Era para ser você
26 Um beijo eletrizante
Notas iniciais
Acabei cochilando no sofá. O que me fez acordar foram as patinhas de Thor cutucando meu rosto. Pisquei algumas vezes, tentando ficar mais desperta e tateei pelo sofá procurando meu celular, querendo ver as horas no relógio digital.
Três da manhã.
Acendi o abajur ao lado do sofá e fitei os olhos brilhantes de Thor.
– Sério? – esfreguei meus olhos ainda com sono. – Você me acordou às três da madrugada seu pulguento?
Bocejei, esfregando a parte de trás de sua orelha.
– O que você quer? – com um suave ronrono, ele pulou para fora do sofá me deixando confusa. Estiquei o pescoço enxergando apenas sua sombra suave por causa da penumbra. Ri quando escutei a tigela de comida sendo arrastada.
– Só pode ser brincadeira! – cogitei voltar a dormir, mas balancei a cabeça levantando do sofá quando ele soltou um meowresmungando.
Thor queria comida. Deus do céu, precisava ser às três da manhã? Acendi a luz da sala e dei alguns passos sonolentos pela cozinha. Tinha me esquecido de encher o seu pote ração antes de dormir. Thor sempre ficava com fome de madrugada assim como eu. Peguei da geladeira a lata de atum que eu tinha comprado ontem no mercado e despejei quase metade do conteúdo em seu pote. Aproveitei e coloquei um pouco de leite na tigela de água para não ser acordada caso ele sentisse sede.
– Posso voltar a dormir? – indaguei.
Thor só ergueu os olhos da tigela para soltar um novo miado. Tomei isso como um sim. Às vezes eu acreditava que ele me entendia de verdade. Olhei para o sofá e depois para o corredor que levava para o meu quarto. Estava tão longe que apenas apaguei a luz e me decidi pelo sofá novamente. Só de pensar em trocar de roupa senti mais sono. Desta vez tirei os sapatos e me cobri com a manta do sofá. O sono chegou quase que instantaneamente.
****
Eu estava tão brava, que meus punhos caiam cerrados ao lado das minhas coxas. Soltei o ar pelo nariz, olhando de rabo de olho para ele, o real culpado de tudo. Mabuchi e eu estávamos no elevador a caminho de uma reunião fora da empresa. Respirei e inspirei profundamente chamando sua atenção para mim. Sua sobrancelha escura se ergueu enquanto falava ao telefone.
– Sim! – murmurou distraidamente para a pessoa do outro lado da linha. – Podemos marcar isso a qualquer hora.
Durante minha vida eu não tinha conhecido muitas pessoas com origem asiática, porém sabia que em geral algumas características eram marcantes em quase todos. Mabuchi, porém, não tinha as sobrancelhas ralas que os japoneses normalmente têm e tampouco os lábios finos. Pelo contrário, suas sobrancelhas são cheias assim como seus lábios. Ergui minha própria sobrancelha para o rumo dos meus pensamentos. Fitei os números dos andares em vermelho que indicavam que nós estávamos descendo e suspirei. Ainda faltavam catorze andares.
– O que há de errado com você?
Demorei uma batida de coração a mais para entender que a pergunta havia sido dirigida a mim.
– Desculpe-me?
– Qual o seu problema? – Mabuchi indagou enfadonho, guardando seu celular no bolso.
Bufei. Nem eu sabia, então como poderia explicar para ele? A única coisa que estava tão clara quanto a água do mar era que a culpa eradele.
– Além do senhor? – a petulância em minha voz foi tão audível quanto meu deboche. Não era minha intenção, mas não me arrependia. – Problema algum!
Desviei os olhos para minha bolsa e peguei meu celular de dentro da mesma. Aconteceu tão rápido que meu coração errou a batida num sobressalto. Meus olhos duplicaram de tamanho, ficando tão grandes como pires, como às vezes acontecia.
– Você vai me deixar louco! – Mabuchi grunhiu com raiva, pressionando-me contra a parede.
Gaguejei em uma respiração confusa quando seus olhos encontraram os meus, e Deus me ajude pelo que vi refletido neles. Sua mão empurrou meu cabelo para o lado e então senti seu nariz inspecionando meu pescoço. Fechei os olhos com força. Eu estava ficando louca.Louca por não empurrá-lo. Louca por não chutá-lo tão forte quanto possível por ter se aproximado tanto.
– Seu perfume é bom!
Senti meu corpo amolecer e sorri de escárnio.
– Não foi o que me disse da última vez. É impressão minha ou está se contradizendo?
– Entenda como quiser! – Mabuchi chegou mais perto e senti seu peito roçar contra o meu. Quando ele riu, o som vibrou por todo o meu corpo. Desde a ponta dos pés até meus fios de cabelo.
Jesus me ilumine! Eu estava perdendo toda a minha sanidade por causa do maldito homem.
Levantei minhas mãos para empurrá-lo, mas por algum motivo minhas mãos criaram vontade própria e o puxaram pela nuca trazendo para mais perto. Senti seu sorriso contra a minha boca quando ele me beijou. Mordi seu lábio inferior, parte minha querendo assegurar que a coisa toda era real e a outra parte querendo que ele não estragasse o momento por mais insano que fosse. Para o meu horror, fiquei orgulhosa do gemido baixo que ele ecoou.
