Esaar - Assassino de Jarls
2 Capítulo 2 – Baahura, A Besta
Era manhã e a luz do sol iluminava sua face fazendo-o se incomodar abrindo os olhos com cuidado depois de perceber. Esaar se sentou em sua cama, sentia saudade daquilo, passara muito tempo vivendo em uma casa simples, arriscava-se por pouco, mas via naquele momento como as coisas mudaram. Tinha sua própria casa em Whiterun, algo que somente quem tinha um bom dinheiro conseguiria. Mas deixara esses pensamentos de lado, pois era o amanhecer do terceiro dia e precisava se preparar para deixar a cidade.
– Esta espada parece decente – Disse ele olhando uma espada de ferro forjada pela imperial Adrianne Avenicci, a competente ferreira esposa de Ufberth, filha do mordomo do Jarl de Whiterun.
– Não sou a melhor ferreira de Whiterun, mas garanto que minhas armas não lhe decepcionarão em batalha – Respondeu com seu olhar sério e comprometido, não gostava quando alguém olhava para suas armas com desprezo.
– Preciso também de uma armadura completa e escudo – Pediu Esaar olhando para a parede da loja onde belas armas dos mais variados materiais estavam penduradas. – Quero algo leve e resistente, mas nada muito caro, apenas preciso garantir que não cairei no primeiro golpe.
– Irei buscar uma boa armadura de ferro e um escudo de madeira de carvalho – Respondeu Adrianne indo para os fundos da loja enquanto Ufberth se aproximava.
– Você é novo por aqui? – Disse ele coçando sua barba castanha.
– Moro ao seu lado – respondeu Esaar educadamente.
– Sim, a velha casa misteriosa que estava à venda há tempos.
– Você conhece algo sobre aquela casa?
– Na verdade sei que um casal de argonianos moravam lá. Dizem que eles eram adeptos da necromancia.
Os dois riram como se não acreditassem na lenda enquanto Adrianne voltava com um carrinho de mão feito de madeira onde estavam as peças que Esaar pedira.
– Espero que seja do seu agrado – Disse ela entregando o peitoral de ferro com detalhes em couro para Esaar.
– É uma boa armadura, está ótima pelo preço. Está aqui, pegue – Respondeu entregando as moedas de ouro para ela.
Já estava ficando tarde quando ele decidiu sair de casa. Com a armadura vestida, o elmo na mão esquerda e a espada à direita ele partiu para o estábulo onde pegara seu cavalo. Estava tudo pronto para partir. Não havia a quem se despedir, não havia a quem dizer adeus, e isso o deixou triste, mas sabia que ao menos se morresse, não causaria tristeza e pesar em alguém. Então partiu calmamente enquanto desenrolava um pergaminho com um mapa mal feito da rota que deveria fazer para chegar ao seu destino. O mapa fora feito por um khajiit chamado Dro'Baad que parecia um tanto alterado, mas Esaar não tinha tempo a perder, e ele parecia ser o único que sabia o que estava falando para indicar o caminho.
Seu destino era o oeste, a caverna Orothein onde diziam ser o lar da besta Baahura. Utilizando a estrada passando pela torre ocidental ele vira alguns soldados tomando cerveja enquanto outros treinavam sua habilidade com arcos. Dois ou três lutavam entre si, treinando, aquilo era muito familiar para Esaar. O fazia lembrar de todo o tempo que passara treinando com seu mestre, um elfo chamado Sadave Drom. Nunca soube de seu passado, nem mesmo se interessou, apenas queria aprender como ser um bom assassino, o melhor. Mas esquecera muito do que aprendeu durante todos aqueles anos, desenvolveu seu próprio método de cumprir seus trabalhos, simples e eficiente. Não era muito discreto, mas começara a pensar que precisaria aprender a ser.
– Me solte! – Gritou uma mulher bem a frente interrompendo os pensamentos de Esaar, que galopou rapidamente presenciando dois homens vestidos de forma bem diferente interrogando uma mulher.
– Não se meta! – Disse um deles olhando para Esaar colocando a mão em sua espada curva, bem incomum em Skyrim.
– O que essa mulher fez? – Perguntou Esaar.
– Essa mulher é suspeita de ser uma foragida de Hammerfell – respondeu o outro que segurava o braço da mulher de pele morena e vestido sujo que parecia estar bem desidratada.
– Por favor, eu não fiz nada! – Suplicava ela.
Esaar segurava as rédeas com força, suando, respirou fundo, devia pensar muito bem se faria aquilo ou não.
