Notas iniciais
Primeiro capítulo da noite ♥ Em breve posto o próximo ( é o meu presente de aniversário pra vocês lindas) ♥ Boas vibrações.

Em uma confusão de gaguejos raivosos, meus dedos quase que por vontade própria digitaram uma resposta.

Caro Sr. Mabuchi.

Certa vez me disse que não se importava com o que eu fazia fora da sua empresa. Há de concordar comigo que este email está ao menos confuso para tais palavras. Hoje é domingo, não estou no meu horário de trabalho, portanto não há o porquê de começarmos esta conversa agora, no entanto ficarei feliz em discutir isso amanhã quando for trabalhar.

Jasmim Sinclair,

"Aquela que não tem feito o trabalho corretamente."

Cliquei enviar, e torci para que quando ele lesse cada palavra desaforada entendesse meu sarcasmo e acima de tudo minha raiva minha raiva em cada vírgula.

Meus ombros ficaram leves por alguns maravilhosos segundos até meu estomago afundar. A súbita alegria foi substituída tão rápido que foi como se um balde de água fria houvesse sido jogado sobre mim. E uma única pergunta pairou macabramente no ar:

Mas o que em nome de Deus havia me possuído?

Uma gargalhada irrompeu de mim, quando li tudo que tinha escrito. Quando eu era pequena meu pai dizia, que se alguém dissesse uma palavra para mim, eu devolvia duas terrivelmente piores.

Você tem toda a razão, pai.

Os professores estavam roendo o osso na faculdade tomando tudo de mim, Mabuchi estava me enlouquecendo, e Susan tinha iniciado seu tratamento contra o câncer deixando-me insanamente preocupada — não que isso fosse sua culpa.

Por algum motivo Gregory Mabuchi resolveu me ter como sua babá pessoal. A quantidade de vezes que planejei sua morte em minha mente nos últimos dias, provavelmente vai me obrigar a procurar tratamento psicológico em breve.

Duas semanas recebendo ligações e emails de madrugada.

A primeira vez que isso aconteceu, saltei da cama assustada com o meu celular vibrando em uma alerta de email. Havia apenas quatro palavras.

Chegue mais cedo amanhã.

Parecia brincadeira. Quero dizer, chegue mais cedo amanhã... Quão vago isto é? Todo dia chego mais cedo do que deveria na empresa por causa do horário do metro. Enviei um email, perguntando que horas eu deveria chegar, e sem surpresas não obtive resposta, sendo assim arrastei meu corpo para fora da cama e fui para a empresa só para encontra-la ainda fechada e ter Mabuchi chegando ao seu horário habitual. O sorriso em seu rosto assegurou que ele sabia o que tinha feito e não se arrependia. Ele estava jogando comigo, e infelizmente era o único conhecia as regras, e era capaz de dar as cartas. Por enquanto.

Eu estava na borda.

O engraçado era que embora meu queixo estivesse caído, eu não estava realmente surpresa com seu email.

Era como se ele estivesse testando-me de propósito. Querendo ver se eu seria aquela a bater o martelo. O estúpido queria me ver longe. Era a única alternativa plausível para tamanha arrogância. Os insultos e ironias velados entre nós dois estavam tomando proporções épicas, e era incrível a quantidade de vezes em que ele acertou um ponto fraco.

Semana passada, ele tinha ouvido uma conversa minha com um potencial cliente durante a hora do almoço.

Estranho uma decoradora se encaixar tão bem nas exigências – foi seu comentário ácido.

Uma decoradora? Sério bastardo arrogante?

Minha resposta com dentes rangendo foi que a resposta estava no meu currículo se realmente quisesse saber.

Particularmente nunca gostei de mentiras, mas quando você se vê diante de uma porção de problemas... Bem, algumas vezes precisa passar por cima do que acredita. Não me orgulho disso, e não é algo que espero repetir, mas a verdade é que um dos grandes fatores que me ajudaram a ser secretária pessoal de Mabuchi é uma grande mentira. Uma experiência de trabalho em uma empresa inexistente. Para se conseguir um emprego é preciso ter algumas coisas no currículo. Coisas como ter boas referências. Eu certamente não poderia colocar minha experiência como camareira, não se quereria ter uma chance verdadeira. Dylan queimaria o meu nome ainda mais, estou certa disso. Ele tinha me taxado como ladra, por isso quem me contrataria? Meredith preencheu a ficha dada as interessadas no cargo de secretária, a maior parte do que colocou naquela folha de papel foram mentiras ou verdades ampliadas, como por exemplo, o escritório de arquitetura em que fiz estágio por um ano. Meu primeiro pensamento ao me tornar uma estagio foi que ‘’arregaçaria as mangas e colocaria as mãos na massa’’, imagine minha surpresa quando a primeira ordem que recebi foi para trazer café. Para ser justa eu aprendi boas coisas lá, (incluindo como preparar um bom cappuccino), mas basicamente fui uma secretária em meio período que não era paga pelo trabalho que fazia.

I let it fall, my heartttt

And as it fell, youuuuuu rose to claim it

It was dark and I was overrrrr

Until you kissed my lips and you saved meeeee

Mordi o lábio afugentando uma risada com o cover exagerado de Meredith de Set Fire To The Rain da Adele. Ela sempre bancava a cantora aspirante debaixo do chuveiro e nunca perdia a graça. Sua voz era bonita, mas o embaralho das palavras tornava a coisa toda engraçada de ouvir.

