Esaar - Assassino de Jarls

1 Capítulo 1 – Escapando da Morte


Durante toda sua vida ele sobreviveu de banhos de sangue por dinheiro, não porque gostava, mas porque era bom nisso. Não se orgulhava de seu trabalho, desejava mesmo do fundo do coração ter uma família, viver calmamente, ganhar seu dinheiro sem precisar derramar sangue, e pensava nisso mais do que nunca enquanto caminhava escutando as correntes em suas mãos e pés batendo, tilintando, "o som da morte", pensava.

Estava sendo levado junto de outros nove criminosos, em fila, acorrentados um ao outro. Pelas ruas de Helgen os moradores olhavam para eles com desprezo, alguns com medo atrás das janelas, temendo aqueles mais perigosos que marchavam junto de Esaar. Seu pensamento se resumia em tudo o que teria feito de diferente se tivesse outra chance, ou se pudesse voltar no tempo. Vivera em um orfanato, tivera várias escolhas, podia ser um guarda, um comerciante, um ferreiro, enfim, qualquer coisa, mas optara pela sedutora oferta daquele que seria seu mestre e lhe ensinaria tudo o que sabe hoje. "Oh Talos, como fui burro!" Repetia sem parar em sua cabeça. Mas não havia o que fazer, a hora chegara, as execuções começariam.

- Hoje terei prazer em decepar um bastardo como você — disse Ulfmar, o carrasco, para o homem ao lado de Esaar, que não sabia o que ele fizera, mas imaginava ter sido algo muito ruim.

Dois soldados ficavam perto do carrasco, um pequeno pelotão estava perto da entrada da cidade, mais ou menos a dez metros de onde os afortunados faziam fila. Não havia ninguém na entrada oeste e apenas dois guardas equipados com arcos conversando entre si. Esaar tomara o cuidado de verificar todas as possibilidades de fuga, não porque ainda cultivava esperança de escapar de seu destino, mas porque esse era um costume que adquirira desde quando começara a treinar, era algo automático para ele.

- Tragam o primeiro da fila — Disse o capitão que vestia uma capa vermelha e uma armadura de prata que o diferenciava dos outros soldados que vestiam couro.

- Malditos Imperiais invasores! — Gritou o terceiro da fila. — Vocês deveriam perecer pela ira de Ysmir!

Skyrim vivia um tempo de grandes confrontos entre os nativos Nórdicos e os Imperiais, vindos da província de Cyrodiil.

- A este verme a morte chegará em breve — Disse o capitão. — Tragam logo o primeiro! Não quero desperdiçar mais o meu tempo com essa escória.

O guarda que guiara a fila retirou uma chave de seu bolso a abriu os dois cadeados que ligavam as correntes do braço do primeiro com o segundo homem. Era um jovem maltrapilho, assustado, seus cabelos castanhos tapavam parte de seus olhos, mas a expressão de medo era evidente. Esaar o via tremer dos pés à cabeça.

- Que Sovngarde receba este valoroso guerreiro — Disse um homem mais velho que Esaar, ao seu lado, com uma aparência cansada e com o olhar triste.

- Você sabe qual foi o crime dele? — Perguntou Esaar.

- Defender a família contra um Imperial — Respondeu o homem. — Acabou sendo julgado contra a palavra de um guarda e um capitão. O Jarl decidiu favorecer seus "aliados", ou seja, traindo seu próprio povo.

O jovem foi levado até o carrasco que o empurrou contra uma pedra suja de sangue com uma cesta ao lado onde sua cabeça cairia. O capitão, aquele mesmo que dera sua palavra no julgamento, declarara seu crime e sua sentença, o carrasco levantou seu enorme machado de Ébano e decapitou o garoto que chorava como um bebê, cessando aquele barulho na hora que a lâmina passara por sua carne sem esforço, apenas com o peso do machado.

Assim, um por um eles foram executados até chegar a vez de Esaar que estava mais ou menos no meio da fila.

- Aproxime-se — Disse o capitão enquanto Esaar era separado dos outros.

Ele se aproximou calmamente, de cabeça baixa, o carrasco o olhou com indiferença, poucos conheciam o verdadeiro Esaar. Aquele mercenário era cuidadoso em esconder sua identidade, por isso ele era apenas mais um criminoso, antes do capitão declarar seus crimes.

- Quem é este homem? — Disse uma voz ao fundo.

- O que traz a sua presença, Jarl, neste dia de execuções? — Disse o capitão.

- Esta não foi a pergunta que fiz — Respondeu o jovem Jarl da província de Falkreath, Siddgeir.

- Este homem é um mercenário — Respondeu indiferente olhando para o pergaminho que carregava com a lista dos prisioneiros.

- Quem o contratou? — Perguntou o Jarl. Esaar não respondeu de imediato, pois remoía lá dentro se devia ou não dizer.

