Era para ser você

27 Filho de peixe, peixinho é


Notas iniciais
Desculpem pela demora tive problemas pessoais ♥

Num primeiro momento pensei que a agitação na empresa fosse pelo meu atraso, mas tão logo a ideia surgiu a dispensei, o atraso de uma secretária não causaria tanto alvoroço. Quando as portas do elevador se abriram, foi impossível não lembrar-me do aviso de Cathelyn, e também foi impossível não me lembrar de coisas sonhadas dentro do elevador...

Certa vez assisti a um desenho animado em que o personagem principal ficava tão irritado que acabava explodindo de raiva. Eu deveria ter uns sete ou oito anos de idade e achava a cena hilária, mas ao ver Mabuchi, quase tão irritado quanto ao protagonista daquele desenho, não consegui achar isso engraçado.

Mabuchi pareceu nem notar que eu estava atrasada, na verdade ele estava mais preocupado em gritar com um dos seguranças do que me olhar parada em sua porta. Segurei no batente enquanto Mabuchi bradava com o pobre homem. Limpei a garganta ao mesmo tempo em que ele gritou: “Você a encontrou”?

Estremeci com sua voz alta, surpresa pelo segurança não ter feito mesmo. Bati de leve, chamando a atenção dos dois.

— O quê? – ele rosnou quando me viu. – Achou Ellie?

Arregalei os olhos com a mente em branco, sem ter uma resposta.

— Eu... Não... Vou buscar café – respondi fugindo de sua vista mais do que depressa.

Mabuchi não tinha notado meu atraso, mas eu daria tudo para que ele tivesse percebido se em troca eu conseguisse entender o que diabos estava acontecendo. Seu mau humor estava pior do que normalmente, algo da sua personalidade infernal parecia estar por trás daquilo. Sentei na minha cadeira e pulei quando o ouvi gritar novamente.

Bom Deus! A loucura estava tornando-o refém.

Pobre segurança.

Deixei minha bolsa debaixo da mesa e levantei. Talvez devesse buscar um café realmente. Só a cafeína iria me salvar de cometer um provável assassinato caso ele continuasse assim. Levantei, e no último instante antes de entrar no elevador desisti, optando pelas escadas. Era besteira, mas meu estômago virava o lar de um bando de borboletas raivosas toda vez que eu olhava para o elevador. Uma espécie estranha de nervosismo me consumia e...

Ah, pelo amor de Deus, Jasmim! Isso só significa que você esqueceu-se de comer algo antes de sair— meu cérebro racionalmente me explicou. Balancei a cabeça em concordância e desci o primeiro degrau. Seria um longo caminho até chegar a Julyan e seu café dos deuses, principalmente estando de salto, mas valeria a pena.

A sala do café, como Julyan e as duas outras garotas que trabalhavam ali apelidaram, estava um verdadeiro caos. Na verdade caos não era a melhor palavra para usar. Julyan, por exemplo, olhava com os olhos franzidos e a boca torcida de curiosidade para a pequena garotinha que estava causando grande comoção. Estaquei na porta, tentando entender o porquê de tanta bagunça. Era só uma criança, não um animal sobrenatural. Tal pensamento fez com que eu percebesse como estava mal humorada. Santo Deus, talvez o mau humor de Mabuchi fosse contagioso.

— Quem é essa garotinha? – perguntou a Marie, uma das garotas que trabalhava com Julyan, chegando por trás de mim na porta. Dei um passo para o lado, dando passagem para ela entrar.

— Sinceramente? – disse Julyan, olhando de mim para a garotinha que parecia feliz e confortável com toda a nossa atenção. – Ela apareceu aqui do nada. Na verdade, eu nem a tinha notado até agora pouco.

— Estranho! – Marie murmurou.

Concordei com a cabeça, porque de fato era estranho. Não era todo dia que uma criança perdida surgia na empresa.

— Qual seu nome, gracinha? – Julyan, que entre nós tinha mais tato com crianças, perguntou.

— Ellie — a garotinha respondeu.

Seu cabelo longo e liso de alguma forma a deixava ainda menor. É impressionante como crianças transmitem inocência. Olhando para ela vestida de rosa da cabeça aos pés era nisso que eu pensava. Nisso e na pantera cor de rosa.

— Que nome bonito! – comentei, agachando para ficar perto dela. Tive a impressão de que conhecia esse nome de algum lugar, mas ignorei a sensação. – E que óculos descolado! – apontei, com um meio sorriso, para seus óculos de sol, tamanho grande demais para seu rosto. – Mas porque não deixa para usá-los lá fora?

