Era para ser você
18 Uma emergência chamada Jack
Notas iniciais
Talvez o universo estivesse querendo me recompensar, pois o restante da segunda feira não foi ruim, e de certa forma a terça feira também não, porém nada se comparou ao dia de hoje.
Quarta – feira.
Pela primeira vez desde que comecei a trabalhar á um mês estou de folga!
Um mês!
Embora estivesse feliz, a única coisa que bateria o martelo sobre isso seria o dia de amanhã quando recebesse meu salário.
O dia em que pela primeira vez aguentar o egocentrismo de bastardo arrogante valeria a pena. Eu receberia meu salário. Claro que saber que a maior parte dele iria para pagar contas tirava um pouco o brilho, mas apesar disso eu estava estranhamente feliz.
Acelerei minha corrida sentindo minhas pernas ficarem deliciosamente cansadas e meu corpo vibrando enquanto a endorfina se espalhava pelo meu sangue.
Eu amava correr. Em especial em dias como o de hoje com o céu tão azul manchado com apenas nuvens brancas e fofas como algodão. Tão bonito que mais parecia uma pintura do que algo real. Dava uma leveza dentro do peito e era difícil sentir isso com frequência no caos de Nova York.
Meu coração martelava, e meu corpo protestou deixando-me saber que havia chegado ao meu limite. Parei um pouco para descansar. Limpei o suor do rosto e sorvi praticamente toda a água que tinha trazido na minha garrafa.
Turistas e corredores se misturavam de forma engraçada entre os moradores.
Alguns apenas aproveitavam o momento para ler e conversar enquanto outros fotografavam todos os centímetros do parque Brooklyn Bridget, que conseguiam enxergar e não pude conter um sorriso. Foi uma das primeiras coisas que fiz ao chegar à cidade.
Fotografar. Era tudo tão novo, que eu não queria perder a essência de nada. Queria fotografar tudo que encontrasse para que quando fosse embora bastasse olhar aquelas fotos para a saudade ir embora ou então pelo menos diminuir. Possivelmente tirei centenas de fotos repetidas, mas de diferentes ângulos.
Daqui a um mês quando voltasse para o Brasil seria como de certa forma não tivesse ido embora. Nova York já fazia parte de mim desde o momento que fui aceita para o intercâmbio.
É engraçado porque nunca achei que teria que sair do lugar em que nasci para me encontrar de verdade. Nunca se tratou de dinheiro apesar da renda apertada dos meus pais e eu. Era algo tão maior que só entendi quando respirei novos ares. Talvez um dos motivos para não ter querido ir embora tenha sido esse muito mais do que os módulos confusos da faculdade de um país para outro. Renovei meu visto seis meses antes do intercâmbio de fato acabar dizendo para mim mesma que era só para prevenir. Era uma mentira deslavada dita para mim mesma para disfarçar algo que eu nem sabia que queria. Quando o intercâmbio acabou, troquei a faculdade por uma comunitária pelo valor da mensalidade. Não ter a companhia de Meredith foi difícil, mas não bastasse o preço consideravelmente menor, o horário contrastava perfeitamente com meu trabalho no hotel. Tudo se encaixava tão perfeitamente... Até parou de ser.
Uma garota loira segurando a mão de uma garotinha com os cabelos tão dourados quanto os seus e que usava com uma meia calça de abelhinha apontou sua câmera para o céu e deu alguns cliques sorrindo satisfeita com o que capturou.
Sua meia calça me fez lembrar um dos meus livros favoritos.
Como eu era antes de você da Jojo Mayes.
Só de pensar no final quis me encolher em uma bolha e chorar. Tomando o restante da minha água dei uma última olhada para as meias e suspirei desejando um par para mim.
Comecei a retroceder todo o caminho que corri para voltar para casa. Minha mente para fugir do tédio começou a pensar nos livros que já li, e sem perceber criei finais alternativos – e felizes – para cada história em que a mocinha teve seu coração partido por um amor que não deu certo.