- Senhor, eu não posso revelar essa informação — Respondeu Esaar com sua voz rouca, resultado de quatro dias vivendo em uma cela úmida e com poucas roupas.

- Como não? — Disse o Jarl soltando uma gargalhada. — Não está prestes a morrer? Faz diferença?

- Sim Senhor, mesmo em meus últimos momentos de vida eu carrego um código de regras, e a principal é nunca revelar meu contratante, a não ser em caso de traição.

- Um mercenário com esse tipo de regra é novo para mim — disse rindo mais um pouco. — Por cem moedas de ouro você diria?

- De que adianta ter todo o ouro do mundo em minha situação?

- Siddgeir! — Interrompeu o capitão. — Eu preciso terminar meu trabalho, você deseja algo mais?

- Sua língua está muito afiada, talvez eu deva lembra-lo que estou abaixo apenas de seu Imperador e que tenho poder para...

- Já chega! — gritou o capitão se aproximando do Jarl até ficarem cara a cara.

- Você pode matar quem quiser Lucius, mas este homem não morrerá hoje — respondeu o Jarl afastando Lucius lentamente com a mão direita em seu peito. Depois se aproximou perto do seu ouvido.

- E antes que diga algo — sussurrou. — Lembre-se daquelas terras que prometi a você.

- Tirem esse homem de perto de mim! — disse Lucius apontando para Esaar, voltando a olhar para o Jarl depois. — Agora ele é sua responsabilidade.

Siddgeir sorriu e esperou o capitão se afastar para fazer um sinal aos seus guardas que buscaram Esaar levando-o até a carruagem que trouxera o Jarl.

Um talento que não podia ser desperdiçado, via Siddgeir em Esaar, pensando em seus planos enquanto a carruagem os levava de volta para sua cidade.

- Seja bem-vindo a Falkreath! – Disse Siddgeir, orgulhoso, apontando para a entrada da cidade, conhecida pela paisagem da grande floresta à sua volta. – A capital dos Domínios de Falkreath.

Esaar manteve-se em silêncio enquanto o soldado do seu lado direito colocava um capuz para que as pessoas não soubessem quem ele era.

- Chamem Nenya! – Disse o Jarl se referindo à sua conselheira pessoal, uma senhora que servira o Jarl anterior, bastante prestativa e fiel. Nenya também era uma Altmer adepta das artes mágicas.

- Em que devo servi-lo? – Disse Nenya cumprimentando o Jarl.

- Preciso que leve este homem – Começou a falar baixinho descendo da carruagem. – E deixe-o limpo e bem alimentado.

Descendo da carruagem Esaar estava atento ao que o Jarl dizia.

- Sigam-me – disse Nenya apontando para os guardas que começaram a escoltar Esaar entrando na grande casa do Jarl que ficava posicionada no centro da cidade perto dos comércios. – Levem ele para o quarto de hóspedes, irei buscar uma banheira para lavá-lo.

Esaar podia sentir o cheiro do lugar limpo e bem organizado, mesmo com aquele capuz que fora tirado quando entraram no quarto de hóspedes. Dois guardas se posicionaram na porta do quarto do lado de fora, enquanto os outros três guardas saíram da casa. Nenya voltou poucos minutos depois trazendo uma chave na mão esquerda enquanto dois servos arrastavam uma grande banheira em direção ao quarto.

- Posso confiar em você? – Disse Nenya mostrando as chaves à Esaar.

- Seu Jarl salvou minha vida, acho que sim – Respondeu ainda com a voz rouca.

- Você está nojento e doente, será um trabalho para deixa-lo apresentável.

Duas horas depois Esaar mal se reconhecia ao olhar-se no espelho. Sem aquele cabelo enorme, com o rosto limpo e com vestes inteiras; se sentia alguém novamente.

- Obrigado Nenya – Disse com toda a gratidão enquanto ela juntava todos os trapos dele para jogar fora.

Dois soldados entraram no quarto e levaram Esaar até uma grande sala onde o Jarl tinha suas refeições. A mesa era enorme, de madeira forrada com panos decorados com o símbolo da cidade, e Siddgeir estava na ponta comendo um belo frango assado.

- Sente-se homem, coma o que quiser – disse o Jarl. – Eu particularmente adoro um bom frango!

Esaar não relutou e começou a devorar o frango preparado para ele que se sentara perto do Jarl.

- Por que você me salvou? – perguntou.

- Tenho planos para alguém como você – respondeu Siddgeir.

- Como eu?

- Você não me parece um mercenário comum, e para o trabalho que tenho em mente, preciso de alguém mortal, mas acima de tudo, discreto, e você parece que não é de entregar seus contratantes por dinheiro.

- Nunca fui contratado por um Jarl, você tem certeza de que quer confiar em mim?

- Veja bem, quando você tentou matar aquele comerciante, mas caiu em uma emboscada, você acha realmente que foi acaso?

- Você planeou a emboscada?

