguiu, deixando que elas caissem por sua face. A chuva começava a cair, devagar, uma leve garoa.- Se quer me agradecer, me esqueça. Tive muitos problemas salvando voce aquele dia...Ele me interrompeu. Aos berros.- EU QUERIA PROVAR! PROVAR PARA TODOS QUE NÃO SOU LOUCO! QUE VOCE EXISTE!...- foi se acalmando conforme o choro vinha mais forte, e a chuva junto, misturando com as lagrimas — Só queria ser ouvido...uma vez...só...uma vez....Não sabia o que dizer. O que eu poderia fazer? Sair gritando pela rua "SOU UM ANJO!" e abanando os braços para o alto? Apenas me aproximei dele, tocando seu rosto.- Não posso ajuda-lo nisso. Os humanos, não os sensitivos como voce, são ignorantes quanto a nós. E meu trabalho é mante-los assim.Me afastei, mas senti uma de suas mãos segurar minha camisa. Empurrei-a delicadamente com a mão que antes estava em seu rosto, mas ele não soltou.- Não me procure mais, por favor. Ele apertou ainda mais a mão em minha camisa e me encarou, agora sem aquela feição de choro ou desespero, e sim de carinho. Quase cedi.- Me deixe pelo menos ver novamente suas asas?Pensei em seu pedido por um bom tempo, o encarando. Eu sou assim, organizado e metódico. Penso muito antes de fazer algo. Decidi atende-lo.Me afastei e ele soltou minha camisa. Fui mais para o fundo do beco, um pouco mais escuro. Fechei meus olhos e tirei minha camisa, não queria que ela ficasse com dois buracos nas costas. Tudo sob o olhar fixo dele, que veio até mim. A chuva começava a ficar mais pesada, nós já estavamos encharcados.Esperei que ele chegasse bem perto, de frente para mim, e abri minhas asas, lentamente. O garoto arregalou os olhos em espanto e admiração. Estendeu sua mão pequena e tocou minha asa esquerda. Fiquei em silencio, o observando no modo como olhava e passava lenta e levemente os dedos sobre as penas brancas. - Elas...são verdadeiras! Ele disse mais para si mesmo do que para mim. Esperei mais um pouco, até que ele se desse por satisfeito.- Pronto. — recolhi minhas asas e comecei a colocar a camisa de volta — Voce as viu de novo, agora prometa-me que me esquecerá e não irá me procurar novamente.O garoto me fitou por alguns segundos e baixou a cabeça.- Posso saber seu nome?Suspirei e pensei novamente. O que poderia acontecer se ele soubesse meu nome? Eu já tinha pago o castigo por me expor daquela maneira quando o salvei. Um nome não faria diferença. Faria?
- Zeziel.Me afastei, sem esperar pela resposta dele.- Meu nome é...- Christian. — parei na entrada do beco e virei para encara-lo — Sei seu nome. Não lhe salvei aquele dia simplesmente por salvar. Tudo que faço tem um motivo, Christian. — sorri, surpreendendo-o — Agora cumpra sua promessa, e não me procure mais.Sai do beco, atravessei a rua e não olhei para trás.
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