Era para ser você

19 Thor está de volta, e pronto para arrasar!


Surpresa parei alguns passos antes de estar realmente de frente para os dois. O que Will estava fazendo ali? Com a surpresa inicial deixada de lado, segurei os ombros de Jack inspecionando-o com os olhos. Suspirei e soltei a respiração, sem me dar conta até aquele momento que estava segurando-o.

— O que houve? – indaguei tirando o celular do cós da minha legging. Com um timer perfeito a foto de Julyan iluminou a tela. Empurrei o telefone para Jack que segurou com uma careta.

— Eu estou bem, mãe – disse ele dando alguns passos longos para o lado para ter um pouco mais de privacidade.

— O que aconteceu? – tornei a perguntar, mas dessa vez para Will.

— Ataque de asma – respondeu e parecia tão atordoado com a minha presença quanto eu estava com a dele. – Jack disse que esqueceu a bombinha em casa.

— Asma?

— Acho que ele está encobrindo algo. Alguns garotos andam implicando com ele, mas ele insiste em dizer que não é nada.

Minhas sobrancelhas subiram e olhei para Jack que assentia para algo que estava ouvindo ao telefone. Julyan deve ter conseguido entrar em contato com a mãe dele, pois por diversas vezes eu o ouvi falar a palavra mãe.

— Bullying? — meu estômago se agitou com o pensamento.

— Tem certeza? Quem sabe ele tenha esquecido. — Julyan não o deixaria simplesmente esquecer a bombinha. Uma vez ela invadiu o treino para entregá-la.

Will seguiu meu olhar, e suspirou.

— Ele é o mais novo da turma.

— E isso é motivo para sofrer bullying? – rosnei.

— Ele não reclamou...

Soltei um riso sem graça interrompendo-o.

– Mas você suspeita disso, não é? Caso o contrário não estaria comentando isso comigo.

— É uma hipótese...

— Eles esconderam a bombinha dele, pelo amor de Deus!

Will passou as mãos pelo cabelo como se tivesse se arrependido de ter aberto a boca em primeiro lugar. — Jack negou todas as vezes que toquei no assunto.

— Você nunca teve que lidar com um valentão na escola? – eu quis saber. — Eu já e certamente não saía espalhando. Claro que ele negaria, deve estar com vergonha por ser sido feito de chacota. ­- Eles estão ai? — Levantei os pés e espiei o portão atrás do seu ombro. — Eu pessoalmente daria um jeito nessas crianças mal educadas. Posso trocar uma palavra com eles...

— Você é parente dele? – Will perguntou interrompendo o plano se formando na minha mente.

Meneei a cabeça para o lado com uma careta.

– Amiga... Próxima da tia dele.

— Pensei em conversar com Julyan na semana que vem.

— Só na semana que vem?

— O próximo treino é semana que vem, pretendo falar com os pais antes de começar oficialmente o treino.

— Oh parece um bom encaixe – fui obrigada a admitir.

Uma batida se passou e Will me mediu de cima a baixo, e então riu. Ergui a sobrancelha.

— Alguma piada que eu deva saber? – resmunguei no exato momento que Jack estava de volta.

— Aqui era o último lugar que eu esperava encontrar você.

Minha expressão se suavizou com seu tom de flerte.

— Eu poderia dizer o mesmo. Respirando novos ares além da livraria Spring?

— Treinador, você tem uma livraria? – Jack disse surpreso. – Não sabia disso. Minha mãe gosta de livros.

O assunto principal da conversa mudou de repente para todos os livros...

E bem assim todo clima de flerte caiu por terra.

Olhei mais profundamente para as roupas de Will e percebi que de fato ele não parecia o tipo de cara que tem uma livraria, mas muito menos um treinador infantil se olhasse para os coturnos em seus pés. Ele estava em uma cruza de bad boy e hippie se é que tal combinação faz sentido, mas oh Deus lhe caia bem.

Despenteei os cabelos suados de Jack, e apesar de termos tidos no máximo seis ou cinco encontros rápidos ele não reclamou, na verdade até sorriu antes de rolar os olhos dramaticamente e me afastar.

— Melhor irmos – falei.

Will mexeu nos bolsos do jeans e um barulho de chaves foi ouvido.

— Querem carona?

— Sim! – Jack aceitou.

— Não! – argumentei em uníssono

Jack fez cara feia e soltou o ar pela boca algumas vezes dramatizando. – Falta... De ar.

Rolei os olhos. O garoto tinha uma boa lábia na manga. Olhei para Will só para baixar os olhos, envergonhada ao perceber que ele estava me olhando também.

— Tudo bem – cedi e então meu coração gaguejou em sua batida ao notar o sorriso de covinhas de Will.

Jack fez uma dancinha da vitória e ambos os garotos bateram os punhos. Girei os olhos.

Tolice!

Caminhamos calmamente pelo estacionamento. Lentamente demais em consideração a Jack. Quando eu era mais nova costumava ter ataques de asma frequentes, e alguns eram realmente horríveis. A asma não tem cura, mas pode ser tratada para que os sintomas interfiram pouco na qualidade de vida de quem convive com a doença. Por ser uma doença crônica não apresenta cura, porém pode ser tratada de forma efetiva, mantendo-se os sintomas sob controle, para evitar crises mais graves e garantir uma vida normal e ativa. Durante minha adolescência ela simplesmente foi desaparecendo como acontece em muitos casos, claro que pode voltar, mas não costumo pensar nisso já que faz tanto tempo.