- Planejar não, mas dei essa ideia a alguém que soube concretizá-la muito bem. Agora me diga, como você se chama?

- Acho que você já sabe.

- Vamos lá meu caro, sou adepto da boa educação, responda minha pergunta.

- Sou conhecido como Esaar.

- Muito bem Esaar, agora vamos falar de negócios. Eu o salvei, mas tenho todo o poder de te matar quando eu quiser.

- Tem certeza?

- Lembra quando estava sendo lavado agora pouco e Nenya o cortou sem querer?

- Como você sabe disso? – Disse Esaar lembrando-se do corte feito por ela enquanto cortava seu cabelo.

- Ela retirou um pouco do seu sangue, uma gota, o suficiente para fazer o Ritual da Ligação.

- Você ligou minha alma à uma pedra?

- Isso mesmo, você conhece o ritual! Agora que eu tenho um pedaço de sua alma em meu poder, eu posso destruí-la quando eu quiser.

Esaar não conseguia esconder sua fúria, mas sabia que não podia fazer nada contra o Jarl, pois ele conhecia muito bem o Rital de Ligação, e quão mortal esse ritual era. Bastava uma gota de sangue para ligar a alma da vítima em uma Pedra de Alma, assim, ao quebra-la, a alma era destruída.

- Você é um adorador de Boethia.

- Sempre fui fascinado por príncipes Daédricos, e vi em Boethia tudo aquilo que eu mais queria. O Ritual de Ligação pode ser desfeito a qualquer momento, e este será um e seus prêmios ao aceitar ser meu Campeão. Uma nova vida, nova identidade, a oportunidade de ser uma pessoa comum mais uma vez e moedas de ouro regularmente para que possa sobreviver confortavelmente; enfim, sua vida mudará.

- E qual o preço?

- Você será meu assassino, matará quem eu ordenar, sem perguntas e discretamente. Ninguém poderá saber que você trabalha para mim. Nem mesmo viverá em Falkreath, eu lhe darei o ouro que precisa para comprar uma propriedade em Whiterun, onde viverá. Manteremos contato através de mensageiros e você será pago regularmente por seus serviços.

- Para querer tanta descrição, seus objetivos devem ser muito grandes.

- Eu quero ser Rei Supremo, não esconderei isso de você, e para isso terei de matar todos aqueles que se opõem à mim. Aliás, VOCÊ terá de mata-los.

- E se eu recusar sua proposta?

- Amanhã será arranjado sua execução.

Direto como uma flecha no coração. Esaar desejava mudar de vida depois de ser salvo, mas teria de fazer aquilo que sabia de melhor, matar. Mais uma vez aqueles pensamentos sobre o que faria se pudesse mudar o passado, voltaram a assombra-lo, mas na verdade não tinha escolha, era aceitar, ou morrer.

- Se eu o trair, irá me matar usando o ritual? – perguntou.

- Sim – respondeu o Jarl.

- Se você me trair eu irei contar para toda Tamriel os planos do Jarl de Falkreath.

- Justo. Posso entender isso como um “sim”?

- Sim.

Siddgeir não conseguia esconder a expressão de satisfação, inflando seu ego como aquele que sempre consegue o que quer. A corrupção em seu coração era imensa, e aumentava a cada dia, como uma infecção sem cura.

- Antes, Esaar, eu preciso que você faça um trabalho – disse o Jarl levantando-se da mesa. – Para provar que é digno de trabalhar para mim, você deve caçar e trazer a cabeça da besta Baahura. Você terá três dias para se preparar, vá para Whiterun, compre sua casa, seus equipamentos. Dentro de três dias eu procurarei saber se você já deixou Whiterun.

- Baahura? – Perguntou Esaar que já conhecia a reputação daquele monstro.

- Sem perguntas, lembra?

O Jarl deixou o salão indo para seu quarto enquanto um guarda entregava uma bolsa com muitas moedas de ouro, o suficiente para fazer tudo aquilo que ele dissera. Outros dois guardas levantaram Esaar e o levaram pela saída dos fundos encapuzado. Era noite e poucos estavam pelas ruas de Falkreath, ninguém o reconheceria.

Durante todo o caminho ele viajou encapuzado, até chegarem ao seu destino. Esaar foi descido e então a carruagem deu meia volta. Ele esperou alguns minutos e retirou o capuz revelando a bela planície onde ficava Whiterun, erguida e moldada em uma rocha gigantesca, uma das principais cidades da província de Skyrim. Com sua bolsa de moedas ele começou a andar passando pelos estábulos olhando de longe qual cavalo compraria. Era manhã, Skulvar, o nórdico que cuidava dos cavalos, estava alimentando-os.

Esaar estava feliz por ter uma nova chance de viver, mas sabia que sua vida seria muito mais arriscada do que antes. Teria de dar tudo de si para se tornar um assassino profissional. Faria de tudo pelo título que imaginara em sua mente, queria se tornar O Assassino de Jarls.