– Você virá por bem ou...
A mulher escapou dos braços do homem retirando a adaga presa na coxa dele usando-a para atingir seu ombro. Esaar tomou um susto com a ação repentina enquanto o outro homem não sabia o que fazer vendo seu parceiro sangrar no chão.
– Mate-a! – Gritou o ferido.
Esaar pulou do cavalo e cravou a espada antes que o ferido disse mais alguma coisa. Retirou a espada ensanguentada e correu para acertar um golpe no outro homem que se defendeu com sua espada.
– Você não sabe o que está fazendo! – Disse o homem tentando manter-se em pé.
– Mas eu sei que vi dois homens tentando levar uma mulher cansada e maltrapilha insinuando que ela fosse uma foragida!
– Ela é perigosa!
Esaar com um movimento curvo arrancou a espada das mãos do homem e cravou-a em seu peito até a ponta da lâmina perfurar a terra. Então ele correu, pulou no cavalo e galopou perseguindo a mulher que mal conseguia correr. Estava visivelmente fraca e caíra no chão de joelhos enquanto Esaar descia do cavalo. A mulher em estado de choque tentou escapar quando o vira, mas não conseguia mais se mover.
– Eu não vou machuca-la – Disse Esaar entregando um cantil para ela.
A mulher estava com tanta sede que se engasgou.
– Como você se chama? – Disse ele.
– Sinia Elone – Respondeu ela tentando recuperar o fôlego.
– Você realmente é uma foragida? – perguntou ele ajudando-a a levantar.
– Depende – disse ela se distanciando um pouco segurando o cantil.
– Eu preciso desse cantil para onde estou indo – disse ele estendendo a mão esquerda.
– Me desculpe – disse ela entregando o cantil.
– Então diga-me, por que depende?
– Você não vai querer ouvir minha história. Eu lhe agradeço por ter me salvado, mas preciso ir agora.
– Talvez haja mais deles por aí?
– Não sei, mas não posso ficar e esperar.
– A essa altura toda Whiterun já sabe que você é uma foragida.
– Estou indo para Rorikstead, conheço alguém que irá me ajudar.
– A estrada que usarei é a mesma que você usará para chegar em Rorikstead, talvez eu possa leva-la até certo ponto, você parece muito cansada.
– Não, obrigada, eu vou seguir em frente sozinha.
– Como quiser.
Esaar voltou para pegar sua espada arrancando-a com força. Sinia ficou parada por um tempo observando-o enquanto Esaar subia em seu cavalo e guardava a espada na bainha.
– Eu... Posso? – Perguntou ela repensando o que dissera antes.
– Suba.
A tarde estava chegando ao fim, dando lugar ao céu vermelho que precedia o céu escuro de estrelas brilhantes.
– A noite aqui é bem diferente de Hammerfell – Disse Sinia impressionada com as estrelas. Esaar continuou quieto. – Você não fala muito. Por que você me ajudou?
– Você não me parece uma fora da lei – respondeu com a voz ainda rouca, mas melhor do que antes.
– Talvez você devesse tomar cuidado então – respondeu.
– Com você?
– E se eu for uma foragida perigosa?
– Foragida sim, perigosa talvez. Mas essa adaga apontada para a minha costela não irá te ajudar em nada – Respondeu sentindo a ponta da faca no couro de sua roupa. Sinia guardou a adaga sorrindo.
– Estou em débito com você. E sim, sou uma foragida de Hammerfell. Em meio a corrupção do governo do meu pai, eu precisei fugir para não ser assassinada.
– As coisas não andam bem por lá então?
– Piores do que você pode imaginar. Meu pai faz parte do conselho, mas ele é diferente dos outros, e seu modo de pensar acabou afetando a segurança de nossa família. Temo que ele já esteja morto agora.
– Lamento, mas há quanto tempo você fugiu?
– Quatorze dias. Eu tinha moedas e comida suficiente para sobreviver, mas fui atacada dois dias atrás. Desde então ando assim, sem comer, sem dormir, apenas fugindo.
– E quem você conhece em Rorikstead?
– O dono de uma pensão que era viajante há tempos atrás. Ele me disse que estava juntando dinheiro para montar seu negócio em Rorikstead, espero que ele tenha conseguido.
– É um grande palpite no escuro.
– Sim, mas não tenho outra opção.
A noite ficava mais escura e era difícil enxergar, mas Esaar conseguiu perceber que chegara ao limite onde a estrada se dividia em direções diferentes.