***
Depois de chegar em casa, e tomar uma chuveirada relativamente longa liguei para Brent percebendo que não tinha feito isso ainda. Ele atendeu no quarto toque. Sua voz arrastada e confusa me fez pensar se estava dormindo.
— Quem é?
— Jasmim... É uma hora ruim?
— Nãoo – ele limpou a garganta. – Obrigado por ligar. Eu estava tirando um cochilo. Estou trabalhando como segurança algumas noites na semana, e ás vezes pareço um zumbi durante o dia.
Assenti lembrando de Mer e seu trabalho noturno no Skulls.
— Meredith parece um zumbi algumas vezes também. Um zumbi mal humorado – acrescentei fazendo nós dois soltarmos uma gargalhadas.
— Pobre Meredith é apenas mais forte que ela.
Dei um sorriso e coloquei um pouco d’água na chaleira para fazer um chá e enquanto a água aquecia Brent e eu trocamos algumas animosidades até que por fim com a caneca de cerâmica em mãos e devidamente acomodada no sofá toquei no assunto que me fez ligar para ele em primeiro lugar.
— Você queria falar comigo sobre o apartamento, não é?
Com uma voz quase apologética ele respondeu:
— Sim. Não quero soar indelicado, pois ainda falta um mês para desocupá-lo, mas...
— Não é indelicado – interrompi tomando um gole de chá. – Você já tem algum interessado?
Empurrei a dorzinha incomoda se instalando no meu peito com mais goles de chá e esperei por sua resposta.
— Dois interessados. Uma estudante que acabou de se mudar e um homem recém-divorciado.
— Oh – foi tudo que falei para respondê-lo.
— Se estiver tudo bem por você pensei em mostrar o apartamento. Qualquer dia desses – acrescentou diante meu silêncio.
— Semana que vem? – ofereci apertando a xícara entre meus dedos. – Só me avise quando e deixo as chaves com o porteiro e de quebra escondo qualquer sujeira debaixo do tapete.
Brent soltou uma gargalhada alta.
— Você é a melhor.
— Eu sei é mais forte que eu – brinquei. Afastei o telefone do ouvido e constatei que em breve teria que me arrumar para a faculdade. – Hum Brent preciso ir, posso ligar depois?
— Claro. Até mais. Mande um beijo para Meredith por mim.
Encerrei a chamada e deixei o celular em cima da mesinha de centro, e olhei de um lado para outro procurando Thor.
Nem sinal dele. Thor tendia a sumir de vez em quando. Seus sumiços me davam um ataque cardíaco, porém quando eu menos esperava ele aparecia outra vez com seus miados exigentes querendo comida e carinho.
Com isso em mente peguei a xícara a enxuguei na pia e logo em seguida encher a tigela de Thor de comida. Estava secando as mãos quando meu celular tocou. Tropeçando na tigela de Thor sem querer praguejei baixinho e fui atender.
— Julyan? – atendi surpresa.
— Pode me fazer um favor, por favor?
— Claro. O que há?
— Jack está passando mal.
— O que você quer eu faça? – perguntei totalmente em alerta.
— Pode buscar ele? Eu juro que recompenso você depois – assegurou aflita e afobada. – Eu não posso sair mais cedo de novo. É a quinta vez este mês e você sabe como são as pessoas da empresa já me ameaçaram se isso se repetisse. Eu só...
— Julyan respire – ordenei. – Onde Jack está e o que ele tem?
— Escola de futebol.
— Me passa o endereço.
Depois de pedir mais uma quinze vezes par Julyan se acalmar, e repetir mais uma dez que tudo ficaria bem e que sim eu tinha anotado o endereço.
Foi só quando abri a porta e senti o vento gelado do corredor em mim que percebi.
Eu ainda estava de toalha.
— Droga – grunhi.
Voltei para dentro e numa velocidade não característica vesti leggings, uma camiseta larga e velha que nem meu pai quis usar mais e sapatilhas. Não foi difícil encontrar a escola de futebol de Jack.
Ele era um garoto gordinho e ao mesmo tempo franzino esperando na entrada e junto com ele coincidência ou não estava Will Keller.
Filho do dono da livraria Spring.
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