De repente paramos em frente a uma minivan. Olhei de Will para o carro. De todas as coisas isso eu não estava esperando.

— Porque você está rindo?

— Não é exatamente o carro que esperava – dei de ombros.

Ele riu. – Não é a primeira pessoa a me dizer isso.

***

Pareceu-me tão estranha e ao mesmo tempo tão agradável a atmosfera dentro do carro que fiquei surpresa, mas no momento em que Will parou em frente ao meu prédio eu já estava agradavelmente surpresa.

Jack saltou para fora tão logo o carro parou, eu, no entanto fui mais devagar para descer.

— E então – sorri – foi bom te encontrar em outro lugar não ser atrás de livros. Nunca imaginaria que havia um treinador de futebol por trás do homem que me dava descontos.

— E eu nunca imaginaria que por trás das saias lápis havia uma garota que vestia leggings e camisetas do meu tamanho.

Balancei a cabeça sorrindo e olhei para a blusa puída do meu pai. Que grande diferença das roupas que ele estava acostumado a me ver. Encontrei a livraria do pai do Will por coincidência enquanto voltava do trabalho e desde então passo por ela algumas vezes apenas para respirar o cheiro tão característico de livros que só ela parece ter.

— Surpresas – murmurei ainda sorrindo. – Bom te ver.

E bem assim o clima de flerte estava completo.

— Podemos entrar? – Jack pediu pulando de um pé para o outro. – Preciso fazer xixi.

Balancei a cabeça rindo. – Claro – sacudi a mão no ar dando tchau e mordi o lábio. – Até mais.

Will parecia estar em um impasse. Ansioso, eu diria.

— Por que eu acho que você quer me dizer alguma coisa? – murmurei.

Ele balançou a cabeça como se seja o que for que estivesse debatendo em sua mente tivesse sido resolvido.

— Talvez eu queira. Já foi a um lugar chamado Sweet Flavors?

Ergui a sobrancelha. Meus lábios se entreabriram em um sorriso de lado.

— Não, algum motivo em especial para sua pergunta?

— Me encontre aqui no sábado lá pelas 20 horas e posso mostrar – seu tom não foi arrogante, na verdade foi galanteador e me fez considerar o convite.

—Vou manter isso em mente – pisquei e disse adeus outra vez dessa vez sem conversas intercaladas.

***

— Por que você e o treinador estavam sorrindo tanto um para o outro? – Jack perguntou depois de voltar do banheiro.

Porque desde que acabei meu relacionamento com Caio, teria um encontro e com um cara definitivamente legal.

Meu rosto aqueceu com o pensamento, e procurei um atalho para desviar de assunto.

— Está com fome? – perguntei abrindo a geladeira.

— Não.

— Então o que quer fazer?

— Nada.

Sorri. – E vamos fazer nada até Julyan chegar?

Ele deu de ombros e naquele momento notei uma semelhança incrível ente ele e Julyan difícil de perder.

— Acho que tenho uns livros de colorir no meu quarto.

— Mas você é velha porque tem isso?

Dei risada. – Me ajuda nas horas de tédio e além do mais não sou tão idosa. Já volto.

Revirei todas as minhas gavetas do bidê, só que misteriosamente encontrei os livros na minha gaveta de meias.

— Mas o que é que...? – minha pergunta se calou em meus lábios quando o ouvi gritar assustado.

—Ai! Droga o que foi? – na pressa para ver o que tinha acontecido bati com a cabeça numa gaveta aberta. Para minha surpresa ao fechar a porta da geladeira nenhum monstro estava à espreita, porém pelo olhar no rosto de Jack você pensaria que o bicho papão era real.

— Ele pulou pela janela da sala – Jack disse apontado para Thor que estava com as orelhas baixas e para trás e com a cola toda eriçada, um claro sinal de medo.

— Por onde ele entrou? – indaguei fazendo a volta pelo sofá. Thor estava com o pelo eriçado e olhando para Jack com cautela.

— Pela janela da cozinha... – ele ergueu o braço e mostrou um arranhão. – Ele me arranhou — choramingou.

— Ele se assustou – afirmei. – Tem medos de crianças. Deixa-me ver seu braço.

Graças a Deus o corte mal aparecia. Virei minha atenção para Thor. – Vem cá gatinho – falei mansamente e quando tive certeza que nãoo iria me arranhar também o aconcheguei no meu peito. -Jack não vai te machucar — acrescentei.

Dez minutos depois, um curativo, e uma enorme tigela de ração de gato expliquei o porquê de Thor ter medo de crianças. Antes de adota-lo ele vivia com uma família que o maltratava, principalmente as crianças e demorou um tempo para ele ter confiança em mim também, mas seu medo era principalmente em relação às pessoas.

— Como ele confiou em você então? – Jack retorquiu.

— Comida – sorri. – Muita comida.

“Se quiser conhecer um cavalo, monte nele; se quiser conhecer uma pessoa, conviva com ela.” – Antigo provérbio japonês