– Chegamos – Disse Esaar parando o cavalo.
– Eu vou para a direita, Rorikstead fica à esquerda, boa sorte.
– Obrigada mais uma vez – Disse ela descendo do cavalo.
– Sinia! Leve isto – Disse Esaar entregando algumas moedas de ouro para ela.
– Eu, eu não posso aceitar – Disse ela desconcertada.
– Você precisa disso mais o que eu, faça bom proveito.
Ela se despediu com um sorriso enorme enquanto rumava para Rorikstead que ficava alguns minutos dali. Era possível ver as tochas iluminando toda a cidade, e a estrada a partir daquele ponto era patrulhada, então não havia como acontecer algo de ruim com ela, pensou. Então virou para a direita olhando a estrada sombria e escura, retirou uma tocha que levara pendurada na cela do cavalo, desceu e usou algumas pedras para ascendê-la.
Não queria perder tempo dormindo, já fizera aquilo por tempo suficiente na noite passada, então montou novamente e continuou galopando entrando em um pequeno bosque que conseguiu atravessar em poucos minutos. Estava de volta a planície onde via algumas pedras grandes decoradas com desenhos primitivos, conhecia aquilo de algum lugar. Começou a se aproximar de uma delas, então percebeu o cavalo agitado, não queria obedecer seus comandos corretamente. Decidiu descer do cavalo segurando-o pelas rédeas e continuou a se aproximar usando a tocha para verificar a rocha que estava pintada em uma tonalidade azul com desenhos em amarelo. Eram formas circulares sem sentido para ele que ficou alguns minutos tentando entender o que era aquilo, até que seu cavalo relinchou levantando as patas dianteiras quase atingindo-o.
Esaar rolou pelo chão observando o cavalo fugir para dentro do bosque, recuperou o fôlego e se levantou procurando a tocha que estava por perto ainda acesa. Olhou ao seu redor, mas a escuridão era tão intensa que mal conseguia enxergar um metro a sua frente. Então antes que começasse a andar, ele ouviu um pequeno tremor que parecia vir de longe. Levantou a cabeça e tentou se concentrar sentindo o tremor mais uma vez. Da terceira vez ele percebeu que estava mais forte e mais rápido, então o tremor aumentou de força abruptamente fazendo-o se desequilibrar, quando a tocha revelara os pés de um gigante há poucos metros dele.
Com um enorme porrete ele golpeou o solo bem perto de Esaar errando o alvo, dando tempo para que o assustado e desnorteado guerreiro corresse deixando a tocha caída perto de onde o gigante golpeara.
– O que você quer? – Gritou Esaar. – Eu não quero machuca-lo!
– Grum daarh uhmmm! – Gritou o gigante com sua voz grave e gutural, em sua língua nativa ainda não traduzida.
Esaar decidiu que não fugiria, pensou rapidamente em como poderia mata-lo, então com um sorriso malvado ficou parado na frente do gigante enquanto o gargantuano levantava seu porrete e preparava seu golpe sem misericórdia. Esaar esperou pelo momento certo quando o gigante deferiu o golpe e rolou para sua esquerda usando a espada para atingir o calcanhar do gigante, fazendo-o cair de joelhos grunhindo. Sem perder tempo Esaar golpeou-o novamente na outra perna fazendo-o ficar imóvel gritando de dor enquanto ele se aproximava perto de sua barriga atingindo seu peito com um golpe final. Aquele era um gigante jovem, não era tão treinado como outros que vira antes, pois normalmente seria muito mais difícil matar um deles.
Esaar recuperou o fôlego e correu para o bosque depois de pegar sua tocha que estava quase se apagando. Procurou por seu cavalo até acha-lo, então antes de montar o animal relinchou novamente revelando uma aranha congelante perto deles. Antes que ela soltasse seu veneno fatal, Esaar golpeou sua cabeça matando-a instantaneamente. Ao se levantar ele percebeu que estava muito cansado e decidiu voltar para a planície perto do gigante, onde dormiria até a manhã.
*
Seu rosto indicava preocupação, chegara ao seu destino. Esaar olhava para Orothein, as rochas formavam um arco e rastros de sangue decoravam a entrada da caverna. Descera do seu cavalo amarrando-o em uma árvore, e com seu elmo na mão esquerda ele começou a andar na direção da caverna com seus cabelos castanhos mais curtos que antes, mas ainda grandes, voando com os ventos fortes daquela manhã cinzenta. O silêncio reinava, apenas o som dos ventos e das folhas das árvores dançando, era a trilha sonora de sua aventura naquele momento. Respirou fundo, colocou o elmo que encaixava perfeitamente em sua cabeça, fazendo-o pensar em como era bom o serviço da forja de Adrianne.