Ela deu de ombros, tocando nos óculos de forma protetora.

— Gosto dele.

Assenti contendo um novo sorriso.

— Fica bem em você! – pisquei em cumplicidade.

— Sabe, minhas amigas e eu, – Julyan começou, apontando para mim e para Marie – estamos aqui nos perguntando se você está procurando por alguém.

Todas nós esperamos por uma resposta que não veio.

— Senti cheiro de café – sua voz miúda respondeu. – Gosto do cheiro.

— Quem não gosta? – brinquei com suavidade. – Porque não nos conta como chegou aqui, hein?

Senti-me um pouco idiota indagando uma garotinha, mas sua mãe provavelmente estava em prantos à procura dela. Apesar da empresa não ser lugar de criança, minha teoria era que ela provavelmente teria que ficar sozinha em casa se não estivesse ali. Quando eu era pequena, minha mãe precisou me levar algumas vezes para o seu trabalho porque não tinha com quem me deixar. Não era o ideal, mas se tem uma coisa que aprendi nessa vida é que imprevistos acontecem o tempo todo, estejamos preparados para isso ou não.

— Gosto do seu batom! – ela disse de maneira tão inesperada que não eu soube como reagir num primeiro momento.

— Eu também! – disse Julyan. – Quer experimentar enquanto nos conta como chegou aqui?

A garotinha assentiu.

Julyan tinha uma facilidade para lidar com crianças que sempre me deixava surpresa.

— Eu não tenho o batom comigo – arregalei os olhos, dizendo as palavras sem emitir qualquer som.

— Eu tenho um parecido na bolsa – Marie anunciou.

Cinco minutos depois cada uma de nós tinha usado o batom de Marie e não tínhamos conseguido qualquer informação decente.

— Você pode nos dizer quem é sua mãe? — Julyan perguntou. – Só assim vamos poder levar você até ela.

Não queríamos fazer estardalhaço, mas se não conseguíssemos arrancar alguma informação teríamos que chamar um dos seguranças para ajudar na situação. A única razão para não termos feito isso é que não queríamos que a mãe de Ellie — fosse ela quem fosse – se metesse em confusão por trazer a filha para o trabalho. Os chefões da empresa tendiam a ter punhos de aço em suas punições, e certamente dessa vez não seria diferente. Ao mesmo tempo estávamos preocupadas em causar um dano pior, afinal de contas Ellie estava perdida para todos os efeitos. Não queria imaginar como eu me sentiria se Ellie fosse minha filha e tivesse sumido.

Tornei a me agachar em sua frente e abri a boca para falar, porém uma voz alta atrás de mim me falou imediatamente.

— Graças a Deus! Achei você.

Julyan, Marie e eu olhamos de Ellie, para... Mabuchi de olhos arregalados e assustados.

Não! – pensei. – De jeito nenhum!

Ellie seria filha de Mabuchi?

Quis rir da expressão de Marie e Julyan, mas tinha certeza que era só um reflexo da minha. Uma mistura de surpresa, e até um pouco de terror. Ellie agitou as mãozinhas no ar como se dissesse olá e correu até Mabuchi. Mabuchi por sua vez abriu os braços transformando-os em uma gaiola ao redor dela. Seus movimentos eram uma mistura de alívio e frustração. Olhei dos dois para Julyan e então repeti o movimento. Inacreditável...

— O que você está fazendo aqui coelhinha? — indagou abaixando-se para ficar na altura da filha sem levantar o olhar para qualquer outra pessoa na sala. Ellie deu de ombros. — Você não quis mostrar a empresa pra mim — sua voz soou petulante da forma que apenas um Mabuchi conseguiria. — Fui conhecer sozinha. Quer dizer... — ela olhou para trás. Para nós e sorriu. — Achei três amigas legais pra conversar.

Isso fez com que Mabuchi levantasse seu olhar. Automaticamente demos um passo para o lado temerosas. Era melhor prevenir do que remediar principalmente quando se tratava do mal humor louco do nosso chefe.

— Você está de batom – ele observou lentamente.

Troquei um olhar com Julyan. Ellie sorriu e Mabuchi suspirou com um meio sorriso nos lábios. – Nós já tínhamos conversado sobre isso Ellie.

— Mas eu estou bonita pai! – a mini cópia de Mabuchi cruzou os braços com o cenho franzido em contradição. –Assim como minhas amigas – ela virou o rosto outra vez para nós e assim fez Mabuchi, porém por paranoia ou loucura notei que seu olhar permaneceu tempo demais nos meus lábios.

— Sim – ele limpou a garganta ainda me olhando. – Assim como suas amigas.