Estiquei o pescoço e olhei para a cozinha desejando que Thor pudesse ser meu mordomo particular e me trouxesse mais uma xícara de chá.

Coloquei o notebook em cima da mesinha de centro, e fui atrás de mais chá. Enchi a chaleira de água, porém com preguiça de esperar a água aquecer desisti de ligar o fogo e vasculhei a geladeira. Bem no fundo da ultima prateleira encontrei o resto do brigadeiro que fiz ontem e sorri como se tivesse ganhado na megassena.

***

— Eoin me deu dois ingressos para uma exposição de fotografias como um pedido de desculpas pelo olho roxo – Meredith comentou tirando o excesso de umidade do cabelo com uma toalha. – Quer ir comigo?

Lambi meus dedos melados de chocolates, e assenti com a cabeça.

— Claro que sim. Qual vai ser o tema?

— Amor – respondeu com os olhos brilhando.

Sempre achei que Meredith deveria ter escolhido fotografia. Apesar de ela gostar da profissão de design gráfico – seu curso na faculdade -, não vejo a mesma emoção de quando ela fala de fotografia. Meredith praticamente flutua com uma câmera na mão.

— Amor? – perguntei vendo-a fazer carinho em Thor que tinha finalmente acordado. — Como assim?

— A exposição vai ser em uma galeria do Brooklyn, e vai ser um pouco diferente – explicou empolgada. Os convidados é que irão trazer as fotos que serão expostas. No verso do ingresso tem uma explicação melhor. Eu o trouxe se quiser ver, e... Hum – Mer franziu a testa – acho que tem algo vibrando debaixo de mim.

Clarice Falcão começou a cantar logo em seguida, e soltei uma risada quando percebi que o que estava vibrando era meu celular.

Mãe – apareceu no identificador de chamadas e meu sorriso alargou mais ainda.

— Casa – falei olhando para Meredith. – Vou atender.

— Ei, mãe. Como vão as coisas?

—Oi querida. Eu estou bem, mas teu pai está gritando sem parar porque o time dele está jogando e perdendo.

— É o primeiro tempo – meu pai rugiu de forma abafada de algum lugar fazendo-me rir.

Céus! Ele era tão defensivo com o futebol.

— Deus! Os homens e seu maldito futebol – minha mãe suspirou. – Ambos são difíceis de entender, Jasmim.

— Eu ouvi isso – meu pai tornou a se meter na conversa.

— Era pra ouvir, Carter. Agora aceite a derrota e diga oi para sua filha.

— Oi, boneca – meu pai me saudou quando pegou o telefone e praticamente pude ouvi-lo rolar os olhos.

— Não me diga que andaram apostando de novo – censurei de brincadeira.

— Talvez.

— O que apostaram?

— Um mês mimos. Entre eles jantares, rosas e massagem nos pés. — Um riso estrangulado irrompeu tanto dele quanto de mim.

— Boa sorte com isso, pelo que vejo você está perdendo, pai.

— O que eu lhe ensinei quase metade da vida, Jasmim? – ele perguntou estalando a língua em reprovação.

Rolei os olhos sabendo exatamente do que ele estava falando. – O jogo só acaba quando termina – o citei apesar de nunca ter visto o mesmo sentido que ele nessa frase.

— Continue com isso em mente por que... Não! Foi pênalti. Filha da mãe... Cadê o juiz? Como é que...

Balancei a cabeça rindo. – Pai?

— Vou passar o telefone para sua mãe. Amo você.

— Mais do que ao futebol?

— Você já sabe a resposta, boneca – sua voz amoleceu. – Não preciso dizê-la, preciso?

Funguei. – Não e eu também amo você pai. Como foi fácil puxar essa conversa para o lado sentimental, não é? – zombei, fingindo não notar as lágrimas nos meus olhos.

Falar com meus pais quase todo dia, era bom, infelizmente não significava que a saudade sumisse, apenas ficava um pouco menos dolorida. – Passe o telefone pra mamãe e vá assistir ao seu jogo antes que isso fique pior.

Quando minha mãe voltou a falar ao telefone fiquei feliz pelo desvio de assunto que ela usou.

Trabalho.

Isso é claro, até que ela tocou no nome de Gregory Mabuchi.

— Ele continua um babaca odioso.

— Nada mudou?

Olhei para o notebook na mesa de centro lembrando-me do seu email.

Não. Nada mudou. Não para a melhor pelo menos.

—A cada momento que pode ele aponta um erro meu. Ele é tão cretino!— desabafei em um resmungo sem me conter.

— Hum...

— Não venha com hum, mãe.

— O que eu disse de errado? – perguntou inocentemente.

— Seu hum diz muito para quem conhece você – retorqui. – Não estou mais no ensino médio, me recuso a acreditar nas suas teorias malucas.

— Tudo bem – concordou a contragosto. Ao fundo meu pai gritou com a televisão, e nós duas rimos. – Vou ter que desligar antes que seu pai quebre o controle remoto.

— Antes que desligue responda uma coisa pensou no que falei sobre criar um facebook, ou uma conta de email?

Ela bufou. – Eu mal sei mexer no meu celular, quem dirá na internet.

Bufei. – Será mais fácil de nos falarmos.

— Vou pensar nisso. E Jasmim?

— Não esqueça que quem desdenha quer comprar – alfinetou rindo antes de desligar.

É fácil quebrar uma única flecha, mas é difícil quebrar um feixe de dez flechas. — Antigo provérbio japonês.