– Você beija bem! – eu o ouvi dizer se afastando um pouco.
Sua respiração fez cócegas na minha bochecha e minhas orelhas se aqueceram com o elogio. Sempre fui assim, nunca soube receber elogios. Nunca soube reagir a eles.
– Cale a boca! – falei olhando-o nos olhos, para em seguida, finalmente, o afastar. Não estava envergonhada pelo elogio e sim por ter gostado do mesmo.
– Eu poderia processá-lo por assédio depois disso! — minha voz tremeu, mas era mentira, eu não queria processá-lo.
Diferente de Dylan ele não tinha tentado me obrigar a nada, caso contrário a coisa toda seria diferente. Cada toque seu havia sido com meu consentimento. Apesar disso, seus olhos aumentaram e por um segundo vi medo refletido neles. Em qualquer outro momento isso teria me feito feliz, mas eu não queria que um silêncio estranho se instalasse entre nós e só por isso o puxei pela gravata e o beijei de novo. Suas mãos, antes paradas, subiram lentamente pela minha cintura e permaneceram ali com firmeza, provocando suaves arrepios por todo o meu corpo, enquanto sua língua aprofundava o beijo. Se antes estava difícil saber o porquê da minha raiva, agora era impossível. Mabuchi e eu estávamos nos beijando. Num elevador. Dentro da empresa.
Jesus...
Depois eu teria muito tempo para pensar sobre isso, o aqui e o agora, no entanto, era breve. Puxei seu cabelo de leve e...
Meu celular tocou, vagamente me importei com isso, enquanto sentia seus lábios em meu pescoço. Mas o toque alto e constante começou outra vez, e pouco a pouco, Mabuchi e seus beijos se tornaram turvos.
E bem assim... Acordei.
Acordei com o coração batendo freneticamente. Tão freneticamente quanto meu celular tocando debaixo de mim. Fechei os olhos com força. Que droga! Eu estava pensando, ou melhor, sonhando?
Toquei meus lábios com as pontas dos dedos e gemi em indignação. Eu quase podia sentir o gosto de sua boca sobre a minha outra vez. Cada detalhe parecia tão vívido que era muito difícil acreditar que tinha sido apenas um sonho. Esfreguei meu rosto tentando focar em um dos milhares de pensamentos rodopiando pela minha mente, mas o único que gritava em letras garrafais era:
...eu tinha beijado Mabuchi e, para piorar, gostei.
Santo Deus! O fato de ter sido em sonho não fazia o calor invadindo meu corpo diminuir. O que estava de errado com a minha mente para me fazer sonhar algo assim? Era tão óbvio quanto o sol nascendo pela manhã que tal coisa jamais aconteceria. Porque em primeiro lugar meu chefe e eu nos odiávamos, e em segundo ele era justamente meu chefe, pelo amor de Deus! Era tão sem cabimento que eu sequer estava entendendo porque eu estava gastando tempo com isso.
Suspirei e arregalei os olhos quando vi que o som do meu celular era o alerta do despertador. Estava atrasada para variar. Não adiantava o quanto tentasse ser pontual, a pontualidade e eu não conseguíamos ser boas amigas.
Corri para o quarto sem qualquer vontade de ir para o trabalho, mas mesmo assim escolhi uma roupa e fui em seguida para debaixo do chuveiro. A água quente não fazia nada para acalmar o calor persistente no meu corpo, abri mais o registro regulando-o até deixar a água gelada, o choque térmico fez com que eu praguejasse alto e finalmente acordasse. Quando senti que estava no controle das minhas emoções, sai debaixo da água e me enrolei numa toalha felpuda. Lentamente tomei meu tempo para me arrumar, se parasse para refletir perceberia que estava adiando chegar à empresa, o que era uma tremenda besteira. Um beijo fictício num sonho não mudaria nada.
Depois de trocar de roupa, apliquei uma camada generosa de finalizador nos cachos e passei rímel para deixar meus cílios ainda mais volumosos e batom rosado nos lábios. Foi só depois de calçar meus sapatos que notei que vesti a mesma roupa do meu sonho.
Um vestido vermelho acinturado, com detalhes em renda no decote e na barra. Cogitei mudar de roupa, mas estava atrasada demais para isso, portanto só coloquei um blazer por cima da roupa.
***
Algumas vezes você acorda com a ligeira impressão de que seu dia vai ser ruim, e em outras vezes você tem toda a certeza disso. Como por exemplo, hoje, e eu nem estou falando do sonho, pois desisti de tentar entender isso, mas sim do pacote todo. O metrô atrasou quase meia hora, estava cheio e quando cheguei à empresa a melhor palavra para descrever o que lá encontrei foi pandemônio.
– Boa sorte! – Cathelyn, a recepcionista, murmurou com um sorriso quando dei bom dia para ela. – Isto aqui está uma bagunça hoje.
Fale com o autor