Dentro da caverna algumas tochas iluminavam o que parecia ser corredores, indicando que ali vivia algo além de uma besta selvagem. As paredes eram úmidas e aquele ar cheirava a carne morta, como se entrasse em algo pior que um cemitério. A espada estava em suas mãos, já o escudo estava nas costas, preparado para usá-lo em uma situação de risco.
Os corredores levavam cada vez mais para baixo e aos poucos o ar ficava ainda mais denso, difícil de respirar, Esaar sentia seu corpo mais fraco, como se tivesse subido os Sete Mil Degraus correndo. Em um ponto ele não conseguia mais se sustentar em pé, como se algo o puxasse para baixo com toda força, então caiu de joelhos tentando puxar o ar deixando a espada cair no chão, fazendo o barulho ecoar pelos corredores. Aquilo chamou atenção daqueles que viviam naquela caverna. Esaar não conseguia enxergar direito, mas percebeu várias pessoas se aproximando, vendo-os como borrões até apagar completamente.
– Acorde! – Gritou alguém acordando Esaar com um balde de água gelada. – Quem é você?
Esaar tentou abrir os olhos revelando um elfo de aparência cinzenta e de olhos vermelhos, algo incomum para sua espécie. Ele estava amarrado em uma cadeira e não conseguia se mover.
– Quem é você? – Perguntou Esaar com a voz mais rouca do nunca por causa da falta de ar.
– Eu faço as perguntas aqui! – Gritou o elfo socando sua barriga fazendo-o sentir ainda mais dor nos pulmões tentando puxar algum ar. – Você é um agente?
– Não – Respondeu derramando uma gota de sangue pela boca.
– Resposta errada! – Mais um soco no estômago, mais gotas de sangue derramadas. – Quem o mandou?
– Ninguém!
– Então o que você veio fazer aqui?
– Matar... Baa... hura – Mal conseguia terminar a frase.
O elfo soltou uma gargalhada, seguido por outros dois que se assemelhavam a ele e estavam no canto da sala cheia de estantes com os mais diversos livros.
– Você veio enfrentar a besta Baahura? – Disse zombando.
– Sim.
– Então que assim seja! Levem ele para o covil da besta e deixem que ela se alimente.
Os dois elfos desamarraram Esaar e o arrastaram por um corredor curto entrando em outro corredor ainda mais curto onde fora jogado no chão.
– Abra a porta Bradas! – Disse um deles.
– Segure-o Ararvyne! – Disse o outro com uma voz fina e irritante enquanto Esaar tentava se concentrar nos nomes para que lembrasse depois.
Os dois abriram uma porta grossa de madeira e depois levantaram um enorme portão jogando Esaar para dentro do que parecia ser uma arena, por onde o elfo que o interrogara, Enarvynes, observava de cima onde ficava uma espécie de arquibancada.
– Bem-vindo ao meu coliseu! – Disse Enarvynes. — Aqui eu me divirto junto de meus irmãos vendo tolos de toda Skyrim tentando matar Baahura, meu jovem tigre Cérbero.
Cérbero? Pensou Esaar vendo o portão sendo aberto. Enarvynes não parecia estar brincando, e seu sorriso maléfico e ansioso ia de orelha a orelha.
– Como você já está debilitado, terá a chance de lutar com seu equipamento, quero ver uma boa luta hoje!
Bradas jogou a espada e o escudo de Esaar que correu para pegá-los. O portão já estava totalmente aberto, mas a criatura ainda não aparecera.
– Apareça Baahura! — Gritou Enarvynes. — Venha se alimentar!
Alguns segundos de silêncio, então um pequeno tremor foi sentido seguido de um barulho de respiração, Esaar segurava a espada com força, mas o medo estava estampado em seu rosto. Era um bom assassino, mas nunca lutara com uma criatura como aquela.
Finalmente Baahura soltou seu rugido e começou a correr fazendo o chão tremer com sua força, até atingir a arena parando bruscamente, desajeitado, como se estivesse sob efeito de algo. O felino de três cabeças, com a pelagem de um tigre comum, mas com a cor negra de uma pantera, fitou Esaar com os olhos verdes e profundos enquanto o elfo abria um sorriso ainda maior observando o espanto nos olhos do guerreiro.
– Mate-o, Baahura! — Gritou o elfo seguido dos outros dois.
Esaar pensou em usar a mesma tática que usara com o gigante. Esperou a besta começar a correr em sua direção, flexionou-se e então no momento certo pulou para o lado rolando, mas a espada escapou de suas mãos ainda afetadas, então ele correu para buscá-la enquanto a besta ficava novamente de frente para ele. Os dois se fitaram por mais um momento até a besta correr novamente. Esaar preparou-se mais uma vez e esperou o momento certo para pular, dessa vez segurando a espada bem firme. Mas estava fraco, demorou para se levantar e quando conseguiu, a besta já estava vindo em sua direção, ainda desajeitada, não parecia ser aquele monstro impossível de morrer. Rapidamente ele segurou sua espada como uma lança e mirou no peito da besta, mas o tremor fez com que ele se desequilibrasse e sua espada atingisse a pata dianteira direita, fazendo Baahura rugir de dor, interrompendo seu ataque. Esaar correu aproveitando-se, arrancou a espada e deferiu um ataque em seu peito. A besta rugiu mais uma vez e com ainda mais dor recuando antes que ele pudesse retirar a espada que continuou pendurada. As três cabeças brigavam entre si, o que irritou o elfo, mas ele nada podia fazer.
Esaar continuou encarando a besta que olhava para ele com seus seis olhos, três cabeças e um só sentimento, matar! Em um último esforço, mesmo sangrando muito, a besta começou a correr rugindo com as duas cabeças laterais enquanto a principal apenas olhava para Esaar com os dentes de fora como se fosse comê-lo. O assassino decidiu não recuar, mas sim se jogar quando a cabeça do animal se inclinou para abocanha-lo. Debaixo da besta Esaar arrancou a espada e a fincou exatamente no coração, pois sabia que só assim o mataria sem precisar decapitar cada cabeça. A besta ainda tentou reagir ferindo os braços dele com suas enormes garras, mas o assassino conseguiu correr saindo debaixo da besta que caiu exausta na sua própria poça de sangue.
Os três elfos estavam parados como estátuas olhando para o guerreiro que recuperava o fôlego. Enarvynes não sabia o que dizer ao ver seu animal de estimação morto, então ficou parado por alguns segundos até voltar a si e ordenar seus irmãos para matarem Esaar.
Ele precisava respirar depois de uma luta como aquela, mas seus pulmões ainda não funcionavam corretamente. Quase se sentou, quando ouvira o portão por onde entrara, ser aberto. Eram eles, pensou, correu para pegar a sua espada, retirou do corpo da besta e pulou para desviar da rajada de fogo que o mago Badras usara contra ele. Enquanto o mago recuperava sua energia ele aproveitou para deferir um ataque, desviado por Badras, que retribuiu com uma rasteira derrubando-o. Esaar procurou ar novamente enquanto os dois elfos se aproximavam, então com um movimento repentino ele puxou o pé de Bradas e socou o abdômen de Ararvyne, fazendo-o se inclinar. Levantando-se Esaar deu uma joelhada no rosto do elfo e retirou a adaga de sua cintura atingindo o pescoço de Bradas que desabou. Ararvyne tentou golpeá-lo, mas Esaar se defendeu, chutou as costas do elfo fazendo-o cair e então girou seu pescoço fazendo o som dos ossos quebrados ecoar pela arena, enquanto Enarvynes assistia seus dois irmãos serem mortos por um mísero guerreiro desconhecido.
Esaar buscou sua espada novamente enquanto ouvia Enarvynes correndo pelos corredores estreitos. Buscou forças e começou a segui-lo até aquela sala onde fora interroga-lo. Enarvynes estava parado com uma Besta Dwarven dourada apontada para o peito de Esaar.
– Você não sairá vivo daqui — disse o elfo tremendo, tentando disfarçar o medo. Ele sabia que Esaar não era um simples humano.
Esaar fingiu que se moveria fazendo o elfo disparar a besta na direção que ele pensara que Esaar iria, então aproveitando a lentidão que era para recarregar a besta, o assassino fincou a espada na perna direita do elfo, na altura do joelho e tirou a besta de suas mãos.
– Agora é sua vez! — Disse Esaar retirando a espada e colocando o elfo na mesma cadeira onde fora amarrado. Com a mesma corda amarrou os braços do elfo e fincou uma adaga que estava na mesa ao lado, no pé de Enarvynes que gritou de dor.
– O que você quer? — Gritou o elfo.
– Quero saber o que vocês faziam aqui? — Perguntou Esaar.
– Eu sou apenas um servo!
– Não foi isso que perguntei! — Esaar apertou ainda mais a adaga.
– Apenas pesquisamos!
– Pesquisando o que?
– Você não faz ideia no que está se metendo! Continue querendo saber mais e se arrependerá depois.
– Eu não tenho medo, agora me diga antes que eu enfie essa adaga no seu pescoço como fiz com seu irmão!
– Um feitiço! Estávamos pesquisando uma forma de reproduzir o Toque da Morte.
– Toque da Morte?
– É um veneno mortal que mata lentamente, fazendo a vítima enlouquecer aos poucos antes de matá-la.
– A mando de quem?
– Eu não sei! Eu juro! Fomos contratados por alguém que não queria ser identificado. Nos comunicávamos por cartas apenas, sempre acompanhadas de moedas de ouro, por isso continuávamos trabalhando.
– E vocês conseguiram criar esse veneno?
Ao fazer essa pergunta o elfo se calou, tremia e ofegava, mas relutava em dizer mais alguma palavra.
– Responda! — Gritou Esaar fincando a adaga até o cabo.
– Nós testamos na besta!
– Que besta?
– Baahura estava infectado por nove dias! Ele começou a mostrar sinais de insanidade ontem. O problema é que esse veneno é contagioso, como uma doença.
Ao dizer aquilo Esaar sentiu suas feridas nos dois braços doerem como nunca, caindo no chão gritando ele não pôde impedir o elfo de se levantar e correr mesmo com a adaga no seu pé direito, cambaleando, caindo pelo caminho até não aguentar mais e começar a se arrastar pelo chão.
Esaar ficou caído por horas, inconsciente, até acordar novamente, recuperado, sem dores. Levantou e procurou pelo elfo, mas percebeu que pelo tempo que passara, não estaria mais naquela caverna. Lembrou-se também da ordem do Jarl, tinha de trazer a cabeça de Baahura, então desceu até a arena vendo o corpo do monstro que o infectara com um vírus mortal, caído naquele mar vermelho de sangue, onde já não era mais imponente e assustador como antes. Pegou sua espada e começou a decepar as três cabeças do Cérbero.
Em seu cavalo ele pendurou a besta dourada e amarrou as três cabeças pendurando-as também, uma à esquerda e as outras duas à direita. Estava preparado para partir, ainda com os ferimentos incomodando, mas sabia que não havia outra maneira senão procurar por Enarvynes, o único que poderia saber como reverter sua situação.
Era noite do quarto dia da volta de Esaar quando passara pelos portões de Falkreath parando às portas do salão do Jarl, quando Siddgeir saiu acompanhado por Nenya.
– Aqui está sua besta — disse Esaar, com um pano escondendo boa parte do rosto, desamarrando as três cabeças e jogando-as perto do Jarl.
– Vejam meu povo! — Disse Siddgeir enquanto a multidão se aglomerava para ouvir o Jarl. — Este é o herói que matou Baahura! Ninguém mais será morto pelas garras desta besta. Declaro o mascarado...
– Sadave Clavius — Completou Esaar.
– Sadave Clavius, o novo Thane de Falkreath! Venha Clavius, jante comigo hoje!
Os guardas levaram Esaar até o salão onde o Jarl comia uma bela refeição antes da chegada dele.
– Me desculpe Clavius, não esperava por você — Disse o Jarl disfarçando uma cordialidade acima do normal. — Saiam todos! Quero conversar com nosso novo herói! — Nenya se aproximou. — Certifique-se de que ninguém esteja escutando nossa conversa — Sussurrou.
Todos os soldados saíram do salão deixando apenas os dois naquele enorme espaço.
– Passei em seu teste? — Perguntou Esaar.
– Sadave Clavius? — Zombou mordendo uma coxa de frango enorme e suculenta enquanto o estômago de Esaar clamava por algo. — Você demonstrou ser o guerreiro que preciso, agora eu quero saber se você é o assassino que preciso também. Seu teste na verdade é sua primeira real missão.
– Estou ansioso — respondeu Esaar sem imaginar o quão impressionado ficaria com o que Siddgeir diria.
– Quero saber os detalhes de sua aventura depois, primeiro quero lhe dizer qual será sua missão, eu quero que mate e traga a cabeça de Balgruuf O Grande, o Jarl de Whiterun.
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